Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 17/11/1966 – 5ª feira [SD 241] – p. 5 de 5

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 17/11/1966 — 5ª feira [SD 241]

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Tudo é digno de nota nesta biografia: os personagens, os lugares, os títulos nobilitantes * Uma vida que reflete a atmosfera medieval de iluminuras e vitrais, unindo música e filosofia; tudo o oposto de hoje * Um itinerário através de lugares fabulosos, até Cluny * Abade de Cluny, a abadia que deu o espírito à Idade Média * Contraste horroroso: Congresso de Apostolado argentino ataca a Igreja por formar elites * Pilar da Europa, conselheiro de papas e reis, influenciou toda a nobreza, e nos dá saudades do que não conhecemos

Então hoje é festa dos Bem-Aventurados Roque González e companheiros mártires do Rio Grande do Sul, jesuítas. Amanhã, dia 18, será a festa da dedicação das Basílicas dos Apóstolos São Pedro e São Paulo. E, ao mesmo temo, festa de Santo Odo, confessor.

Na “Vida dos Santos” de Omer Englebert nós temos a seguinte síntese biográfica de Santo Odon:

Odon era filho de fidalgos que viviam … [inaudível]… Chateau du Loire, na Alsácia, os quais atribuíam seu nascimento à intercessão milagrosa de São Martinho. Foi mandado ainda criança para a corte de Folk, o Bom, Conde de Anjou, e mais tarde passou para a de Guilherme, Duque de Aquitânia. Aos 16 anos foi acometido de dores de cabeça, que só foram curadas quando o jovem ingressou no cabido de São Martinho, em Tours. Dedicou-se durante vários anos ao estudo dos clássicos e dos Santos Padres, seguindo em Paris, em 901, os cursos de filosofia de Remígio de Auxerre. Aplicou-se também profundamente ao estudo da poesia e da música, as quais cultivou durante toda a vida. Após ter sido chantre do cabido e de ter escrito várias obras, Odon ingressou no mosteiro beneditino de Baume-le-Messieurs na Borgonha, mudando depois para Cluny, quando da fundação desse mosteiro, onde foi nomeado abade. As escolas que ele criou em Cluny atraíram em breve tudo quanto havia de mais nobre no Ocidente. Era costume dizer-se que um príncipe, no palácio de seu pai, não recebia educação mais apurada que os alunos de Cluny. Graças ao santo abade, a influência da abadia espalhou-se por toda a Cristandade. Os papas a ele recorriam em suas dificuldades e os príncipes chamavam-no para reformar os mosteiros em seus estados.

* Tudo é digno de nota nesta biografia: os personagens, os lugares, os títulos nobilitantes

A linha moral, tudo, enfim, nessa biografia é digno de nota. É muito bonito nós notarmos, nós observarmos antes a nomenclatura dos personagens e dos lugares que estão envolvidos nisso.

Os senhores vejam o lugar aonde ele foi mandado, quer dizer, o conde a que ele foi mandado a servir quando era ainda menino, Conde Fulk, o Bom. Isso é de tal maneira um conde medieval, em seu castelo, bom homem, ao mesmo tempo amável, gentil, mas feroz no combate, que realmente chama a atenção. Dá impressão de uma figura de vitral.

Aliás, é preciso dizer que a palavra o “bom” naquele tempo não tinha bem exatamente o sentido que tem hoje. O “bom” naquele tempo não era uma pessoa caridosa, amável, etc., mas era a pessoa capaz de fazer aquilo que devia fazer. Isso é que era. Então, Fulano, o Bom, quer dizer o Fulano que leva a cabo aquilo que tem que fazer, e que, portanto, cumpre os seus deveres, tem capacidade e faz o que deve. Esse era o Fulk, o Bom.

Depois os senhores vêem que ele passa para o Guilherme, Duque da Aquitânia. Tudo o que representa o ducado da Aquitânia, um grande feudo francês, um verdadeiro principado, uma miniatura de monarquia, na parte talvez mais poética da França, que é a França dos jograis, a França dos trovadores, um pouco a França das heresias e das “fassuradas”. Mas afinal de contas era a França com um dos aspectos que era o aspecto poético da Idade Média.

Então os senhores podem imaginar o Conde Guilherme da Aquitânia, sentado num trono de carvalho trabalhado, recebendo homenagens de seus súditos à tardinha, no alto de uma escadaria do castelo, que dava para o pátio onde se adestravam os pajens. De repente, toca o Ângelus, todos interrompem, rezam. Nesse ambiente é que Santo Odon formou sua mentalidade.

Como isso é diferente, por exemplo, da Av. Angélica, ou de qualquer dos lugares onde nós…

* Uma vida que reflete a atmosfera medieval de iluminuras e vitrais, unindo música e filosofia; tudo o oposto de hoje

Bem, depois esse homem que conheceu personagens tão interessantes, foi estudar filosofia, poesia e música na universidade de Paris.

Os senhores estão vendo um estudante daquele tempo, vestido com aquela espécie de batina que vai até embaixo, de cores variegadas, com um chapéu com gorro, com uma pena, e que anda por Paris com alaúde ou com algum outro instrumento, pára à beira do Sena, toca um pouquinho, sai andando, a atmosfera inteiramente poética em que essa vida se passava.

E depois a conjugação: que riqueza uma pessoa estudar filosofia e música ao mesmo tempo; que miserável é o músico que não conhece filosofia, e que trimiserável é o filósofo que não conhece música. Aí, não; é uma idéia, aquela síntese da cultura medieval, tudo é filosofia e música ao mesmo tempo, e tem uma música filosofada e uma filosofia musicalizada. Os senhores compreendem que isso é superior.

É tão diferente das faculdades de filosofia e do Conservatório Dramático e Musical, que é uma caixa de fósforos espremida, aterrorizada entre arranha-céus na Rua São João, não é verdade?

Isso é tão diferente. É uma tal visão das coisas, que a gente tem impressão que são tudo figuras de vitrais, panoramas de iluminuras, toda a luz da Idade Média se irradia com um aspecto contemporâneo da luz contemporânea. É um prenuncio da luz do Reino de Maria.

Os senhores que são mais moços do que eu, quem sabe se vão conhecer estudantes que, ao mesmo tempo, estudam filosofia e música, e alguns sabem fabricar coisas maravilhosas em vidros, cristais para vitrais, numa outra época. Quem sabe se nessa época até as margens do Tietê vão ser poéticas. Vai exigir uma dose de poesia enorme para vencer o prosaísmo das margens do Tietê. Eu não ouso falar do Anhangabaú e do Tamanduateí, porque isso não é possível poetizar, o Tamanduateí.

O mais curioso: ele cultivou essas duas coisas durante a vida inteira.

O conceito hoje é: frade entra no convento, acaba com a música para ter filosofia. Quando toca filosofia… Por quê? Porque a música é uma coisa que profaniza, não sei mais o quê. Não, é preciso saber: a música má é claro que … [inaudível]. A boa música, de nenhum modo.

Pode haver uma coisa mais bonita do que a gente imaginar um abade imponente, majestoso, que numa hora de silêncio na abadia, entra sozinho na igreja e vai fazer seus exercícios de música no coro como grande conhecedor? Pára, toca mais um pouco. Esse abade é um santo e a gente sente algo da santidade dele modulando o próprio som do instrumento que ele toca. Todo mundo precisa saber, reconhecer aquele grande valor … [inaudível]… , numa iluminura … [inaudível]… , sozinho, tocando um instrumento … [inaudível]… , com uma vela acesa. De repente lhe aparece um anjo e fala com ele. Isso é vida. Isso é morte, é degredo, é horror.

Bem, depois nós continuamos.

* Um itinerário através de lugares fabulosos, até Cluny

Ele segue os cursos de filosofia. Vejam o nome imponente do personagem, não sei quem foi Remis d’Auxerre. Remígio é medonho, é um abrasileiramento. Remis d’Auxerre. Pode ter sido um Remis qualquer, mas ele tem o nome de São Remis que fundou a França; depois um homem que tem nome de cidade. Isso é nome, Remis d’Auxerre.

Depois ele se aplicou também, profundamente, ao estudo da poesia e da música.

Após ter sido chantre do cabido e de ter escrito várias obras,…

Ele entrou com intenções tão boas para o cabido, que ele curou-se da dor de cabeça que o trouxe ao cabido. Não é muito freqüente que a entrada do indivíduo no canonicato lhe cure a dor de cabeça.

Odon ingressou no mosteiro beneditino de Baume-le-Messieurs na Borgonha,…

Bom dos Senhores.

Em francês é preciso sempre conhecer a ortografia para conhecer a beleza dessas coisas. Esse bom evidentemente não é Bom, mas é Baume-les-Messieurs. Baume dos Messieurs. A gente tem a impressão de uma cidade pequena, cultivada, distinta, em cuja praça pública há continuamente messieurs que estão conversando de um modo agradável e delicado. É um encanto.

Baume-les-Messieurs é uma pedra preciosa engastada numa jóia. Essa jóia se chama Borgonha, uma das mais fabulosas regiões da França.

Então ele vai para Baume-les-Messieurs, na Borgonha. Os senhores compreendem que é qualquer coisa diferente de ir para Itaquacetuba. Se houver algum itaquacetubano aqui, que me perdoe, mas é diferente mesmo. Ou Caraguatatuba.

mudando depois para Cluny, quando da fundação desse mosteiro, onde foi nomeado abade.

* Abade de Cluny, a abadia que deu o espírito à Idade Média

Os senhores precisam considerar que o mosteiro de Cluny foi que fez a Idade Média. A Idade Média veio de Cluny. Uma grande abadia beneditina, que chegou a ter sob sua regência mais de mil abadias espalhadas pela Europa inteira e que deu o espírito da Idade Média. Para não dizer mais nada, São Gregório VII era monge de Cluny. Para não dizer mais nada. E São Gregório VII foi a Idade Média viva.

Então esse homem, depois de ter estudado poesia, filosofia, música, depois de ter conhecido os messieurs de Baume-les-Messieurs e de ter aprendido a conversar como eles, esse homem é um dos fundadores de Cluny. E vai ser logo abade de Cluny. Quer dizer, ele está nas nascentes do movimento ultramontano da Idade Média. Bem, as escolas que criou em Cluny atraíram em breve tudo quanto havia de mais nobre no Ocidente.

* Contraste horroroso: Congresso de Apostolado argentino ataca a Igreja por formar elites

O Dr. Cosmin me entregou um documento — eu vou baixar, é violento o que vou dizer, mas o que é que eu posso fazer? — com os resultados, as conclusões do Congresso do Apostolado Leigo em Buenos Aires. Isso com Baume-les-Messieurs e tudo faz um contraste horrendo. Uma das coisas que eles atacavam na Igreja é que as instituições eclesiásticas se voltavam a formar sobretudo as pessoas de boas família.

Maior cegueira eu ainda não vi. Porque se se quer fazer bem a muitos ao mesmo tempo, a gente faz bem àquele que depois pode fazer bem aos outros. É evidente. É um pouco como dizer: “Fulano não tem pena dos pobres, naquele lugar fundou uma escola de medicina”. Pois faz médicos que saem e vão cuidar dos pobres. Portanto, teve máxima pena dos pobres. E quem tem verdadeiro amor ao povo e tem pena do povo, forma elites capazes de fazer bem ao povo.

Está aí dez mil metros acima do Congresso do Apostolado Leigo de Buenos Aires. Nem é possível comparar. Está em outra categoria.

* Pilar da Europa, conselheiro de papas e reis, influenciou toda a nobreza, e nos dá saudades do que não conhecemos

Está o nosso Santo Odon, numa época de muito analfabetismo. A primeira coisa que faz é fundar escolas para elite. Então atrai toda a nobreza da Europa. E aí aquele comentário: o menino educado em casa não poderia ter de longe a mesma finura e a mesma educação que se fosse educado em Cluny. E aqui exatamente, o empuxe de partida, que Cluny deu a toda Europa pela influência que teve sobre a nobreza européia, como teve sobre os clérigos.

Agora, como sempre acontecia na Idade Média, os grandes santos eram convidados para serem conselheiros dos papas e dos reis.

Os senhores não vêem hoje, por exemplo, uma carta assim: “Meu santo pai, Fulano de Tal, eu que estou aqui nas dúvidas e perplexidades, quero um conselho sobre o modo de resolver um assunto. Assinado: Juscelino Kubitschek, ou Ademar de Barros, ou João Goulart, ou Castelo Branco”. Os senhores veriam uma carta assinada assim: Carvalho Pinto … [inaudível]… mas mais do que isso não veriam.

Então, esse homem foi um pilar da Europa também enquanto conselheiro de papas e de reis. Aí os senhores têm uma vida que mereceria toda ela ser escrita em vitrais. Em vitrais como os da Sainte Chapelle, ocupando um lado e outro de toda uma catedral, começando com o nascimento dele, depois naturalmente os milagres … [inaudível]… parições, deve ter tido lutas, deve ter tido episódios… por exemplo, encontros com o imperador que o ia consultar, etc., e depois naturalmente até a santa morte dele, que teria, eu lhes garanto, ele esticadinho, à maneira medieval, numa cama feita de uns panos … [inaudível]… caídos por todo lado, e uma pombinha saindo da boca e que era um símbolo da alma que ia para Deus.

Como isso serve para a gente matar saudades daquilo que não aconteceu.

Pensa-se que a saudade da gente é aquilo que a gente conheceu. É muito maior a saudade daquilo que a gente não conheceu, daquilo que nós sabemos que era nossa casa paterna, que nos foi roubada séculos antes de nós nascermos, que foi destruída séculos antes de nós nascermos, e que é a nossa sacrossanta Idade Média. Serve para nós alimentarmos nosso desejo do Reino de Maria.

Que Santo Odon acenda esse desejo em nós e nos acenda a vontade de rezar para que Nossa Senhora apresse a vinda da Bagarre e do Reino de Maria, porque realmente nós estamos num ponto em que é preciso empenhar todas as forças da alma e fazer todos os sacrifícios para acelerar a Bagarre.

Se os senhores querem um estimulante para se resolverem a praticar atos de virtude, ou eventuais atos de mortificação, façam isso. Peçam a Nossa Senhora que aceite tal renúncia, tal sacrifício, para apressar a Bagarre, porque a coisa está num ponto que nós devemos ser umas chamas ardentes em pedir que se apresse logo a Bagarre, para punição dos maus e para implantação do Reino de Maria.

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