Santo
do Dia – 9/12/1966 – p.
Santo do Dia — 9/12/1966 — 6ª-feira
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Transladação da Santa Casa de Loreto
Hoje, não temos santo do dia. Amanhã, nós teremos a festa da Transladação da Santa Casa de Loreto, a casa de Nossa Senhora em Nazaré, onde a Virgem nasceu, o Verbo Se encarnou e Jesus passou sua adolescência na volta do Egito. Foi transportada pelos anjos para Loreto, na Itália, e sua relíquia se venera em nossa capela, quer dizer, nós temos um fragmento da Santa Casa de Loreto, em nossa capela.
Amanhã é aniversário do Dr. Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira.
Nós temos amanhã, então — como comentário da festa de amanhã — um trecho de Rohrbacher, a respeito da transladação da Casa de Nazaré:
Em 1291, a Casa de Nazaré é colocada às margens do Adriático, em Raunisa.
Quer dizer, ela foi trazida, pelos anjos, da Ásia Menor, onde ela estava, e para ser salva da dominação dos maometanos, e ela foi, então, depositada no Mar Adriático, em Rauniza.
A população local, cheia de assombro, não sabia explicar o prodígio.
Eis que o Bispo Alexandre, que estava gravemente enfermo, aparece restabelecido e conta a visão que tivera. Chamara pela Virgem e Esta lhe aparecera rodeada de anjos: “Eis-Me aqui, filho, que me chamaste. Vim dar-te um eficaz socorro e explicações para o mistério que desejas revelado. Fica sabendo que a santa morada trazida recentemente ao teu território, é a casa mesma onde nasci e recebi quase toda minha educação. Foi onde recebi a nova trazida pelo Arcanjo Gabriel; onde concebi, por obra do Espírito Santo, o Divino Menino. Foi lá que o Verbo Se fez carne. Os Apóstolos, depois de minha morte, consagraram essa casa ilustre pelos altos mistérios, disputando a honra de ali celebrar o augusto sacrifício. O altar é o mesmo que o Apóstolo Pedro erigiu; o crucifixo que lá se vê colocado, o foi outrora pelos Apóstolos. A estatueta de cedro é a minha imagem feita pelo Evangelista Lucas que, levado pela afeição que por Mim nutria, e pelo apego, exprimiu, por meio da arte, os meus traços, tão perfeitamente quanto é possível a um mortal. Esta casa amada, muito amada pelo Céu, cercada por tantos séculos pelas honras da Galiléia, mas hoje desprovida de homenagens em meio aos desfalecimentos da Fé, passou de Nazaré para essas plagas. O autor desses grandes acontecimentos é Deus, para quem nada é impossível. De resto, a fim de que tu mesmo sejas testemunha e explicador de tudo o que te disse, fica curado. Tu, enfermo desde há muito, surgindo subitamente em toda saúde, levarás a todos a crença desse prodígio”.
Nós estamos aqui na presença de uma verdadeira maravilha. Nós estamos na presença de um milagre operado por Deus para atestar a… [faltam palavras] …o milagre. Os homens podem ter visto de… [faltam palavras] …a Santa Casa de Nazaré ser conduzida, pelos ares, pelos anjos, poderiam ter ouvido os cânticos angélicos, poderiam ter presenciado uma das cenas mais belas da História e poderiam, então, ter crido nesse fato. Mas acontece que, esses milagres muito evidentes, Deus não os faz; Deus faz milagres que tenham certeza de milagre, mas não que tenham a nota de evidência. A diferença que há entre evidência e certeza é que a evidência é uma forma de certeza que o homem de má fé não pode recusar, enquanto a certeza, a simples certeza, é aquela certeza que um homem de boa fé não recusa, mas que um homem de má fé pode recusar. Por exemplo, num milagre: se eu vejo um cego que estava na gruta de Lourdes [e] de repente sara, é um milagre que me dá certeza de que aquilo foi operado por Nossa Senhora; mas não me dá a evidência, como seria, por exemplo, se o homem não tivesse olhos e, de repente, aparecessem olhos nas órbitas dele. Aí, o milagre seria de uma tal monta, que nem a má fé seria possível negar.
Ora, esses milagres de evidência, a Providência Divina não os faz. A Providência Divina faz habitualmente os milagres de certeza. E seria um milagre de evidência ver a Santa Casa de Nazaré voando pelos ares, baixar de repente numa cidade do Mar Adriático. Mas a Providência, como Ela não quis que esse fato fosse visto, mas quis que os homens acreditassem nisso, a Providência, então, dispôs as coisas de maneira tal que houvesse uma prova de que esse fato tivesse sido feito por Deus. A primeira prova estava no maravilhoso do fato. Uma casa, [em que] examinados os materiais, notoriamente [se pode observar que] foi construída no Oriente, [e] que aparece, de repente, num aldeinha, onde ela não existia. Os senhores sabem que, numa aldeinha, todo mundo conhece todas as casas. Não é possível, da noite para o dia, aparecer uma casa nova numa aldeinha, sem que se tenha visto construir, etc., etc. O fato, em si, já tem uma nota milagrosa. Mas, acrescido desse fato do bispo sarar, acrescido pela confirmação de que a casa desapareceu no Oriente, onde estava, acrescido pelo fato de que por razões “X”, “Y”, “Z”, essa casa, depois, ainda foi transferida para Loreto, onde atualmente se encontra, o milagre se torna, então, inteiramente evidente.
Agora, o que é interessante é como a Providência dispôs todas as coisas, de maneira que, numa só casa, se realizassem tantas maravilhas. Os senhores viram que, nessa mesma casa, Nossa Senhora nasceu; nessa mesma casa Nossa Senhora recebeu a Anunciação e concebeu o Verbo; nessa casa Ela passou, antes disso, quase toda a sua existência; nessa casa Ela viveu com o Menino Jesus e São José. Quer dizer, essa casa tem uma continuidade tradicional, que faz com que os fatos sagrados se tenham acumulado uns sobre os outros ali; e a cada novo fato sagrado, ela tem um novo título para se tornar sagrada.
Por que é que isso é assim? Nós vemos, com freqüência, lendo as revelações de Catarina Emmerich, que a Providência faz isso com os objetos e faz isso com os lugares. Os objetos que serviram para algo, servem para mais algo, para mais algo, para mais algo de tradicional e de sagrado. Os lugares, em que se passou algo, são os lugares em que se passou mais algo, mais algo, etc. Por quê? É porque a Providência sabe, a Providência é Autora da ordem natural das coisas e, com a ciência infinita de Deus, Deus conhece naturalmente que, entre um lugar e um fato que se passa nesse lugar, se estabelece uma misteriosa coesão, se estabelece uma misteriosa unidade por onde algo do admirável o benefando, ou melhor, do fato passa para o lugar.
Como qualquer um de nós gostaria, por exemplo, de poder colocar a sua fronte, poder descansar sua cabeça em uma pedra do caminho aonde Nosso Senhor tivesse descansado a sua fronte infinitamente sagrada. Por quê? Porque depois daquele fato e até nossos dias, quantas coisas se mudaram, quantas coisas se passaram; mas, uma vez que Ele ali pousa Sua fronte, aquilo ficou sagrado, tomou uma certa comunicação com a fronte d’Ele e algo de sagrado ali ficou. Quantos de nós teríamos verdadeiro encanto — é um dos anhelos de minha vida, e eu espero, não posso ter certeza, que me seja dado fazer isso antes de morrer —, quantos de nós não gostaríamos de passar uma noite inteira de adoração no Jardim das Oliveiras…, com o Evangelho na mão, lembrando, com Catarina Emmerich na mão, lembrando cada um dos fatos, cada um dos episódios que ali ocorreram, osculando o chão, pedindo perdão pelos Apóstolos, que não quiseram vigiar durante aquela noite, fazendo então a nossa vigília como reparação; fazendo, representando uma reparação por tanta gente que devia estar vigiando pelos interesses de Nossa Senhora e da Civilização Cristã e que não se incomoda com nada disso, que pensa apenas na sua própria… [faltam palavras] …e que dorme nessa hora de agonia da Civilização Cristã.
Agora, por que estar no Horto das Oliveiras? Isso não poderia ser feito aqui? Eu vou dizer mais. Vejam os senhores até que ponto vai o mistério desse assunto. Em última análise, Nosso Senhor está realmente presente em qualquer sacrário, de qualquer igreja de São Paulo, e eu, fazendo essa meditação junto a Ele, realmente presente, eu, em tese, estou muito melhor do que fazendo no Horto das Oliveiras, onde Ele não está realmente presente. E, entretanto, eu que posso fazer essa meditação aqui com tanta facilidade, eu sonho com a idéia de poder fazer essa meditação lá, onde Ele não está realmente presente, por essa continuidade misteriosa das pessoas, dos fatos, das coisas. Por causa de uma tradição que fica de que, quando desse o fato, quando morre a pessoa, a coisa que fica é uma espécie de continuação do resto.
É no que se funda o culto, exatamente, das relíquias indiretas. A relíquia direta é a que é tirada do corpo de um santo; a relíquia indireta é algo em que o santo tocou e que toma uma continuação com isso. E a Santa Casa de Loreto é uma augustíssima continuação de todas essas coisas admiráveis que aqui vêm mencionadas, inclusive dessa coisa tão misteriosa de que São Luís Grignion trata com uma elevação sem nome, e que é aquele período de trinta anos em que o Verbo Encarnado quis estar obediente inteira, completa e irrestritamente a Nossa Senhora, numa vida oculta a todos os homens, mas da qual ele diz essa coisa espantosa: que Jesus Cristo deu mais glória ao Padre Eterno ficando trinta anos em casa de Nossa Senhora, sob a autoridade d’Ela, do que redimindo todo o gênero humano.
Então, vamos voltar nosso espírito para a Casa de Loreto e vamos pedir a Nossa Senhora que nos dê, amanhã, a graça de uma maior proximidade e de uma maior devoção para com essa realidade admirável que é o Filho de Deus, o Senhor Onipotente de todas as coisas, obedecendo a São José e a Nossa Senhora trinta anos, na Casa de Loreto. Vamos voltar a nossa atenção para esse fato, para nós compreendermos de um modo mais vívido, mais interno e mais profundo, toda a sujeição que nós devemos a Nossa Senhora.
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