Santo do Dia (Rua Pará) – 1/12/1966 – 5ª feira [SD 136] – p. 4 de 4

Santo do Dia (Rua Pará) — 1/12/1966 — 5ª feira [SD 136]

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Dados biográficos de São Diniz, mártir * Recebendo a graça de se tornar carmelita, defende Goa de ataque holandês * Preso e martirizado pelos muçulmanos, beatificado por Leão XIII * A beleza da biografia e a compatibilidade entre a piedade e a combatividade * A “heresia branca” camufla, abafa e desvia biografias como a de São Diniz * Que nos conceda a plena visão da conaturalidade das duas linhas de suas virtudes, e sua posse efetiva, para os grandes dias da nossa luta

* Dados biográficos de São Diniz, mártir

Hoje estamos na novena de Nossa Senhora da Conceição e aniversário da ordenação sacerdotal do Pe. José Luís Villac. Amanhã continua a novena de Nossa Senhora da Conceição e nós teremos a festa do Bem-Aventurado Dionísio ou Diniz da Natividade, mártir.

Os dados biográficos dele são tirados da obra de Abbé Daras “Vidas dos Santos”.

Diniz nasceu em Honfleur, na Normandia, sob o nome de Pedro Bertelot. Seu pai, convertido do calvinismo, afastara-se de Saintonge, sua terra natal, para escapar definitivamente ao contágio da heresia. Era ele cirurgião da marinha real, tornando-se depois armador e capitão de navio mercante. Casando-se com uma jovem, filha do senhor de Chamalonde, entrou na nobreza do país. A 12 de dezembro de 1600 nascia Pierre, futuro bem-aventurado.

Desde cedo embarcou com seu pai em longas viagens, tornando-se hábil piloto e notável fabricante de instrumentos náuticos, que fazia com suas próprias mãos. Era um rapaz alto, bem talhado e sua fisionomia irradiava um encanto especial proveniente da sua juventude muito inocente.

Em 1619, mercadores de Paris e Rouen associaram-se para fazer comércio nas ilhas de Sonda. Pierre foi aceito como voluntário num dos navios preparados e partiu de Honfleur.

Em breve, sua história se desenrolou em meio a incríveis aventuras: seu navio é atacado por hereges holandeses e ele escapa por milagre, ingressando como piloto numa sociedade de negociantes de Saint-Malo. Novamente cai em mãos de holandeses, até que se une aos portugueses que representavam, nas Índias, o elemento católico. Vai a Goa, onde é aceito como piloto pelo Vice-Rei. Tinha então 29 anos. É então que a graça o chama.

* Recebendo a graça de se tornar carmelita, defende Goa de ataque holandês

Os carmelitas descalços da reforma de Santa Teresa acabavam de se estabelecer em Goa. Entre os religiosos figurava Felipe da Santa Trindade, de grande virtude. Pedro sentiu-se atraído por esses religiosos tão austeros, e começou a freqüentá-los. Desde essa época, como em algumas ocasiões se escondesse, foi descoberto um dia flagelando-se rudemente. Queria preparar-se para os rigores do Carmelo.

Entretanto, dirigia numerosas expedições marítimas com grande sucesso. Contribuiu para fazer levantar o bloqueio da ilha de Malaca, feito por galeras muçulmanas. Uma vez lançou-se à abordagem, machado na mão, e foi derrubar o estandarte inimigo. Suas proezas deram-lhe grandes distinções honoríficas: foi nomeado cosmógrafo real; o Governador das Índias quis enobrecê-lo dando-lhe como brasão uma torre encimada por um estandarte; o Vice-Rei, Conde de Linhares, também o estimava particularmente. Mas Pedro queria ser carmelita e tornou-se Frei Diniz da Natividade.

Quando da sua profissão, o novo Vice-Rei Pedro da Silva protestou vivamente, dizendo que lhe levavam seu mais hábil homem do mar. O superior prometeu-lhe, então, que Frei Diniz, embora religioso, estaria à disposição de Sua Alteza quando este precisasse. E a promessa foi cumprida. Os holandeses vieram sitiar Goa e Frei Diniz retomou o seu posto no navio-chefe português. Foi visto com sua túnica marrom e manto branco sentado ao leme dirigindo as manobras da frota.

Que coisa esplêndida, não é? O mar, singrando pelo largo, o manto alto e ele no leme!

Da mesma forma, dezesseis anos antes, um outro carmelita, Frei Domingos de Santa Maria, conduzia, crucifixo na mão, os exércitos católicos contra as tropas protestantes.

* Preso e martirizado pelos muçulmanos, beatificado por Leão XIII

Entretanto, o poderoso sultanato de Atchim quis fazer uma aliança com Portugal contra os holandeses. Os lusos para lá enviaram uma embaixada, entre cujos membros estava Frei Diniz, por causa de seu grande conhecimento do idioma nativo e da região de Sonda. Mas os holandeses indispuseram os muçulmanos e estes prenderam todos os membros da comitiva.

Começou para Frei Diniz e companheiros um longo calvário. A ele, particularmente, por causa de sua fama, tratavam mais rudemente.

Após um mês de cativeiro, sessenta portugueses foram conduzidos à morte. Frei Diniz a todos animou, chefiando o grupo de mártires. Foi deixado por último, mas os carrascos temeram matá-lo, pois julgavam-no sobre-humano. Enfim, um renegado brandiu-lhe o primeiro golpe, seguido de outros. O religioso caiu gritando: Jesus, Maria! Era o ano de 1638.

Três grandes foram os milagres que imediatamente se seguiram à sua morte, que logo foi venerado universalmente. Mas a grande distância e dificuldade de contato com o sultanato de Atchim fazem demorar sua canonização.

Em junho de 1900, Leão XIII o beatificou.

* A beleza da biografia e a compatibilidade entre a piedade e a combatividade

Nós temos aqui uma lindíssima biografia que apresenta o seguinte de particularmente notável para nossa época: é que as expedições náuticas e a vida no mar, as navegações, eram, naquele tempo, algo que ainda tinha um tanto da modernidade que têm hoje as viagens astronáuticas. Ir para a Índia, ir para a China, isso era prova de que um homem tinha um raro valor, que se expunha a perigos extraordinários.

E os senhores vêem esse fato curioso: que esse rapaz era um rapaz muito casto, ao mesmo tempo um rapaz muito perito na construção de instrumentos náuticos, um rapaz muito batalhador, e que a ninguém passava pela idéia que a condição de piedoso, de casto, de batalhador e de bom técnico, fossem condições incompatíveis. Pelo contrário, se entendia que uma coisa trazia a outra, pelo princípio natural de que todas as qualidades e virtudes são irmãs entre si, e são incompatíveis apenas com o defeito, com o erro, com o pecado. De maneira tal que se considerava normal que um homem fosse tão piedoso e fosse inteiramente combativo.

Então os senhores vêem que ele entra na Ordem do Carmo, e apesar de se avançar ainda mais em piedade e tomar mesmo um estado religioso que é incompatível com a combatividade, ele luta, entretanto, como um verdadeiro leão contra os hereges, contra os inimigos da coroa portuguesa, conservando sua combatividade dentro do estado religioso.

É uma bela manifestação de como essas duas coisas são compatíveis, e quanta razão tem o “Catolicismo” quando frisa a necessidade de uma para a outra ser plena. Não há verdadeira piedade sem combatividade, não há verdadeira combatividade sem piedade.

* A “heresia branca” camufla, abafa e desvia biografias como a de São Diniz

Aí os senhores têm, então, a manifestação da piedade católica inteira, a expressão da figura do varão católico completo, os senhores têm isso na vida desse bem-aventurado, e os senhores vêem também quão benemérita é nossa Comissão de História em desenterrar essas biografias. Porque a “heresia branca” fez um trabalho de camuflagem tal, que nunca dos nunca os senhores saberiam disso sem um trabalho dessa Comissão. Eu, por exemplo, não conhecia essa vida. Estou com 57 anos, vou fazer 58.

Canonizado por Leão XIII. Mas por quê? Abafa-se, desvia-se, cala-se, não é verdade?

* Que nos conceda a plena visão da conaturalidade das duas linhas de suas virtudes, e sua posse efetiva, para os grandes dias da nossa luta

Vamos pedir a esse santo que nos conceda a graça de uma plena visão da conaturalidade dessas duas linhas de virtudes, para formar uma virtude só, e a posse efetiva dessa virtude para os grandes dias de luta de Nossa Senhora que não hão de tardar.

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