Santo do Dia – 21/12/1966 – p. 3 de 3

Santo do Dia — 21/12/1966 — 4ª-feira

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Santa Angelina

Hoje, dia 22 de dezembro… Dia 21 de dezembro, nós temos festa do Apóstolo São Tomé, e amanhã, dia 22 de dezembro, nós temos a festa de Santa Angelina, Virgem, da qual diz Darus, na “Vida dos Santos”, o seguinte:

Santa Angelina nasceu em 1377, em Montegiove, perto de Orvieto, descendente dos condes de Corbara, por parte de pai, e dos condes de Marciano por parte de mãe.

Aos 12 anos consagrou a Deus sua virgindade, correspondendo às graças que recebia desde a infância. Mas, três anos depois, seu pai decidiu casá-la com o conde de Civitela. Em vão a jovem implorou-lhe que a deixasse consagrar-se a Deus. Foi ameaçada de morte se não consentisse no casamento no prazo de oito dias. Nessa aflição, Angelina recorreu ao Senhor, que lhe recomendou cumprir a vontade do pai. Ela desposou então o conde, decorrendo a cerimônia em meio a grandes festejos tradicionais.

Ao aproximar-se a noite a jovem ajoelhou-se, ou melhor, a jovem refugiou-se no quarto e, cheia de angústia, ajoelhou-se aos pés do crucifixo, pedindo a Deus que a protegesse. O conde, chegando, perguntou-lhe o motivo de suas lágrimas e, ao saber do voto que fizera, tocado pela graça, quis imitá-la. Ajoelhou-se e prometeu, com sua jovem esposa, guardar a castidade e considerá-la como irmã. E ambos agradeceram a Deus a grande graça recebida.

Um ano depois o conde morria, deixando Angelina livre. Esta entrou na Ordem Terceira de São Francisco, dedicando-se inteiramente às obras de caridade e de conversão dos pecadores.

Seus milagres tornaram-na famosa, e ela retirou-se, por causa disso, para Civitela; mas grande número de nobres dessa cidade, desgostosos de ver jovens de grandes famílias entrarem no convento por influência de Angelina, queixaram-se ao rei, que a exilou. A santa continuou, no exílio, seu trabalho, tendo fundado numerosos conventos de clausura, segundo a Regra franciscana.

Morreu em 1435, como mãe de uma grande família de almas.

É mais uma lindíssima biografia que nos traz presente o apuro pelo qual essa santa passou e a grande confiança na Providência que ela demonstrou, voltando-se para Deus na situação em que ela estava. Ela fizera um voto de virgindade. O pai determina que ela se case, e ameaça de matá-la se ela não se casasse. Isto é bem a posição eterna do liberal. Quando uma pessoa faz voto de virgindade, tem direito até de matar para obrigar a não cumprir o voto. Mas se, pelo contrário, a pessoa é má e quer cometer o pecado, então precisa dar liberdade de cometer o pecado, porque todo homem é livre. Muito provavelmente este pai, se tivesse uma filha devassa, fecharia os olhos. Mas como a filha dele não era devassa, para com ela, ele foi um verdadeiro tirano. Os senhores dirão: “Mas, Doutor Plinio, o senhor falou em liberalismo. Nós estamos em plena Idade Média. Nesse tempo, liberalismo não existia”. O liberalismo não existia como doutrina especificamente explicitada, mas ele é velho como o mundo, e existiu sempre depois do pecado original, como impulso, como estado habitual de contradição, como ódio crônico ao bem1, de maneira que, aqui, se pode falar perfeitamente de liberalismo.

Bem, ela então vai e pede a Deus o que é que ela deve fazer. E Deus lhe revela que ela deve se casar. Ela, com toda obediência, se casa; mas a gente vê que ela trazia, no fundo da alma, se não era nos termos expressos da revelação divina, a esperança de que ela não seria obrigada a desistir de sua bem amada virgindade. E, então, depois de um dia de festas nupciais — podem imaginar que dia trágico para essa coitada —, ela vai ao crucifixo chorando, e pede a Deus o auxílio para que no novo estado onde ela entrara por vontade d’Ele, ela ali encontrasse, entretanto, a possibilidade de praticar a virgindade. Entra o novo esposo, o jovem esposo dela, encontra-a rezando junto ao crucifixo. Vê que ela chora, pergunta por que. Ela declara a razão e ele resolve, então, tocado pela graça, viver como irmão com ela. Os senhores vejam que linda transformação. Os senhores vejam que verdadeiro milagre moral. Era para premiar uma confiança que, até o último minuto, tinha esperado contra toda esperança; nada dava a entender que tinha saída o caso dela. Mas, no momento oportuno, houve o milagre e, para o caso dela, houve uma saída.

Bem, um ano depois o jovem esposo morre e, então, ela está livre. Não perdeu sua virgindade, mas está em condições, então, de se consagrar à sua vocação. Ela funda, então, um convento. O convento floresce tanto que começa a encher de moças. Novamente a atitude má dos pais: não querem, pedem a expulsão dela do lugar, porque ela está drenando, para o convento, as moças da mais alta sociedade. Feliz época em que uma santa podia fundar um convento; em que, fundando o convento, ela não era perseguida no convento, mas era superiora; em que, sendo superiora do convento, ela atraía as moças que podiam ter uma vida mais agradável, mais brilhante, mais fácil; ela as atraía para o convento. Feliz época, essa, de grande receptividade para a palavra de Deus, para a vocação de Deus, quero dizer. Ela é expulsa, ela funda conventos em vários outros lugares. A sua obra está completa. Ela fundou uma Congregação. De revés em revés, de apuro em apuro, de precipício em precipício ela conclui o périplo completo. Ela foi casada, ela foi casada, mas se conservou virgem. Ela, com isso, adquiriu sua independência, fez um convento, povoou-o, e depois fundou vários outros conventos. E todas as pessoas furiosas contra ela, pai, pais de outras amigas, etc., ficaram rosnando sem pode fazer nada. Por quê? Porque Nossa Senhora tinha a mão na coisa e, como diz bem o Hino das Congregações Marianas, “de mil soldados não teme a espada, quem pugna à sombra da Imaculada”. Nossa Senhora resolveu tudo e venceu tudo.

Isso é uma lição para nosso apostolado. Nós devemos compreender que, às vezes, as coisas mais altas que desejamos, mais difíceis, digo, mais nobres, mais santas, esbarram com obstáculos inesperados, porque Nossa Senhora quer que Ela mesma, depois, resolva o caso. E todos os esforços humanos se tornam baldos diante disso. Mas pouco importa. Virá o momento em que Nossa Senhora intervém e aquilo que a graça fala no interior de nossa alma, se realizará. Confiança na voz interior da graça; confiança naquilo que Deus Nosso Senhor nos diz, por intercessão de Nossa Senhora, dentro da alma, porque aquilo se realizará. O “Livro da Confiança” começa com essas palavras expressivas: “Voz de Cristo, voz misteriosa da graça, Vós murmurais, no interior de nossas almas, palavras de doçura e de paz”. Realmente, quantas e quantas vezes nós sentimos, em nossas almas, movimentos da graça cheios de doçura e de paz, que nos levam a pedir coisas que nos parecem inobteníveis. Mas, à força de confiar na doçura e na paz, contra toda a esperança, à força de rezar e à força de agir, isso acaba se realizando.

Qual é a grande esperança nossa do momento presente? Nós, mais do que nunca, nós devemos esperar que Nossa Senhora, neste apuro sempre mais trágico do cerco que os adversários da Igreja estão deferindo contra Ela, Nossa Senhora, e contra Ela, Igreja, que Nossa Senhora, afinal, consiga de Deus que Ele se levante; que Ele, que parece estar dormindo no barco de São Pedro, acorde e que comece a se mover no mundo, para operar as suas grandes obras. Nós devemos estar dia e noite devorados por esse desejo, dia e noite desejando isso. Que Deus se levante e que comece a operar as suas maravilhas. Porque, realmente, quando Deus começar, ninguém O deterá. E nós que vemos, por enquanto, a causa verdadeiramente católica tão perseguida, sofrendo tantas provações, quando Deus se mover nós compreenderemos o que é o braço poderoso de Deus. E nós mesmos ficaremos estarrecidos ao ver os obstáculos caindo, as montanhas se fundindo, os precitos caindo no inferno, as almas ainda aproveitáveis se convertendo e o Espírito Santo, a rogos de Nossa Senhora, soprando sobre toda a terra, para renová-la. Isso é o que nós devemos pedir de todo coração.

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1 No microfilme estava a palavra “mal”. Não faz sentido.