Santo do Dia – 2/11/66 – 4ª feira . 6 de 6

Santo do Dia — 2/11/66 — 4ª feira

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Com o dia de Finados, a Igreja Católica nos mostra a realidade da morte, e nos faz ver uma multidão de almas que estão em estado de pena * Devemos meditar sobre a morte, para compreendermos o que há de profundamente real naquela advertência: “Lembra-te de que és pó e que voltarás a ser pó” * Um simples coágulo pode causar uma embolia e resultar na morte — “Quando eu passo pelo cemitério, eu vejo ali o meu destino” * A meditação sobre a morte é boa para criar desapegos, humilhar orgulhos e fazer compreender que podemos cair de um momento para o outro no julgamento de Deus * O contraste entre a civilização e os tempos antigos — A civilização moderna tem pavor do luto * A Revolução tem pavor da morte. Ela tem todas as razões de ter medo da morte — Nós devemos ver a morte com serenidade, com grandeza, inclusive no que ela tem de aflitivo e de tremendo * “Nem Luís XIV em todo o seu esplendor teve a majestade de Jó no seu monturo. As lamentações de Jó são das coisas mais majestosas que tenha havido na terra” * Há uma majestade da morte, que é a própria majestade de Deus puniente, é a majestade do trovão, a majestade do terremoto. É algo que é preciso conhecer e amar

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* Com o dia de Finados, a Igreja Católica nos mostra a realidade da morte, e nos faz ver uma multidão de almas que estão em estado de pena

eu deveria ter falado dele ontem, mas eu quis falar a respeito de outros assuntos, o dia de Finados é um dia que representa para nós muito e até muitíssimo.

Porque, diretamente, é o dia no qual nós rezamos por todos os fiéis e por todas as almas que morreram e que porventura estejam no Purgatório.

Mas é também o dia em que a Igreja, com aquele tato que lhe é próprio e que é qualquer coisa de absolutamente inconfundível, torna para nós presente a realidade da morte.

Ela como que abre um precipício debaixo de nossos pés e nos faz ver uma multidão de almas que estão mortas, que estão em estado de pena, que estão em estado de sofrimento, e a miséria da morte, a destruição da morte, a aniquilação da morte, a miséria da alma que morre, quando ela não vai diretamente para o Céu, tudo isso se torna presente dentro de nós.

Seria bonito ver na liturgia — eu não sei se a liturgia dos Finados sofreu alguma reforma agora com o Concílio? Se não sofreu, ainda é lindíssima.

* Devemos meditar sobre a morte, para compreendermos o que há de profundamente real naquela advertência: “Lembra-te de que és pó e que voltarás a ser pó”

Ver na liturgia as frases de Jó, as lamentações que lembram o homem levado até às beiras da loucura e que depois entra pelas fauces da morte a dentro, inteiramente isolado, em que os ossos se calcificaram, a carne virou pó, um imenso pranto inunda sua alma separada do corpo, e aquela miséria daquela criatura pecadora posta numa atmosfera de punição, e esperando a misericórdia de Deus e a misericórdia dos vivos. Isso faz muito bem.

De quando em quando nós devemos meditar sobre a morte, para nós compreendermos o que há de profundamente real naquela advertência do padre na Quarta-feira de Cinzas: “Lembra-te homem de que és pó e que voltarás a ser pó”. Nós não somos outra coisa a não ser pó e voltaremos a ser pó.

E isso então nos faz dar uma medida exata, uma dimensão exata a todas as coisas dessa vida. Nós todos aqui, nessa sala, nesse momento, podemos estar movidos por desejos tão vários. Mas o que são esses desejos, quando a gente calcula o que a gente é? É uma coisa tremenda?

* Um simples coágulo pode causar uma embolia e resultar na morte — “quando eu passo pelo cemitério, eu vejo ali o meu destino”

Outro dia estive lendo uma notícia no “Estado” a respeito de morte súbita. E o Dr. Edwaldo me disse que a coisa é assim mesmo. Eu tinha sempre a idéia de que a gente antes de morrer precisava adoecer. Ao menos morrer de doença, não digo num caminhão.

Bem, mas antes de morrer precisava adoecer. E que, portanto, enquanto a gente se sente bem, tem uma relativa segurança de que não vai morrer. Mas não é verdade, não.

A gente pode estar passando perfeitamente bem, de repente forma-se no calcanhar ou na ponta do dedo, qualquer coisa, um coágulo determinado por razões que não se sabe quais são, e lá vai uma embolia.

Aqui vai para o cérebro e determina o efeito “X”, cujo fruto mais palpável é a morte. E isso pode dar-se com qualquer um de nós, a qualquer momento.

No momento em que eu estou falando aos senhores, é possível que esteja um coágulo a um centésimo de segundo do meu cérebro e que eu não acabe de pronunciar essa frase e caia morto.

Os senhores até diriam muito erradamente, que eu estava prevendo minha morte quando eu falei, mas não é verdade. Eu estou prevendo senão a possibilidade de minha morte. E pode ser entretanto, que eu não termine a frase.

Agora, se eu sou algo de tão inconsistente, se um coágulo partido de meu calcanhar liquida com todas as minha aspirações, com todos os meus desejos, com todos os movimentos que eu tenha em relação às coisas dessa vida, se eu sou uma coisa tão, tão débil que, em ultima análise, eu sei que morrerei de morte, e que quando eu passar pelo cemitério, eu vejo ali o meu destino que está fixado: é virar pó, é virar verme.

Depois, corroído pelos vermes; é uma coisa horrorosa o modo pelo qual se dá a corrosão dos vermes. Dr. Paulinho, uma ocasião, me deu umas informações a respeito de como isso se passava, descrita nas aulas de medicina legal dele; é uma coisa tremenda. Porque primeiro o corpo começa a apodrecer e toma, muito freqüentemente, um estado de sebo, de manteiga ou de gelatina.

Olhem-se no espelho, pensem nos seus traços definidos e pensem quando tudo aquilo tiver um caráter repugnante e gelatinoso e virando a queijo mau cheiroso; quando o nariz, quando isso, quando aquilo tudo estiver horroroso…

* A meditação sobre a morte é boa para criar desapegos, humilhar orgulhos e fazer compreender que podemos cair de um momento para o outro no julgamento de Deus

E depois vem a figura de um… [inaudível] que devoram aqueles… [inaudível]. Assim como, por exemplo, os terroristas devoram os girondinos, que afinal, eram menos indecentes do que eles.

Os girondinos devoraram a velha monarquia francesa, já em estado de queijo, de sebo e de liquidação. Assim é a marcha inexorável das coisas.

Isso vou ser eu, é essa carne aqui, esses ossos cujo impacto eu estou sentindo vão ficar reduzidos a esqueleto; eu vou ficar esticado numa sepultura e não vou ser mais nada.

Muita gente passará perto e dirá: “Que alívio!” Um ou outro passará perto e dirá: “Coitado!” Algum se lembrará de rezar por mim. Eu peço que rezem bem, e isso é a minha miséria, o desfecho de minha vida.

Em certo momento estarei com esses ossos que causam horror a todo o mundo. Eu pergunto: não é boa essa meditação para refrigerar muitos ardores, para criar muitos desapegos, para humilhar muito orgulho e para fazer compreender que nós podemos cair de um momento para o outro no julgamento de Deus vivo?

Mas de um momento para o outro. Porque quem de nós sabe se vai chegar em casa hoje? Quem de nós sabe se daqui a uma hora não está sendo julgado por Deus? E que não está sendo queimado pelas chamas do purgatório?

Ora, essas incertezas, sem elas a vida não tem grandeza nenhuma. Nada é belo, nada na vida é atraente, a não ser com um pano mortuário no fundo. Porque é só pelo contraste que o homem conhece as coisas dessa vida.

E é só pelo contraste com essa miséria fundamental é que a gente compreende tudo quanto nós queremos aqui como é pouco, e a grandeza de um outro destino que nos espera.

* O contraste entre a civilização e os tempos antigos — A civilização moderna tem pavor do luto

E por isso também que os liturgicistas querem acabar com tudo quanto na liturgia representa a morte. Eu já vi um deles advogar paramentos brancos, dizendo: “É um dia de alegria. O sujeito sai para o Céu. Toda a família deve estar satisfeita”.

Eu não quis dizer a ele, mas a vontade que eu tive foi de dizer: “Seu cândido, eu conheço bem seu carnaval. O que você quer é não olhar o pano preto, porque você tem medo que o pano preto caminhe junto a você e te envolva como um sudário. Você tem medo de pensar na noite escura para onde todos nós vamos, mas você, com medo, porque sua consciência está intranqüila; aqui é que está a verdade e é por isso que você não quer o preto.”

Então, o preto, o luto, como a civilização moderna tem pavor do luto. Eu conheci o tempo em que umas viúvas retardatárias, uma ou outra ainda usava um luto, eu não sei no Chile ou no Uruguai como era o luto — mas usavam um luto que era todo de preto, de alto a baixo, um véu preto atrás, outro véu preto na frente. Naturalmente, transparente para a viúva não bater com cabeça no poste na rua. Mas era um véu diáfano na frente.

E quando elas iam fazer visita, para agradecer os pêsames, iam com tudo aquilo e levantavam para conversar. Depois abaixavam de novo. Depois ia para outra visita.

Depois, o luto aliviado. O luto aliviado era seis meses ou um ano depois que se aliviava, conforme a morte, conforme tinha sido de esposo, de pai e de mãe, etc.. Era, então, de branco e preto. E, finalmente, ao cabo de um ano ou dois anos suprimia completamente o luto.

* A Revolução tem pavor da morte. Ela tem todas as razões de ter medo da morte — Nós devemos ver a morte com serenidade, com grandeza, inclusive no que ela tem de aflitivo e de tremendo

Quanta gente diz: “Ah, isso é formalidade pura, eu não gosto disso”. Isso não é verdade. Você tem medo da morte e tem um medo de tal maneira pânico que tem medo até da cor preta. E tem medo de se sepultar naqueles lutos, no fundo, de medo de morrer. E é por causa disso que você não quer o luto.

É o pavor da morte que tem a Revolução. E é claro. Ela tem todas as razões de ter medo da morte.

Nós devemos ver a morte com serenidade. Nós devemos ver a morte com grandeza, inclusive no que ela tem de aflitivo, inclusive no que ela tem de tremendo.

Há uma miséria grandiosa na morte, onde a gente poderia dizer o seguinte: o ser inteligente, capaz de morrer, capaz de passar tão grande catástrofe, tem uma tal capacidade de grandeza que certamente uma outra vida e um outro destino o espera. E nisso então compreender bem toda a nossa grandeza.

Eu digo mais: para minha caríssima geração nova — já não digo da minha geração que o Dr. Arnaldo qualifica de “geração oca” com muita razão — a minha já está rifada.

Mas para a geração nova, não é só a morte que faz bem: é a visão da dor também que faz bem.

Eu às vezes tenho vontade de fazer papel de turista, levando alguns dos senhores para um hospital do câncer, para uma Santa Casa, para hospitais onde tem, como aqui na Santa Casa, gente que sofre de úlcera exposta assim na mão, no rosto, num membro, para nós compreendermos qual é o papel da dor na vida, o que é o papel do sofrimento na vida.

E nós compreendermos que não se pode levar uma vidinha de boneca de louça, ignorando essas coisas e não tendo coragem de as ver de frente.

* “Nem Luís XIV em todo o seu esplendor teve a majestade de Jó no seu monturo. As lamentações de Jó são das coisas mais majestosas que tenha havido na terra”

Eu já tive vontade também, mas acho a coisa aventurosa um dia fazer comentários de alguns trechos do livro de Jó. O livro de Jó tem umas descrições as mais faustosas da dor. Eu nunca vi tanta majestade na dor e nunca vi tanta majestade fora da dor, como no livro de Jó.

A meu ver, Jó, se é verdade que Nosso Senhor disse que Salomão, em todas as glórias, não se vestiu como um lírio do campo — sentença admirável e inteiramente verdadeira — eu acho que se pode dizer que Luís XIV em todo o seu esplendor não teve a majestade de Jó no seu monturo.

As lamentações de Jó são das coisas mais majestosas que tenha havido na terra. E aí a gente compreende a majestade da tragédia, a majestade da tragédia grossa, que chega aos últimos limites, a grandeza que o homem tem conservando… [inaudível] sapiencialmente diante dessa tragédia.

Eu já pensei, por causa disso, de fazer, algum dia, o comentário do livro de Jó. Talvez eu experimente fazer un petit comité e conforme forem os efeitos fazer um grand comité.

Porque eu sei que é um gênero de literatura muito singular e muito pouco apreciada. Mas foi feita pelo Espírito Santo. É um excelente autor, eu garanto aos senhores.

* Há uma majestade da morte, que é a própria majestade de Deus puniente, é a majestade do trovão, a majestade do terremoto. É algo que é preciso conhecer e amar

Bem, tudo isso a propósito do dia dos mortos. É a lição que os mortos nos dão e que a morte nos dá. É uma lição de profundidade, uma lição de força de alma, uma lição de coragem, uma lição de grandeza, que é incomparável.

Antigamente havia reportagens sobre a morte até em jornalecos ordinários, em que o repórter, quando descrevia alguém que morreu, para dizer depois que tinha morrido, dizia “Por fim expirou e a majestade da morte revestiu os seus traços”. Era uma idéia muito bonita.

Há uma majestade da morte e, sobretudo, de certos mortos que tomam uma majestade que é a própria majestade de Deus puniente, de Deus enquanto castiga, é a majestade do trovão, a majestade do relâmpago, a majestade do terremoto, é a majestade dos cataclismos; é algo que é preciso conhecer e amar.

Porque quem não conhece isso, não ama isso, não é capaz de ver Deus inteiro, na sua afabilidade, na sua meiguice sem fim e na grandeza de sua justiça também sem fim.

Todas essas são meditações úteis para fazer a respeito do dia de finados.

Vamos rezar para os mortos numa proposta a eles, que eu faço assim: que as orações dessa noite sejam — desde que Nossa Senhora, que é detentora de todo o valor de nossas orações nisso consinta, — sejam para as almas do purgatório que mais estejam abandonadas e para as quais ninguém reza; almas talvez que tenham mil anos para cumprir ainda, no fogo, etc., e ninguém reza por elas.

Que sejam para elas, mas com uma condição: que elas nos obtenham a compreensão, o amor e o entusiasmo por toda as sombras com que a morte enriquece a estética do Universo e os panoramas verdadeiros da vida humana.

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