Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 18/11/1966 – 6ª feira [SD 083] – p. 4 de 4

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 18/11/1966 — 6ª feira [SD 083]

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Hoje é festa da dedicação das basílicas dos apóstolos São Pedro e São Paulo e amanhã, 19 de Novembro, será festa de Santa Isabel da Hungria.

A exemplo de Nosso Senhor, o católico é vítima de inimizade - O leproso transfigurado em Jesus, diante de S. Isabel * A filha do rei tem que refugiar-se num chiqueiro e chega a padecer tentações contra a fé, mas vai ao cume da santidade * O “repreende o justo e ele te amará” na singular conduta do confessor * Suas cinzas profanadas pelo Protestantismo, exemplo de constância nas desgraças

D. Guéranger, no “Année Liturgique”, diz o seguinte:

Filha de André II, rei da Hungria, Isabel nasceu no ano de 1207. Com a idade apenas de 4 anos ela foi à corte da Turíngia, onde desposou em 1221 o Landgrafen Luís. Casamento feliz. O príncipe compreendeu admiravelmente a sua ainda tão jovem esposa e lhe deu liberdade de praticar as suas devoções e suas penitências à vontade. E, ao mesmo tempo, ele abriu largamente a sua bolsa à inesgotável caridade da princesa. Esposa e mãe exemplar, Isabel se levantava durante a noite e permanecia longas horas em oração.

As provações começaram quando da partida do Duque Luís para a cruzada. Não levou muito tempo para que ela tomasse conhecimento de sua morte, no ano de 1227.

Quando ela tinha, portanto, 20 anos.

E o próprio irmão do Landgrafen, chamado Henrique, deitou imediatamente a mão sobre os estados do defunto. Expulsa de sua residência com suas quatro crianças, da qual a última não tinha senão alguns meses de idade, sem recursos, ela foi obrigada a procurar, em pleno inverno, um agasalho que a crueldade de seu cunhado proibia aos habitantes de lhe oferecer. Ela conheceu então a pior miséria e se sentiu feliz de encontrar um abrigo num estábulo para porcos. Em pouco tempo, porém, a sua fortuna lhe foi restituída, mas ela quis permanecer entre os pobres e foi no meio deles, em uma choupana, que ela morreu, no dia 17 de Novembro de 1231, na idade de 24 anos. Quatro anos mais tarde, Gregório IX a canonizava e seu culto se estendeu à Igreja universal.

Alguns fatos desta vida são dignos de nota.

Ela era filha de rei da Hungria e casou-se com um landgrafen alemão, o landgrafen da Truíngia.

O que era um landgrafen?

Ao pé-da-letra, land é terra e grafen é conde. O landgrafen é o conde de uma terra. Mas era um grande senhor feudal, uma espécie de príncipe, com o qual ela se casou.

Ela foi para a corte dele aos 4 anos de idade. Porque prevalecia naquele tempo a idéia — pelo menos nas altas camadas sociais — de que era conveniente mandar que as meninas fossem muito cedo para os castelos e as famílias onde deveriam se casar. Porque aí poderiam tomar toda a formação do lugar e assumir inteiramente toda a alma do lugar. Embora elas fossem livres de dizer não no momento em que elas fossem maiores e de fato se casassem.

Ela foi para lá e ela foi muito feliz. Ela com seu esposo, durante o tempo inteiro, se deu muito bem, até o esposo ir para a cruzada.

* A exemplo de Nosso Senhor, o católico é vítima de inimizade - O leproso transfigurado em Jesus, diante de S. Isabel

Agora, o que acontece é que os verdadeiros filhos da luz, os verdadeiros católicos sempre acumulam em torno de si toda espécie de inimizade. Não existe nenhum verdadeiro católico que não seja perseguido. Nosso Senhor Jesus Cristo já disse isto aos discípulos d’Ele, que todo autêntico discípulo d’Ele seria perseguido como Ele o foi também. E ela tinha contra si toda espécie de odiosidades formadas. Estas odiosidades vinham, muitas vezes, em geral das virtudes dela, mas exploravam aspectos da virtude dela que são menos fáceis de compreender por pessoas de mau espírito.

Assim, por exemplo, uma certa ocasião ela escolheu um leproso que ela viu passar pelas ruas e o recolheu no castelo dela, levou para dentro do castelo, deitou no próprio leito dela e começou a tratar do leproso como se fosse o próprio Cristo, à vista daquela palavra de Nosso Senhor de que todos os que são sofredores representam a Ele, Nosso Senhor. E nisto, a sogra que soube disto — as sogras, não precisa que os senhores sejam muito virtuosos para implicarem com elas — procurou o landgrafen e disse a ele: “Veja o que é sua esposa, que está metendo um leproso na sua cama, para depois a doença passar para você quando você for lá. Vá lá e você encontra o leproso deitado na cama”.

Ele foi e encontrou o leproso deitado na cama. Então ele arrancou o lençol e disse:

O que é isto? O que significa este homem deitado neste leito?

Ela disse:

Meu esposo, este homem é Nosso Senhor Jesus Cristo.

No momento em que ela disse isto, deu-se o milagre e o duque viu na pessoa do leproso, visível e sensivelmente, a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. E ele sentiu um cheiro admirável de rosas que se expandia da pessoa do leproso. Então ele ficou profundamente impressionado e a sogra perdeu a partida.

* A filha do rei tem que refugiar-se num chiqueiro e chega a padecer tentações contra a fé, mas vai ao cume da santidade

O duque era muito bom homem. Ele saiu e a perseguição se desencadeou em cima dela. A perseguição se desencadeou de um modo trágico. Os senhores vêem, ela que era duquesa do lugar e filha de um rei, teve que morar num estábulo de porcos. Quer dizer, foi a pior das perseguições. É uma coisa tremenda, que nos faz ver bem qual é a realidade das misérias humanas.

É a seguinte: muitas vezes eram pessoas que tinham sido cumuladas por ela por toda espécie de liberalidades que se manifestavam frias com ela na hora da perseguição. Em vez de ir ao encontro dela, se afastavam, mantinham distância e na hora da perseguição se afirmavam frias em relação a ela.

Ela teve uma famosa noite em que ela foi num convento, foi muito bem recebida no convento, mas depois teve que se retirar porque o cunhado estava se aproximando para persegui-la. Então ela saiu dessa abadia onde ela tinha mandado cantar um Te Deum para dar graças a Deus pelos sofrimentos pelos quais ela estava passando, e caiu uma chuva medonha em cima dela e dos filhos. E chuva de inverno europeu os senhores não podem ter idéia do que é. Porque chove água gelada, para não dizer que chove gelo. É uma coisa tremenda. E ela no mato sofrendo aquilo tudo. Neste momento ela teve até um momento de desfalecimento e parece que lhe passaram algumas dúvidas quanto à Fé, a respeito das quais não se sabe bem qual foi o grau de consentimento dela. Ela se penitenciou a vida inteira disto. Para os senhores verem como o homem é fraco.

Mas a Providência perdoou a ela e ela, afinal de contas, levou anos de penitência e chegou até a mais alta santidade. Os senhores vêem isto pelo fato de que a fortuna lhe foi restituída e, entretanto, ela não quis mais voltar para as regalias antigas, ela quis passar o tempo inteiro no meio dos pobres.

* O “repreende o justo e ele te amará” na singular conduta do confessor

Fato pitoresco da vida dela, que eu creio já ter contado aqui o ano passado, era um capuchinho chamado Conrado, que era o diretor espiritual dela. Este capuchinho entendia que para fazê-la santificar-se era preciso, de vez em quando, dar sovas nela. E dava nela de fato. E ela humildemente aceitava a sova. E então uma vez perguntaram a ela:

O que estáveis sentindo quando o vosso confessor vos esbordoava?

Ela disse:

Eu subia ao terceiro céu.

O confessor soube, disse:

Ah, é? Foi pena eu não ter sabido, que ela teria chegado ao sétimo céu.

Essa era a índole. Mas a Escritura diz: “Repreende o sábio e ele te amará”. Quer dizer, quando o homem é sábio, ele gosta de ser repreendido. Quando ele não gosta de ser repreendido, ele tem a adquirir no caminho da sabedoria. Ela era sábia e gostava desta direção espiritual, por certo muito pouco modern style, por certo muito pouco aggiornata.

Mas era tal a consciência que tinham os habitantes da Turíngia do papel deste homem na santificação dela, que em honra a ela mandaram construir um monumento a ele. Os senhores estão vendo aí a profundidade de conceito que eles tinham disto.

* Suas cinzas profanadas pelo Protestantismo, exemplo de constância nas desgraças

Bem, para terminar, para os senhores verem como a Revolução extingue ou tenta extinguir as coisas mais gloriosas e mais admiráveis, uma das cenas mais famosas da Pseudo-Reforma protestante foi a declaração da Reforma, creio que na Turíngia. O landgrafen protestante, chegando à porta da igreja, diante de um povo incontável, abre o esquife de Santa Isabel da Hungria ou o relicário onde ela está e faz o vento soprar em cima. E o vento espalha por todos os lados as cinzas de Santa Isabel da Hungria. Isto é o Protestantismo.

Ele era descendente dela e fazia isto na qualidade de descendente dela. E os senhores vejam até onde podem chegar as coisas e qual a miséria da vida humana.

Nós temos alguma coisa a pensar a respeito de Santa Isabel da Hungria? Certamente. Nós devemos ver nesta santa a constância nas piores desgraças.

Há duas formas de constância na desgraça. Há uma forma de constância na desgraça que é quando a desgraça acontece e a pessoa agüenta a desgraça. Mas há uma outra forma de constância que é quando a pessoa prevê a desgraça, é capaz de antever, é capaz de a fitar com olhos calmos, é capaz de oferecer o sacrifício que vai ter, ou que vai fazer, a Nossa Senhora, é capaz de fazer a oração de Nosso Senhor no Horto das Oliveiras: “Meu Pai, se for possível, afaste-se de mim este cálice. Mas, se não for, seja feita a Vossa vontade e não a minha”.

Isto é a vida de Santa Isabel da Hungria e é isto que nós devemos ter diante de nós. Na calma, a resignação de ver as desgraças pelas quais devemos passar e a constância no decurso dessas desgraças. E que não se pode conseguir a não ser seguindo o exemplo adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo. E esse exemplo é de, na hora da aflição, orar. Orar e vigiar para não cair em tentação.

É isso que nós devemos fazer por meio da prece onipotente de Nossa Senhora.

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