Reunião Normal – 17/1/67 – 3ª feira . de
Reunião Normal — 17/1/67 — 3ª feira
Extraído do microfilme pela Comissão do Apocalipse em 5/7/96
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O fim de Deus na criação é a sua glória extrínseca proveniente da excelência das criaturas feitas à Sua imagem * O orgulho pode levar certas psicologias a agirem precisamente como o demônio, recusando pertinazmente a vida sobrenatural * Como teria sido a civilização humana no Paraíso terrestre se não houvesse o pecado original? — O plano de Deus para o homem e para a sociedade * A mediocridade é fundamentalmente igualitária: quando levada às suas últimas conseqüências produz a recusa da ordem sobrenatural e provoca no homem a sede da impureza * A história da humanidade não é senão a sucessiva “tentativa” de Deus em criar para os homens uma ordem maravilhosa de coisas — a seqüência dos planos e a teoria do residuum revertetur * “Um ósculo de Nosso Senhor na Igreja Militante expirante a transforma em Igreja Gloriosa, e com isso encerra‑se a História” * “Dos bueiros do sabuguismo nascerá o demônio do Anticristo” — “Ou o Grupo é sofredor, militante, padecente, ou é uma abominação” — Como se dará a decadência do Reino de Maria * É da seriedade com que se tomar as palavras proféticas de nosso Fundador que depende a extensão de seu eco às novas gerações — O que fará a Destra de Deus com os restos fiéis
… aula a respeito da temática do curso e me pareceu tudo bem […inaudível] que seria melhor não propriamente dar uma aula a respeito […inaudível] dizendo resumidamente aquilo que os senhores devem desenvolver, mas dar uma aula dando a matéria como ela é, para os senhores daí tirarem aquilo que convém para os seus alunos.
Porque, evidentemente, nem tudo o que vai ser dito nessa aula convém aos alunos. Mas é uma grande vantagem para o professor saber mais do que o aluno, mais do que ele vai ensinar para o aluno. Propriamente só se impõe ao prestígio do aluno o professor a respeito do qual o aluno percebe que ele sabe muito mais do que ele está ensinando. De maneira que não há nenhum inconveniente em dar uma temática que vai além do que os senhores terão que ensinar, embora possa fazer a aula o mais resumidamente possível.
* A temática da História do Universo se divide em três partes; análise do fim que Deus teve em vista na Criação e distinção entre glórias intrínseca e extrínseca
Nós podíamos dizer que a respeito desta temática, nós poderíamos dividir a matéria nas seguintes formas: primeiro, o fim que Deus teve em vista criando; segundo, os meios que Ele estabeleceu para que esse fim fosse realizado pelas criaturas; e em terceiro lugar, como é que as criaturas fizeram uso desses meios e em que medida elas se dirigiram para esse fim.
Os senhores vêem que as duas primeiras partes são doutrinárias, e que a terceira parte é histórica. É uma interpretação doutrinária da história. O quê é que Deus teve em vista criando? Nós podemos considerar esse fim, responder a essa pergunta em duas gamas: como fim último, Deus teve em vista a Si mesmo.
Ele teve em vista, ao criar, a sua própria glória intrínseca. Porque em Deus nós podemos distinguir a glória intrínseca da glória extrínseca. Aliás, também no homem pode se distinguir. O quê é que é a glória intrínseca? A glória intrínseca é o esplendor, a manifestação externa, de dentro para fora, das qualidades gloriosas de um determinado ser.
Por exemplo, Nosso Senhor Jesus Cristo do alto da cruz, transformado, segundo diz a Escritura, num leproso, entretanto, tinha glória intrínseca, quer dizer, Ele tinha um abismo de méritos, um abismo de virtudes, um abismo de capacidades e isso Ele tinha. Mais ainda, algo disso filtrava para fora, apesar de tudo quanto a flagelação e a Paixão introduziram de deformante nEle.
Os senhores consideram o Sacro Sudário de Turim, a face de Nosso Senhor, depois de ter passado por tudo aquilo, os senhores compreendem que transparecia nEle uma glória. Essa glória era a transparência externa de uma coisa interna que residia nEle: era a glória d’Ele.
Bem, agora a glória extrínseca é a glória que outros dão, que outros reconhecem, que outros tributam. Então, por exemplo, Nosso Senhor, ao entrar em Jerusalém, aclamado pelos judeus, tinha glória extrínseca e intrínseca, enquanto que Nosso Senhor, do alto da cruz, tinha apenas a glória intrínseca.
A glória extrínseca a judeuzada não estava dando. Ele tinha a glória, porque Ele tinha o louvor de Nossa Senhora. E o louvor de Nossa Senhora vale insondavelmente mais do que desmerecem as blasfêmias de todos os judeus e de todos os demônios somados. Mas, digamos que exceção feita de Nossa Senhora e das santas mulheres, Ele ali não tinha glória extrínseca.
Todo mundo estava injuriando a Ele. Vamos dizer, na coluna da flagelação Ele não tinha glória extrínseca. Ninguém que estava lá assistindo a flagelação glorificava a Ele. Essa é a diferença que vai entre a glória extrínseca e a glória intrínseca. Intrínseca, intra, interna. Extrínseca, exterior, externa. Então, nós temos a distinção entre a glória intrínseca e a glória extrínseca. Não sei se essa distinção está bem clara ou não?
* O fim de Deus na criação é a sua glória extrínseca proveniente da excelência das criaturas feitas à Sua imagem
Bom, a glória intrínseca, Nosso Senhor a tem infinita, Deus a tem infinita, eterna, absoluta e nenhuma criatura pode aumentar a glória intrínseca d’Ele. Quer dizer, Ele não precisa criar para isso.
Agora, a glória extrínseca, quer dizer, a glória que lhe vinha de fora, as criaturas que Ele criasse lhe podiam dar; louvando, reconhecendo as qualidades d’Ele, prestando homenagem a Ele, amando, servindo. Então, para isso Ele criou. Para sua glória extrínseca.
Agora, a glória extrínseca de Deus provém do quê? Provém da excelência das criaturas feitas por Ele, ou seja, da semelhança das criaturas com Ele, porque tudo que é excelente é semelhante a Ele. E então, a semelhança das criaturas com Ele é a glória d’Ele. E, então, nisso está a glória que as criaturas lhe dão.
Agora, por exemplo, essa água que eu estou despejando aqui e que, por coincidência, é uma água cristalina e transparente — não são freqüentes em São Paulo essas águas cristalinas e transparentes — dá glória a Deus porque as suas qualidades tem um vestígio das perfeições divinas. Algo do ser espiritual, no que ele tem de diáfano, no que ele tem de puro, no que ele tem de imaterial, se reflete na água cristalina.
Então, há um vestígio da glória de Deus nisso. E a água dá glória a Deus. Mas os seres inteligentes e dotados de vontade dão glória a Deus, além disso, conhecendo a Deus, amando‑o, com isso tornando suas almas semelhantes a Ele e servindo‑O. É assim que dão glória extrínseca a Deus.
Quer dizer, um homem não dá uma glória extrínseca a Deus como dá um boneco, por exemplo. Mas ele é vivo, ele é dotado de inteligência, ele deve querer ser como Deus, parecido com Deus. Tudo quanto há nele de semelhante a Deus ele deve aprimorar. Tudo quanto o poderia levar para longe de Deus ele deve rechaçar. Ele deve adorar a Deus, deve servir a Deus, deve louvar.
Ele deve dizer a Deus que o ama. É por essa forma que ele presta glória a Deus, tributa glória a Deus. Está bem claro?
* É possível uma só criatura espelhar adequadamente toda glória extrínseca de Deus?
Bom, agora, Deus criou, Deus podia criar uma só criatura para lhe dar glória? Ou Ele, a criar, teria que criar várias criaturas? Absolutamente falando, Deus não precisa criar criatura nenhuma, porque Deus não tem necessidade da glória extrínseca que nós lhe damos. Ela convém, mas não lhe é necessária. De maneira que absolutamente falando, Deus não precisava criar ninguém. Mas, a criar, Ele poderia criar uma criatura só? Quer dizer, pode haver uma criatura só que dê suficiente glória extrínseca a Deus?
Esta matéria é muito discutida entre os teólogos. E nós, no MNF nos inclinamos para a idéia de que nenhuma criatura sozinha, nem mesmo Nossa Senhora em sua indizível perfeição, seria suficiente para dar glória a Deus; e que Deus, a criar, teria que criar várias criaturas, porque Deus é tal que em nenhuma criatura há possibilidade de refletir todas as perfeições de Deus.
E para dar glória a Deus é preciso que a criação reflita todas as suas perfeições. Donde, então, são necessárias muitas criaturas. A criação, necessariamente, envolveria muitas criaturas. Eu estou falando, talvez, um pouco depressa ou devagar. Os senhores querem me fazer alguma pergunta? Alguém não entendeu? Basta que alguém levante o braço, que eu terei entendido que não entendeu e repito o que eu disse.
Bom, então o pressuposto que está nessa minha afirmação é o seguinte: é que para que a criação dê suficientemente glória a Deus, precisa ser um reflexo total d’Ele. Não que reflita com toda a propriedade cada um dos atributos d’Ele, mas deve refletir, nas limitações de toda criatura, os atributos d’Ele.
* É tal a riqueza infinita dos atributos de Deus, que a criação pode ser comparada a uma maravilhosa coleção de seres, cada um deles refletindo, de forma inconfundível, o Criador
Ora, os atributos dele são tais que uma criatura não os pode conter todos em forma suficiente para refletir. E então é necessário que haja muitas criaturas.
Então, daí tiramos a conclusão de que toda a criação é uma espécie de coleção, e que Deus criou os seres de maneira que cada ser existente reflita, de um modo inconfundível, um dos atributos d’Ele. De maneira que um atributo d’Ele pode ser refletido por dez milhões de seres, pouco importa. Cada ser reflete de um modo inconfundível um aspecto daquele atributo d’Ele.
De maneira tal que, por exemplo, todos… o canário reflete um certo atributo de Deus, mas todos os canários que houve desde o começo do mundo até o fim, se alguém pudesse considerar a ordem canária compreenderia que forma uma coleção em que aquele atributo específico que o canário apresenta é desenvolvido e representado de um modo inconfundível por um conjunto enorme de seres formando uma coleção que ela, sim, dá o total do quadro desse atributo.
Bom, isso [que] nós podemos dizer dos canários, nós podemos dizer, por exemplo, dos camarões, nós podemos dizer de tudo quanto queiram.
* As miríades insondáveis de Anjos, com suas ordens, manifestam a glória extrínseca de Deus
Nós devemos dizer, sobretudo, dos Anjos. A criação angélica foi feita de tal maneira que ela reflete no seu todo, com as miríades de Anjos que há e que são incontáveis, ela dá um quadro total de Deus. E é uma coleção espelho, em que cada Anjo não repete o outro, porque Deus não gagueja.
O homem que tem um defeito de locução pode dizer uma coisa. Então, ele pronuncia duas sílabas, uma das quais supérflua. Mas Deus não vai, ao fazer o espelho da sua glória, por um indivíduo gago dentro, quer dizer, um indivíduo que seja um gaguejar, que repete viciosamente o que o outro já diz, o que outro já é.
De maneira que, então, os Anjos todos constituem uma prodigiosa coleção, uma fabulosa coleção em que todos os atributos de Deus estão devidamente espelhados.
Então, tronos, dominações, querubins, serafins, potestades, virtudes, simples arcanjos, — simples arcanjos! — pobres de nós! — é como quem dissesse: simples imperadores… — Anjos, todos eles são, no total, uma imagem de Deus. Bem, mas depois se a gente examina as várias ordens angélicas dentro de si, cada uma delas é uma espécie de coleção dentro da coleção, e a representação de um atributo dentro do atributo.
E assim nós poderíamos ir ao infinito percebendo que isso não é uma espécie de imensidade dentro da qual a gente se perde, mas é uma imensidade orgânica. São figuras que formam figuras, que formam figuras, que formam a grande figura. E é a vastidão insondável dos seres celestes criando a imagem perfeita de Deus.
* O Proelium magnum factum est in caelo! — Diferenciação e explicação das glórias intrínsecas e extrínsecas
Bem, Deus o que quis dos Anjos é que, logo depois de criados, começassem a Lhe dar glória. Mas, pelo contrário — e nós estudaremos isso daqui a pouco quando virmos a queda dos Anjos — aconteceu que Ele criou e criou os Anjos como seres livres e tinha que criá‑los como seres livres e uma parte dos Anjos induzida por Satanás, recusou a homenagem devida a Deus. Nós veremos, daqui a pouco, em que consiste essa homenagem. Mas recusou essa homenagem devida a Deus.
Resultado, a revolta: proelium magnum factum est in caelo, fez‑se nos céus uma grande luta, São Miguel colocou as coisas nos termos em que deveriam ser colocadas. Felizmente ele não estava sujeito a todas as nossas medidas de prudência, nem de cautela, nem de tempo. Ele pôde agir imediatamente e de uma vez só e restabelecer a ordem num primeiro movimento e derrubar a Satanás e os outros anjos para fora do céu.
Bom, e então ficaram os tronos dos anjos nos céus, vazios. Os anjos que caíram desfalcaram a coleção. E aqui então vem a criação do homem. Como preencher os vazios? Está compreendido o assunto, ou não?
(Sr. –: […inaudível])
A glória intrínseca é a posse de todas as perfeições. Isso dá ao indivíduo uma glória interna que ninguém pode lhe negar. A glória extrínseca é o reconhecimento dessas perfeições pelos outros e o louvor que eles dão a essas perfeições. Uma pessoa pode ter muita glória intrínseca e nenhuma extrínseca. É, por exemplo, o caso de uma pessoa que seja injustamente perseguida.
Uma pessoa pode ter muita glória extrínseca e nenhuma intrínseca. Qualquer político de nossos dias pode dar ao senhor uma idéia dessa. Compreendeu? O grande senhor fulano de tal… vai ver, não é nada. Depois, todo mundo sabe que ele não é grande, e ele também sabe. Ele paga para escreverem que ele é grande, mas ele sabe que não é grande. Glória extrínseca ele tem. Intrínseca, não.
(Sr. –: […inaudível])
Totus sed non totalitus, quer dizer, reflete a Deus no seu vulto geral, mas não tem, não possui as perfeições d’Ele, que é uma coisa diferente. Eu dou um exemplo. Você suponha que eu tome um filho sumamente parecido com o pai e que tenha todas as qualidades do pai. [Assim, ele] reflete o pai totalmente, não é isso? Assim nós não refletimos a Deus, porque o filho é da mesma natureza que o pai, ele pode ter os mesmos atributos que o pai, etc. Assim, nós não refletimos a Deus, senão nós seríamos deuses.
Reflete, à maneira, por exemplo, para usar um exemplo que não é muito preciso, como uma figura de espelho reflete a pessoa. Quer dizer, aquilo não é senão uma figura, não é uma pessoa, não tem aquela natureza. E assim mesmo nós deveríamos imaginar um espelho que desse uma figurinha assim. E aí haveria algo de verdade na comparação. Está claro. José Sérgio? Felipe?
(Sr. –: […inaudível])
* Para manifestar sua glória Deus quis preencher todas as possibilidades da criação — Na ordem do universo podemos admirar simultaneamente a suma majestade e a suma graciosidade de Deus
Totalmente. A criação angélica espelhava totalmente a Deus.
(Sr. –: […inaudível])
Não, ela propriamente não foi feita para preencher, porque pode‑se admitir que Deus criasse os homens, embora tivesse criado os Anjos. Pelo seguinte: seria muito bonito que Deus quisesse tomar um esquema de todas as possibilidades da criação e realizá‑la, realizando o puro espírito, o animal com espírito, o animal sem espírito, a planta e a matéria, que é uma espécie de esquema das possibilidades de uma criação. E é possível que ele fizesse isso ainda que os Anjos não tivessem caído. Mas, uma vez que os Anjos caíram, pôs‑se o problema: como remediar a queda dos Anjos? E o remédio estava nos homens. Mais alguma pergunta? Pois não.
(Sr. –: […inaudível])
Por exemplo, eu vou tomar a natureza física porque é mais fácil nisso. Deus, sendo um abismo infinito de todas as perfeições, Ele, por algum lado é sumamente majestoso, mas por outro lado ele é sumamente gracioso. Bem, você encontra animais que refletem a majestade de Deus. Por exemplo, o leão. Você encontra animais que refletem algo de indizivelmente gracioso que existe em Deus, por exemplo, o beija‑flor, que já é, então, outro atributo que reflete. Você vê o trovão que reflete, por sua vez, Deus enquanto puniente.
Você vê o cordeiro que reflete Deus enquanto capaz de perdoar, enquanto manso, enquanto pacífico, não é? Quer dizer, Deus tem um número indizível de atributos, ou seja, de qualidades, as criaturas, cada uma espelha uma qualidade. O conjunto delas espelha o conjunto das qualidades.
(Sr. –: […inaudível])
* São Tomás ensina que se pode fazer um elenco dos atributos infinitos de Deus
É uma coisa que se pode dizer e não. Quer dizer, é possível fazer um elenco dos atributos que Deus tem infinitamente. Você compreende? A gente pode, São Tomás de Aquino dá um elenco dos atributos que Deus tem infinitamente, absolutamente. Pode‑se fazer deles como que um catálogo, como quê uma classificação. Compreende? Isso não é contra a infinitude d’Ele.
O que seria contra a infinitude d’Ele é Ele ter esses atributos de um modo limitado, quer dizer, um pouquinho de cada atributo. Pois não…
(Sr. –: Quer dizer, que não se deve confundir atributos com perfeições…)
Não, o atributo ou a perfeição é a mesma coisa.
(Sr. –: Então, eu me vejo na última, porque Deus tem infinitas perfeições. Qual é a diferença entre perfeição, atributo, qualidade?)
Acaba dando tudo na mesma. São, vamos dizer, tudo qualidades. Não se pode propriamente dizer de modo puro e simples que Deus tem um número infinito de qualidades. Dizer isso de modo puro e simples não é exato.
Deus tem, quando nós virmos Deus face a face no céu, nós poderemos ver Deus numa visão de conjunto das suas perfeições. E, portanto, você está compreendendo, quem diz uma visão de conjunto, diz, evidentemente, algo que é susceptível de ser visto segundo uma classificação, segundo uma ordenação que forma um conjunto do qual não escapa nada.
Então no que que está a infinitude de Deus? Está em que cada [uma] dessas perfeições é infinita, ou cada uma dessas qualidades é infinita. Não sei se eu me exprimi bem. Você queria [fazer] mais alguma pergunta ou não? Mais alguma pergunta algum dos senhores? Emílio?
(Sr. –: […inaudível])
Ah, sim, já é diferente.
(Sr. –: […inaudível])
Receberia. Como até a seu modo, dos animais ele recebe e das pedras. E a seu modo é uma glória diferente. Quer dizer, como seriam várias sinfonias, não é isso? Diversas. Bem, vamos então para a frente. O que eu estava dizendo? Ah, da criação do homem.
* Os Anjos e os homens deveriam formar duas grandes orquestras que cantassem eternamente a glória de Deus
Bem, então, Deus destinou os homens, Ele constituiu numa espécie de plano B, Ele que provavelmente, Ele que por criar os Anjos não era obrigado a criar os homens, entretanto, provavelmente, tudo leva a crer que Ele ia criar os homens.
Ele ia criar como que duas grandes orquestras diversas, cada uma cantando as glórias d’Ele a seu modo. E como eu respondi há pouco ao Felipe, então a criação humana, dando a Deus outro reflexo total d’Ele, depois a criação animal, depois a criação vegetal, depois a criação mineral, tudo dando reflexos totais d’Ele, Ele ia criar isso assim, mas com aquela queda dos Anjos, foi conforme à sua sabedoria constituir um plano segundo o qual os homens fossem ocupar os tronos dos Anjos e completar as harmonias que ficariam deficientes no céu.
Era como quem, perdendo alguns músicos de uma orquestra, chama outra orquestra para fazer um outro conjunto. E então tem a vocação do homem para preencher os lugares dos Anjos no céu e formar com os Anjos uma só imagem de Deus, cantar uma só glória de Deus.
Bom, isso está claro, ou querem me perguntar qualquer coisa? Agora, começa então aí a história, vamos dizer, o plano doutrinário está tratado, a gente compreende para quê o homem foi feito, louvar a Deus — porquê é que o Anjo foi feito, para quê é que a criação foi feita; nós compreendemos de que forma a criação realiza isso, que é exatamente cantando a glória de Deus, amando a Deus, etc., nós compreendemos que Deus faz residir a sua glória, não tanto numa só criatura, mas em conjuntos de criaturas, porque o conjunto é melhor do que cada parte.
E nós compreendemos agora como é que Deus formou, por causa da queda dos Anjos, dois conjuntos. Ele tomou dois conjuntos e fundiu um conjunto só no céu, que é exatamente a corte celeste, por causa da queda dos Anjos.
* A causa da revolta dos Anjos foi o orgulho que os levou a recusar o convite de Deus e serem elevados à ordem sobrenatural?
Agora, por quê é que se deu a queda dos Anjos? Os senhores todos conhecem o fato, eu vou apenas rememorá‑lo muito rapidamente. Alguns dizem que Deus ofereceu aos Anjos a possibilidade de ascenderem à ordem sobrenatural; quer dizer, além da sua natureza, receberem um dom por onde eles seriam elevados para cima de sua própria natureza: e é a graça. E além de conhecerem a Deus com o conhecimento natural que eles tinham, eles teriam o dom de ver a Deus face a face na visão beatífica, que é propriamente efeito da graça.
É um pouco como se Deus aparecesse para os homens e dissesse um pouco: “vocês querem ser Anjos? Eu vou dar a vocês um dom que não está na natureza de vocês e pelo qual vocês vão ver tudo o que um Anjo vê. Quer dizer, vocês vão ser angelizados.” Bom, seria um pouco uma coisa assim. Deus apareceu aos Anjos e disse: “vocês vão ter uma participação da vida da Santíssima Trindade, com a graça. Vocês vão poder ver a Santíssima Trindade face a face, por um dom gratuito, que é superior à natureza de vocês. Vocês aceitam isso?”
Então, os Anjos rebeldes teriam feito o seguinte raciocínio: “é tal a grandeza que eu tenho na minha natureza, eu sou tão estupendo, tão magnífico, que me humilha receber um dom que me coloca acima de minha própria natureza. Eu quero ser eu. Para que, agora, essa espécie de enfeite, mas que vem de fora, em que eu já não sou eu? Isso eu não quero. Eu prefiro o meu eu só, sem nenhum auxílio sobrenatural e nenhuma riqueza sobrenatural, porque o contrário é pisar a excelência de minha natureza.”
Querem que eu repita isso? Querem que eu dê talvez um exemplo concreto dessa vida terrena? Os que querem um exemplo levantem o braço para eu ter uma idéia.
Os senhores imaginem o seguinte: um senhor feudal que houvesse aqui no Brasil. Ele fosse, por exemplo, dono, não sei, imaginem o lugar mais apetecível que os senhores possam imaginar aqui no Brasil. Certamente não é a Vila Ema, a Vila Galvão, ou qualquer outra coisa assim. Mas, enfim, imaginem.
Se os senhores conhecem algum lugar apetecível aqui, imaginem que são senhores desse lugar. Imaginem, por exemplo, se há cariocas aqui, que são senhores da baia toda de Guanabara. Bom, agora aparece um imperador e diz a esse senhor feudal da baia da Guanabara: “eu sou o imperador do Brasil. Você não é imperador. Você não tem acesso à família imperial, porque se bem que você tenha um grande feudo, você, afinal de contas, é você e você não tem nada de sangue real, nem nada. Entre eu e você há um abismo. Bom, eu vou lhe oferecer uma honra. Você quer ser, na minha corte, um filho adotivo meu, postiço, com honras de príncipe imperial?”
* O orgulho pode levar certas psicologias a agirem precisamente como o demônio, recusando pertinazmente a vida sobrenatural
Conforme a psicologia do homem, ou ele voa em cima e diz “quero”, ou ele fica nodoso e diz “postiço por quê? Se eu aqui, sem ser postiço, sou dono da baía da Guanabara, que é esse colosso aqui, por que eu preciso dessa peninha que você quer por no meu chapéu? Ora, você, sua corte, seu império arranjem‑se. Eu na minha casa sou rei e não quero saber de você”.
Os senhores compreendem que há mentalidades que embicam por aí. Os risos que eu vejo na sala indicam logo. Bem, isso fez o demônio com Deus. E um gesto que talvez com o rei fosse concebível, com Deus não tinha propósito.
De maneira que isso foi o que o demônio fez com Deus. O demônio disse a Deus: ordem sobrenatural não quero. Quer dizer, deu nó, nó culpado, revolta e ele não quis. Está claro ou não? Paulo.
(Sr. –: […inaudível])
A felicidade deles é de uma natureza completa, perfeita, sem defeito e alcançando seu fim que era, não era a visão beatífica, mas era um conhecimento intelectivo altíssimo de Deus, não era o amor sobrenatural, mas um amor natural puríssimo de Deus. Eles alcançavam o seu fim e estavam felizes.
Gregório.
(Sr. Gregório: […inaudível])
* Certa corrente teológica admite como causa da revolta dos Anjos a revolta contra a Encarnação do Verbo e da Realeza de Nossa Senhora sobre eles
É, eu daqui a pouco chego lá. Bem, outros dizem que a prova dos Anjos foi porque Deus revelou a eles a encarnação do Verbo; e mostrou que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade haveria de se unir hipostaticamente, não a eles, mas a um homem, e que não haveria união hipostática com Anjo nenhum, e que eles teriam que adorar esse Homem‑Deus.
Os senhores compreendem outra coisa muito mortificante para o orgulho deles. Imaginem, por exemplo, Satanás — parece que era o maior, o mais magnífico de todos — ouve falar:
— Deus vai constituir uma união hipostática.
— Le voilá! Sou eu, não é verdade?
— Não.
— Como? Que Anjo Ele escolheu?
— Nenhum Anjo. Vai haver homens e vai ser um homem. E a este homem você vai ter que adorar.
Os senhores podem imaginar a constrição revoltada, imunda, mas autêntica, explicável à maneira de defeitos de Satanás diante do fato: “Então, todo o meu trilho, todo o meu talento, toda a minha sabedoria, todo o meu charme, toda a preeminência que eu tenho sobre todos os espíritos angélicos, isso é nada. Na hora da melhor predileção, da maior honra, da preferência mais excelsa, lá vai um homem.”
As fisionomias estão reagindo com suficiente eloqüência para eu ver que a matéria está entendida.
Bem, depois, pior é o seguinte: Maria Santíssima. A mãe d’Ele, não só Ele — que afinal, é Homem‑Deus — mas a Mãe d’Ele, que é pura criatura recebe uma tal honra em ser Mãe d’Ele que vai ser rainha de todos vocês. E um bater de sobrancelhas, de pestanas, de cílios, dela vai mover vocês todos. E nem é um homem: é uma mulher. [Satanás pensou:] “Ah, não. Também, levar até onde…”
Eu me lembro que no tempo em que havia, enfim, com uns certos novatos aqui do grupo, eu perguntei a um, quando eram bem novos aqui no grupo. Digo: fulano, você acha que está com nó com tal coisa que eu disse assim, para ele? Eram irmãos. O novato respondeu o seguinte: “não sei bem. Se o senhor esfregou ele só pela metade, eu acho que ele agüenta. Mas se o senhor esfregou até o fim, dá nó.” Está compreendendo? Essa idéia de esfregar até o fim, aqui ficou esfregado até o fim.
* O Sr. Dr. Plinio admite como causa da revolta dos Anjos maus a revelação simultânea da ordem sobrenatural e a Encarnação do Verbo; hipóteses sobre a psicologia da tentação em Satanás
Quer dizer, então a coisa é essa. A impressão que eu tenho é que essas várias explicações se somam. Que foi revelada a ordem sobrenatural, a extensão da ordem sobrenatural aos homens, a Encarnação do Verbo e Nossa Senhora. Porque todas essas coisas formam um plano de conjunto harmônico. E naturalmente isso a gente compreende que num espírito orgulhoso, que ceda à tentação do orgulho isso pode dar uma verdadeira indignação, e a gente compreende, então, a revolta dos Anjos.
Daí então veio a criação dos homens. Bom, historicamente veio então a criação dos homens. Foram criados os homens.
Bem, aqui nós acabamos com os Anjos, nós vamos agora passar a tratar da história humana. Sobre os Anjos e sobre o que foi dito, alguém quer me perguntar mais algo? João Carlos?
(Sr. João Carlos: O senhor citou agora uma tentação dos Anjos. Mas no caso foi uma tentação que eles mesmo criaram a si próprios e ninguém…)
Não, não. Foram tentados internamente. Até há um problema de filosofia curiosa que nós estávamos estudando outro dia no MNF, como é que sendo eles espíritos puros e sem nenhum defeito, não eram concebidos no pecado original como nós, eles puderam sofrer a tentação. Se neles não havia defeitos, como é que de dentro deles surgiu o mal? É um problema interessante para ser estudado. O que, aliás, levaria muito tempo, e não era o caso de analisar aqui. Mas não é, portanto, uma tentação que lhes veio de fora para dentro, mas veio de dentro para fora. Quer dizer, diante da ordem sobrenatural, eles recusaram. João Carlos? Celso. Ou melhor, João Carlos é ele, não é? Celso.
(Sr. –: […inaudível] sofreu uma tentação porque teria que participar […inaudível] da glória…)
Passivamente, não. Ativamente. Mas ele teria que participar recebendo de favor a coisa.
(Sr. –: […inaudível])
Como nós participamos da graça, porque nós, graças a Deus, também temos a graça. Quer dizer, a graça é uma luz que é dada aos nossos olhos, é uma força que é dada à nossa vontade, e que nós exercitamos. Não é isso? É o que ele deveria fazer também.
(Sr. –: […inaudível])
Face a face, não. Ele conhecia a Deus, não via face a face…
(Sr. –: […inaudível])
Face a face, como nós, com o favor de Deus, veremos no céu.
(Sr. –: […inaudível])
Isso provavelmente, também com a Encarnação do Verbo e tudo o mais. Foi tudo isso revelado a ele.
(Sr. –: […inaudível])
Conhecer e amar.
(Sr. –: […inaudível])
Face a face, vê‑lo, a visão beatífica.
(Sr. –: Ele recusou?)
Recusou. Felipe?
(Sr. –: […inaudível])
É, exatamente. Mas provavelmente foi tudo junto, como você vê, não é? Porque a Encarnação do Verbo implica na outorga da vida sobrenatural aos homens.
Então, seria dada aos Anjos também. Quer dizer, tudo leva a crer que foi tudo de uma vez só. Mais alguma pergunta?
* A criação do mundo e o plano de Deus para o homem no Paraíso terrestre
Bom, então veio a criação do mundo, desse nosso universo, em que Deus criou primeiro o universo material, como conta o Genesis, e depois criou, dentro do universo material, o homem. Estava constituído então um todo do qual Deus disse, o Genesis diz, que Deus descansou no sétimo dia, considerando a sua obra.
Esse descanso é exatamente a alegria por sentir a coisa que lhe está dando glória, não é? E vendo que cada coisa era boa e o conjunto era ótimo.
Quer dizer, é bem a doutrina que estamos dando: o conjunto do universo era magnífico. Deus, então, criou os homens. Bom, qual era o papel dos homens para realizar a glória de Deus?
Os senhores estão vendo que Deus criou os homens num lugar mais magnífico de todo o universo, que era o Paraíso. O Paraíso terrestre, que ainda existe, se bem que ninguém saiba onde ele está e ninguém possa entrar nele. Mas, o Paraíso terrestre ainda existe. E Deus criou os homens no Paraíso terrestre, que é um lugar magnífico entre todos dessa criação que Ele realizou.
Bom, e a intenção d’Ele era que os homens vivendo nesse Paraíso tivessem já a vida da graça; que eles vivessem nessa terra, ainda sem a visão beatífica, se bem que Deus falasse com eles com freqüência, se manifestasse a eles com freqüência e que quando eles morressem, eles propriamente quando chegassem o fim da vida deles, não morressem — eles fossem levados vivos para o céu… * [Vira a fita] * … e o encontra: ah, muito bem, muito bem, depois pega uma fruta, come; pega um passarinho, põe aqui, olha que bonitinho, solta o passarinho.
Uma espécie de Walt Disney. É uma visão impossível mais primitiva e mais boba das coisas, porque não é nem um pouco isso que está na teologia. Os homens deveriam, pelo seu talento, fazer cultura, civilização, sistemas artísticos, literatura, tudo aquilo que o homem faz aqui, ele devia fazer lá. Mas apenas o que tem é que ele deveria fazer de um modo muito mais magnífico do que aqui. Isso é que ele deveria fazer.
* Como teria sido a civilização humana no Paraíso terrestre se não houvesse o pecado original? — O plano de Deus para o homem e para a sociedade
Bom, essa coisa era acrescida pelo fato de que o homem, pelos dons sobrenaturais que tinha, ele tinha uma ciência enorme. Os senhores vêem que dai diante de Adão desfilaram todos os bichos, e ele deu a cada bicho o nome de acordo com sua natureza.
Quer dizer, ele era um zoologista fabuloso e um lingüista extraordinário. Ele encontrou logo a palavra para chamar cada bicho por seu nome, pela sua nota distintiva natural, não é verdade? E isso que era com os animais, era com tudo.
Agora, os senhores imaginem dois, cinco, dez bilhões de homens vivendo durante dezenas ou centenas de séculos no Paraíso, acumulando tudo isso, o quê é que poderia ser o Paraíso? Nós não podemos ter idéia do que poderia ter sido a civilização humana no Paraíso e a glória que teria dado a Deus. Mas nós devemos reter daqui um ponto que é o ponto fundamental para compreendermos o resto, que é o seguinte: aliás, são alguns pontos.
Primeiro ponto, essa obra de servir a Deus, de progredir na virtude, — de progredir na virtude, vamos ficar nisso — essa obra os homens foram chamados para realizá‑las juntos, quer dizer, influenciando‑se uns aos outros, colaborando uns com os outros.
No Paraíso, todas as pessoas boas ficariam melhores vendo as outras. E vendo o tal conjunto dos homens, que era ótimo, melhor do que cada homem particular. Com isso os homens iam se santificando. E portanto… bom, por outro lado, não é só os homens, mas é toda a cultura, toda a civilização dominante no Paraíso seriam um instrumento para a santificação dos homens.
Por quê? Porque assim era o plano de Deus e assim está na natureza do homem.
Eu esqueci de pôr um e dois:
Primeiro ponto, os homens deviam viver juntos para santificarem‑se;
Segundo: eles deveriam, para se santificar, viver uma ordem temporal perfeita, quer dizer, numa sociedade, em estados perfeitos, ou em um estado perfeito, que seriam instrumentos de santificação do homem;
Terceiro: o homem deveria operar sobre a natureza, atuar sobre a natureza, tornando‑a muito mais semelhante a ele mesmo e a Deus.
Dante chama as obras do homem “netas de Deus”, porque o homem é filho de Deus e a obra de arte é filha do homem, logo, é ela neta de Deus. Então, o universo, o Paraíso ainda ficaria inconcebivelmente mais belo com a presença das obras dos homens. Os senhores imaginem o Paraíso com todas as suas belezas.
* O que seria um quadro de Fra Angélico pintado no Paraíso? — As conseqüências do pecado original
Agora, imaginem o Fra Angélico no Paraíso, e pintando não com essas tintinhas da terra — ele sabia fabricar tintas magníficas; o azul dele era safira moída e posta dentro do azeite, não sei com que outros ingredientes — agora os senhores imaginem se ele pudesse pegar o azul de uma flor azul do Paraíso, e simplesmente triturá‑la e depois colocar outros condimentos.
Com o poder dele, talvez que o homem teria sobre todo o universo, se não tivesse havido a queda, talvez com um pouco de areia da lua e misturada com raios magnéticos de Saturno — que azul uma coisa dessas poderia dar… E o quê é que seria no Paraíso um quadro de Fra Angélico? É uma coisa que não se pode imaginar, não é verdade? Pois bem, os senhores compreendem então como o homem era chamado no paraíso e esse plano ruiu, e esse plano ruiu por causa do pecado original.
O homem foi expulso do Paraíso, perdeu os dons sobrenaturais e preternaturais que tinha. E depois foi sujeito, vulnerável pelo pecado, sujeito a apetências desregradas, a inteligência se obnubilou, a vontade se enfraqueceu, o corpo passou a ser como que um corpo leproso.
Porque os senhores não pensem que no paraíso as pessoas seriam como são as pessoas bonitas da terra. No paraíso seria uma coisa horrenda um indivíduo deitar uma lágrima, a menos que fosse uma lágrima que fosse uma destilação sublime, de uma cor magnífica, de um perfume incomparável; e não resultante da dor, mas apenas resultante da plenitude de uma emoção de alegria.
Mas essas nossas lágrimas torvas salgadas, feitas ao longo de uma careta em que a gente chora, isso para o Paraíso é uma poquice sem nome, uma verdadeira degradação.
Depois a pele de alguém antes do pecado original: uma pele alvenitente, superior, cor nem sei do quê, essas nossas peles que esse mulherio vive passando em cima pomada etc. Porque nem conhece. Porque mesmo nelas não vale grande coisa, não é? Todos os odores e humores e líquidos, e coisas que o homem deita de si. O homem está continuamente deitando fora de si matéria suja. Quando não é outra coisa, é o suor, não é verdade?
Bom, tudo isso no Paraíso não era assim. Tudo era ultralindo, ultraperfeito, inteiramente superior, nós não temos idéia de como era. O estado de PTB em que nós estamos é uma coisa incrível, depois de pecado original. Foi uma petebização radical e geral, uma coisa horrorosa.
* Mesmo fora do Paraíso, o plano de Deus para os homens continuou o mesmo — Comentários sobre a beleza paradisíaca de Notre Dame e Veneza
Então, começou a vida nessa terra, não é isso? Mas o plano continuou o mesmo. E fora do Paraíso, a idéia, o pensamento de Deus, o plano de Deus continuou o mesmo, porque a natureza humana continuou fundamentalmente a mesma. E esse plano, essa natureza consiste essencialmente no seguinte: Primeiro, os homens devem santificar‑se juntos, formando uma sociedade.
Segundo: essa sociedade deve construir um estado, uma cultura, uma civilização como meio de santificação.
Em terceiro lugar, os homens devem produzir as obras de arte e de cultura de toda ordem não só para seu serviço, mas para embelezar a natureza feita por Deus. Daí por exemplo a cidade de São Paulo não é? O largo do Arouche tão bonito, não é? A rua Sebastião Pereira, positivamente linda. São as coisas com que nós embelezamos a ordem feita por Deus.
Quer dizer, nós temos ali a imagem de nossa poquice, da nossa feiúra, do nosso monstruoso. Mas tem, por exemplo, a Sainte Chapelle, tem Notre Dame, tem todas as coisas sacrossantas da sacrossanta Europa, que indicam bem o que o homem pode por para tornar mais belas as coisas de Deus.
Os senhores, na Aerotur tem um elemento de meditação esplêndido a esse respeito. É uma carta que representa a catedral de Notre Dame vista pela parte de trás. Então, tem o Sena, depois na ilha tem Notre Dame, a parte de trás, a abside de Notre Dame, e depois tem daqui e de lá, plantadas com mão de francês, trepadeiras e árvores, que vegetaram e se desenvolveram em ar de francês, e deram planta de francês.
Quer dizer, coisas positivamente […inaudível]. A gente vê ali como o rio Sena do tempo dos selvagens devia ser uma coisa poca, mas como entrando ali a mão do católico, entrando o sobrenatural, as coisas tomaram outro jeito. E aquela mesma água está lindíssima ali.
Veneza. Os senhores sabem que Veneza era a coisa de lo último, não é? Era um pântano, uma charneca com, de vez em quando umas ilhas. Mas ilha no meio de lodo não é senão sujeira mais dura no meio da sujeira mais mole. É isso. Os venezianos ocuparam aquilo, drenaram, separaram a água e saiu aquela água e depois saiu Veneza. Era um lugar horrendo. Eu posso imaginar os maus cheiros de Veneza, as umidades de Veneza antes de Veneza ser Veneza.
Bem, talvez infestada até por alguns demônios porque os demônios gostam de habitar lugares desses. Tudo esvoaçou e levantou‑se a catedral de São Marcos, bimbalhando com seus sinos a glória de São marcos por cima da glória de Veneza, não é? São exemplos do que faz o homem acrescendo a glória de Deus nessa terra.
* A mediocridade é fundamentalmente igualitária: quando levada às suas últimas conseqüências produz a recusa da ordem sobrenatural e provoca no homem a sede da impureza
Há uma reação — eu digo isso de passagem — há uma reação que o espírito igualitário de nossos dias põe em muita gente quando a gente fala disso, e a reação é a seguinte: “ora, qual nada. Isso tudo é potoca. Coisa superquintessenciada, superbonita, eu aqui bem que me arranjo com a ruazinha Tuiutí, ou […inaudível], em que eu moro e que é bem boazinha”.
Isso é uma disposição de alma que, levada em suas últimas conseqüências, nos levaria a recusar a ordem sobrenatural.
É o mesmo raciocínio daquele outro. Eu me lembro de uma pessoa que uma vez dizia: “para quê ensinar pessoas a comer paté de foie gras? É gostoso. Mas se a gente só conhecesse feijão, comia aquele feijãozinho e achava bem gostosinho. Para quê aprender [a comer] paté de foie gras?”
O último ponto desse raciocínio é a recusa da ordem sobrenatural.
A máfia ia logo dizer: para o Dr. Plinio a ordem sobrenatural e o paté se identificam. Eu estou vendo bem. Para isso a máfia é a máfia. Mas esse estado de espírito é dizer o seguinte: eu, na minha natureza, sou proporcional ao feijão, e tenho nó que me venham com patés que estão acima da minha natureza. Eu gosto de feijão e não de paté e quem gosta de paté é orgulhoso, porque faz […inaudível].
Vamos acabar com o paté e com todos os homens que gostam de paté e instalar no mundo, não o Reino de Maria, mas o reino do feijão. Isso é um estado de espírito péssimo. E coisa curiosa, sabem o que é? Esse estado de espírito para onde leva direto? Para a impureza. Ah, é por isso que o sujeito que tem essa mentalidade, fica sedento de pecado de impureza. É líquido.
Qualquer um que tenha dificuldade de pureza, examine‑se e pergunte se não tem esse estado de espírito por alguns lados. Porque alguém pode dizer: não, eu gosto de paté. Mas não é só o paté não. É uma porção de outras coisas. Examine‑se e limpe‑se, porque tem disso, muito freqüentemente.
(…)
… eu perdi o fio com isso. O que eu estava falando? Como é? Ah, não, eu estava dizendo que o homem expulso do Paraíso, o jogo continuou o mesmo.
* A história da humanidade não é senão a sucessiva “tentativa” de Deus em criar para os homens uma ordem maravilhosa de coisas — a seqüência dos planos e a teoria do residuum revertetur
Bem, e então começa a história da humanidade. E a história da humanidade, nas várias vicissitudes que os senhores vão estudar, é a seguinte: Deus, sempre querendo criar, sempre querendo instituir no mundo, sempre vamos dizer, Deus sempre induzindo os homens a criar uma ordem como essa, e os homens sempre fugindo de criar essa ordem. E Deus então passando para o plano A, para o plano B, para o plano C, para o plano D, e cada vez que Ele passa para outro plano, inaugurando uma maravilha maior.
Quer dizer, aqui eu vou explicar daqui a pouco e os senhores entenderão.
Então, começa Deus na era patriarcal, por exemplo, dando aos povos as graças, os descendentes de Adão conhecendo, afinal de contas, bem todas as implicações, enfim, a religião verdadeira e isso e aquilo, a religião natural que eles possuíam, uma pontinha de revelação, como conhecendo tudo isso e tendo a possibilidade de criar uma ordem patriarcal boa, vão eles, pecam e criam uma ordem errada.
Essa ordem errada traz como conseqüência que Deus castiga destruindo essa ordem. Vem o dilúvio. Quer dizer, no dilúvio não foram apenas mortos os homens que não prestavam, mas foi destruída uma ordem de coisas e foi arrebentada, de não sobrar nada. Foi destruída uma ordem de coisas. Os senhores tem, então, um primeiro movimento de Deus. Constituição de uma ordem de coisas, recusa, destruição dessa ordem de coisas.
Mas eles separam o resto. É o residuum revertetur. Resta Noé e a família de Noé. E em favor de Noé, para continuar a realização do plano d’Ele, Ele faz maravilhas. Então, vem maravilhas mais belas do que era aquilo que Ele destruiu.
Então, vem a arca, vem a profecia de Noé, depois a construção da arca, depois vem o dilúvio, depois vem o corvo e o pombo, vem o arco‑íris e vem a terra que se povoa toda de novo. Esse episódio dá uma beleza maior à história do homem do que se não tivesse existido.
Então, recomeça a coisa. Bem, recomeça a coisa, os homens pecam de novo. Constituem uma ordem errada, cuja expressão mais aguda é a Torre de Babel. Quer dizer, eles pecam no seu interior e constroem uma ordem pecaminosa. E essa ordem pecaminosa os induz a pecarem mais. Então, vem a Torre de Babel. Com a Torre de Babel, castigo, a dispersão dos povos.
* O pecado da Torre de Babel foi quase um segundo pecado original — Deus constitui para Si, um povo eleito do qual nascerá o Messias — Pecado do deicídio e dispersão do povo hebraico
Quer dizer, escangalha com aquilo. Agora, já aí os senhores vêem algo que baixa. Quase que se poderia dizer que o pecado da Torre de Babel foi um segundo pecado original. É exagerado dizer, mas quase que se poderia dizer. Porque houve uma baixa no homem e o homem passou a ter, a sofrer da confusão das línguas. E essa confusão das línguas supõe um amolecimento da cabeça. Porque a palavra é o termo normal e final do pensamento. E onde qualquer coisa amoleceu na ordem da palavra, algo amoleceu na ordem do pensamento.
E depois, coisa pior, os povos dispersos constituem a gentilidade. Em vez deles se corrigirem, eles dão essas nações pagãs que os senhores conhecem.
Então, Deus constitui um povo para si, para por meio desse povo construir essa ordem. E ele tira, forma o povo hebraico, suscita o povo hebraico e logo de uma vez opera uma maravilha maior do que a anterior. É um povo só, não é, mas nesse povo nascerá o Messias.
Quer dizer, está tudo dito. Nesse povo nascerá Nossa Senhora. Então, há toda a história do Antigo Testamento, que é um povo na terra que, pelo menos ele, conhecia a Lei, dava um verdadeiro culto ao verdadeiro Deus e tinha ordem de coisas bem constituída, mas esse povo, várias vezes, viola essa ordem. Revolta‑se contra Deus e vem numa decadência contínua até o momento do nascimento de Nosso Senhor.
Quer dizer, portanto, outra vez o plano que não se realiza. Vem Deus e redargüi. Ele redargüi de que maneira? Ele dispersa o povo hebraico, castiga o povo hebraico, mas ele se serve dos restos do povo hebraico fiéis, dos fiéis, para fundar a verdadeira Igreja. E aparece a obra‑prima das obras‑primas da criação, excetuando Nosso Senhor e Nossa Senhora, nasce a Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana.
* A vingança de Deus: a Santa Igreja Católica se estende pela gentilidade e forma a Civilização Cristã — Explode o pecado de Revolução…
Mais ainda, com uma espécie de vingança d’Ele, a Igreja estende‑se a todos os povos gentios, tira da gentilidade e remedeia todos os males até então existentes.
Quer dizer, os senhores estão vendo uma nova vitória d’Ele, novo lance, nova vitória. Os senhores estão vendo que é de uma beleza magnífica, não é? A Igreja Católica, por sua vez, floresce, estende‑se a toda a terra, hoje o Evangelho está anunciado a todos os povos, mas no momento em que o Evangelho… bom, vamos dizer, ela em certo momento dá origem à Idade Média. Começa a construção da ordem perfeita, mas aparece a Revolução.
Bem, quando aparece a Revolução, Deus vai aprimorando a Igreja através da Contra‑Revolução. A contra‑reforma tinha as graças para ser mais bela do que a Idade Média. O movimento ultramontano do século XIX, por alguns aspectos, foi mais belo que a contra‑reforma. O nosso movimento é mais belo do que o movimento ultramontano do século passado.
Quer dizer, Deus vai requintando a obra d’Ele e dos que ficam fiéis. E ao mesmo tempo se dão esses três fatos: a Igreja, hoje em dia, anuncia o Evangelho a todos os povos […inaudível] se encerrar é preciso que uma vez pelo menos o plano de Deus se realize inteiramente, e que realize em condições […inaudível] não se realize, sejam como uma fumaça, não é?
* “A máxima força de Deus é Nossa Senhora”, o que explica a consistência e durabilidade do Reino de Maria — A revolta suprema do fim do mundo e os últimos fiéis levados vivos para o Céu
Eu, por exemplo, pinto um quadro, mas é um quadro que dura três minutos. Eu como quê não pintei quadro nenhum. É preciso que em determinado […inaudível] existe. E existe porque a máxima força de Deus vai ser empregada. Essa máxima força é Nossa Senhora. Exatamente a glória de Nossa Senhora será de dar durabilidade e de dar consistência ao que até agora foram tentativas precursoras.
Os senhores tem, então, o Reino de Maria. Mas, depois da duração devida, também virá revolta última e vem o Anticristo. E aí Deus quebra de uma vez. Porque depois d’Ele ter posto Nossa Senhora, não pode pôr mais nada. Está tudo feito. Ele quebra de uma vez e está tudo acabado. Mas, ainda há uma maravilha. Os últimos fiéis vão ser incomparáveis, tão fiéis e tão bons que eles não vão morrer. Eles vão ser levados vivos para o céu. Admitem‑no inúmeros teólogos.
Bem, e neles a Igreja terá realizado a plenitude de sua perfeição. Eles vão ser a própria beleza plena da Igreja. A Igreja, como uma espécie de trepadeira que dá rosas no pior da tempestade e em plena meia‑noite, floresce essas almas, que vão misturar o seu sangue, algumas, com o [sangue] de Santo Elias, e outras nem vão ter isso: vão direto para o céu!
E a Igreja [morre?] no apogeu de sua beleza, no apogeu de sua perseguição e na totalidade da tempestade. Mas, uma beleza incomparável vai se juntar a isso, vai se somar a isso. E esta não tem nome, não tem palavras, não tem expressão. A gente deveria prostrar‑se em terra para dizê‑lo. É que o próprio Filho de Deus virá em sua pompa e majestade, virá de um modo visível, colher essas últimas rosas da Igreja para levá‑las consigo para o céu.
* “Um ósculo de Nosso Senhor na Igreja Militante expirante a transforma em Igreja Gloriosa, e com isso encerra‑se a História”
De maneira tal que então a um ósculo de Nosso Senhor, na Igreja Militante expirante, que se transforma já em um elemento a mais e na maior beleza da Igreja Gloriosa. E com isso, então, o plano acabou. O plano acabou por quê? Porque Deus se arranja de tal maneira que durante esse tempo os homens vão se salvando. E quando tudo estiver terminado, exatamente estará preenchido o número de tronos dos Anjos e a sinfonia celeste terá acabado.
A história da criação ficará pronta. Um enorme incêndio, vai haver o julgamento no Vale de Josafá. Os homens, segundo diz o Armagedon, os corpos gloriosos vão estar em torno do Vale de Josafá pairando pelo céu em quantidades enormes; todos os Anjos vão aparecer, Nossa Senhora estará presente com uma irradiação da qual não se pode ter idéia. Vai estar Ele e até as duas outras Pessoas da Santíssima Trindade.
Enquanto isso, um incêndio lavra na terra. Destrói tudo quanto na terra é capaz de morrer. A morte desaparece da face da terra. Os réprobos caem no inferno e nós estaremos, pelo favor de Nossa Senhora, no Paraíso celeste. Um lugar físico e material, onde estarão os nossos corpos. Incomparavelmente mais bonito do que o Paraíso terrestre. E ali as nossas almas verão Deus face a face e vão preencher os tronos dos Anjos. O Verbo de Deus humanado vai ser adorado, Nossa Senhora vai governar tudo e o plano revelado a Satanás se terá realizado, sem ele e contra ele.
Ele e os sequazes dele ficam rugindo no inferno e nós voltamos ao ponto de partida: o que Deus quis, se realizou. Aqui está uma explicação da história do universo. Não sei se quereriam me fazer alguma pergunta.
* A visão de conjunto da História do Universo, dada por nosso Pai e Fundador, é utilíssima para nossa vida espiritual — Diferença entre diversificação harmoniosa e confusão das línguas
Eu compreendo a objeção que alguns dos senhores não farão por polidez, mas provavelmente tem: “Dr. Plinio, do que que adianta dizer tudo isso, se tudo isso não pode ir para a aula de religião pura e simplesmente? O senhor nos deu uma aula do que nós não temos que ensinar”.
Também meu plano modestamente realizou‑se: nós vamos ter professores que ensinam sabendo mais do que aquilo que dizem, como eu falei no início da aula. Bem, e sobretudo eu creio que isso para a vida espiritual é útil. A gente compreende… por exemplo, eu saber que eu sou uma peça de uma coleção e que eu, como cada um dos senhores, é único, isso é uma coisa maravilhosa, é uma coisa soberba. Nos dá uma razão de existir e uma alegria de existir, e um prazer que o homem que só quer saber de comer feijão, não gosta. Mas que para nós que devemos visar as coisas grandes, devemos gostar. Quer dizer, para a vida espiritual, isso faz bem e foi a razão pela qual eu dei a aula. Bem, alguém ia fazer uma pergunta. Gregório.
(Sr. Gregório: […inaudível])
Pode‑se dizer. De algum modo a humanidade, ao menos em alguns de seus elementos, se beneficiou disso. Mirra.
(Sr. Mirra: […inaudível])
A resposta é a seguinte: uma coisa é a diversificação das línguas, outra coisa é a confusão das línguas. Quer dizer, que houvesse uma diversificação harmoniosa, por onde uns entendessem as línguas dos outros, era uma coisa bonita. Haveria uma certa riqueza.
Mas, línguas herméticas, aí está o mal, porque você compreende que pode haver, assim como eu, por exemplo, você, qualquer um, sabe mais de uma língua, poderia ser se todas as línguas fossem tão harmônicas que nós soubéssemos todas, houvesse uma clave por onde elas fossem entendidas, não é? Elas estariam, umas para as outras, como diversos instrumentos de uma orquestra, não é isso? E não com a cacofonia de nossos dias, que é confusão, não se entende. Não sei se eu respondi bem.
(Sr. –: Mas essa onda para fazer […inaudível] universal, seria um mal?)
Não. Que houvesse uma única língua no universo seria um mal. Eu acho que as línguas existentes são riquezas que devem continuar. Eu não posso garantir a você que antes da dispersão houvesse várias línguas ou houvesse uma língua diversificada em muitos dialetos. Portanto, afirmar a existência de que é necessariamente um mal a existência de um só língua, isso eu acho errado.
Mas, afirmar que, posto o homem como ele é depois da confusão das línguas, querer superar essa obra dando‑lhe uma só língua e eliminando as outras, isso seria um mal. Está claro? Valter.
(Sr. Valter: […inaudível])
* O homem como síntese da ordem do universo dá mais glória a Deus que a existência só de Anjos e homens ‑ A “esplendorização” das coisas da terra
Em qual época? Vamos dizer assim de um modo radical, sim; na raiz, sim. Na totalidade dos frutos, não. São os últimos tempos, os tempos do Reino de Maria; são a era da virtude plena. Mas essa plenitude comporta desenvolvimentos, não é? Está bem? Leo.
(Sr. Leo: […inaudível])
Não. Muitas vezes o plano B, C, D, X e cai no índio. Quer dizer, é só quando Deus põe especialmente sua mão no caso. Alguma outra pergunta?
(Sr. –: […inaudível])
Não. Fica para dar a glória dele a seu modo, porque a matéria, o conjunto Anjo‑homem‑matéria, é um conjunto que dá mais glória a Deus do que só Anjo e homem. Não é isso? Então, fica e fica mantido para a glória d’Ele e para alegria nossa, porque essas coisas, com certeza vão se tornar mais esplêndidas, vão ser transfiguradas, nós poderemos vir à terra em revoadas, visitar, por exemplo, o lugar onde foi o Alcácer e rememorar, por exemplo, essa conferência, não é? Iremos a Saturno, a Marte, a quanto lugar. Mais alguma pergunta?
(Sr. –: […inaudível])
É, seria o máximo. Mas é preciso tomar com cuidado o que eu disse. Eu não disse propriamente que isso é necessariamente sempre assim. Eu disse que isso aconteceu assim. Porque Deus poderia ter feito o mundo acabar muito antes. Mas também podia ser que os homens tivessem sido fiéis e que a história tivesse sido outra. Do contrário, nós cairíamos numa espécie de determinismo que não seria correto. Está certo, Celso?
(Sr. –: […inaudível])
Isso, exatamente. É, deu‑se assim. Paulo.
(Sr. Paulo: […inaudível])
* A distribuição da graça “ante previsa mérito” de Nosso Senhor Jesus Cristo nas várias fases da História
Os homens, antes do pecado original já tinham a graça que lhes era dada na previsão dos méritos infinitamente preciosos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eles a tinham menos abundante do que os judeus já tinham, os gentios tinham menos abundante do que os judeus e os judeus a tinham menos abundante do que nós temos na Santa Igreja. Mas, de fato, a graça já lhes era dada e já era graça suficiente. De maneira que eles podiam construir uma ordem correta, embora esta ordem não tivesse a magnificência que teria quando Nosso Senhor viesse.
Os Magos exprimem um pouco isso. A gente vê que são reis de reinos, de zonas onde talvez houvesse uma certa virtude natural, e que, portanto, vieram adorar o Messias. Imaginem que tivessem vindo, por exemplo, mil reis adorar o Messias, em vez de três, representando Estados que praticavam a Lei Natural e que tinham restos de Revelação, enfim, tinham um pouco revelado, etc. etc… E que teria sido a noite na gruta de Belém?
(Sr. –: (Inaudível…)
Sei, provavelmente. Não. Ah… jamais. Mas, enfim, uma coisa correta, digna. Felipe.
(Sr. Felipe: (Inaudível…)
* A Encarnação do Verbo se teria dado sem o pecado original? — O esplendor do Reino de Maria será maior que a ordem do Paraíso terrestre
É quase impossível, pelo seguinte: porque seria preciso perguntar se a Encarnação do Verbo se teria dado se não houvesse pecado original. Não é? Porque o fato dominante de todos esses esplendores é a Encarnação do Verbo. O resto é sem comparação mais insignificante. Ora os teólogos estão em desacordo a esse respeito. De maneira que fica quase impossível a gente responder.
(Dr. Eduardo: Dr. Plinio nesse caso, a ordem do Paraíso antes do pecado original teria sido menos bela do que a ordem do Reino de Maria?)
Se não houvesse a Encarnação do Verbo, no Paraíso seria o que tem de mais importante, mas em aspectos acidentais; não? Porque a ordem do Paraíso, em seus aspectos materiais, palpáveis, humanos, seria mais esplêndida. Mas o sobrenatural seria tão mais rico no Reino de Maria que nem sei o que dizer.
(Sr. –: Haveria Encarnação, se não houvesse pecado original?)
É exatamente o que os teólogos discutem, e eu confesso que não chego a ter uma opinião própria sobre o caso. Eu me perco em prós e contras. Gregório.
(Sr. Gregório: Inaudível…)
* “Dos bueiros do sabuguismo nascerá o demônio do Anticristo” — “Ou o Grupo é sofredor, militante, padecente, ou é uma abominação” — Como se dará a decadência do Reino de Maria
Não, é o próprio pecado de Revolução, mas levado a um grau de malícia sem par. Eu mais ou menos vejo como é que o Reino de Maria vai ser substituído pela era da perdição.
Acontece que começa o Reino de Maria, ele se implanta, dura, e dura com tanto brilho que todo mundo se esquece que ele é perecível. A partir do momento em que gente se esquece de que ele é perecível, ele começa a parecer.
E ele começa a perecer de que maneira? Começa, então, tirando a idéia da luta e da vigilância contra o adversário. Começa a entrar o sabuguismo. Começando a entrar o sabuguismo, dos bueiros do sabuguismo nasce o demônio do Anticristo, e vem todo o resto.
Quer dizer, quando começarem — os que vão ser os nossos continuadores — a ser pessoas tranqüilas, com muito horário, com vida muito organizada, nunca fazendo um trabalho fora de hora, nunca correndo, nunca perdendo o fôlego, nunca sofrendo e, sobretudo, nunca desconfiando, nunca combatendo, escreva: “Começou a abominação”. É claro!
Então, os senhores serão pessoas — vamos dizer, nos continuadores do grupo — muito conspícuas, muito sérias, todas elas citando nossos livros muito direito, muito bonito, conhecem a nossa historia, etc.: “Aqueles tempos, onde houve aquela luta. Bom, graças a Deus hoje Nossa Senhora nos deu essa paz. Pax Mariae in regnum Mariae. Agora, naturalmente não há mais essas lutas. Nossa Senhora trancou o demônio. Todos os demônios dos ares foram expulsos, estão no inferno. Agora nós podemos, naturalmente, ver isso retrospectivamente. Como era bonito aquilo! que coisa magnífica!…” Escreva: “A abominação da desolação entrou no lugar sagrado”. E o lugar sagrado nessa ocasião será o grupo.
Porque ou o grupo é o sofredor, padecente, militante, vigilante, ou o grupo não é nada. É uma abominação. Ele é tudo quanto é, enquanto ele for isso. Enquanto ele não for isso, não adianta mais nada. E é o que é o grupo hoje: com gente capenga, gente que dá trabalho, que dá mais trabalho do que todos os trabalhos, é, iii, o‑lá‑lá, ó‑lá‑lá. Nós não teríamos trabalho, se não tivéssemos gente que dá trabalho.
Depois, se o grupo não tivesse pequenas dificuldades internas, ou melhor, interiores —, um que esmorece, outro que vai para frente, depois o inesperado do grupo: de repente, um melhora, um de nós de repente, um que melhorou, piora — e tudo isso é como uma multidão de gente que no meio do sofrimento sobe a encosta da montanha sagrada.
No momento em que não tiver mais isso, acabou.
* É da seriedade com que se tomar as palavras proféticas de nosso Fundador que depende a extensão de seu eco às novas gerações — O que fará a Destra de Deus com os restos fiéis
Então, é preciso que os senhores se habituem a essa idéia: que aqueles que forem novatos, quando os senhores tiverem noventa anos, ouçam o que eu estou dizendo e ouçam dos senhores com o calor com que eu estou falando. E se não ouvirem, é por culpa dos senhores. É porque os senhores não hauriram esse calor e não saberão transmitir, e ficam com sua parte no pecado. Pura e simplesmente. É preciso saber transmitir isso.
É preciso uma desconfiança contra os filhos das trevas. Inclusive com aparecimento deles dentro do grupo é preciso uma desconfiança como se nós estivéssemos no ano de 1967. Nem mais nem menos. Do contrário, não tem nada feito. Vigiar, vigiar, vigiar; orar, orar, orar, sofrer. Porque senão o Anticristo vem.
Isso foi dito aos senhores antes da Bagarre, e da seriedade com que os senhores tomarem o que eu estou dizendo decorrerá que esse eco chegue ou não chegue às novas gerações.
Se os senhores não tomarem isso a sério, os senhores é que começaram. Não tem conversa. Depois, é evidente. Não adianta dizer outra coisa, porque é evidente. Não sei se isso está claro? Bom, há mais perguntas? José Luís.
(Sr. José Luís: […inaudível])
É mas acontece o seguinte: é que podem esses alguns — pode sentar‑se — podem levar mais ou menos gente atrás de si. Não levam necessariamente todos. Você encontra movimentos como os nossos que não levam ninguém. São Luís Grignion de Montfort, por exemplo, tentou fazer e não conseguiu nada.
Conosco acontecerá, e esse resto [é] que vai ficar. Depois não… como resto, senão o resto com fecundidade dos cristãos dos últimos tempos. Não sei se minha resposta diz respeito a sua temática, ou não?
(Sr. –: […inaudível])
É. É uma graça especial de Deus a esses homens, são os homens da Destra de Deus, da mão direita de Deus. Ele resolve fazer e faz mesmo, por meio desses, homens não é? Mas aí você vê não um homem, mas a Destra de Deus.
(…)
Podemos então encerrar.
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