Santo
do Dia – 14/10/1966 – p.
Santo do Dia — 14/10/1966 — 6ª-feira
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Ante o avanço do protestantismo, Santa Teresa d’Ávila se reafervora e reforma o Carmelo. A reforma carmelitana: um dos principais episódios da Contra-Reforma. Confirmação das impostações do Senhor Doutor Plinio sobre a prioridade da vida interior. A flor mais recente e estupenda do florecimento carmelitano: Santa Teresinha do Menino Jesus. São Calixto e São Mercurial: santos guerreiros que morrem em luta contra os sarracenos. A derrota é, muitas vezes, mais meritória do que a vitória.
Santa Teresa d’Ávila, São Calixto de Huesca e São Mercurial
Ante o avanço do protestantismo, Santa Teresa se reafervora e reforma o Carmelo * A reforma do Carmelo: um dos principais episódios da Contra-Reforma * A reforma de Santa Teresa mostra o acerto das impostações do Senhor Doutor Plinio sobre a prioridade da vida interior * O florescimento carmelitano na França produz sua flor mais recente e estupenda: Santa Teresinha do Menino Jesus * Dois Santos guerreiros: São Calixto e São Mercurial * Lutam bravamente e morrem em combate contra os sarracenos * Muitas vezes, a derrota tem mais mérito aos olhos de Deus do que a vitória
Amanhã, dia 15 de outubro, será festa de Santa Teresa d’Ávila e de São Calixto de Huesca.
* Ante o avanço do protestantismo, Santa Teresa se reafervora e reforma o Carmelo
Sobre Santa Teresa d’Ávila, o Rohrbacher tem essas considerações:
No primeiro capítulo de sua obra, “O Caminho da Perfeição”, Teresa explica os motivos que a levaram a estabelecer uma observância tão rigorosa no mosteiro carmelita de São José de Ávila.
Diz Ela: “Tendo conhecimento dos desastres, em França, da devastação que aí faziam os heréticos, e como essa infeliz seita aí se fortificava dia a dia…
Eram os protestantes.
…fui por isso tão vivamente tocada que, como se eu pudesse alguma coisa, ou se eu fosse alguma coisa, chorava em presença de Deus e implorava que remediasse tão grande mal. Parecia-me que eu teria dado mil vidas para salvar uma só do grande número de almas que se perdiam nesse reino. Mas vendo que era somente uma mulher, e ainda tão má e totalmente incapaz de prestar a Deus o serviço que eu desejava, acreditei, como acredito ainda, que, pois, como há tantos inimigos e tão poucos amigos, eu devia trabalhar o quanto pudesse para fazer com que esses últimos fossem bons.
Assim, tomei a resolução de fazer o que dependia de mim para praticar os conselhos evangélicos com a maior perfeição que pudesse, e procurar levar esse pequeno número de religiosas que estão aqui, a fazer a mesma coisa. Nesse sentido, confiei-me à bondade de Deus, que não deixa jamais de assistir àqueles que a tudo renunciam por seu amor. Esperei que essas boas moças, sendo como meu desejo as figurava, meus defeitos seriam cobertos por suas virtudes e poderíamos contentar a Deus em alguma coisa, ocupando-nos todas em rezar pelos pregadores, pelos defensores da Igreja e pelos homens sábios que sustentam discussões. Pois assim faríamos o que estava a nosso alcance para socorrer nosso Mestre, que esses traidores, que lhe devem tantos benefícios, tratam com tanta indignidade, que parecem querer crucificá-Lo ainda e não deixar lugar algum onde Ele pudesse repousar a cabeça.
A expressão, a reflexão de Santa Teresa é lindíssima. Ela era uma simples religiosa de um convento carmelita, não propriamente corrupto, mas relaxado, e ela mesma tendo passado muito tempo na tibieza e na mediocridade no amor de Deus. Ela ouviu falar nas devastações que o protestantismo estava fazendo na França. Eram devastações, naquele tempo, muito grandes.
Os protestantes tinham conquistado completamente um pequeno reino que havia no sul da França, que era o Reino de Navarra, cuja Rainha Jeanne… [¼ de linha em branco] …e, mais tarde, o filho dela, o Rei Henrique, futuro Henrique IV da França, eram protestantes militantes. Por outro lado, o protestantismo se tinha espalhado por toda a França e um terço da França se tinha tornado protestante. E estavam fazendo –– os protestantes na França –– toda espécie de blasfêmias, de agressões às igrejas, de pregações pavorosas, era um verdadeiro incêndio religioso na França.
Essa notícia desse fato chega à Espanha e chega ao conhecimento dessa freira um tanto medíocre. E aí a graça de Deus toca a alma dessa religiosa e ela compreende o imenso desastre que isso representava. E em vez de ficar com idéias nacionalistas idiotas, pensando: “Aquilo é a França e eu estou na Espanha, e eu não tenho nada que ver com o que se passa na França”, compreendendo a universalidade da Religião Católica, compreendendo a universalidade da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, ela entendeu também que isso era um verdadeiro desastre para o mundo católico inteiro. Então, ela pôs-se a chorar copiosamente, e daí veio a idéia de sua conversão.
Agora, de onde é que veio a idéia da conversão? Ela expõe isso apenas muito de passagem aqui, mas em outros trechos isso fica mais claro. Ela fez o seguinte raciocínio: “Eu sou uma simples religiosa e eu não posso, eu, como mulher, fazer nada. A não ser o seguinte: os amigos de Deus são poucos e tíbios. Os inimigos de Deus são muitos e ardorosos. Eu devo portanto rezar, imolar-me, renunciar a tudo para que os amigos de Deus se tornem mais fortes e sejam capazes de fazer face aos inimigos de Deus. Então, afervorar os católicos, “catolicizar” os católicos era o meio de levar o inimigo à derrota. Então, para conseguir isso, era preciso tomar algumas freiras que estavam ao alcance dela e fazer com que essas freiras se imolassem, rezassem; ela mesma também passar da mediocridade para o fervor, para conseguir que os pregadores católicos, os doutores católicos, que os que lutavam pelas armas católicas se tornassem capazes de derrotar os protestantes. Então, dessa idéia veio a reforma do Carmelo. E, naturalmente, graças incontáveis que se derramaram sobre a França em conseqüência das orações das carmelitas.
Os senhores estão vendo por aí que é uma idéia altamente teológica e altamente sapiencial que inspirou isso: a idéia da comunhão dos santos, a idéia do valor preponderante da oração e do sacrifício para a Igreja vencer suas grandes batalhas; a idéia de “catolicizar” os católicos como meio de vencer os que não são católicos, e para deter o furor dos que não são católicos; e, por fim, a idéia de uma reforma de uma Ordem religiosa especialmente para isso. É uma concatenação de idéias esplêndidas que se ligam umas às outras e que têm, como desfecho, a reforma da Ordem do Carmo.
* A reforma do Carmelo: um dos principais episódios da Contra-Reforma
É isso que explica aos senhores esse fato curioso. Santa Teresa de Jesus, apenas o que ela fez foi reformar a Ordem do Carmo. A Ordem do Carmo é Ordem de reclusas, e estabelecer a reforma dos Carmelitas Descalços, que não são reclusos. A obra em si, humanamente falando, não é tão extraordinária. O que [é] que representa isso humanamente falando? Multiplicar o número de conventos de religiosas trancadas no seu convento? Multiplicar o número de conventos de padres, vamos dizer, de padres fervorosos, só isso a mais? Entretanto, não há história da Igreja, um pouco cuidadosa, que não mencione entre os principais fatos da Contra-Reforma, a reforma teresiana do Carmelo. Por quê? Porque essa reforma teresiana teve um efeito extraordinário nos imponderáveis de toda a Cristandade. O fervor aumentou em toda a Igreja; em torno das carmelitas desencadeou-se um movimento de afervoramento, movimento este que foi dos motores mais vigorosos da Contra-Reforma. Os padres carmelitas também atuaram da mesma maneira. Quer dizer, uma ação que era maior do que os meios humanos nela empregados, uma espécie de expansão de um espírito, expansão de uma mentalidade, expansão de uma atitude de alma, que tinha como conseqüência uma afervoramento geral dos católicos, e fazendo, portanto, da obra de Santa Teresa uma das grandes obras da Contra-Reforma.
* A reforma de Santa Teresa mostra o acerto das impostações do Senhor Doutor Plinio sobre a prioridade da vida interior
Bem, o que é curioso é que isso se explica muito mais pelo lado sobrenatural do que pelo lado natural. E nos mostra, por outro lado, quanta razão nós temos em algumas impostações nossas:
— prioridade da vida interior sobre a vida ativa;
— prioridade da preocupação de “catolicizar” os católicos, sobre a preocupação de conquistar não-católicos para a Igreja Católica;
— a idéia de que a oração e o sofrimento valem mais, na luta contra os adversários, do que a ação;
— o desejo, entretanto, ardente da ação e da ação levada até suas últimas audácias, que caracterizavam o espírito de Santa Teresa de Jesus.
Tudo isso faz com que nós percebamos, na grande autoridade de Santa Teresa de Jesus, quantas concepções nossas são verdadeiras e quanto, portanto, nós a ela devemos ser fiéis.
* O florescimento carmelitano na França produz sua flor mais recente e estupenda: Santa Teresinha do Menino Jesus
É preciso dizer que esse extravasamento do zelo de Santa Teresa de Jesus para a França produziu a implantação da reforma do Carmelo na França, feita por uma das discípulas mais amadas de Santa Teresa, que é a Bem-aventurada Ana da França, e que daí decorreu na França um florescimento carmelitano, que produziu como flor mais recente e estupenda, flor igual às maiores flores, — e eu exatamente falei em “mais recente”, evitando a palavra “última”, porque foi o ponto de partida de novos florescimentos — Santa Teresinha do Menino Jesus. Nós devemos, ver, portanto, em Santa Teresinha do Menino Jesus, mais uma expansão desse zelo pela França de Santa Teresa a Grande, que produziu depois o nascer, na França, e depois fora da França, de toda a imensa família das pequenas almas, estimuladas, suscitadas e, eu diria, espiritualmente dirigidas por Santa Teresinha do Menino Jesus. Isso, então, no que diz respeito à grande Santa Teresa de Ávila.
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* Dois Santos guerreiros: São Calixto e São Mercurial
Nós temos aqui também umas notas tiradas do livro do General Silveira de Mello, “Os Santos Militares”, sobre São Calixto de Huesca.
Calixto de Huesca era valoroso guerrilheiro espanhol; distinguia-se na luta contra os sarracenos em Aragão, nos séculos X e XI. No afã de socorrer os habitantes do Vale de Aura contra aqueles terríveis inimigos do Cristianismo, empenhou-se em luta contra eles ao lado de seu companheiro de armas, São Mercurial. Ambos pereceram em combate, valentemente.
Celebrava-se em Tarvis o culto desses dois valorosos mártires. A igreja de Cazeau festeja São Calixto a 15 de outubro, enquanto que Vieille celebra São Mercurial a 26 de agosto.
A imagem é linda, não é? A luta contra os sarracenos ainda no seu período épico, quer dizer, quando os sarracenos eram uma potência não virtualmente destruída, quando a Reconquista estava começando a dar seus primeiros grandes frutos, mas ainda era uma grande incógnita, nós vemos dois grandes santos que combatem, lado a lado, os sarracenos. Santos tão ocultados pela “heresia branca” que eu sou obrigado a reler os nomes deles para poder mencioná-los, e que são, então, São Calixto de Huesca e São Mercurial.
* Lutam bravamente e morrem em combate contra os sarracenos
Eles estão lutando no Vale de Aura e empenham-se, lado a lado, em uma guerra, uma batalha contra os sarracenos. Então, nós podemos imaginar esses dois santos juntos, irmanados na Fé, irmanados na luta, distribuindo golpes tremendos, levando golpes tremendos e perecendo gloriosamente, afinal de contas, debaixo dos golpes dos sarracenos. E, então, eles se recolhem aos esplendores de Deus. A[s] sua[s] alma[s] sobe[m, diretamente para o Céu e seu sangue de mártir banha o território sagrado da Espanha! É uma imagem magnífica! Nós podemos imaginar isso no alto de uma montanha, num pôr-do-sol, eles cobertos de metais que reluziam ao pôr-do-sol, uma poeira dourada levantando-se do chão, clamor de armas, berreiro, eles lutando até o último ponto, talvez cercados pelos adversários, e matando até o momento exato de morrer, e exalando sua[s] alma[s] numa última prece, e numa última reivindicação dos direitos de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora sobre a Espanha.
Bem se diz que a morte dos santos é preciosa ante Deus. Os senhores podem imaginar a hora em que os dois caem, e o brado de triunfo dos sarracenos; e a impressão, a aparência de que a Fé foi esmagada e de que a Cruz sofreu mais uma grande derrota do Crescente. Quer dizer, mais uma vez, depois de tantas e tantas outras, os católicos ficam por baixo e os sarracenos ficam por cima. Mas aplicam-se aqui os princípios de Santa Teresa: quem morre faz, em poucos minutos, algo de análogo ao que uma carmelita faz durante a vida inteira; renuncia tudo, dá tudo e aceita a morte. E merece aquele elogio que Nosso Senhor fez do mártir, dizendo que ninguém pode dar maior prova de amizade a um amigo do que consagrando, do que sacrificando a vida em favor do amigo. Eles morrem por Nosso Senhor, eles morrem com o nome de Nossa Senhora nos lábios, morrem mesmo. E há um desastre. Mas o sangue dos mártires é germe de cristãos. E por todos os lugares da Espanha as almas recebem novos alentos, a Reconquista recebe novo vigor, e dessa aparente derrota vem uma vitória.
* Muitas vezes, a derrota tem mais mérito aos olhos de Deus do que a vitória
Por que é que eu insisto a esse respeito? É mais uma ocasião que me é dada para mostrar que essa posição triunfalista que nós facilmente adotaríamos, é uma posição errada, e que muitas vezes nós podemos ser derrotados. E que a derrota tem mais mérito aos olhos de Deus muitas vezes do que a maior das vitórias. Que é normal ser derrotado, que a glória do martírio é a glória dos derrotados. Mas que, como bem se sabe, as grandes vitórias da Igreja sempre se alcançam não só a custa de vitória, mas de derrotas, derrotas que são elas mesmas vitórias enormes, porque o martírio é uma vitória. E por causa disso mesmo, freqüentemente, no dia em que um santo é martirizado, a Igreja celebra com festas o próprio martírio. Por quê? Porque o martírio é uma grande festa. Para usar a expressão carmelitana característica, a pessoa que morre entra no grande Carmelo do Céu, no topo do qual está Nossa Senhora, está Nosso Senhor Jesus Cristo.
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