Santo do Dia (Auditório da Rua Pará) – 23/12/1966 – 6ª-feira – p. 5 de 5

Santo do Dia (Auditório da Rua Pará) — 23/12/1966 — 6ª-feira

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O Santo Natal

De fato, nós temos aqui duas fichas: uma é relativa a São Boaventura. Ah, não. Ambas as fichas são sobre a Natividade. Uma é um trecho de um sermão de São Boaventura e outra é um trecho de Catarina Emmerich. Eu leio ambos os trechos, mas faço um comentário só. Então, São Boaventura diz o seguinte:

Esse feliz nascimento ocorre quando a alma, preparada para uma longa consideração, passa, enfim, à ação: quando a carne, estando submissa ao espírito, a obra boa chega por sua vez. Então, a paz e a alegria interiores renascem na alma. Nesta natividade…

É muito bonito, porque o que ele faz aqui, ele passa do que é a Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo para aquilo que é algo de natividade no operar do homem. É um comentário de caráter metafísico. E, então, ele mostra que há algo como a natividade, quer dizer, nós temos, no nascimento, a gestação e propriamente, depois, o nascimento. E, então, o homem começa a agir. Então, algo como isso se dá quando a alma, preparada por uma longa consideração, quer dizer, uma longa meditação, uma longa reflexão, enfim, passa à ação. Há algo de uma natividade nisso.

Quando a carne…

Então, diz ele:

está submissa ao espírito e a boa obra chega a ser realizada. Então, a paz e a alegria interiores nascem na alma. Nesta natividade não há lamentações, nem dores, nem lágrimas. Tudo é admiração, estremecimento e alegria. Mas se este nascimento te agrada, ó alma devota, pensa em ser Maria. Ora, esse Nome significa amargura. Chora amargamente teus pecados. Ele significa também iluminação. Torna-te brilhante de virtudes. Ele significa, enfim, senhora. Sabe dominar as tuas paixões, e, sobretudo, a da carne. Então o Cristo nascerá em ti, sem dor e sem trabalho. Então, a alma conhece e gosta quão doce é o Senhor.

Ó feliz estábulo de Belém, em ti eu encontro o Rei da Glória. Mas mais feliz do que tu, é o coração piedoso que contém espiritualmente aquele que tu não pudeste conter senão corporalmente.

A alma, portanto, é comparada ao estábulo de Belém. A alma contém Cristo, na alma Cristo nasce como, no estábulo, Cristo teve seus primeiros instantes. Mas a alma humana é mais feliz, porque a presença de Cristo na alma é algo de mais elevado, de mais nobre do que a presença de Cristo no estábulo. É uma meditação de alto porte.

Agora, nós temos aqui a repercussão do nascimento de Cristo entre os pagãos, considerada por Catarina Emmerich:

Quando Jesus nasceu, vi, em Roma, do outro lado do Tibre, um bairro onde viviam muitos judeus. Naquele bairro brotou uma fonte de azeite e todos se maravilharam.

Neste local ergueu-se, mais tarde, uma igreja à Mãe de Deus: Santa Maria in Trastevere; tem também o nome de Santa Maria in Fonte Olei por uma tradição que está de acordo com a visão de Ana Catarina.

Vi que uma magnífica estátua de Júpiter caiu feita em pedaços, num templo, cuja abóbada também desmoronou. Os pagãos estavam cheios de espanto e perguntaram a outro ídolo, creio que Vênus, o que significa isso. E fizeram sacrifícios. O demônio teve que responder pela boca do ídolo: “Isso sucedeu porque uma Virgem concebeu um Filho, sem deixar de ser Virgem, e acaba de dar à luz”.

Também vi algo relacionado com o Imperador Augusto. Quando o imperador desceu dali, (de um certo lugar) viu ao lado direito, sobre a colina, uma aparição no céu: era uma Virgem sobre um arco-íris, com um Menino suspenso no ar, e que parecia sair dela. Creio que o imperador foi o único que viu essa aparição. Mandou consultar um oráculo que havia emudecido e que, no entanto, falou de um menino a quem todos deviam render homenagem. O imperador fez erigir, então, um altar no lugar da colina onde tivera lugar a aparição e, depois de ter oferecido sacrifícios, dedicou esse lugar ao Primogênito de Deus.

Também, no Egito, vi um acontecimento que prenunciava o nascimento de Cristo: emudeceu um ídolo que pronunciava, habitualmente, toda sorte de oráculos. O rei mandou fazer sacrifícios em todos os países para obter que dissesse porque se calava. O ídolo foi obrigado, por Deus, a responder que guardava silêncio e que devia desaparecer, porque havia nascido o Filho da Virgem e que, naquele mesmo lugar, se levantaria um templo em sua honra.

Naturalmente, essas visões, essas referências de Catarina Emmerich têm a veracidade de todas as outras. Há certas crônicas de países pagãos que contam fatos maravilhosos ocorridos numa certa noite, que é possível identificar como a noite de Natal. Como é, também, natural, a historiografia revolucionária contesta a autenticidade desses fatos. Mas não me parece que haja qualquer fundamento sério nessa contestação. E era normal que fosse assim. Na noite que Nosso Senhor nasce, na noite em que ele entra no mundo, era claro que deveria haver duas espécies de fenômenos para servir, depois, de marco para os Apóstolos que viriam, como ponto de referência para a evangelização dos Apóstolos. Mas não apenas com essa finalidade, já de si elevada, mas para a glória de Deus. Porque devia ser assim em si mesmo, independente de qualquer outra razão e circunstância. Era necessário que alguns milagres graciosos anunciassem, à gentilidade, a vinda de uma era de paz e de uma era de alegria; mas era preciso, de outro lado, que alguns milagres terríveis anunciassem ao paganismo que a morte dele tinha chegado.

Então, os senhores vêem, por exemplo, esses dois tremendos fenômenos ocorridos em Roma. Porque Catarina Emmerich, aqui neste texto, pelo menos, refere-se sobretudo ao que ocorreu em Roma. Os senhores vêem, primeiro, nascer uma fonte de óleo, fato de si mesmo milagroso, porque o óleo é um líquido que não pode estar em jazidas. Um espírito racionalista diria: “Não é petróleo?”. Mas a questão é que o irromper uma mina de petróleo na própria noite de Natal é muita coincidência. Bom, o óleo representava, na linguagem de todos os povos antigos, a unção, representava a graça. É o azeite que, de si, é perfumado, é suave, é transparente, é claro, parece conter luz, que distende, que torna macio tudo aquilo em que ele se aplica. Por causa disso, freqüentemente, na Escritura, o óleo é tomado como símbolo da graça de Deus. E, de outro lado também, a Igreja utiliza o óleo nos seus Sacramentos: para o Batismo, para a Ordenação sacerdotal; para a Crisma o bispo usa óleos; para a Unção dos Enfermos o bispo utiliza óleos também, o sacerdote utiliza óleos também. Bom, então era a idéia de que algo azeitado, algo cheio de graça, de perfumado, de luminoso, de atraente acabava de acontecer; mas, ao mesmo tempo que isso acontecia, uma estátua de Júpiter ruía e uma abóbada de um templo caía também. Do fundo da terra sai, como um princípio que estava humilhado, mas que vem à luz, sai a graça de Deus. Do alto do Céu cai algo, como um princípio que estava exaltado, mas que deve ruir por terra, porque a hora do seu desbarato chegou. E então Júpiter cai, a abóbada cai, enquanto o óleo sobe. É uma era histórica que desfalece e outra era histórica que entra.

Ao mesmo tempo, nós vemos Augusto ter a visão do Menino e ter a resposta, em circunstâncias maravilhosas, de uma Virgem que nascera. É uma coisa linda a gente, durante a noite, ver, de repente, um menino no céu; e, sobretudo, o mais lindo de todos os meninos, lindo de uma beleza sacral, lindo de uma beleza régia, lindo de uma beleza sacerdotal, lindo da beleza de um guerreiro e de um taumaturgo. Ver aparecer esse menino no céu, que visão maravilhosa! Que é que um Augusto, que é que um petebista, como Augusto, deve ter pensado disso, a gente não sabe também. Mas o fato concreto é que, em si, impressiona o contraste: um menino frágil que nasce e que aparece no céu, e que tem tudo para encantar o soldadão vulgar, o homem de alguns dotes de governo, mas o pagão radical que era Augusto, representante dos aspectos marmiteiros de Roma antiga. O contraste entre o imperador onipotente e o Menino tão mais Onipotente do que o pobre imperador é um desses contrastes que impressionam; é a hora do império pagão que desaparece, que deve desaparecer, e a hora do Império Cristão que deve entrar, do único verdadeiro Imperador, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Por outro lado, os senhores vêem os milagres que se multiplicam em outros locais. São os augúrios, são os oráculos, habitualmente inspirados pelo demônio, e que emudecem algum tempo antes de Cristo vir à terra, como que tomados de terror. O demônio não fala mais. Ele, então, não tem mais o que dizer; mas é obrigado a falar. Então, ele diz que nasceu um Menino de uma Virgem, e que essa Virgem continua Virgem, e que, por causa disso, então não há mais nada que dizer. Quer dizer, é a proclamação de Cristo que vem.

Os senhores compreendem que isso dá glória a Deus. Nós sempre nos devemos lembrar do que diz o Glória Patri: “Gloria Patri et Filio et Spiritui Sancto, sicut erat in principio, et nunc, et semper, et in sæcula, sæculorum. Amen.” Nós devemos querer a glória de Deus não só no princípio e no fim dos tempos, mas agora. Em cada minuto que passa nós devemos querer a glória de Deus, como uma coisa que é boa em si, independente até das repercussões que possa ter sobre o curso dos acontecimentos humanos. Não era decente, não era conveniente, não era bom que Deus viesse à terra sem operar maravilhas, porque o próprio da presença d’Ele é de operar maravilhas. Então, a glória d’Ele pedia que a Noite de Natal, ou os dias, ou os meses que antecederam e sucederam o Natal, esta suprema data da História, a Encarnação do Verbo, que esta Noite fosse marcada por maravilhas dessa natureza.

Há algo disso no Natal contemporâneo? Houve. Ainda muitos de nós — pelo menos os mais velhos — conhecemos uma graça da noite de Natal, que era uma graça incomparável. Uma graça porque parecia o ambiente dominado por uma influência, dominado por um princípio, dominado por uma força que parecia cair, descer suavemente do mais alto dos Céus e encher a terra inteira, que impregnava os lares, impregnava sobretudo as igrejas, impregnava até as próprias suas ruas; que entrava nas almas e que, em todo mundo, incutia uma espécie de suavidade, uma espécie de alegria santa, uma espécie de certeza do sobrenatural, uma boa vontade recíproca, mas feita de caridade; feita do habitar, em todos, a mesma alegria pelo Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não, portanto, uma boa vontade rotarianae péssima, mas uma boa vontade sacrossanta e esplêndida. Isso era o Natal tão adequadamente musicado, a meu ver, por uma cançãozinha que, sem ser a canção sacra e sem ter a unção e a nobreza dos hinos sacros, exprimia bem o sentimento sagrado que dominava o Natal de rua. E era a cançãozinha alemã “Stille Nacht, heilige Nacht” que, rapidamente inventada por um professorzinho primário da Alemanha, rapidamente generalizou-se pelo mundo inteiro, porque exprimia o sentir do mundo inteiro.

Disto, o que é que resta hoje em dia? Resta o Natal comercial de agora. Esta cidade cheia de “DKW”, quer dizer, de supermotocicletas barulhentas, de propagandas comerciais das piores, de uma pressão — desculpe a baixa de nível — da associação comercial para obrigar todo mundo a comprar o mais possível, para colocar os produtos de uma indústria que, ou está continuamente vendendo ou morre; um Natal, portanto, voltado para preocupações de caráter material, em que o presente perdeu o seu significado de ato de respeito e de amor que tinha antigamente, para ser uma espécie de “comerciata”. Então, nas festas de Natal se põe a árvore e a mesa cheia de presentes, e as pessoas se presenteiam, umas às outras, presentes equivalentes em dinheiro, para contrabalançar o dar e o receber, para evitar hostilidade — mais uma forma de comércio — em que todo o ambiente da “stille Nacht”, da “heilige Nacht” reflui. Então, desse Natal, o que é que resta? Resta algo, e esse algo é um resto verdadeiramente sacrossanto. Resta o resto que voltará. Resta exatamente tudo. Porque quando resta o resto que voltará, resta tudo. Restam as almas daqueles que desejam isso, que querem isso, que sentem isso, que se indignam pelo fato de que o ambiente da cidade não comporta mais isso, e que por esse sentimento interno de protesto, por esse sentimento interno de santa nostalgia, pela esperança ainda mais santa de que isso, no Reino de Maria, renascerá, tem dentro de si o verdadeiro Natal.

Quando nós estivermos reunidos nas nossas ceias e nas nossas sedes, quando, depois, nós nos encontrarmos na rua Pará para assistir o áudio-visual, nós devemos nos lembrar bem desse ponto. Nós somos aqueles que foram, gratuitamente e sem nenhum mérito de nossa parte, amados mais especialmente por Nossa Senhora; escolhidos para serem receptáculos, tabernáculos e vasos do espírito do Natal neste ano, em São Paulo, em 1966; como analogamente a todos os núcleos de “Catolicismo”, pelo Brasil afora, como Cruzada, como em Fidúcia, em 1967, em Montevidéu, com um pujante núcleo da TFP, e assim por diante. Quer dizer, Nossa Senhora escolheu alguns para que o Natal se refugiasse dentro deles, para que dentro deles houvesse o verdadeiro Natal. E então, mais do que ver, em nossas ceias, uma oportunidade para comer, uma oportunidade para estar alegre, é preciso ver uma oportunidade para praticar um ato de alegria, um ato de complacência para com aquilo que São Francisco de Assis chamava “o irmão corpo”, associando o “irmão corpo” a uma alegria que deve ser muito maior, e que é a alegria da alma, é a alegria do Natal, é a alegria de que Nosso Senhor Jesus Cristo veio à terra, alegria religiosa, alegria sacrossanta, em uníssono com outra alegria inefável, esta alegria, quem a poderá descrever? Quem a poderá medir? Quem poderá ter idéia da elevação do espírito d’Ela e que altíssimas considerações d’Ela brotavam para inundar a alma? E era a alegria de Nossa Senhora.

Os senhores já meditaram a alegria de Nossa Senhora junto ao presépio de Belém? Fala-se tanto e tão adequadamente da alegria d’Ela junto à Cruz. Mas da alegria junto ao presépio, que coisa admirável. Ela ali, vendo aquele Menino, que era o filho d’Ela e o Filho de Deus. E Ela que era criatura humana, tendo conhecimento das coisas como o homem tem pelos sentidos, vendo aquele símbolo perfeito na natureza humana da Divindade e vendo, ali, a semente de tudo que Ela sabia que devia sair. E esse era o Filho d’Ela, mas, mais do que isso, era o Filho de Deus. Então, nós devemos pedir a Nossa Senhora, para a Missa de amanhã, para a ceia de amanhã, para o dia de amanhã, dois sentimentos. Em primeiro lugar, o sentimento de indignação e de rejeição desse Natal “DKW”, desse natal comercial, desse natal prostituído e profanado. Nós, de outro lado, devemos pedir a Nossa Senhora o sentimento do verdadeiro Natal e uma participação da alegria religiosa e sagrada d’Ela.

Dizem, habitualmente, que as guerras de religião são as mais furiosas, porque não há ódio mais furioso do que o ódio religioso. É verdade. Se a Religião não inspirasse ódio, ela não seria verdadeira. Mas também é verdade que, por isso mesmo, não pode haver alegria mais autêntica, nem mais profunda, do que o Santo Natal, ou melhor, do que a alegria do Natal, alegria religiosa. Porque se o ódio religioso é o mais profundo de todos, a alegria religiosa, o amor religioso tem que ser o mais profundo de todos.

Pedir essa alegria de alma, de maneira que estejamos sentados às nossas mesas não como bons gastrônomos, mas como filhos de Nossa Senhora, que pensam na alegria d’Ela, tem uma participação na alegria d’Ela; e, na periferia do nosso ser — adequadamente, justamente, dignamente, continuando as tradições de boa mesa da Civilização Cristã — sabermos também gostar daquilo que dá, ao corpo, uma alegria em consonância com a alegria da alma. Alegria religiosa, alegria sagrada, alegria elevadíssima, isso é que nós devemos pedir. É a alegria de Natal e é um pórtico para a vida espiritual de muitos de nós, que sentimos tantas vezes, da Religião, o que tem de árduo, o que tem de difícil, mas não sentimos o que tem de sublimemente alegre; alegria das coisas sérias, profundas, sublimes, sacrais. Quem não conhecer essa alegria, não sabe o que é alegria sobre a face da terra. Vamos pedi-la para nós e para todos aqueles que são nossos irmãos no Brasil, na Argentina e no Chile.

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Auditório da Rua Pará