Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 30/12/1966 –
6ª feira [SD 268] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 30/12/1966 — 6ª feira [SD 268]
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São Silvestre, modelo para nossos dias, foi o papa que presidiu à saída da Igreja das catacumbas * Constantino deu liberdade à Igreja, fechou templos pagãos, tornou-a religião oficial, cercou o culto de esplendor e doou o palácio Laterani para basílica * Princípio político da chave de ouro e da chave de prata * As coisas mais esplêndidas e magníficas existem sobretudo para o culto * O contraste com o miserabilismo progressista a la Judas * Aniquilamento do espiritual e do temporal: “o selvagem procura a toca, a toca produz o selvagem” * Que furor teria São Silvestre com a “desconstantinização”
* São Silvestre, modelo para nossos dias, foi o papa que presidiu à saída da Igreja das catacumbas
… fazer comentário do Santo do Dia, que é São Silvestre.
A ficha de São Silvestre é a seguinte — são dados tirados de D. Guéranger, “L’Année Liturgique”:
Até aqui contemplamos os mártires junto ao berço de Emanuel:…
Emanuel é o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo.
… Estêvão, que sucumbiu sob os cascalhos da corrente; João, mártir de desejo que passou pelo fogo;…
Os senhores sabem que é uma lindíssima coisa. Mas São João foi mártir, teve a glória do martírio. Porque ele foi levado para um caldeirão de óleo em efervescência onde deveria morrer queimado. Entrou e não se queimou. E depois saiu. De maneira que ele teve todo o mérito do martírio, mas não foi martirizado. Foi um milagre que se operou em favor dele.
… Tomás, degolado no pavimento de sua catedral. Tais são os campeões que fazem guarda junto ao novo Rei. Entretanto, embora numeroso o número de mártires, todos os fiéis de Cristo não são chamados a fazer parte desse batalhão de elite. O corpo do exército celeste compõe-se também dos confessores que venceram o mundo, mas numa vitória não sangrenta. Se o lugar de honra não é para eles, eles não devem, entretanto, ser deserdados da honra de servir seu Rei. A palma, é verdade, não está em suas mãos, mas a coroa da justiça cinge suas cabeças. Aquele que os coroou, glorifica-os também de vê-los a seu lado. Era justo, então, que a Santa Igreja, para reunir nessa oitava triunfante todas as glórias do céu e da terra, inscrevesse nesses dias o nome de um santo confessor que representasse todos os confessores.
Este é São Silvestre, esposo da Santa Igreja Romana e, por ela, da Igreja Universal.
Esposo porque o bispo é o esposo de sua diocese, e ele era bispo de Roma, ele era papa.
Um pontífice de reinado longo e pacífico, um servidor de Cristo ornado de todas as virtudes e dado ao mundo após esses combates furiosos que haviam durado três séculos, nos quais triunfaram pelo martírio milhares de cristãos sob a direção de numerosos papas, mártires, predecessores de Silvestre.
Silvestre anuncia também a paz que Cristo veio trazer ao mundo e que os anjos cantaram em Belém. Amigo de Constantino, confirma o concílio de Nicéia que condenou a heresia ariana; organiza a disciplina eclesiástica para uma era de paz. Seus predecessores representaram Cristo padecente; ele figura Cristo triunfante. Ele completa, nessa oitava, o caráter do Divino Menino que chega na humildade de suas faixas, exposto à perseguição de Herodes e, entretanto, é o príncipe da paz e o pai do século futuro.
É um lindo comentário de D. Guéranger.
Em última análise, o que deve nos chamar a atenção na vida desse santo — que é o último do ano — é o conceito, a oportunidade do exemplo que ele dá nos dias tristes em que nós vivemos.
Ele foi o papa que viveu no tempo de Constantino e cabe-lhe, portanto, presidir a essa transformação importante da Igreja, que era o fato de a Igreja deixar de ser perseguida para ser rainha, deixar as catacumbas para começar a ocupar palácios.
Ele foi o papa que presidiu ao nascimento da Igreja para fora das catacumbas, como um sol que nasce. E foi sob suas diretrizes, foi sob a sua inspiração que começou a obra chamada de “constantinização” da Igreja.
* Constantino deu liberdade à Igreja, fechou templos pagãos, tornou-a religião oficial, cercou o culto de esplendor e doou o palácio Laterani para basílica
O que é que é essa obra e o que é “constantinização”? A obra consistiu no seguinte:
Houve um primeiro edito de Constantino que concedeu liberdade à Igreja Católica. Houve logo depois um outro edito que fechou todas as igrejas não católicas. Depois, a Igreja começou a se instalar sobre o solo romano, e Constantino, querendo cercá-la de um luxo que reparava os anos de imerecida miséria que ela tinha passado nas catacumbas, Constantino teve a iniciativa de dar, ele, o palácio da sogra, da casa dos Laterani, para ser a primeira basílica católica, a catedral do Papa. E é a igreja de São João de Latrão.
Quem olha para a fachada da igreja vê que é a fachada de uma casa particular opulenta, ou se quiserem de um palácio, mas não é propriamente uma fachada de igreja. E é porque era a fachada da casa dessa família Laterani, Laterana, na qual Constantino se casou.
Depois disso, ele começou a cercar os bispos de honras especiais, torná-los personagens oficiais, a cercar os atos de culto católico de todo esplendor que decorria do comparecimento pessoal do imperador.
E a Igreja passou a ser unido ao Estado, e passou a ser uma entidade considerada com tal reverência, que entre os motivos que levaram Constantino a deixar Roma e a passar para Constantinopla, a fundar a cidade de Bizâncio, também chamada Constantinopla, entre os motivos que o levaram a isso estava exatamente o desejo de torná-la a cidade mais ilustre da terra que era Roma — que aliás já nem era mais a capital do Império Romano —, de tomar essa cidade e deixar que o papa nela residisse sozinho, para que ele fosse virtualmente o soberano de Roma. Constantino ainda não lhe deu o poder temporal em Roma, mas Constantino criou uma situação em que, praticamente, ele era o senhor temporal de Roma.
* Princípio político da chave de ouro e da chave de prata
O princípio da “constantinização” é, portanto, um princípio duplo.
Primeiro, um princípio de ordem política. Esse princípio é que a Igreja, sendo a única Igreja verdadeira, e sendo fácil de perceber que essa é a única Igreja verdadeira, todo homem que não é católico, podendo conhecer a Igreja, é culpado. Sendo culpado, deve ser posto à margem da sociedade e, eventualmente, até perseguido.
Mas a Igreja deve receber da parte do Estado a proteção e o apoio, o respeito, as honras que se tributam ao que é divino. E, portanto, a Igreja é uma entidade mais nobre que o Estado, mais poderosa do que o Estado na ordem profunda das coisas, porque ela é divina.
Daí, então, aquela famosa comparação que, séculos depois, São Gregório VII teria, entre a Igreja e o Estado, dizendo que a Igreja era como o sol e o Estado era como a lua, e que assim como a lua recebe sua luz do sol, o Estado recebia todo seu lume da Igreja.
* As coisas mais esplêndidas e magníficas existem sobretudo para o culto
Depois, outro princípio é que as coisas da terra esplêndidas, magníficas, foram feitas sobretudo para o culto de Deus e não sobretudo para o uso do homem. De maneira que os incensos mais magníficos, os tecidos mais estupendos, o ouro mais puro, a prata mais pura, os materiais luxuosos, devem ser produzidos pelo homem ou devem ser extraídos da terra pelo homem, mas antes de se destinarem ao adorno da vida humana, destinam-se ao serviço de Deus. De acordo com o gesto daquela mulher que, presumivelmente, foi Santa Maria Madalena que quebrou o vaso com ungüento sobre os pés de Nosso Senhor e enxugava os pés divinos d’Ele com o seu cabelo em sinal de veneração.
Judas não gostou porque ele achou que o dinheiro devia ser dado aos pobres. Mas todos os espíritos em todos séculos, espíritos bons não gostaram. E Nosso Senhor deu uma explicação, Ele disse: “Pobres, vós sempre os tereis convosco”. Mas depois fez a profecia da breve morte d’Ele, que em breve viria.
* O contraste com o miserabilismo progressista a la Judas
Aí os senhores têm então o contraste, aquilo que os progressistas extremistas chamam de miserabilismo. E eles dizem então: “A Igreja de Jesus Cristo é a Igreja dos pobres. Ela foi feita para os pobres, e ela no luxo em que se apresenta afronta os pobres. Ela deve se apresentar na miséria, mas na miséria miserável. Os templos não devem ser a não ser como são as casas dos pobres mais pobres, para que eles, os pobres, não se sintam mal lá dentro. E por causa [disto] Jesus Cristo odeia o luxo, Ele odeia os objetos de luxo, essas coisas criadas para o fausto dos ricos e que aos poucos puseram na Igreja. Não devem existir nem na casa dos ricos, nem na casa de Deus. Não vamos mais usar isso porque isso não vale nada. E a Igreja não deve ser oficial, ela deve ser humilde, deve ser uma sociedade particular, como outra qualquer; não deve gozar de honras nem de proteção, porque é assim que se apresenta o verdadeiro católico”.
É, ao pé-da-letra, o pensamento de Judas Iscariotes. É afinal um lamentar que os pobres não tendo isso, e que os pobres não tendo, ninguém deve ter, nem Deus. É o igualitarismo no seu aspecto mais monstruoso, porque quer fazer igualdade entre os homens pobres e Deus, quando Deus é infinitamente superior aos próprios ricos.
* Aniquilamento do espiritual e do temporal: “o selvagem procura a toca, a toca produz o selvagem”
Esta posição, esta atitude, representa, no fundo, uma posição de aniquilamento. É para privar a Igreja de todo prestígio merecido. É para arrancar aos olhos do povo a boa fé que deve nos levar a tributar à Igreja todas nossas honras. É para eliminar toda espécie de arte e de beleza, não só da Igreja, mas do convívio social.
Ainda ontem, se não me engano, Dr. Adolpho me falava a respeito de um prédio que existe aqui em São Paulo, feito se não me engano lá pelos lados do Jardim América, qualquer coisa, que é todo de reboco, sem pintura nenhuma. É como um prédio que não se tivesse acabado. E que assim deve ser, segundo essa doutrina miserabilista. A própria pintura das paredes é uma infantilidade. Criança é que pinta bonitinho; gente adulta, que sabe que atrás tem tijolo, não precisa esconder o tijolo. Olha para o tijolo e fica macanudamente satisfeita.
E com isso é a redução do culto e da sociedade temporal a um estado que é o estado selvagem. Porque quem habita em tocas e em antros é selvagem. E se o selvagem procura a toca, a toca produz o selvagem. E quem, por essa forma, se íntegra na desarticulação de toda a civilização, este renuncia à civilização. E é uma forma nova, extrema, de decadência que com isso se prepara.
* Que furor teria São Silvestre com a “desconstantinização”
Nós devemos afirmar em nosso espírito o senso constantiniano. Nós devemos desejar, amar, o que eles chamam Igreja constantiniana, porque esta é a única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo. E devemos ter como lembrança que o papa que “constantinizou” a Igreja é um santo canonizado e que está nos altares: São Silvestre. Ao passo que se algum papa haja que “desconstantinize” a Igreja, eu nem juro que ele não seja santo e puro, que ele jamais poderá ocupar os altares.
Aí está a grande lição que esse grande santo São Silvestre dá aos católicos de 1966.
Eu termino com essa reflexão: se São Silvestre pudesse ressuscitar e se ele visse essa “desconstantinização”, eu pergunto o que é que ele faria, que maldição, que praga, que furor, que indignação, que terror, não é verdade?
Pois bem, é desse sentimento que devem arder as nossas almas, nesses fins de 1966, em relação a esses miseráveis despojadores da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
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