Santo do dia ─ 7/11/66 ─ 2ª feira . 5 de 5

Santo do dia ─ 7/11/66 ─ 2ª feira

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Devemos acreditar no ensinamento de Jesus Cristo enquanto transmitido pela hierarquia” * Motivos pelos quais se deve acreditar nos ensinamentos transmitidos pela hierarquia * Ultimamente os ensinamentos são tão difíceis de compreensão que sem um cicerone não há como entender totalmente * “Se não estivéssemos vivendo da seiva da Igreja, a circulação da graça cessaria de correr em nós” * A importância de cooperar com a autoridade no que seja bom * “Fazei o que eles dizem, não fazei o que eles fazem” * Dois modos errados de ver a Igreja e a verdadeira relação de alma com Ela

* “Devemos acreditar no ensinamento de Jesus Cristo enquanto transmitido pela hierarquia”

Igreja Católica, da qual ele nunca se separará. E até o modelo do casamento indissolúvel é a relação de Nosso Senhor Jesus Cristo com a Igreja. De maneira tal, que Nosso Senhor Jesus Cristo e a Igreja, e, portanto, Nosso Senhor Jesus Cristo e a hierarquia, tem uma união indissolúvel, e para estar unido a Nosso Senhor Jesus Cristo é indispensável estar unido à hierarquia. Isso não tem por onde escapar.

Agora, então vamos ver com esse tipo de hierarquia, como é que se realiza a união, e qual é a forma dessa união e como é que nós então devemos viver esta união.

A resposta que se pode dar é a seguinte: que quando nós acreditamos nas coisas da Igreja Católica, na doutrina da Igreja Católica, nós fazemos dois atos de Fé: nós cremos naquilo que a hierarquia ensina, mas ao mesmo tempo nós cremos porque a hierarquia ensina. É porque a hierarquia é a continuadora de Jesus Cristo, e ela tem a missão de Jesus Cristo de ensinar, que ela ensina. E nós devemos acreditar no ensinamento de Jesus Cristo enquanto transmitido pela hierarquia.

* Motivos pelos quais se deve acreditar nos ensinamentos transmitidos pela hierarquia

Agora, esse gênero de hierarquia, vamos dizer, ultra-heresia branca, ultradeteriorada, nos dá de fato o ensinamento de Jesus Cristo?

A resposta é a seguinte: de algum modo dá e esse modo é até um modo precioso. Porque não tem dúvida de que por coisas que a gente aprende no catecismo, e o catecismo que nós aprendemos ainda é o catecismo verdadeiro, por coisas que nós aprendemos nas vidas de santos, boas, antigas, que têm imprimatur e muitas das quais se reeditam ainda, por princípios tradicionais católicos que nós recebemos na massa do sangue e que flutuam e pairam nos lares em que nós fomos formados, por tudo isso, que forma uma espécie de ambiente doutrinário, de atmosfera doutrinária, nós temos um meio de conhecer a verdadeira doutrina católica.

E tanto é, que nós temos um meio de conhecer que quando no “Catolicismo” nós procuramos atrair as pessoas e mostrar às pessoas que a nossa doutrina é verdadeira, nosso argumento é tomar o que esse tipo de gente diz e mostrar que essas coisas que eles dizem, ou essas coisas que pairam pelo ar e que são algumas coisas que os antecessores deles disseram, mas que ainda ficam no ar, e que eles não desmentem, ou esses livros para os quais eles dão imprimatur e que ainda ensinam essa doutrina, enfim, este conjunto dessa lição está de acordo conosco, e que as inovações estão em desacordo com o conjunto dessa lição.

São documentos pontifícios, são uma série de coisas em que nós nos apoiamos exatamente para provar que nosso pensamento é o pensamento da Igreja. Logo, existe algo que se pode chamar o pensamento da Igreja, e ao qual se pode fazer referência quando nós procuramos demonstrar as nossas teses. E esse pensamento da Igreja ao qual nós podemos nos reportar e fazer referência, é indiscutivelmente o pensamento que de um modo ou de outro é carreado por essa gente, não foi ainda desmentido por essa gente, paira no ar e que cerca essa gente.

De maneira tal que não se pode dizer que eles abandonaram todo e qualquer magistério e que eles ensinam o erro. Esse tipo de gente da hierarquia.

* Ultimamente os ensinamentos são tão difíceis de compreensão que sem um cicerone não há como entender totalmente

Há outros que não são assim, e que eles ensinam o erro. O que se pode dizer, isso sim, é que eles ensinam a verdade tão tênue, tão adelgaçada, tão difícil de compreender e de concatenar, que sem um cicerone a gente não compreende aquele total. De maneira que é um ensino à la labirinto, à la quebra-cabeça, que precisa de um cicerone, que em noventa e tanto por cento dos casos não é da hierarquia, precisa de um cicerone para compreender aquilo e para se dar conta daquilo.

O que não impede que aquilo exista e que aquilo realmente é um ensino que vem sendo carreado, e que é o ensino da Igreja Católica, da Religião Católica, não é?

Agora, há portanto um ato de adesão que a gente presta ao que eles ensinam e que ─ mas nestes termos e ciceroniado ─ é como com cicerone. Mas há um ato de adesão com cicerone que é o verdadeiro ato de adesão e que é um ato de adesão ao magistério deles por ser ato de adesão da Igreja, à Igreja. Porque, o magistério da Igreja está com eles, e que nós a toda hora praticamos.

Os senhores tomem, por exemplo, o “Bucko”, tomem o “Diálogo”, tomem a “RAQC” do qual se falava há pouco aqui. A todo o momento o argumento é: tanto é que isso é ensino católico que aqui estão tais provas. E lá vem um ensino que, em última análise é ensino que, ciceroniado, ainda se vê que é autêntico, tem todo o seu aspecto, tem toda a sua figura e que, portanto, para nós pode servir.

* “Se não estivéssemos vivendo da seiva da Igreja, a circulação da graça cessaria de correr em nós”

Existe mais um dado, que é o seguinte. É que como toda a vida da graça vem em nós pelo fato de nós estarmos unidos à Igreja, e como a união à Igreja vem do fato de nós estarmos unidos à hierarquia, é pelo fato de nós aceitarmos esse ensino enquanto lecionado pela hierarquia, que nós nos inserimos na árvore da Igreja e recebemos a graça, que não é uma graça que vem a nós pela extraordinária virtude desses clérigos. Não é o que eu estou dizendo. Não é a graça que vem a nós pelo fulgor dos exemplos deles, mas vem institucionalmente. Eu ousaria dizer, com uma expressão que não seria correta, que vem mecanicamente, e que não viria se não fosse isso.

De maneira que se nós não estivéssemos colados na Igreja e vivendo da seiva da Igreja, a circulação da graça cessaria de circular, de correr em nós. E nós secaríamos ─ eu o primeiro ─ completamente falhos de graça. Porque a graça que possa haver em mim, essa graça eu a recebo da minha união e da minha submissão à Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana e, portanto, às autoridades constituídas na Santa Igreja.

* A importância de cooperar com a autoridade no que seja bom

Esse fato não é apenas um fato de doutrina, mas também é um fato de governo e de jurisdição.

Quer dizer, em tudo aquilo que a autoridade legitimamente possa me mandar, eu quero. Se ela não pode me mandar legitimamente, eu desobedeço. Mas naquilo em que ela legitimamente possa me mandar, eu devo obedecer. E uma obediência é propriamente um ato de súdito, uma ato de vassalagem espiritual. Obedecer não porque eu quero, mas porque eles têm direito de mandar e eu devo obedecer a eles.

Quer dizer, eu devo, portanto, ter essa forma de solidariedade e submissão a toda a lei, santa, válida e verdadeira da Igreja Católica. Por outro lado, eu devo ter também, além disso, uma cooperação com aquilo que possa sair de bom.

Por exemplo, os senhores se lembram do nosso famoso episódio dos andores da Igreja de Santa Teresinha do Menino Jesus. Naquele episódio nós deveríamos ter carregado os andores. Por quê? Porque eles pediram, a coisa em si é uma coisa boa. Desde que não tome um tempo destinado ao nosso apostolado para outras coisas, incidentemente nós devemos fazer e devemos cooperar.

Quando o Coro São Pio X, por exemplo, concordou em cantar lá para uma… para o que era aquilo? Na Igreja do Carmo para o Núncio.

Festa das Missões, por exemplo. Bem, em si a festa das Missões é uma coisa boa. O Coro do Carmo, o Coro São Pio X concorrer para que essa festa se realize e haja uma coleta das Missões, em si é uma coisa boa. Fazer isso, podendo, desde que não represente um grave tropeço para nosso apostolado, para nossas atividades, etc., etc., é uma coisa em si boa, uma coisa que em si se deve fazer, e que representa exatamente o modo pelo qual nós estamos unidos, mais do que unidos, fazemos parte desta árvore sacrossanta da Igreja Católica, da qual nos vêm toda a seiva.

* “Fazei o que eles dizem, não fazei o que eles fazem”

Isso não quer dizer de nenhum modo o seguinte: que o bom espírito esteja com essa gente e a gente deva ter o espírito deles. Isso é uma coisa diferente. Não quer dizer, que eles representem a virtude. Não quer dizer, que a gente deva lutar segundo o estilo deles. Não quer dizer, que a gente deva omitir a luta segundo o estilo deles. Não são modelos. São mestres e são diretores, são autoridades. E de modo algum se poderia aplicar a eles a frase de Nosso Senhor a respeito dos fariseus: “Na cátedra de Moisés estão sentados os escribas e os fariseus. Fazei o que eles dizem, não fazei o que eles fazem”

Bom, nós poderíamos dizer então: Ouçamos o que eles dizem em público, mas dentro desse contexto enorme, não ficando só nos sermões, mas dentro desse contexto enorme. Ali, com cicerone, vamos ver o que eles dizem.

Aí vale a pena. Mas não fazer, não pensar o que eles dizem privado, nem fazer o que eles fazem. Isso é diferente. Mas em alguma coisa que eles façam de bom, cooperar.

Nós vemos que Nosso Senhor, por exemplo, em relação à Sinagoga fazia a mesma coisa. Alguma coisa que havia de bom na Sinagoga, Ele obedecia. Nossa Senhora, São José etc., obedeciam à Sinagoga. E não há paridade entre a Sinagoga e a Igreja Católica. Porque a Sinagoga não tinha os carismas nem as graças da Igreja. Não era senão uma “pré-figura” da Igreja, uma “pré-figura” destinada a morrer quando aparecesse a Igreja. Enquanto a Igreja Católica é imortal, a Igreja Católica é eterna, é definitiva. Ela, quando acabar o Mundo, Ela inteira será gloriosa no Céu. E, portanto, a Igreja tem outra consistência, outro teor do que tem a Sinagoga.

De maneira que as coisas que se dizem da Sinagoga, não podem ser ditas pura e simplesmente da Igreja.

* Dois modos errados de ver a Igreja e a verdadeira relação de alma com Ela

Há, aqui, portanto, um equilíbrio a manter, e um equilíbrio muito delicado, evitando a seguinte coisa, que seria uma tolice, dizer: “Não. Eu vou ficar então com o espírito do meu vigário, ou vou ficar com o espírito desse global, dessa hierarquia”. Quer dizer, eu vou prescindir do cicerone e vou tomar a coisa como ela é. Quer dizer, então é um absurdo, estapafúrdio.

Agora, também outra coisa errada é dizer: “Não, nós aqui no nosso casulo, engendramos toda a doutrina, engendramos toda, enfim, tudo, toda a vida sobrenatural, e ela nos vem diretamente sem ligação com o trono da Igreja”.

Nem ninguém pensa, eu não acredito que ninguém pense nisso. Mas enfim, é para dizer um pouquinho, como todos nós não somos senão células da Igreja, e que todo nosso orgulho, toda nossa satisfação, todo nosso amor, todo nosso entusiasmo vem dessa pertencença à Igreja. Se a gente tirasse essa pertencença à Igreja, tudo desapareceria.

Alguém diria: “Bom, Dr. Plinio, como resultado prático disso, há alguma coisa a mudar em nossa conduta?”

Eu digo: Na conduta não creio. Mas em aprofundar o modo, vamos dizer, de conscientizar essas nossas relações com a Igreja,sim.

Todas as graças que aqui borbulham, que aqui torram, que aqui se espalham com tanta generosidade pelas mãos de Nossa Senhora, essas graças nos vem da Igreja, com a Igreja, pela Igreja e para a Igreja. E são graças que não teríamos, se nós não fossemos células de dentro da Igreja.

Quer dizer, a Igreja é a nossa glória, a Igreja é a nossa mãe, a Igreja é a atmosfera na qual nós somos. Enfim, a Igreja é tudo em nós, é a alma de nossa alma, é a Santa Igreja Católica.

Agora, tomada com esses discernimentos que distinguem bem o lado humano do lado divino da Igreja. Aqui está uma reflexão que talvez seja um pouco ─ foi mais longa do que eu queria, levou quinze minutos ─ complexa para a gente assimilar à essa hora da noite.

Eu me prometo de voltar a ela outra ocasião, mais detidamente, um dia em que eu tenha tempo de pensar nela.

Mas eu pergunto, só por curiosidade se ─ eu não vou aceitar perguntas no momento, porque alongaria muito a coisa ─ mas quantos são os que teriam perguntas a fazer para eu ter uma idéia. Tenham a bondade de levantar o braço.

Um, dois, três. Então, até me façam as perguntas por escrito, que talvez eu depois respondo.

Vamos encerrar com as orações.

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