Santo do Dia – 10/11/1966 – 5ª feira – p. 5 de 5

Santo do Dia — 10/11/1966 — 5ª feira

Nome anterior do arquivo: 661110--Santo_do_Dia_5__a.doc

São Martinho de Tours destrói o paganismo no Interior; o cristianismo já triunfara nas cidades; a Revolução também se aproveitou das grandes conglomerações humanas; modernas comunicações para penetrar o campo; grandes cidades e opiniões minoritárias; ótica “heresia branca” na consideração da santidade.

* D. Guéranger, grande hagiógrafo * Sociologia da evangelização * A Revolução também se aproveitou das cidades… * E dos grandes meios de comunicação para atingir o campo * A contra-revolução também nasce na cidade * Opiniões minoritárias mais fáceis nas grandes cidades * Paganismo, caipirismo * Um recomenda não destruir, o outro a destruir os templos * Consideração “heresia branca”: S. Martinho e a capa * Derrubar ídolos no momento oportuno

São Martinho de Tours

Amanhã, 11 de novembro, sexta-feira, vai ser festa de São Martinho, Bispo e Confessor. Dom Guéranger no “L´Année Liturgique” diz:

A missão de Martinho, o apóstolo das Gálias, foi de levar a termo a derrota do paganismo que já tinha sido expulsado das cidades pelos mártires, mas que até então continuava senhor de vastos territórios, onde não penetrava ainda a influência das cidades. As Gálias… [faltam palavras] …compreendeu. Em todas essas províncias ele destruiu, numa e depois nas outras, todos os ídolos, e reduziu as estátuas a pó. Queimou e reduziu todos os templos. Destruiu todos os bosques sagrados, todos os antros da idolatria. Martinho, devorado de zelo pela causa do Senhor, não obedecia nisso senão ao Espírito Santo. Contra o furor da população pagã ele não tinha outras armas senão os milagres que ele operava, e os concursos visíveis dos anjos, que lhe era por vezes concedido, enfim e principalmente, as orações e lágrimas que ele efundia diante de Deus quando o endurecimento da multidão resistia ao poder de sua palavra e de seus milagres. Mas Martinho mudou a face de nosso país. Lá onde havia apenas um cristão por sua passagem, apenas restava algum infiel depois de sua saída, os templos do Deus vivo sucediam imediatamente os templos dos ídolos. Porque — diz Sulpício Severo — assim que ele tinha derrubado os asilos da superstição, ele construía igrejas e mosteiros. E assim a Europa inteira se encheu de templos que tomaram o nome de Martinho.

Numa de suas viagens São Martinho caiu nas mãos de salteadores. Os bandidos o despojaram e iam trucidá-lo quando, de repente, tocados pela graça do arrependimento, ou levados por um pavor misterioso, libertaram e o soltaram contra toda expectativa. Perguntou-se mais tarde ao ilustre bispo se nesse risco não teria sentido algum medo. “Nenhum — respondeu —, eu sabia que a intervenção divina era tanto mais certa, quanto mais improváveis os socorros humanos”.

Este é um fato contado sobre São Martinho de Tours no nosso famoso livro do Pe. Tomás de Saint-Laurent, “O livro da confiança”.

* D. Guéranger, grande hagiógrafo

A respeito de São Martinho é muito interessante, portanto, a visão que dá D. Guéranger, que ao longo dessas fichas vai se afirmando aos nossos olhos como um hagiógrafo, quer dizer, um historiador de santos de primeira categoria. Os senhores estão vendo como ele pega a fundo à missão de São Martinho, interpretando-a e analisando-a. E mostra… faz quase que a sociologia do caso, que era a seguinte:

* Sociologia da evangelização

A religião Católica no Império Romano acabou por vencer nas cidades. Porque nas cidades havia as maiores concentrações de católicos, nas cidades é que era possível fazer uma evangelização mais rápida, porque todas as pessoas estavam ali juntas, aglomeradas, e era, portanto, nas cidades que havia os grandes movimentos de resistência Católica e os grandes núcleos de irradiação da religião Católica. Era nas cidades também que havia as grandes perseguições e havia os grandes martírios.

Mas nas selvas daqueles tempos, nas serranias daqueles tempos, onde as estradas eram más, onde os homens viviam muito esparsos porque as populações eram pequenas e os homens, então, estavam isolados; naquele ambiente daquele tempo a religião Católica não tinha conseguido penetrar nos campos, e por causa disso, depois de convertidas as cidades e já instituído oficialmente o Império Cristão, mesmo depois disso, o paganismo continuava intenso no interior. E é por causa disso que São Martinho resolveu, então, empreender a obra da destruição do paganismo no interior. Antes de analisar essa obra, eu acho necessário mostrar uma certa analogia e, ao mesmo tempo, um certo contraste que essas coisas têm com a vida de hoje.

* A Revolução também se aproveitou das cidades…

A Revolução penetrou muito nas cidades, por razões análogas pelas quais ela [também não] penetrou nos campos. Quer dizer, nas cidades foi possível pegar grandes aglomerações urbanas e nelas espalhar a Revolução. Foi muito difícil espalhar a Revolução nos campos, porque era preciso ir ao encalço de pessoa por pessoa, de população por população etc., e era muito tempo, muito trabalho e não compensava. E a Revolução acabou só penetrando nos campos em nossa época, com os chamados inventos modernos que tornaram os campos muito mais vizinhos das cidades.

* E dos grandes meios de comunicação para atingir o campo

Assim, apareceram às estradas de ferro, depois apareceram às estradas de rodagem, depois apareceu o rádio e por fim apareceu a televisão. E a penetração da televisão no campo é que realmente espalha a Revolução no campo.

Chama-me sempre a atenção a seguinte observação feita por D. Mayer a respeito da diocese dele: ele diz que em Campos, quando ele chegou, havia certas partes da diocese — não tão pouco numerosas — havia certas partes da diocese que não tinham ainda sido tocadas pelas linhas de ônibus e de transporte rodoviário. Que essas eram partes preservadas. Foi só chegar lá o ônibus, que chegou a Revolução, os costumes decaíram, a prática dos sacramentos decaiu e tudo se transformou. É um pequeno fato, concreto, que nos mostra o poder de transformação infeliz dessa… [falta palavra].

* A contra-revolução também nasce na cidade

Agora, coisa curiosa também, a campanha ultramontana, enquanto campanha, nasce na cidade. São as grandes concentrações urbanas das cidades que permitem a formação de ultramontanos. E são esses ultramontanos, depois, que procuram contato com as bases do interior ainda não completamente minadas. Então, o movimento novo de hoje procura revivescer restos do que havia antigamente, e com isso restabelecer um fluxo de influência. Isso é o que se dá conosco.

Os senhores querem ter uma idéia do que é a importância das concentrações urbanas para isso? É uma idéia um pouco superficial… Prof. Fernando tem muita razão quando desconfia das estatísticas, e eu vou fazer uma consideração de caráter estatístico. Mas enfim, vamos ao caso:

Os vários grupos de São Paulo terão mais ou menos… eu não sei se eu calculo bem, Dr. Eduardo e Dr. Caio, quantos mais ou menos têm os grupos de São Paulo juntos, incluindo periferias, Itaquera e tudo o mais?

(Sr. –:… [faltam palavras] …)

* Opiniões minoritárias mais fáceis nas grandes cidades

Na grande São Paulo quase duzentos. Está bem. Isso numa cidade de cinco milhões de habitantes. Se, se São Paulo tivesse… em vez de ser uma cidade de cinco milhões de habitantes tivesse sido dividida, vamos dizer, em dez cidades de quinhentos mil habitantes, daria por média um grupinho de vinte em cada cidade. Se fosse, pelo contrário, em cinqüenta cidades de cem mil habitantes, isso se esfarelava.

Quer dizer, as opiniões minoritárias são mais fáceis de organizar nas cidades grandes do que nas cidades pequenas. É uma coisa evidente. Os senhores compreendem, portanto, até que ponto a grande cidade é, de um lado, muito nociva, do lado principal, e do lado secundário e inteiramente incidente, favorável à aglomeração de minoria. E é por causa disso também que os cristãos começavam a se aglomerar mais nas cidades.

* Paganismo, caipirismo

Bem, São Martinho então resolve destruir o paganismo no interior. “Pagus” em latim é aldeia. Paganismo era sinônimo de coisa aldeã, ou seja, de caipirismo. E o pagão era o caipira; era o roceiro antigo que ainda era bronco e adorava imagens de madeira ou de pedra, quando deveria compreender que há um só Deus, espiritual, imortal, Rei de todos os séculos, um só Jesus Cristo seu Filho, Nosso Senhor etc., que não compreendia. Então ele inicia uma batalha que é de pregador, mas ao mesmo tempo de guerreiro, e em toda parte ele destrói os templos.

* Um recomenda não destruir, o outro a destruir os templos

Os senhores viram Santo Agostinho de Canterbury, ontem, que recomendava para não destruir os templos. E São Martinho que destrói os templos. É, naturalmente, por causa dos imponderáveis da psicologia das várias nações. Em algumas populações o templo conservado convidava a ir e não fazia mal. Em outras populações era um símbolo que precisava ser arrasado até os alicerces. Então ele passava pregando, fazendo milagres, destruindo templos, destruindo ídolos e construindo igrejas Católicas. Está bem.

* Consideração “heresia branca”: S. Martinho e a capa

Os senhores vão procurar biografias correntes de São Martinho, o que contam não é nada disso. É o famoso caso de que São Martinho estava andando a cavalo um dia, e estava muito frio e ele tinha uma capa; passou um pobre, pediu proteção contra o frio, ele não tinha o dinheiro, cortou a capa em dois e deu uma parte de sua capa para o pobre. Este episódio para a “heresia branca” resume toda a vida de São Martinho, e a pessoa fica meio abobada com um episódio desses. Um homem que uma vez na vida dividiu uma capa como um outro e ficou santo por causa disso. Chega a ser um pouco assim. Se fosse, não pode ser isso só, porque se fosse só isso, eu dava vinte capas, porque… [faltam palavras] …eu dava vinte capas para vinte pobres, ficava santo também; tomava frio uma noite inteira lá numa geladeira qualquer do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, até arrebentar, mas de manhã saía santo e depois o resto da vida era tranqüilo. Não pode ser só isso! Mas o que contam dele é só isso. A pessoa fica assim flutuando no ar.

E depois vai assistir um sermão e diz: “Meus caros, como estão vendo a grande lei é a lei da caridade, a lei da caridade é dar a capa”. Onde todo mundo tem as capas de que precisa. A pessoa sai de lá assim rolando, sem entender mais nada e achando que é preciso não entender; que essas coisas não são feitas para serem inteligíveis, mas são expansões piedosas sem importância. Este é o veneno da “heresia branca”. São Martinho que odiava tanto, e com tanto mérito, tantos ídolos; que ódio ele teria a essa “heresia branca” que erige essa espécie de falsos ídolos hoje em dia?

* Derrubar ídolos no momento oportuno

Nós precisávamos de muitos Martinhos para sair por aí derrubando ídolos. Mas, no momento oportuno… por enquanto trata-se da política da aparente boa vizinhança com os ídolos, e não da política de derrubar os ídolos. Eu digo aparente boa vizinhança, porque internamente é claro que é uma reação. Mas externamente cortesia e coexistência pacífica.

Aqui estão as indicações principais a respeito desses episódios da vida de São Martinho.

*_*_*_*_*