Santo do Dia – 20/12/1966 – p. 7 de 7

Santo do Dia — 20/12/1966 — 3ª feira

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Texto e foto de um Auto da Fé no século XVIII; a imensa gravidade do pecado de apostasia; quanto o pecado é público, exige reparação conveniente; as penas infamantes são de acordo com o Direito Natural; pelourinho mandado construir por São Luís; como funcionava; exemplo de punição ao pecado de impureza; cerimônia no Auto da Fé; reconciliados e impenitentes; a Igreja pune com severidade, mas acata o pedido de perdão com sofreguidão; exemplo de S. Fernando de Castela.

* Documento histórico sobre o Auto da Fé * Quem vive num país católico tem graças para conhecer a verdadeira Fé * Só se abandona a verdadeira Fé recusando graças * Pecado público exige reparação pública * Penas infamantes. Pelourinho de São Luís * Pena de crime contra a pureza * Penas infamantes conforme o Direito Natural * Auto de Fé: os que abjuravam e os que se negavam a tal * Descrição da cerimônia * Maternidade da Igreja * Quadros históricos de auto da Fé e exemplo de S. Fernando

Auto da Fé

Hoje, dia 20, é festa de São Filogônio, Bispo e Confessor.

Bispo de Antioquia. Juntamente com o Bispo Santo Alexandre e seus companheiros, abriu a primeira luta contra Ario em defesa da Fé católica.

Agora, eu tenho do Dr. Paulinho uma comunicação seguinte:

* Documento histórico sobre o Auto da Fé

Doutor Plinio, não havendo, hoje, ficha para o Santo do Dia, o senhor poderia fazer um comentário deste trecho, sobre o Auto da Fé e sobre as fotografias anexas que a Comissão de História mandou tirar de um livro do século XVIII, a respeito da Inquisição?

É, portanto, a respeito desse assunto que nós devemos falar hoje à noite.

No que diz respeito a São Pedro Arbues, que era um inquisidor e mártir, a enciclopédia “Espasa-Calpe”?, no volume sessenta e quatro, traz as seguintes notas a respeito do Auto da Fé:

Para levar a cabo as abjurações públicas dos réus conversos e entregar às autoridades seculares os pertinazes e os que haviam cometido crimes ordinários, tinham lugar os Autos da Fé.

Uma força militar precedia aos Irmãos de São Pedro Mártir, que levando seu pendão, caminhavam alinhados em duas filas. Seguiam-nos muitos cavaleiros e vizinhos, vestindo rigoroso luto.

Vizinhos” é “vecinos”, está mal traduzido; quer dizer, pessoas que habitam o mesmo lugar.

vestindo rigoroso luto. As comunidades religiosas eclesiásticas e seculares, os teólogos encarregados da censura de livros, levando a cruz verde coberta com pano negro, e, encerrando o cortejo, o tribunal com o pendão da Fé, os fiscais, secretários, ministros, titulares, notários e demais familiares levando círios acesos.

Ministros de Estado e pessoas da nobreza.

O alguazil-mor ia montado com a escolta, levando os réus com a barba e o cabelo raspados, cobertos com hábitos penitenciais de tela amarela que levavam adiante, e, na espalda, a cruz do pano de Santo Andrés, de cor roxa. E cobriam as suas cabeças as mitras de condenados, com chamas pintadas, ou sem elas, segundo a pena que haviam merecido.

Rodeavam-nos os alguazis religiosos, que excitavam seu arrependimento e lhes guardavam grande consideração, conduzindo-os a pé, sem ataduras, e levando, cada um, um círio apagado. Unicamente aos blásfemos, punha-se-lhes mordaça e uma corda na cintura.

Eu vou, depois, comentar cada um desses pormenores.

No lugar do Auto, coloca-se tablados com bancos para a comitiva, reservando-se aos réus um lugar à parte, e debaixo de um dossel negro, dispunha-se as cadeiras para o tribunal. Uma toalha roxa, com as armas do Santo Ofício, cobria a mesa cujos lados ocupavam os secretários. E a cruz verde da Inquisição, coberta com um véu negro, colocava-se sobre um altar luxuosamente preparado.

Os Autos da Fé realizavam-se em locais diversos das execuções civis. Chegada a comitiva, o Auto começava pela leitura dos processos e sentenças. Cada um dos réus comparecia, pela última vez, perante o tribunal. Os que abjuravam seus erros eram destinados, em algumas ocasiões, a um mosteiro para instruir-se na doutrina cristã e cumprir as penitências canônicas. Os outros, apóstatas impenitentes, eram entregues ao braço secular.

Tinham lugar nos Autos de Fé as abjurações públicas dos apóstatas e hereges arrependidos. O cerimonial da abjuração era o seguinte: o abjurante jurava e subscrevia uma fórmula, que lia — depois no Auto da Fé, e por isso recebeu tal nome — de joelhos, levando um círio apagado na mão e vestindo os hábitos penitenciais indicados.

Os ministros do Santo Ofício, com uma vara ou bastão na mão, símbolos da autoridade, tocavam-lhes as espáduas, significando as penas em que haviam incorrido, enquanto o bispo rezava determinadas orações e os aspergia com água benta, ao que se seguia o canto do Miserere e do Veni Creator, com coro, dando em seguida o bispo, absolvição aos reconciliados.

Retirava-se, então, o véu negro que cobria a cruz da Inquisição; acendia-se o círio dos abjurantes para significar a luz da Fé que voltava a renascer neles. Celebrava-se a Missa e, concluída essa, beijavam, os reconciliados, a mão do celebrante oferecendo-lhe seus círios. As tropas faziam salva, tocavam música em sinal de júbilo e tudo estava terminado.

Bom, estava tudo terminado, quer dizer, quando não se matavam também os que tinham se recusado a abjurar. Qual é o significado dessa solenidade, cujos pormenores daqui a pouco eu vou analisar?

* Quem vive num país católico tem graças para conhecer a verdadeira Fé

O ponto de partida dessa solenidade consiste no seguinte: são dois pontos de partida. Em primeiro lugar, que o homem que vive num país católico, que tem a oportunidade de conhecer a Fé católica, esse homem tem as graças necessárias para saber qual é a verdadeira Fé. E, portanto, passado um tempo razoável, se ele não se converte à Religião Católica, ele é culpado de má fé. Evidentemente isso supõe um certo tempo, supõe certas condições etc., etc., mas o princípio é verdadeiro, este homem é culpado de má fé.

* Só se abandona a verdadeira Fé recusando graças

Ainda maior culpa de má fé tem aquele que é católico e abandonou a Religião Católica. Porque abandonar a Religião Católica consiste em cometer, não, constitui pecado de apostasia. E o pecado de apostasia, por sua vez, é um pecado mortal que é o pior dos pecados, é a perda da Fé; é um pecado contra o Espírito Santo, porque é negar a verdade conhecida como tal. E ninguém pode perder a Fé católica de boa fé. Qualquer pessoa que perca a Fé católica é porque recusou as graças que o Espírito Santo lhe deu. Porque, do contrário, seria admitir que alguém pode cair no pecado de apostasia sem culpa; o que equivale a dizer, então, que a culpa é de Deus.

Então, a partir desses dois princípios, quando alguém está num país católico e conspira contra a Religião Católica, fazendo propaganda contra os hereges… propagando a favor da heresia; quando uma pessoa é católica e apostata da Fé católica, cometeu um pecado horroroso. E a partir do momento em que torne público esse pecado, esse pecado se agravou com o escândalo. E a partir desse momento, só uma coisa pode reparar verdadeiramente a justiça: é que a pessoa que deu esse escândalo, que publicamente ofendeu a majestade de Deus Nosso Senhor…

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Quer mandar vir a água? Não sei o que levaram aqui, estou com a boca sequíssima.

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* Pecado público exige reparação pública

a pessoa que, publicamente, abandonou a religião de Deus Nosso Senhor, esta pessoa ofendeu a Deus publicamente. É preciso que aos olhos dos homens e de Deus, ela seja humilhada. É preciso que ela sofra uma pena que seja uma vergonha, e uma vergonha que seja proporcionada à gravidade do ato público praticado, e proporcionado também à gravidade do delito, quer dizer, à autoridade de Deus e à publicidade que o fato teve. É com essas, com a conjunção dessas circunstâncias, é que se pode realmente restaurar o mal que foi feito.

* Penas infamantes. Pelourinho de São Luís

Os senhores por isso encontram, em toda Civilização Cristã, as penas infamantes. Que, aliás, existiam também nas nações não-cristãs, pelo bom senso que restava no paganismo antigo e que não resta no neo-paganismo moderno.

Ainda há algum tempo atrás, uma revista — ou o Historia” ou “Miroir de l’Histoire” — trouxe a fotografia de uma gravura representando o pelourinho que o rei São Luís mandou fazer no mercado de Paris, para os feirantes que fraudavam os preços e as moedas. Era um pelourinho colocado sobre uma base alta, mais ou menos, vamos dizer, um quarto grande, circular, dentro do qual morava o verdugo, e, em cima, estava o pelourinho. De maneira que o verdugo morava no local do trabalho, o que é eminentemente trabalhístico… Bem, o pelourinho era rotativo e continha uma série de buracos por onde passavam as mãos, e a cabeça e os pés dos condenados. Então, eles ficavam com aquilo parado, primeiro, e todo mundo que queria, podia aproximar-se deles, jogar farinha, passar goma arábica, cortar o cabelo, dar uns tapinhas etc., etc., e eles não podiam dizer nada. Depois, então, que eles estavam bem ridículos, aquilo começava a girar. Enquanto toda a feira se realizava, tinha gente embaixo: “Olha Fulano, que me vendeu caro a cebola! Canalha!”. Ele quieto, prostrado. Ou, então, uma outra mulher que tinha roubado no peso: “Ladra! Aquele peso ficou bem provado ou não ficou?”. E ela quieta. Até o carrasco cansar de girar aquilo e parava; quando ele queria, girava de novo. E estava marcado o número de horas que a pessoa devia ficar, assim, exposta.

* Pena de crime contra a pureza

Quando havia crimes contra a pureza, a coisa era mais ou menos do mesmo estilo. Quer dizer, em alguns lugares pegavam o criminoso e rolavam no mel, ou em qualquer outra matéria assim, graxa, qualquer coisa. Depois levavam para um depósito enorme, com penas de pato, galinha etc., e mandavam rolar lá. A pessoa ficava toda coberta, quer dizer, a nudez desaparecia, mas ficava no estado ridículo que os senhores podem imaginar. Tanto mais quanto que, além disso, também pelo rosto ficavam penas, no cabelo, ficava uma coisa medonha. Então era o passeio pela cidade para ser dito dos moleques: “Olha o sem vergonha! Traiu a mulher dele! Olha o sem vergonha!”. E era um conhecido, pára: “Então, Fulano, você fez mesmo isso? Onde é que se viu? Você não presta para nada” etc., etc. Quando acabava a passeata, o homem estava arrasado para todo o sempre. Quer dizer, era um modo de quebrar aos olhos de todos, vingando a glória de Deus, de quebrar a desordem que o pecado tinha cometido.

* Penas infamantes conforme o Direito Natural

Naturalmente a Revolução é a Revolução, e ela aboliu todas as penas infamantes. Mas essas penas infamantes são conformes o direito natural, sobretudo conforme o direito natural dentro do clima da civilização católica. Porque, como para todo pecado de que houve emenda verdadeira, existe perdão verdadeiro, se a pessoa, depois, levasse uma vida direita, era, de fato, re-encaixada ou restituída ao conceito geral e à consideração geral. Ela só sofria isso enquanto estava fresco, fresca a lembrança de seu pecado. Depois disso, se havia uma vida regular, pelo contrário, vinha a reabilitação e a pessoa podia viver com consideração. Quer dizer, o perdão existia verdadeiramente. Então esse era o princípio para os que tinham pecado contra a Fé.

* Auto de Fé: os que abjuravam e os que se negavam a tal

E o que nós temos aqui é uma cerimônia de restauração da glória de Deus, pela vergonha imposta aos que pecaram contra a Fé. A idéia era a seguinte. A cerimônia se compunha de duas partes: os hereges, fundamentalmente, eram levados aos olhos de toda a cidade, e ali eles eram divididos. Os que abjuravam, ficavam de um lado; os que não abjuravam eram entregues ao braço secular para serem condenados. E aqui vem, então, a cerimônia de ambos saindo dos cárceres da Inquisição para o lugar central da cidade, onde se deveria realizar essa reparação.

O sistema, a cerimônia se compunha de três partes distintas. Uma parte era a preparação, vamos dizer, era a montagem do cenário. Então nós vemos a praça pública com bancos para a Inquisição, com bancos para as pessoas gradas, com o lugar destinado aos hereges e com a cruz verde da Inquisição com um crepe preto. Depois, segunda parte, era um desfile soleníssimo de toda a cidade até esse local onde as cerimônias, propriamente ditas, deveriam se realizar. E o terceiro elemento, ou a terceira parte, era exatamente a separação dos hereges contumazes, que iriam ser queimados no outro dia, e a glorificação, a alegria pela reconciliação dos hereges que, neste dia, iam abjurar.

Aí, então, vem a descrição da cerimônia. Aí, cada pormenor tem o seu significado. Então, diz o seguinte:

Uma força militar precedia os Irmãos de São Pedro Mártir, que levavam seu pendão, caminhando alinhados em duas filas.

* Descrição da cerimônia

A força militar, evidentemente, devia ser com música e era para dar maior aparato. Era a participação oficial do Estado no ato.

Por quê que era a Irmandade de São Pedro Mártir? Porque, precisamente, São Pedro Arbués era um mártir por ter sido inquisidor e ter sido morto pelos inimigos da Inquisição. Então, por isso, essa Irmandade que rezava para os condenados, para a conversão dos condenados, para a salvação deles, essa Irmandade, em duas filas, vinha logo depois da força militar. Cada vez que vamos mais para trás, vêm pessoas mais gradas. Então, depois disso, vinham muitos cavaleiros e pessoas do lugar, vestindo rigoroso luto. Luto pelo pecado que tinha sido cometido, luto pela ofensa feita a Deus. Então, participando da cerimônia num luto negro. Depois, as Ordens Religiosas e eclesiásticas e os teólogos encarregados da censura dos livros, levando a cruz verde coberta com um pano negro. É natural. O clero vinha depois. E nessa função eminentemente eclesiástica, o clero não podia deixar de estar presente. A cruz da Inquisição levava um pano negro, porque a Igreja toda estava de luto. Depois vinham, encerrando o cortejo — quer dizer, o auge do cortejo era o clero; agora começa a descer — vinha o tribunal da Inquisição com o pendão da Fé: os fiscais, secretários, ministros titulares, notários, e demais familiares, com círios acesos. São as pessoas gradas que vão com o círio aceso para firmar a sua fé.

O alguazil-mor ia montado com a escolta, levando os réus…

Os réus vinham, portanto, depois.

com a barba e o cabelo raspados,…

Quer dizer, numa posição ridícula.

cobertos com hábitos penitenciais de tela amarela,…

Hábitos feios, também, e ridículos.

que levavam adiante, na espádua, a cruz de pano de Santo André, de cor roxa.

Não sei por que essa cruz de pano de Santo André.

E cobriam suas cabeças as mitras de condenados, com chamas pintadas, ou sem elas, segundo o que haviam merecido.

Com chamas pintadas, quer dizer, vai para a fogueira.

Rodeavam-nos alguacis e religiosos…

Os alguacis para eles não puderem fugir. Os religiosos:

para excitarem seu arrependimento e lhes guardavam grande consideração, conduzindo-os a pé, sem ataduras, e levando, cada um, um círio apagado.

Círio apagado porque tinham perdido a Fé.

Unicamente aos blásfemos, punha-se-lhes a mordaça e uma corda na cintura.

Por causa da maldição especial do blásfemo, então a mordaça.

No lugar do Auto colocava-se um tablado… e descreve-se, então, o lugar, não é isto? Aí começa, então, a cerimônia. Cada réu comparecia, e, se ele se arrependia, ele dizia. Se ele, então, estava arrependido de fato, ele assinava um documento nesse sentido e havia, então, uma manifestação de alegria da Igreja. Ele, de joelhos. Acendia-se o círio, ele assistia a Missa, e depois ele, então, estava declarado reconciliado com a Igreja. Havia uma manifestação de alegria, cantava-se o Miserere, o Veni Creator, retirava-se o véu negro e estava normalizada a situação. Ele, muitas vezes, era mandado para um convento, para fazer apenas alguma penitência.

* Maternidade da Igreja

Aí os senhores vêem a extrema bondade da Igreja. Ela pune, Ela castiga, Ela desmoraliza, mas, desde que o indivíduo se arrependa, no ato mesmo da desmoralização, já a Igreja aceita o seu [pedido de] perdão e lhe restitui a sua boa vontade, lhe poupa a vida, dá-lhe uma situação estável e regular, lhe abre a porta do Céu e, quando muito, para cautela de suas almas, lhes indica, então, um lugar para fazer uma certa penitência, ou para meditação.

* Quadros históricos de auto da Fé e exemplo de S. Fernando

Os senhores têm aqui — é pena nós não termos projetor — as fotografias interessantíssimas que foram tiradas nesse sentido. Eu me sinto na impossibilidade de fazer o comentário, porque são pequenas as fotografias e o auditório é muito numeroso. O primeiro quadro representa a tortura; o segundo quadro representa o rei assistindo a um Auto da Fé; o terceiro quadro é a procissão e o quarto quadro é a queima.

Seria interessante dizer aos senhores que São Fernando de Castela gostava tanto desses Autos da Fé e, depois, da queima dos hereges, que ele carregava nos seus ombros a madeira necessária para fazer a fogueira para a queima dos hereges. E esse é um verdadeiro santo da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana.

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