Santo
do Dia – 1/11/1966 – p.
Santo do Dia — 1/11/1966 — 3ª-feira
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O Sr. João Clá seleciona textos da Beata Catarina Emmerich para serem comentados; o Senhor Doutor Plinio dá um “mise au point” de quem é Catarina Emmerich; visão sobre o nascimento de Nossa Senhora; júbilo dos bons e pânico dos maus em toda a Terra; repercussão no Limbo; na Igreja nascente o papel majestoso e cerimonioso de Nossa Senhora; predileções de Nossa Senhora entre os apóstolos; quem se entrega a Ela é alegre; virtude conatural com alegria, pecado com tristeza; o justo desfruta da percepção dos imponderáveis sobrenaturais; se decai, perde essa graça; escravidão e Lei Natural; quem se entrega a Ela, Ela protege.
* Seleção de textos feita pelo Sr. João Clá * Dados biográficos de Catarina Emmerich * Vítima expiatória * Modo das visões e o Peregrino * Atuação misteriosa * Atuou junto à família real no Templo * Atuação no Vaticano * Veracidade das visões. Provas * Certeza da veracidade das visões * Por que ela não foi canonizada? * Nascimento de Nossa Senhora * Concebida em plena inteligência * Anúncio no Limbo e alegria de Adão e Eva * Patriarcas no Limbo. Sua atuação post mortem * Dia de Todos os Santos, pedir a nossos antepassados * Júbilo da natureza * Pânico dos maus * Similitude de reações no início do Reino de Maria * Início da Hierarquia. Papel de Nossa Senhora * Por que os Evangelhos falam pouco de Nossa Senhora * Nosso Senhor transmite seu poder a Nossa Senhora * Ato de culto a Nossa Senhora feito pelos apóstolos * Presença eucarística em Nossa Senhora * Base da união entre os primeiros cristãos * No Grupo, os devotos de Nossa Senhora são alegres * Nossa Senhora dá bênção aos apóstolos * Esplendor da Igreja nascente * Princípio contra-revolucionário: a função condiciona o traje * Cerimonial * Nossa Senhora pune um casal egoísta * São João, preferido de Nossa Senhora * Alguns apóstolos eram parentes de Nossa Senhora * Arrependimento de São Pedro. Prêmio * Nossa Senhora conforta Santiago * Devoção dos apóstolos a Nossa Senhora antes de Pentecostes * Quem vai se santificando cresce no conhecimento de Deus * Conhecimento dEla foi de plenitude em plenitude * Imponderável do Natal * O Evangelho da missa do dia também lembra o Natal * Virtude traz alegria; pecado sofrimento * Fraternidade autêntica * Definição de espírito no devoto de Nossa Senhora * Mesmo na alegria, o fundo do olhar triste do filho das trevas * Dom do homem fiel: perceber imponderáveis sobrenaturais * Quando o justo tem algum deslize, esse dom empalidece * A verdadeira devoção a Nossa Senhora * A escravidão não é contrária à lei natural * Depois do pecado original, escravo de Deus ou do demônio * Escravos de Nossa Senhora, porque Ela é mãe dEle * Nossa Senhora, mãe boníssima, protege quem se entrega a Ela
Comentários de visões de Catarina Emmerick sobre Nossa Senhora
* Seleção de textos feita pelo Sr. João Clá
Pediram-me que eu fizesse aos senhores a leitura e o comentário de alguns trechos de Catarina Emmerick. E nosso doutor em Catarina Emmerick, que é o João Clá, selecionou nada menos de que seis trechos. Os senhores compreendem que, para os amigos da brevidade, é uma coisa alarmante. Acontece que eu não li esses trechos, eu farei a leitura deles aqui, no momento, e o comentário no momento também. E nós comentaremos o suficiente para o espaço de uma reunião sem nos preocuparmos em apressar, de maneira que se leiam todos os seis trechos, mas também não retardando inutilmente a leitura.
Qual é a parte que é para ler aqui na página um, hein? João Clá está aí?
João, o que é para ler aqui na página um?
Ah! É uma visão. Todos aqui sabem quem foi Catarina Emmerick? Ou seria interessante dar rapidissimamente uma idéia biográfica? Os que quereriam uma idéia biográfica muito rápida, tenham a bondade de levantar o braço.
* Dados biográficos de Catarina Emmerich
Catarina Emmerick foi uma freira alemã que viveu no século passado, no período mais ou menos correspondente ao fim da Revolução Francesa e ao terror, foi a parte culminante de sua vida. Ela era de uma congregação religiosa, creio que de Agostinianas, e era filha de camponeses. E foi muito cedo encaminhada ao convento pela vocação religiosa.
No convento, ela levou a vida regular durante algum tempo, mas a invasão das tropas da Revolução Francesa na Alemanha — ela era de uma parte da Alemanha que fica perto da… enfim perto do Reno, e portanto, na zona das invasões — a invasão francesa determinou a extinção de muitos conventos. Porque, como sabem, as autoridades da Revolução Francesa eram contrárias à religião. E por toda parte onde as tropas da Revolução penetravam, perseguiam quanto podiam a religião. E, entre outros, o convento de Catarina Emmerick foi fechado também. Mas ela era uma pessoa em extremo doente. De maneira que ela saindo do convento foi para uma casa onde ela ocupava um aposento muito pobre e onde ela vivia de caridade.
* Vítima expiatória
As doenças dela eram doenças terríveis, imensamente dolorosas. E ela aceitava essas doenças num espírito de mortificação. Quer dizer, ela queria sofrer e sofrer muito, para que esses sofrimentos se unissem à Paixão infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo e reparassem os pecados que estavam sendo cometidos naquela época. Dos quais o mais importante era esse acervo de pecados, ao qual nós chamamos de pecado de Revolução, ou sejam, os pecados da Revolução Francesa.
* Modo das visões e o Peregrino
Ela começou a ter, então, uma série de visões, realmente extraordinárias, que enchem… quantos volumes destes? Quatro volumes destes, em espanhol. Quatro volumes destes — ela era alemã, ela ditou em alemão — quatro volumes destes de uma beleza literária maravilhosa. Ela, quando tinha essas visões, ela fechava os olhos e as coisas se passavam diante dela como se fosse uma fita.
E ela, então, revia uma porção de cenas do passado, de episódios do passado, de pessoas etc., que Deus lhe fazia ver, para ela depois poder dar uma instrução para a Igreja Católica sobre todos estes pontos. E um grande literato alemão, Clemens Brentano, que era uma notabilidade no seu tempo, converteu-se e aceitou a tarefa de fazer, receber os ditados dela. Ela, então, naquele estado de comunicação com o passado, ela ia ditando tudo quanto ela via e ele ia escrevendo.
E estes volumes, estes trechos que os senhores têm aqui, no original alemão, resultam do ditado feito a Clemens Brentano que é chamado aqui, não sei bem porque, de Peregrino. De maneira que, muitas vezes, ele também é mencionado, também as visões falam dele etc. E no seu conjunto essas visões constituem uma história monumental da salvação do gênero humano. Desde os tempos mais antigos do Antigo Testamento até o fim do mundo.
* Atuação misteriosa
E ela tem, então, revelações e profecias a respeito de nossa época, a respeito da “Bagarre”, a respeito de uma porção de coisas dessas. E, ao mesmo tempo em que ela tinha essas visões, ela era levada a atuar no plano político de um modo muito inesperado. É que ela foi levada pela Providência, de um modo misterioso, para a prisão do Templo, onde Luiz XVI e Maria Antonieta e a princesa Elizabete de França viviam a amargura dos últimos dias de vida.
Então, ela ia à prisão do Templo cujas paredes, naturalmente, eram intransponíveis, era uma torre medieval que tinha pertencido aos antigos Templários, espessíssima, cujas janelas eram guarnecidas com grades de ferro muito fortes, ela penetrava lá de modo sobrenatural, e então, fazia ali a exposição de coisas que pudessem consolar a família real etc.
* Atuou junto à família real no Templo
E talvez a isto se prenda a transformação pela qual a família real passou no Templo. Com efeito, quando a gente toma a conduta de Luiz XVI e de Maria Antonieta, anterior à Revolução Francesa, tem-se uma impressão lamentável. Luiz XVI, o mole por excelência, que fez tudo que não deveria fazer e que não fez nada do que deveria fazer. Omisso em todo sentido da palavra.
Maria Antonieta, a frívola por excelência. Não uma corrupta nem uma messalina como se costuma dizer, mas uma mulher frívola, sem nenhuma profundidade de pensamentos, sem nenhuma tomada de posição “contra-revolucionaria” definida, sem nenhuma doutrina; apenas uma boneca de luxo, cuidando de se vestir bem e de figurar de um modo brilhante na corte de Versailles.
Pois bem. Em certo momento do cativeiro deles, eles começam a mudar. E quando chega no período da Torre do Templo, a atitude deles é sublime e a morte de ambos constitui dos episódios mais empolgantes da história da Cristandade e da história da humanidade. Como é que se deu esta modificação?
É muito possível que Catarina Emmerick tenha concorrido poderosamente para a conversão dos dois monarcas.
* Atuação no Vaticano
Também, em outra ocasião, ela foi ao Vaticano. E foi consolidar o Papa Pio VII — não tão diferente de Luiz XVI — foi consolidar o Papa Pio VII numa boa resolução que ele ia tomar. Então ela diz: “Credo! Um prelado sinistro que está entrando no quarto do Papa e que está fazendo pressão para obrigar o Papa a tomar uma resolução má”; e ela ao lado do Papa, mas parece que o Papa não a via, rezando intensamente para mantê-lo na resolução boa.
E afinal de contas o Papa se levanta, vai falar com o tal prelado ruim e lhe comunica que, pura e simplesmente, há de ser feito aquilo que Catarina Emmerick queria. Ele não fala em Catarina Emmerick; ele diz: “Aquilo que eu quero”, não é? E a boa causa triunfa nessa decisão do Papa.
Como os senhores estão vendo, é uma pessoa, portanto, de uma vida riquíssima em méritos porque comportava sofrimentos extraordinários, e ao mesmo tempo riquíssima em realizações. Não só por causa desta obra, mas também por causa desta atuação dela, sobrenatural e invisível, no cenário dos grandes acontecimentos da humanidade.
* Veracidade das visões. Provas
Que garantia têm de veracidade essas narrações? Uma pessoa poderia dizer o seguinte. Essas narrações não teriam sido inventadas pelo Clemens Brentano? Outra pergunta: essas narrações seriam dela talvez, mas não seriam histeria, não seriam alucinação, não seriam coisas concebidas no auge do nervosismo? Quem prova que essas coisas que ela conta aqui que se passaram, se passaram como ela conta? São perguntas perfeitamente cabíveis.
A estas perguntas, podem ser dadas respostas excelentes. A primeira, é quanto ao próprio Brentano. O Brentano não era um homem mau, mas está longe de ter sido um santo. Agora, os senhores imaginam um escritor que é capaz de escrever uma obra monumental como essa e que vai dizer que foi outra que fez e não foi ele? Era preciso uma humildade que é preciso dizer que não é comum dos escritores.
Quer dizer, todos os interesses dele iriam em sentido oposto ao de declarar que esta obra era escrita por ela. De maneira que não há razão para supor que ele tenha pregado esta heróica mentira e esta inútil mentira.
Bom. Agora, quanto a ela. Estes sonhos, estas visões quero dizer, a gente analisando têm uma coerência completa. Em nenhum pormenor se encontra um desmentido do outro. E, se é próprio de uma pessoa nervosa e doente escrever uma massa de fatos desses sem nenhuma contradição interna, então é o caso de dizer que mais vale a pena ser doente do que ser saudável.
Porque esta sala aqui está, graças a Deus, cheia de gente saudável. Eu acho que nenhum de nós em toda nossa saúde seria capaz de fazer isto. Eu pelo menos, não. Os senhores são “geração-nova”, e os senhores sabem o que é uma nervosa, um nervosismo, não é?
Eu pergunto aos senhores por experiência própria: Na hora em que os senhores estão nervosos é a melhor hora para os senhores escreverem coisas bem pensadas, coerentes, luminosas, que fazem sentido? Os senhores acham que o nervosismo conduz a produções desta natureza?
Eu tenho observado muita gente nervosa aqui. Nas horas do nervosismo da “geração-nova”, é o contrário. É a hora de incerteza, da insegurança, do espírito que pula de galho em galho e que freqüentemente cai de todos os galhos e se espatifa. Essa é a realidade, não é?
Eu não posso admitir que uma obra com uma tal coerência intrínseca, seja obra de mero nervosismo. Sobretudo porque ela dá uma multidão de pormenores a respeito de tudo. Por exemplo, ela conta a certa altura a visita que Nosso Senhor fez, depois de adolescente, para agradecer aos Reis Magos a visita que lhe tinham feito quando Ele acabava de nascer.
Ora, não há nenhum documento sobre essa visita. E, se não foi uma revelação, foi tudo inventado. Era preciso ter um conhecimento extraordinário de História do Oriente, dos costumes do Oriente, do ambiente do Oriente; era preciso ser um grande historiador para imaginar tudo isto. Ela imagina com uma perfeição enorme e era preciso ser um grande teólogo. Porque, todas as palavras, os gestos que ela atribui a Nosso Senhor são convenientíssimos a Ele. Nosso Senhor não faz uma gafe, não faz uma mancada, não tem um passo em falso; porque ainda mais no nervosismo! Ah! Sai um passo em falso, entra contra-mão direto, não é verdade? Atribui de repente a Nosso Senhor uma megalice, ou de repente, uma humildosa, ou de repente, uma tirada de corpo indigna, ou então, um milagre grotesco. Como uma pessoa que não tenha um mundo de tacto, que dificuldades sente em narrar bem uma visita dessas.
Bem. Os senhores querem ver a prova?
Imaginem que eu pegasse um dos senhores e esvaziasse a sala e dissesse: Meu caro, aqui está papel, lápis, borracha, água, luz, tudo quanto você queira. Você dentro de cinco horas me apresente um dia de viagem de Nosso Senhor, descrita e imaginada por você sem ter lido Catarina Emmerick.
Muito risco de receber vários papéis em branco! Não é do que eu teria mais medo? Teria mais medo… Porque eu sei o que podia sair. De repente, o “geração-novissima” qualquer… saiu Nosso Senhor “geração-nova” aí de repente. Como era esse negócio?! Uma coisa…
Ora, não há nada disto, tudo é de uma conveniência, de uma adequação maravilhosa. Mas eu não dei o principal como prova de verdade. É muito difícil inventar onde não há textos históricos, mas o mais difícil é escrever sobre um acontecimento a respeito do qual há textos históricos não conhecidos, e não esbarrar nos textos históricos, não desmentir os textos históricos.
No tempo em que Catarina Emmerick escreveu, a historiografia, a verdadeira historiografia, ou historiografia de caráter científico como se entende hoje, estava nos seus vagidos, o começo do século passado. Foi de lá para cá que começaram as viagens ao Oriente, que começaram a exumar documentos do Oriente, que, enfim, começou a história do Oriente a ser mais bem conhecida pelo Ocidente.
E se descobriu um mundo de documentos que nem os orientais conheciam, porque estavam em cavernas, em covas, em porões, em bibliotecas abandonadas em conventos poeirentos, em sinagogas etc., etc. Todos esses documentos vieram a lume. Nenhum desses documentos tem a menor contradição com o que ela escreveu.
Os senhores compreendem isso já é diretamente uma coisa milagrosa. Com que facilidade podia ter uma contradição; não tem nenhuma, ela escreveu tudo direito.
Bem. Mas há mais; e isto é mais interessante. É que a descrição que ela dá do Oriente antigo e tão bem feita, que tem servido de pesquisa para numerosos historiadores. Quando eles querem descobrir uma coisa, arqueólogos — naturalmente, eles não contam, a gente sabe de atravessado — eles pegam a Catarina Emmerick e lêem o que ela descreveu e vão procurar de acordo com as indicações dela. E mais de uma vez têm encontrado.
Sobretudo os judeus, sempre judeus, sempre rabínicos, tomaram descrições dela com outras descrições também da bíblia a respeito de circunstâncias geográficas, conjugaram tudo para descobrir poços de petróleo, e encontraram. E são eles, não é? Quer dizer, não acreditam, mas procuram, não é? Não acreditam mas tiram proveito, não é? E tiram proveito mesmo; e descobrem o poço de petróleo.
* Certeza da veracidade das visões
Quer dizer, eu tenho a certeza moral de que essas revelações são verídicas. A casa de Nossa Senhora, que foi encontrada pelas indicações dela, ela escreveu… Como? Ela descreveu como era a casa, foram lá, procuram etc., etc., por certos dados, acabou-se encontrando a casa de Nossa Senhora. É um fato concreto entre outros.
Quer dizer, é um documento histórico, portanto, de primeira categoria. Mas há mais para dizer a respeito disso. E é o seguinte: este livro, esta obra foi examinada pela Igreja. E a Igreja declarou que nesta obra nada há contra a Fé, e nada colide em nada com o Antigo e o Novo Testamento.
De maneira tal, que nós, sem que a Igreja tenha afirmado oficialmente que essas revelações são verdadeiras — e a Igreja não faz isso da revelação privada de ninguém, só faz da revelação oficial da Bíblia — sem afirmar que as revelações são verdadeiras, a Igreja nos dá a garantia de que podemos crer nela, sem que com isto incorramos em qualquer contradição com os Livros Sagrados ou com a Tradição.
* Por que ela não foi canonizada?
Catarina Emmerick é santa?
O processo de canonização dela foi instaurado, mas está parado. E está parado porque eu acredito que produziria uma convulsão tremenda a aprovação dessa canonização. E produziria uma convulsão porque seria quase declarar essas revelações verdadeiras. E essas revelações são de tal maneira “contra-revolucionárias” que, se fossem aprovadas como verdadeiras, o progressismo estava pulverizado.
Os senhores compreenderão quanto trabalho ele desenvolverá para evitar, enfim, que o processo tenha andamento.
Aqui, agora, eu termino estas notas biográficas com uma sugestão: algum dos senhores que queira alcançar uma graça, por que não pede a Catarina Emmerick? Prometendo, em troca, de rezar pela canonização dela? Quem sabe sê se pode fazer alguma coisa nesse sentido. Eu aqui até formo no momento a resolução – se eu for à Europa e os meus amigos me lembrarem de ir procurar o processo de canonização lá e cutucar um pouquinho para ver como é que está, porque é que parou, o que é que há etc., etc., que sempre pode fazer algum bem o interesse de algumas pessoas neste sentido.
Os senhores sabem, por exemplo, que sob a inspiração do professor Furquim, nós conseguimos antecipar bem o processo de beatificação de um santo do século passado — de uma pessoa que foi santa no século passado, não está canonizado ainda, mas já é servo de Deus — Pio Brumoni Lanteri ou Lânteri, não sei bem como se pronuncia, o qual era um sacerdote do Norte da Itália, que combateu a Revolução e que organizou a mais importante sociedade “contra-revolucionária” da Europa no século passado, que durante a ocupação napoleônica era secreta e que conseguiu não ser descoberta pela polícia de Napoleão, que era tida como a melhor polícia do mundo. Os senhores já, simplesmente por aí, podem ver como era um homem capaz.
Bem. Assim como conseguimos apressar esse processo, vamos ver se apressamos o de Catarina Emmerick. E com isso, então, nós passamos aos dados biográficos que me incumbem… aos dados, às revelações que me incumbem analisar na noite de hoje.
* Nascimento de Nossa Senhora
Ela fala a respeito do nascimento de Nossa Senhora, no Céu, no Limbo e na natureza.
No instante em que a pequena Maria se achava nos braços de Sant’Ana, eu A vi no Céu apresentada ante a Santíssima Trindade e saudada com júbilo por todos os Coros celestes.
Quer dizer, Nossa Senhora acabava de nascer e foi imediatamente apresentada à Santíssima Trindade.
Entendi que foram manifestadas de modo sobrenatural todas suas alegrias, suas dores e seu futuro destino. Maria recebeu conhecimento dos mais profundos mistérios, guardando sem embargo, sua inocência e seu candor de menina.
* Concebida em plena inteligência
Nossa Senhora foi concebida sem pecado original. E por causa disto, desde o primeiro instante de seu ser, Ela teve plena inteligência, plena lucidez. Mesmo quando Ela vivia no seio de Sant’Ana, a partir do momento em que a pessoa d’Ela se constituiu, em que a alma d’Ela foi criada e infundida no corpo d’Ela, já Ela tinha plena inteligência, plena lucidez. E aí já Ela começou a adorar a Deus. Mal apenas Ela nasceu, então, Ela foi levada à presença da Santíssima Trindade e foi nesse momento, então, que Ela teve conhecimento dos mais profundos mistérios.
E Ela começou, então, uma vida de contemplativa das mais elevadas por causa da abundância da transcendência e da santidade das verdades misteriosas que lhe foi dado conhecer. Nós não podemos compreender a ciência que foi dada a Nossa Senhora, porque a nossa tem sua origem na árvore fatal do paraíso terreno.
Quer dizer, nós somos filhos do pecado original. Ela conheceu tudo isto como o menino conhece o seio de sua mãe, onde deve buscar seu alimento. Quer dizer, com a naturalidade com que a criança sabe, antes mesmo do uso da razão, como amamentar, com esta naturalidade Nossa Senhora soube desde o primeiro instante de seu ser como conhecer e no que consistiam as mais altas verdades.
São Tomás de Aquino que nos abisma por sua sabedoria, em comparação com Nossa Senhora era menos que um analfabeto. De tal maneira Nossa Senhora está fora de proporção de qualquer conhecimento, de qualquer pessoa. Aliás, em tudo Ela está fora de proporção com qualquer outra mera criatura. Bem, Ela conheceu tudo isto. Bom.
Quando terminou a contemplação na qual eu vi a menina Maria no Céu, instruída pela Graça divina, pela primeira vez eu pude vê-La chorar. Vi anunciado o nascimento de Maria no Limbo e os Santos Patriarcas no mesmo momento em que teve lugar.
* Anúncio no Limbo e alegria de Adão e Eva
Quer dizer, no momento em que Nossa Senhora nasceu e que a raiz de Jessé, da qual deveria brotar o Salvador, apareceu na terra, foram então Anjos ao Limbo para contar que Nossa Senhora tinha aparecido, não é?
Eu vi a todos, e particularmente Adão e Eva, penetrados de uma alegria inexplicável, porque se tinha cumprido a promessa feita no Paraíso.
Os senhores imaginem Adão e Eva. Eles pecaram, eles foram a causa de todas as tristezas e desgraças que houve na humanidade. Mas lhes foi prometido, pelo menos isto, que o Messias seria descendente deles, e que esse Messias salvaria o gênero humano. Eles estavam a milhares de anos no Limbo, nas tristezas do Limbo, sem ver Deus face a face, quando afinal chega um Anjo e anuncia:
Ainda não é o Salvador, mas já é a Mãe do Salvador. Esse abismo de virtude, de santidade apareceu na terra, da descendência de vocês. Vocês são os avós d’Ela, são os ancestrais d’Ela. Vocês, raiz podre, raiz maldita, raiz penitente, raiz perdoada, de vocês acabou por brotar, afinal de contas, Nossa Senhora, um lírio inconcebívelmente puro que saiu das entranhas de vocês.
Compreendem a alegria deles, no Paraíso, no Limbo! Todos Profetas que tinham profetizado a vinda do Messias, todos aqueles que tinham cantado a grandeza de Nossa Senhora, todos eles souberam que, afinal de contas, os tempos estavam para se cumprir e que o momento da Redenção estava para chegar. Então, a primeira grande alegria do Limbo há tantos mil anos, onde os justos esperavam o momento da Redenção do gênero humano.
Eu soube também que houve um progresso no estado de graça dos Patriarcas. Sua morada se tornou mais clara, mais ampla e adquiriu maior influência sobre as coisas que aconteciam no mundo.
* Patriarcas no Limbo. Sua atuação post mortem
É belíssimo esse conceito. Os Patriarcas também estavam todos no Limbo, os Patriarcas do povo eleito. Mas quando Nossa Senhora nasceu, o Limbo que é um lugar tristonho, é um lugar não de tormento mas de exílio e de distância de Deus, o Limbo se tornou mais alegre. E eles tomaram uma maior influência sobre os acontecimentos dessa terra.
Aqui esta uma idéia muito bonita, e que é a idéia de que os mortos que morreram na bênção de Deus, dormiram na paz de Deus, podem em proporções maiores ou menores, por suas orações e por alguma ação que a Providência lhes permita desenvolver, eles podem influir nos acontecimentos da terra. Reflexão muito boa para o dia de Todos os Santos.
* Dia de Todos os Santos, pedir a nossos antepassados
Nos temos ainda dez minutos… não, uma hora e dez por causa do horário de verão, não é isto? Os relógios estão adiantados. Então, à meia noite no horário real são dez para às onze. E, portanto, temos uma hora de Todos os Santos ainda para fazer alguma jaculatória interna. É pedir por todos os nossos antepassados que estejam no Céu; desde nós até Adão e Eva.
Pedir não por eles, mas a eles que rezem por nós e que nos abençoem, e que interfiram favoravelmente em nossa existência. Por este princípio que é uma espécie de reforço do princípio da Tradição, pela qual toda a genealogia da gente, na medida em que está no Céu, pode rezar por nós. Na medida em que está no purgatório, deve ser beneficiada por nós. E na medida em que está no inferno, deve ser execrada por nós. Porque, naturalmente, haverá também — eu creio que nenhum dos senhores tenha alaranjado em pensar que todos os seus ancestrais, ou os meus, daqui até Adão e Eva, estão todos no Céu, não é?! Isso seria uma simploriedade digna de nota.
Era como se todos os trabalhos, todas as penitências de sua vida, todos seus combates, suas orações, suas ânsias, tivessem chegado, por assim dizer, à sua completa maturidade, produzindo frutos de paz e de alegria. Estava tudo para receber a frutificação plena que recebeu quando Maria nasceu. Observei um grande movimento de alegria em toda natureza com o nascimento de Maria.
* Júbilo da natureza
Esta idéia me agrada enormemente. Quando Nossa Senhora nasceu, a natureza inteira ter um alento maior, um esplendor maior, uma alegria, uma como que alegria nas plantas, uma como que alegria nos animais, um reluzir maior da matéria, oceanos mais majestosos, mais graciosos, céus mais límpidos, noites mais belas; tudo isto por que?
Porque Nossa Senhora nasceu. De [tal] maneira Ela é o centro de tudo e é através d’Ela que emanam para toda a natureza também os favores de Deus, que Ela nasceu e tudo se tornou mais diáfano, mais nobre, mais alegre. Um prenúncio das supremas alegrias da noite de Natal, em que realmente, então, a natureza, por assim dizer, cantou, não é? Que era o Messias que aparecia, o Filho de Deus.
Eu ouvi…
Bom, então diz:
Nos animais e no coração dos homens de bem.
Dos outros, não, não é? “Fassur” não fica alegre com isso, não é? Pelo contrário deve sentir misterioso mal estar, não é?
Eu ouvi harmoniosos cantos por toda parte. Os pecadores se sentiram como angustiados, e experimentaram pena e aflição. Vi que em Nazaré e nas regiões da Terra Prometida, havia muitos possessos do demônio, que se agitavam em meio a convulsões violentas. Corriam de um lado para outro com grandes clamores. Os demônios bradavam por boca deles, clamando: “É preciso sair, é preciso sair”.
* Pânico dos maus
Quer dizer, eles sentiram que tinha vindo à terra uma criatura indizivelmente pura, e que esta criatura os expulsava. Onde Ela estava se pronunciava[m] influência[s] incompatível com a presença deles. Então, era preciso sair.
Vi em Jerusalém o piedoso sacerdote Simeão…
Era o Simeão que segurou depois o Menino Jesus e que cantou aquela famosa canção “Nunc dimitis”: Agora, Senhor, chamai, mandai embora em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram o Salvador. E ele tinha o Menino Jesus nos braços, não é?
Então por ocasião do nascimento de Nossa Senhora, ela viu Simeão.
…que habitava perto do Templo, no momento do nascimento de Maria sobressaltado por clamores desaforados de loucos e possessos que estavam fechados num monumento contíguo à montanha do Templo, sobre a qual Simeão tinha direitos de vigilância. Eu o vi dirigir-se à meia noite à praça diante da casa dos presos. Um homem que ali morava lhe perguntou a causa daqueles gritos que interrompiam o sono de todo mundo. Um dos possessos clamou com mais força que o deixassem sair. Simeão abriu a porta e o possesso gritou, precipitando-se para fora por boca de Satanás: “É preciso sair, temos que sair, nasceu uma Virgem”.
A Virgem das virgens nasceu, não é? E aonde entra a pureza, o espírito imundo, naturalmente, não pode deixar de fazer isto, não é?
São tantos os Anjos que nos atormentam sobre a terra, que somos obrigados a partir, pois já não podíamos possuir um homem mais.
É uma beleza, portanto, a idéia quando Nossa Senhora baixou, nasceu, a terra sofreu uma invasão angélica. Anjos do céu desceram em quantidade para a terra. E os demônios, naturalmente, como quem está ilegal, tiveram que afundar, não é?
* Similitude de reações no início do Reino de Maria
Eu acredito que nos primeiros instantes do Reino de Maria, logo depois da Bagarre, vai se dar isto. Que a terra vai ser de um modo, provavelmente invisível, mas talvez alguma coisa de visível se perceba, povoada por uma quantidade enorme de Anjos que vão acorrentar Satanás e os Anjos malignos que pervadem o mundo de acordo com aquela oração, que foi cortada, depois da missa: “Sancte Michael Archangele, defende-nos in proelio…” e que é uma lindíssima oração e que eu rezo todos os dias. E em que se pede que o demônio — “Satanam aliósque spíritus malígnus in inférnum detrúde” — sejam enviados, precipitados para o Inferno Satanás e os outros espíritos malignos.
A oração recomendada por Leão XIII dá a idéia de que Satanás foi solto e está operando na terra. É o chefe de todos os homens da maleta, não é? E, naturalmente, deve ser expulso para o Inferno completamente, não é? Isto é o que se pede na oração.
E eu acredito que virá Nossa Senhora — Catarina Emmerick, aliás, descreve a vinda de Nossa Senhora; muito pitoresco: Nossa Senhora entra no Vaticano e toma posse do Vaticano. É assim que ela exprime a coisa. E sobe à cúpula do Vaticano e estende um manto sobre o mundo inteiro. Nesse momento, mais ou menos, está havendo uma batalha entre os maus, poderosíssimos, e um último punhado de bons. E um chefe, na hora do apuro vai chamar a São Miguel Arcanjo. Então, descem os anjos em miríades e derrotam os maus. É o modo pelo qual Nossa Senhora firma sua vitória.
Aí, então, há cenas de violência inenarráveis, os demônios fazem de tudo, levam almas vivas para o Inferno etc., são expulsos, não é? E a paz se estabelece. Então começa a aurora do Reino de Maria. É como que um segundo nascimento de Nossa Senhora, do qual esse nascimento aqui é uma prefigura, não é? Nós vamos ouvir muito louco uivar; nós vamos ouvir muito “fassur” bramir, não é? E nós vamos elevar os nossos olhos a Nossa Senhora e esperar na paz a intervenção d’Ela. Queira Deus que isso não tarde.
Bem, continua:
Vi Simeão orando com muito fervor. O infeliz possesso foi arrojado violentamente sobre a praça, de um lado para outro. E vi que o demônio saia, por fim, de sua boca. Fiquei muito contente de ter visto o ancião Simeão. Vi também a profetiza Ana — que é também quem recebeu o Menino Jesus no Templo com Simeão — e Noemi, irmã da mãe de Lázaro, que habitava no Templo e foi mais tarde professora de Nossa Senhora. Foram despertadas e se inteiraram, por meio de visões, de que havia nascido uma criatura de predileção. Se reuniram e se comunicavam umas às outras as coisas que acabavam de saber. Creio que elas conheciam já a Sant’Ana.
E com isso está terminado a descrição do bem-aventurado nascimento de Nossa Senhora.
Nós temos aqui outra cena, outra coisa — eu pedi trechos todos eles referentes a Nossa Senhora — outra visão relativa à grandeza e dignidade de Nossa Senhora.
(Sr. –: Dr. Plínio, o trecho longo é só…).
Seria, talvez, então, preferível ler os trechos pequenos.
(Sr. –: Não, não…) …para minha informação. Ah! Sei.
Na tarde do dia seguinte vi todos os apóstolos, com vinte discípulos, orando debaixo da lâmpada na sala do Cenáculo. E estavam presentes, Nossa Senhora, as Santas Mulheres, Lázaro, Nicodemo, José de Arimatéia e Abed. Terminada a oração o apóstolo João falou aos apóstolos e Pedro aos discípulos.
* Início da Hierarquia. Papel de Nossa Senhora
Os senhores sabem que os seguidores de Nosso Senhor estavam divididos em várias categorias, não é? Havia os apóstolos que correspondia à ordem episcopal, os discípulos que correspondia ao clero. E depois havia o comum dos fiéis. Então, São João falou aos apóstolos e São Pedro falou aos discípulos.
Falaram ambos de um modo misterioso acerca de suas relações com a Mãe de Deus e do que Ela deve ser para eles. Enquanto durava este ensinamento de ambos os apóstolos, que o fizeram por ordem de Jesus, vi a Bem-Aventurada Virgem com um manto luminoso e amplo. Como esse manto cobria a todos, enquanto se cernia sobre os presentes e recebia do Céu aberto, donde se via a Santíssima Trindade, uma coroa sobre sua cabeça. A Virgem, não A havia visto em pessoa durante este tempo, porque tinha estado rezando fora da sala. Recebi a intima persuasão de que Maria era a cabeça verdadeira dessa comunidade, seu templo e seu todo. Creio que foi uma representação para os apóstolos, um esclarecimento do que Maria deveria ser no futuro, na Igreja, segundo a vontade de Deus. Quando o dia começou a clarear, Jesus entrou de portas fechadas.
Nosso Senhor já tinha ressuscitado, não é?
Falou durante muito tempo com Maria. Disse-lhe que assistisse aos apóstolos, e o que Ela devia ser para eles. Deu-lhe poder sobre toda Igreja; lhe deu Sua mesma força e potestade, e Sua proteção. Era como se Ele mesmo lhe desse Sua própria luz e A penetrasse toda com Sua pessoa. Não posso dizer isto de outra maneira. Os discípulos fizeram uma espécie de corredor com telas e almofadas, desde o pátio do Cenáculo para que pudesse a Virgem ir desde sua casa até o lugar do Santíssimo, e ao coro onde cantavam e rezavam os apóstolos. João mora perto da cela da Virgem. Quando Jesus lhe apareceu em sua cela, eu vi que rodeava sua cabeça uma coroa de estrelas. O mesmo vi quando recebeu a comunhão. Eu tive conhecimento de todas as vezes que comungava, quando Maria comungava, permaneciam as espécies sacramentais de uma Comunhão até a outra. De modo que, sempre adorava a Jesus Cristo presente sacramentalmente em seu coração. Durante a perseguição, depois de ter sido apedrejado Santo Estevão, houve um tempo em que os apóstolos não puderam consagrar. Mas a Igreja não ficou sem o Santíssimo Sacramento, pois estava vivo no tabernáculo da Beatíssima Virgem Maria. Entendi também que esta graça singular era própria só de Maria, Virgem Santíssima.
* Por que os Evangelhos falam pouco de Nossa Senhora
São muito bonitas essas coisas aqui e que correspondem ao que os teólogos dizem a respeito do papel de Nossa Senhora na Igreja. Pergunta-se muitas vezes porque é que Nossa Senhora, os Evangelhos falam tão pouco de Nossa Senhora. E a resposta que se costuma dar, e é muito verdadeira — é uma resposta cheia de tacto, de penetração, de sutileza — a resposta é a seguinte:
É que Nossa Senhora, na vida terrena de Nosso Senhor, antes de sua morte, apareceu pouco. Nosso Senhor estava presente e não era conveniente que Ela aparecesse. Foi quando Nosso Senhor se retirou e que deixou um imenso vazio, que então a atenção dos apóstolos começou a confluir mais especialmente para Ela. E começou a aparecer o papel de Maria na Igreja. E a mariologia, então, tomou traços mais definidos.
Antigamente havia devoção dos apóstolos por Ela, dos discípulos por Ela, havia boas relações. Sabe-se que São Pedro conseguiu evitar de sair no desespero de Judas, porque foi procurar Nossa Senhora; sabe-se que Judas era nodoso em relação a Nossa Senhora. Mas, não havia propriamente ainda um corpo de atitudes, de pensamentos, de posições, definindo organicamente uma devoção a Nossa Senhora. Isto só veio a se passar quando Nossa Senhora ficou sozinha; e em que, então, se deu este fenômeno que ela descreve aí:
* Nosso Senhor transmite seu poder a Nossa Senhora
Nosso Senhor aparece a Nossa Senhora e lhe dá a missão que Ela tem na Igreja. Ele dá a missão dando os poderes que Ela deve exercer sobre a Igreja, e depois — a Catarina Emmerick exprime isso muito bem — penetrando Nossa Senhora com Sua própria luz. De maneira tal que assim como por exemplo uma… o que? …Uma ampola elétrica pode estar cheia da luz do filamento, assim também Nossa Senhora estava cheia do “lúmen Christi”, da luz de Nosso Senhor Jesus Cristo. E Ela era como que uma centelha de Cristo presente na terra.
Então, a partir desse momento começa Ela a ser a guia da Igreja, a mestra da Igreja. Ela, que a partir do Calvário, se tinha tornado já a Mãe da Igreja. Então também a partir desse momento começa o culto.
* Ato de culto a Nossa Senhora feito pelos apóstolos
O que ela descreve aqui é muito bonito: Nossa Senhora presidindo a assembléia dos apóstolos. E para Ela ir da casa dela até o Cenáculo, os apóstolos e discípulos, num ato de culto, faziam um corredor com veludos, com tapetes, com almofadas, para Ela ir pisando sobre essas almofadas para chegar até o Cenáculo.
Agora, esse culto era um culto a Ela. Mas um culto que tinha uma força extraordinária por causa da contínua presença do Santíssimo Sacramento dentro d’Ela. Quer dizer de uma Comunhão a outra as espécies não se deterioravam. De maneira tal, que Ela era um tabernáculo vivo onde Nosso Senhor estava continuamente.
* Presença eucarística em Nossa Senhora
Mas coube a Ela uma graça única e que Ela merecia e só Ela: É que desde que a Igreja foi instituída, não podia passar um só dia que não houvesse o Santíssimo Sacramento sobre a terra. Ora, os apóstolos não podiam consagrar, a perseguição estava furiosa; eles estavam dispersos. O Santíssimo Sacramento, portanto, não existiria mais na terra. Mas o Santíssimo Sacramento existiu, porque continuou a existir em Nossa Senhora.
Quer dizer, a continuidade da presença eucarística se afirmou precisamente por causa da presença… a presença eucarística na terra se afirmou por causa da presença do Santíssimo Sacramento em Nossa Senhora. Os senhores vêem o papel extraordinário d’Ela na vocação eucarística, na devoção eucarística, quero dizer.
Agora, há uma outra coisa a respeito dos atos de culto depois da Ressurreição de Nossa Senhora:
Eu vi como, indo de uns a outros, se davam as mãos…
Os primitivos cristãos, não é?
…e declaravam que queriam ter tudo em comum e alegres dar do que tinham. Ser um e permanecerem unidos. Nisto, veio como uma comoção entre eles. Eu os vi a todos como inundados de luz, como que se fundindo num amor recíproco. Toda essa luz se levantava como formando uma pirâmide. E no alto dessa luz apareceu Maria Santíssima como coroa e ponto central de tudo. Desde onde estava Maria, saiam raios de luz que derramavam sobre os apóstolos. Era uma representação da união de todos e símbolo das relações de uns com os outros.
* Base da união entre os primeiros cristãos
Quer dizer, logo depois de Nosso Senhor ter constituído, ter consumado a obra da constituição da Igreja, os apóstolos foram tomados de um intensíssimo amor uns pelos outros. Este amor, levava-os a uma união, mas essa união era em torno de Nossa Senhora.
Nossa Senhora era como que o eixo desse amor, era o eixo dessa união. Mais do que o eixo, era a fonte de inspiração dessa união. Eles todos estavam banhados numa luz, e Ela pairava no alto desse eixo ligando-os todos. Quer dizer, o amor fraterno de todos os católicos até o fim do mundo, é uma coisa que procede de Deus. Mas procede por meio d’Ela que é a Medianeira de todas as graças. Toda esta alegria e toda esta união fraterna é uma graça d’Ela e se obtém na devoção a Ela, porque é d’Ela que vem.
* No Grupo, os devotos de Nossa Senhora são alegres
Os senhores observem na vida de Grupo este fenômeno curioso: quando há gente que é muito devoto de Nossa Senhora, os mais devotos de Nossa Senhora estão sempre alegres; têm sempre uma certa luz para compreender e apreciar as coisas do Grupo. Eles têm, por causa disto, uma boa vontade para com os outros, uma capacidade de estimar, de querer, de perdoar, de apoiar, são verdadeiramente irmãos uns dos outros.
Pelo contrário, se alguém tem uma devoção mais medíocre a Nossa Senhora, o egoísmo é maior, a capacidade de caridade mútua é menor, as queixas são maiores, a suscetibilidade é maior. Por fim, o indivíduo se torna um elemento de agitação, de tristeza e de perturbação. Por que é isto?
É exatamente porque a devoção a Nossa Senhora, fonte de todo amor recíproco entre os verdadeiros filhos da luz, está pálida. Ora, a única fonte é precisamente essa de que nós falamos. Quer dizer, a devoção a Maria Santíssima.
Aqui é um modo dos apóstolos tratarem a Nossa Senhora depôs da Ascensão. Diz:
* Nossa Senhora dá bênção aos apóstolos
Ao partir para benzer a água e batizar na piscina de Betseda — eles foram para lá e, então, foram despedir-se d’Ela — receberam de joelhos a bênção da Virgem Maria. Antes da Ascensão — quando, portanto, Nosso Senhor ainda estava na terra — eles costumavam receber a bênção de pé.
Os senhores estão vendo que é porque o papel de Nossa Senhora ainda não tinha se configurado inteiramente. A partir desse momento que estava configurado começaram a receber de joelhos. Então, eles, começaram a receber a bênção de pé.
Eu vi repetir este ato de obséquio a Maria nos dias seguintes, antes de sair e de entrar no Cenáculo.
Quer dizer que a partir desse momento, quando eles entravam no Cenáculo ou saiam, eles iam pedir a bênção a Nossa Senhora de joelhos.
A Virgem Maria levava nessas ocasiões e sempre que aparecia diante dos apóstolos, em sua dignidade de Mãe da Igreja, um grande manto branco, um véu amarelo e duas cintas color azul-celeste que, desde a cabeça caiam de ambos os lados até o chão. Estava adornada de bordados e sobre a cabeça… Nossa Senhora estava adornada de bordados sobre a cabeça, presa por cintas estava uma coroa de seda.
* Esplendor da Igreja nascente
É muito interessante isto para mostrar também como, desde os primeiros instantes, começou a Igreja a ter um certo esplendor. Nossa Senhora começou a se revestir com certo esplendor sensível e aparecer um certo fausto dentro da Igreja, então tão pobre.
Os progressistas de hoje querem o que eles chamam o miserabilismo. Os senhores sabem que essa mania do miserabilismo nos progressistas de hoje chega a um tal ponto que na França, onde a transformação das igrejas suntuosas em taperas chegou a um ponto mais alto do que nunca, chegam a fazer o seguinte: Em algumas igrejas, não só desfazer todas as pinturas, mas arrancar o reboco e deixar todos os muros apenas com os tijolos à vista, dizendo que o próprio da Igreja é apresentar-se de maneira miserável. Ora, isto é um insulto a Deus Nosso Senhor, que quis, pelo contrário, que as melhores coisas fossem usadas para Ele. Por exemplo o perfume de Madalena.
* Princípio contra-revolucionário: a função condiciona o traje
E aqui nós vemos Nossa Senhora que começa a se apresentar com um traje de um certo esplendor para os apóstolos, por causa de sua missão de Mãe de Deus, dando a indicar um princípio que a civilização revolucionária moderna detesta: É que a missões diferentes competem trajes diferentes.
É por isso que nós vemos irem desaparecendo as diferenças de traje no mundo de hoje. Diferença de traje entre o homem e a mulher, vai desaparecendo; diferença de traje entre mais velhos e mais moços vai desaparecendo; as velhas, cada vez mais se vestem como moças: vestidos claros, jóias empetecadas, vistosas, etc.
Os trajes regionais dos povos vão desaparecendo. Os militares vão cada vez menos usando farda, o traje típico de militar vai desaparecendo. Por fim, o clero vai usando cada vez menos batina. Os senhores me dirão: Não, mas o “clergyman” é um traje eclesiástico. Eu digo: É semi, não é?
Bom. E esse semi também vai desaparecendo. Os senhores sabem que é cada vez maior o número de clérigos que se apresentam inteiramente à paisana, não é? Quer dizer, a tendência é para o desaparecimento do traje típico.
Nossa Senhora, aqui, nos dá o exemplo do contrário. À função diferente, à categoria, à situação diferente, deve corresponder também um traje diferente.
Agora é alguma coisa sobre a posição de Nossa Senhora na primeira missa celebrada no Cenáculo.
Quando a procissão…
Organizou-se uma procissão para chegar ao Cenáculo.
…quando a procissão chegou ao Cenáculo, os novos convertidos foram detidos no vestíbulo do Cenáculo e convenientemente adornados ali. Pedro e João entraram e acompanharam a Virgem Maria até a porta do vestíbulo. Maria tinha em seu vestido de solenidade…
Tinha seu traje solene.
…trazia seu largo manto branco cuja parte interior, dobrada, estava bordada. Sobre o véu tinha uma espécie de coroa de seda, de onde pendiam duas faixas largas. Pedro falou aos convertidos e os entregou a Maria como sua Mãe. Os fazia vir de grupos de vinte ante a Virgem a qual dava afetuosamente a bênção, recebendo-os, assim, por filhos.
* Cerimonial
Os senhores estão vendo outra coisa aqui que é o cerimonial. Logo que a Igreja começou a existir ela começou a elaborar um cerimonial, ela começou a produzir cerimônias. Por que? Porque a cerimônia, de acordo com a ordem natural das coisas, é uma das projeções necessárias da natureza dos atos que se fazem. E um ato sem cerimônia fica, por aí, perdendo algo de seu conteúdo.
É por isso que os povos muito civilizados elaboram grandes cerimoniais. Os povos decadentes elaboram cerimoniais exagerados. E quando a decadência chega ao auge, eles começam a suprimir os cerimoniais sob pretexto de que são exagerados. Quer dizer, é uma espécie de plenitude, hipertrofia e atrofia, a hipertrofia precede a atrofia.
Os senhores tomem, por exemplo, o império Bizantino. O império Bizantino, no período da decadência, tinha um cerimonial incrivelmente complicado. Era impossível a gente conhecer bem aquilo, só uma pessoa que tivesse vivido a vida inteira na corte. Nenhuma corte cristã depois teve um cerimonial tão complicado. Daí veio, exatamente, a expressão “bizantinismo”.
Aquilo já se cheirava a preciosismo, a vaidade e a putrefação; não tardou que o império ruísse. Mas os senhores tomam a Idade Média, na medida em que a Idade Média foi se desenvolvendo, o cerimonial foi crescendo. Porque a vida precisa de cerimônias. E o convívio só é agradável com os cerimoniosos.
O espírito moderno quer o contrário, não é? É uma espécie “iê-iê-iê” nas maneiras que começam antes mesmo do “iê-iê-iê” das danças, não é? “Ô seu chapa vem cá”; “mora”; “brasa”, sei lá o quê, uma linguagem toda ela desabusada no tratar. Atitude distinta, atenciosa, respeitosa nenhuma, formalidade nenhuma. A formalidade é tida como uma coisa mais aborrecida que há. É o contrário!
O espírito católico ama uma justa e boa medida de cerimônia, porque é a boa ordem exterior das coisas. Então, nós vemos aqui, em torno de Nossa Senhora começar a se constituir um protocolo régio, um cerimonial régio que acaba de ser descrito aqui por Catarina Emmerick.
Por fim, mais uma visão dela:
Tive uma visão referente à devoção a Maria nos tempos primitivos. Uma mulher das cercanias de Éfeso tinha grande devoção à Virgem e, tendo visitado sua casa e visto o altar, mandou fazer um semelhante em sua casa, o qual ela cobria com um tapete de muito subido preço. Anos depois, a mulher empobreceu e teve que vender partes de suas possessões, posses. Chegou a sua necessidade a ponto de ver-se obrigada a vender o famoso tapete do altar de Maria, e o fez a uma mulher cristã casada. Quando chegou a festa da Assunção, se conturbou muito por não ter aquele formoso tapete com que adornara o altar da Virgem. Com esta aflição, se determinou a visitar a mulher que lhe tinha comprado o tapete, pedindo que lhe emprestasse só para o dia, para adornar o altar de Maria. Esta mulher, que tinha tido crianças, duas crianças gêmeas, não quis atender o seu pedido e o marido chegou a dizer: Maria está morta e não necessita de tapete. E em troca, minha mulher, que o comprou precisa dele.
Espírito sinárquico! Dava para século XX, perfeito.
A piedosa mulher se distanciou muito contristada e expôs seu sofrimento à Virgem — naturalmente, em oração. —, nessa mesma noite viu o que se passou na casa daquela família: Lhe apareceu a Virgem com o rosto irritado e lhes disse que, em castigo de sua dureza para com a pobre mulher, morreriam seus dois filhos gêmeos.
Muito pouco unesco isso, hein!
E eles se veriam reduzidos, os pais, os velhos, e se veriam reduzidos à maior miséria do que aquela pobre mulher. Os dois despertaram com certo temor, ainda que o tivessem por um simples sonho no começo. Mas, grande foi seu espanto quando encontrara seus dois filhos mortos. Somente então reconheceram sua grave culpa, e o homem foi, com muita humildade, apresentar à mulher pobre o tapete pedido para a festa de Maria. E eles assim obtiveram que não se realizasse a outra parte do castigo com que tinham sido ameaçados.
* Nossa Senhora pune um casal egoísta
Os senhores estão vendo que é uma bonita manifestação do poder de Nossa Senhora. Os senhores dirão: Mas, poder Dr. Plínio, só poder? Onde é que está a misericórdia? Nossa Senhora não teve pena dessas criancinhas, Nossa Senhora não teve pena desses coitados? Por causa de um tapete Ela tira a vida de duas criancinhas! Onde é que está a caridade de Nossa Senhora? O senhor deveria achar isto esquisito! O senhor deveria dizer que essa devoção não era verdadeira! Nossa Senhora se apresenta aqui muito pouco “irenística” muito pouco ecumênica!
Qual seria o destino dessas criancinhas educadas por esse casal de pais “fassures”? No que é que iam dar? Dali, com certeza, foram para o Céu. Podia haver coisa melhor? Se eu dissesse: Nossa Senhora, por bondade, fez de cada uma das crianças um rei, a gente diria: Como Nossa Senhora foi boa!
Ela fez muito mais do que dar o reino! Ela deu o Céu! E a gente vai dizer que é ruim! Isso é só para quem não acredita na bem-aventurança eterna, não acredita na eternidade, para quem não tem Fé! Mas, para quem tem Fé foi uma soberana misericórdia de Nossa Senhora.
Por fim, este homem lucrou. Ele aproveitou, ele se arrependeu e foi levar o tapete para a outra. Quer dizer, ele se penitenciou. Levou uma vida de virtude e foi se encontrar com todos no Céu. Com certeza, esta família, na hora em que nós estamos comentando este fato, como Catarina Emmerick também, estão no Céu olhando com complacência para esta reunião e abençoando esta reunião. Inclusive as tais criancinhas das quais nós seríamos levados a ter uma pena tipo “UNESCO”, ou tipo união “protetora dos animais”, ou não sei bem o que… Aqui, então, está dada a explicação.
Os comentários do texto de Catarina Emmerick estão concluídos. Eu, em tese, deveria dizer alguma coisa a respeito da devoção a Nossa Senhora antes de terminar a nossa reunião. Mas, como eu já tenho falado bastante sobre Ela, se algum dos senhores sobre o que eu disse ou qualquer outra matéria, queira me fazer alguma pergunta, eu estou à disposição daqui a uns dez minutos; nós trataremos, então, da devoção a Nossa Senhora.
Algum dos senhores gostaria de me fazer alguma pergunta sobre qualquer matéria?
(Sr. –: Dr. Plínio, sobre a verdadeira devoção dos apóstolos… [inaudível] …interessante?)
* São João, preferido de Nossa Senhora
Quer dizer, é sabido o seguinte. Que São João foi sempre o discípulo preferido de Nosso Senhor, e também preferido de Nossa Senhora. Uma coisa, aliás, traz a outra, porque Nossa Senhora sendo Medianeira de todas as graças, o amor que Nosso Senhor teve a São João só podia vir por meio d’Ela. De maneira que, preferido por Nosso Senhor, era preferido por Ela.
Daí veio aquele fato de que São João estava ao pé da cruz, o único que teve a coragem de estar ao pé da cruz, era o apóstolo virgem e o apóstolo mariano, estava ao pé da cruz, e ele recebeu essa herança incomparável que foi Nossa Senhora, não é?
Então, houve ali algo que transcendeu enormemente, mas que é do gênero de verdadeira consagração do devoto de Maria a Nossa Senhora pelo método de São Luiz Grignion de Montfort, naquele momento em que Nosso Senhor disse: “Mulher, eis aqui teu filho”, em vez de dizer a São João “eis aqui tua Mãe”, naquele momento Ele estabeleceu entre os dois um laço jurídico à maneira de adoção.
Mas é claro que esse laço jurídico não ficava só no jurídico, mas era uma interpenetração de almas, era um nexo, era um vínculo que fazia de São João algo de indizivelmente arquetípico daqueles apóstolos dos últimos tempos que fala São Luiz Maria Grignion de Montfort, não é?
E ele, que representava dentro da Igreja o amor de Deus, que representava a intimidade com Nosso Senhor e com Nossa Senhora, ele, a partir daquele momento, ficou o perfeito apóstolo de Nossa Senhora. Este é o principal elemento, principal nota que se tem a respeito dos vínculos entre Nossa Senhora e um apóstolo, de acordo com as Escrituras. Catarina Emmerick dá muitas coisas que vão muito além disto.
* Alguns apóstolos eram parentes de Nossa Senhora
Há uma outra coisa que também se deve considerar é que alguns apóstolos eram parentes de Nossa Senhora segundo o sangue, porque eram da casa de Davi. Aliás, um deles, São João Evangelista mesmo, não é? Eram da casa de Davi; e eram, portanto, meninos que foram educados numa certa relação e talvez até na intimidade com Ela. Que Ela viu crescer e que Ela, com certeza, encheu de toda espécie de graças. De maneira que estes, não por uma simples razão de família, mas por causa dos vínculos sobrenaturais que naquelas circunstâncias a razão de família trazia, então, eles deveriam ser apóstolos mais chegados a Ela e que deveram a vocação a Ela também.
* Arrependimento de São Pedro. Prêmio
Todos dizem e é sumamente plausível, como eu disse há pouco, que, quando São Pedro caiu em si, quando o galo cantou e Nosso Senhor olhou para ele com aquele olhar inexprimível, que ele foi transpassado de dor pelo que ele fez. E o Evangelho diz: “Et flevit amare”: ele chorou amargamente.
Há tradições, segundo as quais, ele chorou tanto que sulcos de lágrimas ficaram no seu rosto até o fim da vida. Porque ele chorou até a morte o pecado que ele tinha cometido. Bem, tudo leva a crer que, quando ele caiu em si, que o galo cantou, que ele foi visto por Nosso Senhor e que ele teve aquela censura e ao mesmo tempo aquele convite d’Aquele olhar, que ele ficou alquebrado.
E compreende que era normal admitir-se que ele tinha tido tentação de desespero. Ele se terá salvo da tentação de desespero correndo a Nossa Senhora, evidentemente. E ali se estabeleceu um nexo entre Nossa Senhora e ele, que a condição dele de chefe da Igreja só podia reforçar de todos os modos. Porque a gente compreende que entre a Mãe da Igreja e o chefe da Igreja a união tem que ser estreitíssima. Nossa Senhora, se é a Mãe da Igreja é a protetora do Papado, que é a cabeça da Igreja. A mãe vela pelo filho todo, mas vela pela cabeça com cuidado particular, não é verdade? E aí nós podemos conjeturar outro teor de relações, não é?
* Nossa Senhora conforta Santiago
Há um teor de relações também muito bonito a considerar: no episódio do aparecimento de Nossa Senhora, na Espanha, para confortar São Tiago, não é?
São Tiago estava desolado com a esterilidade de seu apostolado, Nossa Senhora apareceu lá e o confortou de maneira a ele ficar lá, e daí nascer a catolicíssima, a conversão da catolicíssima nação espanhola. Mas, não me ocorre aqui no momento, assim, individualmente mais fatos históricos capazes de justificar esta relação.
* Devoção dos apóstolos a Nossa Senhora antes de Pentecostes
Mas enquanto cada apóstolo era chamadíssimo e tinha uma graça especial, enquanto cada apóstolo era assim, é claro que essa graça vem por meio de Nossa Senhora. E é claro que, embora nós não conheçamos pormenores de fatos, todos eles têm que ter sido necessariamente devotíssimos de Nossa Senhora. Isto encontra uma expressão no fato de que Nossa Senhora estava na presidência do Colégio Apostólico quando veio Pentecostes. E que a língua de fogo de Pentecostes pairou sobre Ela e depois se espalhou por todos os apóstolos.
Quer dizer, antes mesmo de vir o Espírito Santo, eles eram unidíssimos a Ela, quiseram tê-La lá, evidentemente, por unanimidade de vontade. E, participando da graça d’Ela, evidentemente ainda mais se uniram com Ela. De maneira que todos eles têm que ter sido devotos insignes.
(Sr. –:… [Inaudível] …)
Pois não.
Ela foi aumentando o conhecimento… [ilegível] …teve um conhecimento pleno no sentido de dizer… [ilegível] …um conhecimento que excede muito a capacidade da mente humana. Mas é claro que os… [ilegível] …são insondáveis, e que nesse sentido a pessoa sempre pode progredir neles.
* Quem vai se santificando cresce no conhecimento de Deus
E Ela foi, com certeza, progredindo pelas seguintes razões: Quem vai se santificando, vai sempre conhecendo melhor a Deus. Ora, Ela se santificou cada vez mais ao longo de toda sua vida. E com uma perfeição tal, que em todos os momentos de sua vida Ela correspondeu perfeitamente à graça. E teve todo progresso de santidade que a Providência intencionava para Ela. De maneira que é claro que Ela cresceu em conhecimento também.
Mas a gente vê que Ela cresceu muito também por ter tido durante trinta anos, trinta e um anos, Nosso Senhor n’Ela e depois convivendo com Ela. E, naturalmente, compreende que o conhecimento direto a Nosso Senhor seria uma fonte de sabedoria inapreciável de mil maneiras.
Nosso Senhor era um exemplo vivo e perfeitíssimo em tudo e a todo momento. E Ela tudo isto considerava. E pode compreender no menor dos gestos de Nosso Senhor todo ensinamento que entrava e com que amor indizível Ela recebia esse ensinamento, não é?
* Conhecimento dEla foi de plenitude em plenitude
Por fim, Ela recebeu o Espírito Santo em Pentecostes. E tem que ter representado ainda um outro aumento de conhecimento. De maneira que se deve dizer que o conhecimento foi aumentando muito, embora fosse pleno num certo sentido da palavra já no primeiro instante de ser d’Ela. Vamos dizer, que Ela caminhou de plenitude em plenitude.
Não sei se me exprimi bem. Queriam me fazer mais alguma pergunta ou não está qualquer coisa claro no que eu disse? Mais alguma pergunta os senhores?
(Sr. –: Dr. Plínio, sobre a característica da verdadeira devoção a Nossa Senhora quanto aos verdadeiros devotos… o senhor poderia discorrer mais um pouco?).
Não é muito fácil discorrer porque a coisa gira em torno de imponderáveis. Mas eu vou tentar dizer alguma coisa.
* Imponderável do Natal
Eu dou um fato de observação corrente que, se não foi cada um dos senhores que observou, pelo menos muitos terão observado, e é o seguinte: uma noite de Natal numa cidade aonde o comercio não tinha comercializado o Natal. Porque essas noites de Natal comerciais, não é? Com um sino na casa de comercio, bem-bem e tocando música protestante em “high fidelity” e depois anunciando artigos com lâmpadas que acendem e apagam, isso borra o Natal e escangalha o Natal.
Mas vamos tomar o Natal numa cidade onde isto ainda não tenha entrado ou não tenha dominado o Natal da cidade. É uma coisa positiva que a noite de Natal traz consigo algumas graças que se espalham por toda Cristandade, e de que aquela canção “Stille Nacht, Helige Nacht”, Noite Feliz, dá muito, embora seja uma canção popular, não se possa dizer de nenhum modo que aquilo seja alta música, aquilo dá, entretanto, muito do ambiente da noite de Natal, não é?
O quê que é? É um imponderável que se espalha por toda Cristandade e que é um senso do sacral, o senso de uma doçura nobilíssima ou de uma nobreza dulcíssima que desceu do mais alto Céu empíreo até os homens, num raio de luz varando suavemente e sem esforço distâncias que se tornaram insignificantes, e que se espalhou sobre a terra como um ungüento, como um perfume, não é? Que aquieta a todos, que distende a todos, que dá esperança a todos e que faz pairar no ar como que uma sensação de que o Céu existe e beijou a terra.
Todo mundo tem um pouco, numa verdadeira noite de Natal, tem um pouco a sensação de ter tocado o Céu com as mãos. A Igreja na noite de Natal, não é? A Igreja toda acesa, os fiéis que se aproximam, uma certa expectativa jubilosa que fica em torno da entrada do sacerdote, o sino que toca, o sacerdote que vai ao altar, traz o Menino Jesus e leva para o presépio, a missa que começa; depois as famílias que saem, que vão para suas respectivas casas onde existe uma refeição preparada para todos.
Depois, aquele ambiente de cordialidade, no Grupo, ainda mais, quando todos se reúnem, assistem missa juntos, voltam para a sede… Há um imponderável, há um imponderável do qual se pode ter uma descrição no Evangelho de hoje, da missa de hoje quando fala do reino de Cristo.
* O Evangelho da missa do dia também lembra o Natal
Então, tem expressões lindíssimas. Infelizmente eu tenho má memória, mas se alguém tem isso de cor pode dizer porque vem muito a propósito. Quando fala em reino de suavidade, de paz, de justiça e de glória, de caridade e de não sei mais o que, a gente tem a impressão de que aquilo tudo é a noite de Natal. Que a fímbria desse reino tocou na terra.
E que foi dado aos homens, por uma graça de consolação, evidentemente, vinda do Espírito Santo por meio de Nossa Senhora, foi dado aos homens uma espécie de — a expressão é prodigiosamente incorreta, mas é para me exprimir — de sexto sentido, por onde eles palpam estas realidades todas, sobrenaturais e imponderáveis, e se sentem cheios dela. Resultado: a virtude aparece reluzente e atraente.
* Virtude traz alegria; pecado sofrimento
A gente compreende melhor como no fundo, toda virtude traz uma alegria ainda que a gente não perceba, e como todo pecado traz um sofrimento ainda que a gente julgue perceber alegria. Porque é na noite de Natal que a gente compreende — um pouco na Páscoa também — como virtude e alegria são co-naturais; e como pecado e sofrimento são co-naturais também.
* Fraternidade autêntica
E há uma espécie de sensação de desafogo que leva a gente, sem querer, a gostar do outro, a atender como amabilidade, a ter vontade de oferecer uma coisa, o egoísmo fica como uma espécie de chaga sobre a qual se tenha posto um bálsamo. E as pessoas ficam propensas a esta amizade, a esta fraternidade perto da qual a fraternidade ululante e gotejando sangue da Revolução Francesa não é senão uma caricatura diabólica.
Bom. Isto indica um pouco o que é que são certas ações da graça sobre a alma do homem. Ora, acontece que o verdadeiro devoto de Nossa Senhora tem isto no fundo de sua alma, embora às vezes de um modo insensível. Mas há nele, por obra de Nossa Senhora, o fundamental da paz e da alegria de alma. É — porque é disto que a paz e a alegria de alma se fazem — certezas inteiramente certas. Nosso senhor disse no Evangelho: “Seja vossa linguagem: sim, sim; não, não”.
* Definição de espírito no devoto de Nossa Senhora
O verdadeiro devoto de Nossa Senhora é um espírito que é “sim, sim; não, não”. O que é certo é certo, o que é errado é errado. O que é bem é bem, o que é mal é mal. A verdade exclui o erro, o bem enxota o mal; eles estão em luta, mas eu me dei à verdade, eu me dei ao bem e tenho uma vontade — eu, entre aspas; não estou dizendo de mim, eu digo um devoto de Nossa Senhora — ele tem uma vontade tão inquebrantável quanto possa ser inquebrantável a miséria humana e a força do auxilio de Deus, ele tem uma vontade inquebrantável e determinada.
Eu conheço meu fim, eu conheço meu caminho, isto eu farei e seguirei; sem dúvida nenhuma, sem vacilação nenhuma, aconteça o que quiser. Ainda que todas as desgraças do mundo desabem sobre mim, eu conheço minha verdade, eu conheço meu caminho e para lá eu vou. Há no fundo disso, ainda que com tormentos medonhos, com sofrimentos enormes, um fundo de paz, um fundo de estabilidade, e um fundo de vida que dá certo, que é uma felicidade que Nossa Senhora dá à alma, e que fica no maior fundo da alma; e que a gente vê que é diferente da felicidade do homem que não é filho de Nossa Senhora.
* Mesmo na alegria, o fundo do olhar triste do filho das trevas
Quando a gente vai nos lugares onde estão as pessoas que se entregam ao mundo, é muito interessante para um observador notar as fisionomias. A gente olha, à primeira vista, está todo mundo alegre, todo mundo conversando, todo mundo com o ar de que está se divertindo muito. Mas fixem bem aquelas caras, procurem olhar aqueles olhos no momento em que aqueles olhos não se sentem olhados. É só passar o momento de diversão que aparece uma tristeza. E aparece assim um vazio, e uma sensação de tédio, de coisa que está sobrando, e de agitação, de falta de contentamento. Do lado de fora, muita diversão. No fundo hesitação, falta de rumos, falta de segurança, peso de consciência, deboche, me perdoem a palavra, mas a única palavra que serve: avacalhamento interior.
É o interior da alma do ímpio, por mais alegre que ele pareça. No fundo é isto. Os senhores querem ter a prova disto?
O verdadeiro devoto de Nossa Senhora pode estar só, gosta de estar só e encontra alegria de alma em estar só. O ímpio, não. Ele tem horror à solidão. Por isso é que ele tem o tempo inteiro rádio, televisão, olha pela janela, telefona, fala com amigos e sai correndo de casa para a casa dos outros tanto quanto pode. E por que? Porque a solidão lhe é aborrecida. Por que? Porque na solidão ele olha para dentro de si. E o olhar para dentro de si, fá-lo tomar contato e a consciência da sua própria infelicidade.
* Dom do homem fiel: perceber imponderáveis sobrenaturais
Aqui está, portanto, o fundo da felicidade que Nossa Senhora dá ao homem fiel. Mas essa felicidade é acrescida por outra coisa. É que a pessoa verdadeiramente devota de Nossa Senhora possui em muitos, habitualmente, salvo exceção, esta espécie de coisa impropriíssimamente chamada sexto sentido, por onde percebe os imponderáveis sobrenaturais das coisas.
E, por exemplo, em contato com uma realidade como o Grupo, percebe todos os imponderáveis que o Grupo traz consigo; toda a glória desta luta do Grupo; toda esta glória de uma fidelidade sem jaça; toda esta glória de uma coerência que é levada até o sacrifício de todos os interesses individuais, dê no que der e chegue até onde chegar. Toda essa resolução de tanto quanto caiba na fraqueza humana, chegar até o martírio — e cabe sempre porque a graça sempre ajuda — na fidelidade aos princípios fossem conhecidos, tudo isso constitui uma auréola, constitui um nimbo que a pessoa sente e que enche de alegria a alma da pessoa.
* Quando o justo tem algum deslize, esse dom empalidece
Quando, pelo contrário, alguma coisa tisna a alma e a devoção a Nossa Senhora nessa alma é fraca, acontece outra coisa: apaga-se isto. E, isto apagado, fica então tudo difícil, tudo complicado, tudo cheio de tédio. E o dever começa a parecer pesado e, pelo contrário, o prazer começa — o mau prazer — começa a parecer atraente. É como que um câmbio de luzes, e uma série de encantos se perdem e se dissipam. Propriamente, é o que constitui o “sabugo”.
Não sei se eu me exprimi bem.
Bem, meus caros, eu atendo apenas mais uma pergunta porque nossa reunião já está durante bem mais de uma hora. Se alguém quer me fazer mais alguma pergunta, eu estou à disposição.
Pois não, Daniel.
(Sr. Daniel: A gente tem a impressão de que, em concreto, com a “geração-nova” acontece o seguinte. Existe uma trama diabólica, entende, com relação à devoção a Nossa Senhora, trama esta que faz com que o “geração-nova” fique em dúvida se está tendo a verdadeira devoção a Nossa Senhora ou não está, entende? E daria para o senhor fazer o favor de dizer até que ponto isto é coisa do demônio, etc.?).
Talvez eu fizesse melhor dando a você um critério de certeza, para o “geração-nova” ter certeza se está tendo ou não a verdadeira devoção a Nossa Senhora. Está bem? Depois eu respondo à outra pergunta. Eu te respondo a pergunta com duas respostas.
* A verdadeira devoção a Nossa Senhora
Bem. A primeira é esse critério de certeza. A verdadeira devoção a Nossa Senhora se ancora num ponto. É o nosso conhecimento de que Ela é a Medianeira de todas as graças. Isto quer dizer em português claro o seguinte: que Nossa Senhora é o traço de união único entre Jesus Cristo e o homem e a criatura humana.
De maneira tal que todas as graças que o homem pede, tem que pedir por meio d’Ela. Todas as graças que ele recebe vêm porque Ela pediu. Se todo Céu pedisse uma coisa sem Nossa Senhora pedir, não conseguiria. O que Ela pede sozinha, sem o Céu inteiro, Ela consegue, porque a oração d’Ela é onipotente. E mesmo a oração dos Santos, no Céu, tem que passar por Ela, embora estejam no pleno agrado de Nosso Senhor Jesus Cristos, no Céu, gozando da visão de Deus face a face, a oração deles tem que passar por Ela. Porque Ela é medianeira dos Santos também.
Agora, se eu tenho isto bem em vista, eu faço todas as minhas orações por meio d’Ela, e espero tudo d’Ela. E, na hora da comunhão, na hora do rosário, na hora da jaculatória, eu tenho sempre como fundo de graça, esta convicção: Ela é minha Medianeira com duas características, Ela é onipotente, não por natureza própria, mas porque Ela consegue tudo de Deus — primeiro ponto — e, em segundo ponto, Ela é de uma misericórdia inextinguível, de maneira que se Judas A tivesse procurado logo depois da traição, Ela teria obtido o perdão dele.
Se Ela teria feito isto por Judas, também por mim teria feito. Então, em todas as circunstâncias de minha vida, por mais desgostoso e aborrecido que eu esteja comigo, por mais apreensivo que eu esteja com uma alma que eu queira salvar, pedir a Ela porque Ela salva sempre e Ela apóia sempre.
Se isto está sempre presente em meu espírito, na hora de rezar, então eu sou um verdadeiro devoto de Nossa Senhora. Está claro, Daniel, ou não?
(Sr. Daniel: …a dúvida se põe mais, entende, não tanto quando está rezando, mas no decorrer do dia, entende? …no trabalho ou coisa do gênero, entende? Eu acho que a resposta… na mesma posição, não é?)
A resposta… a coisa é esta: Se eu rezo assim para Nossa Senhora, quando eu rezo… e eu durante o dia faço a Ela algumas jaculatórias — e não precisa ser uma jaculatória de estar atormentando a memória, carregar o dia inteiro aquele fardo daquela jaculatória, porque nada na devoção a Nossa Senhora pode ser fardo. Mas é uma coisa suave, natural, fácil, atraente… então eu sou um perfeito devoto de Nossa Senhora, porque o resto Ela dá. Se faltar alguma coisa, vem. Está bem? Mais alguma coisa, Daniel?
(Sr. Daniel: Não.)
Bem, então, vamos deixar mais uma pergunta, sim?! Há mais alguma pergunta?
(Sr. –: Com relação a… à entrega total…?)
* A escravidão não é contrária à lei natural
Você chegou a ler o “Tratado da Verdadeira Devoção” de São Luiz Grignion? Bem, em essência, a escravidão a Nossa Senhora procede de uma verdade teológica muito simples e absolutamente indiscutível. São Luiz Grignion de Montfort põe este princípio: A escravidão, a condição de escravo, segundo São Tomás de Aquino, não é uma condição contrária ao direito natural. Há circunstâncias que justificam a escravidão.
A escravidão é injusta se uma pessoa, por exemplo, rapta outra, se apodera de outra e por violência torna-se escrava. Aí é um roubo, é um confisco, um crime. Mas, pode haver circunstâncias em que nasça legitimamente a escravidão de uma pessoa para outra. Vamos dizer, por exemplo, uma pessoa, um povo costuma continuamente atacar outro povo. E é para o outro povo uma causa de perturbação e de agitação, e de guerras contínuas. O povo atacado, um belo momento perde a paciência, arma-se, invade o outro povo, reduz alguns tantos milhares daqueles a escravos por causa das agressões que cometem, para meter medo naquele outro povo. E cada nova agressão faz mais uns tantos escravos.
Isto, segundo São Tomás de Aquino não é contrário ao Direito Natural, é segundo a justiça e conforme o Direito Natural. E, então, ele diz que uma pessoa pode ser escrava por esta forma, a legítima conquista, ou pode ser escrava também por sucessão hereditária. Quer dizer, a escravidão em certas circunstâncias se torna hereditária.
* Depois do pecado original, escravo de Deus ou do demônio
Ele diz que o homem, depois do pecado original, se tornou escravo do demônio. E o único jeito que ele tinha de deixar de ser escravo do demônio, era ser resgatado por Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas, resgatado por Cristo ele se torna escravo de Cristo. Porque Cristo compra aquele povo com seu sangue e se torna Senhor daquele povo.
De maneira que, depois do pecado original, ou o homem é escravo de Deus ou o homem é escravo do demônio? Ou o homem é escravo de Cristo ou é um homem escravo do demônio. Qual é o alcance dessa afirmação escravidão?
Quer dizer que Nosso Senhor Jesus Cristo tem direito de dispor de nós absolutamente como entender, como senhor em relação ao seu escravo. E nós ainda ficamos devendo a Ele infinitamente. Porque, se Ele não nos tivesse remido, nós iríamos todos para o Inferno. Portanto, nós devemos a Ele a libertação de um mal sem nome e a outorga de um benefício sem nome, que é o benefício da bem-aventurança celeste. Ele nos abriu as portas do Céu.
* Escravos de Nossa Senhora, porque Ela é mãe dEle
Bom. Se é assim, então, é verdade também que nós somos escravos de Nossa Senhora. E nós o somos porque Nossa Senhora, sendo a Mãe de Cristo e todas as nossas relações com Ele sendo por meia d’Ela, nós sendo escravos d’Ele, somos escravos d’Ela, que é a Mãe d’Ele e a Medianeira de todas as graças.
Então age de acordo com a natureza das coisas um homem que procura Nossa Senhora e reconhece essa escravidão. E dá a Ela, reconhece a Ela o direito de dispor de tudo quanto é dele como Ela entenda, para a glória d’Ela. E inclusive o mérito de suas boas obras, que Ela pode aplicar em favor de quem quiser. Ele com isso, em última análise, dá a Nossa Senhora tudo porque Nossa Senhora tem o direito a tudo.
* Nossa Senhora, mãe boníssima, protege quem se entrega a Ela
Agora, acontece que com isso, por assim dizer, ele cativa a Nossa Senhora. Porque, quem se dá a Nossa Senhora tão inteiramente, sendo Ela uma Mãe boníssima e dulcíssima, Ela dá uma recompensa superabundante que é um amor extraordinário e uma proteção incomparável. E aí você tem, resumido em duas palavras a escravidão a Nossa Senhora.
Não sei se eu fui claro no que eu disse.
Bem, nessas condições, então, vamos pedir para Nossa Senhora nos dar a… Ela, ensinado por São Luiz Maria Grignion de Montfort.
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