Santo do dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 5/10/1966 – Quarta feira – [SD 010] – p. 4 de 4

Santo do dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 5/10/1966 — Quarta feira — [SD 010]

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Os cartuxos são contemplativos estritíssimos, consagrados ao estudo e à oração * A contemplação contribui mais para a Igreja, pois atrai as graças, que são para o apostolado como a chuva para a agricultura * A utilidade do sobrenatural não se nota pelos sentidos, mas mesmo assim é mais odiada do que a vida ativa * O ultramontano é mais odiado do que o contemplativo, tem a bem-aventurança de ser perseguido por amor à justiça

dia 5 de Outubro é festa de Nossa Senhora de Lujan, padroeira da Argentina. Estamos na novena de Nossa Senhora Aparecida e de Nossa Senhora do Rosário e é aniversário do Dr. Fernando Furquim de Almeida.

Amanhã, nós temos a festa de São Bruno, que é o fundador dos cartuxos. E a respeito dele nós temos a seguinte nota de D. Guéranger, sobre a utilidade da vida contemplativa…

* Os cartuxos são contemplativos estritíssimos, consagrados ao estudo e à oração

Como nós sabemos, os cartuxos são contemplativos estritíssimos e severíssimos. Eles moram em pequenas casas diversas, diferentes. Cada um mora numa própria casa, faz o serviço doméstico da própria casa, também racha lenha para manter a lareira durante o tempo do inverno, e o resto do tempo consagra ao estudo e à oração. E até há algum tempo atrás eles só se encontravam no coro para rezar. Cada um tomava até a sua própria refeição sozinho. De uns vinte ou trinta anos para cá — pouco mais ou menos — eles começaram então a tomar as refeições em comum, mas em silêncio. Depois também estabeleceu-se um passeio em que eles falavam e foi feita, assim, uma certa mitigação. Mas, na realidade, é uma das ordens mais estritas que há.

Eu ouvi contar do caso de um ex-cartuxo que saiu ainda como noviço e contava que naqueles bosques onde eles têm cada um a sua casinha, o silêncio era tão grande, o isolamento era tão grande, que ele chegava a se deitar na estrada, no chão, para ouvir o passo, o galope dos cavalos das pessoas que passavam ao longe, de tal maneira ele se sentia isolado.

Este homem não sabia… ele pensava que era um infeliz, ele não sabia que era feliz. Este era, naturalmente, dos tais que gostam de barulho de motor ligado, lambreta, motocicleta, etc. Uma maravilha!

* A contemplação contribui mais para a Igreja, pois atrai as graças, que são para o apostolado como a chuva para a agricultura

Então, sobre São Bruno, há a seguinte reflexão sobre o valor da vida contemplativa:

Toda vida religiosa transborda sobre o mundo das almas. Santificante para o contemplativo, a sua vida o é também, em primeiro lugar, para o próximo. É fácil de ver que aqueles que se desempenham assiduamente do dever da oração e da penitência, muito mais ainda do que aqueles que cultivam pelo trabalho o campo do Senhor, contribuem para o progresso da Igreja e a salvação do gênero humano. Porque se eles nada fizessem para descer do céu a abundância de graças divinas para irrigar estes campos, os cultivadores evangélicos não tirariam de seu trabalho senão frutos muito magros.

Esta citação, em termos mais correntes, quer dizer o seguinte: que na agricultura aquele que trabalha com suas próprias mãos o campo não conseguiria nada se Deus não mandasse a chuva. Assim também na cultura das almas, não se consegue nada se Deus não mandar a graça. O homem que procura fazer bem às almas sem contar fundamentalmente com a graça, este homem não consegue nada, como o agricultor que procurasse plantar sem depositar a sua esperança na ação fecundante das águas.

Então, qual é o papel do homem que trabalha na vida contemplativa?

O que trabalha na vida ativa é o jardineiro; o contemplativo é aquele que obtém as águas da graça que vão fecundar o trabalho do jardineiro. Ora, como acontece que a graça é uma coisa incomparavelmente mais preciosa do que todo o trabalho feito pelo homem, aquele que obtém a graça, obtém o elemento mais precioso da ação, enquanto que aquele que simplesmente trabalha, mobiliza o elemento menos precioso da ação evangélica. Razão pela qual, então, Leão XIII, na … [inaudível]… faz esta afirmação, de que é muito mais importante o contemplativo do que o ativo para a expansão do apostolado.

A expressão é muito característica, ele diz o seguinte: aqueles que rezam assiduamente o ofício da oração e da penitência contribuem muito mais para o progresso da Igreja do que aqueles que cultivam, por seu trabalho, o campo do Senhor. Quer dizer, contribuem muito mais.

* A utilidade do sobrenatural não se nota pelos sentidos, mas mesmo assim é mais odiada do que a vida ativa

Bom, ele continua:

Esta utilidade sobrenatural dos contemplativos é ignorada pelos homens porque não compreende senão aquilo que ele vê e seu olhar não pode ir além do sensível e do imediato. Por isto o mundo despreza os contemplativos.

Realmente, a gente vê, por exemplo, o trabalho feito por nós. Vamos dizer, por exemplo, o desfile do Viaduto do Chá. Este desfile se vê e se apalpa o efeito deste desfile. Mas não se tem em conta a ação da graça que está fazendo aquilo e não se tem em conta que orações, que sofrimentos, que sacrifícios atraíram aquela graça. E não se tem em conta, por exemplo, que almas contemplativas que nós nem conhecemos podem ter concorrido, de um modo decisivo, para a obtenção daquelas graças que estavam chovendo ali. Quer dizer, o mundo só vê aparência, não vê a realidade profunda. E porque não vê a realidade profunda, não sabe dar o devido valor ao papel da graça.

É normal, e o Senhor mesmo disse: “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria aquilo que pertence em si próprio, mas porque vós não sois do mundo, por causa disto o mundo vos odeia, pois o homem não pode amar no seu próximo senão aquilo que ele possui em si mesmo”.

Em última análise, quer dizer que o papel dos contemplativos o mundo odeia, porque os contemplativos, de modo insigne, se afastam do mundo; enquanto os outros, ativos, estão mais próximos do mundo, fazem alguma coisa de palpável e que o mundo ainda vê um pouquinho. De maneira que, então, por causa disto, o mundo é mais fácil em perdoar os ativos do que os contemplativos.

* O ultramontano é mais odiado do que o contemplativo, tem a bem-aventurança de ser perseguido por amor à justiça

Aqui cabe introduzir uma reflexão de uma outra ordem.

O Papa fala e D. Guéranguer fala dos contemplativos e dos ativos e acabam perguntando aquilo que atrai mais o ódio do mundo. E nós perguntaríamos, numa outra ordem de idéias: e os ultramontanos?

O ultramontano é uma outra classificação, que não cabe na classificação ativa-contemplativa. Mas, em matéria de ódio, pode-se fazer a pergunta. Porque, se está se fazendo a gradação de ódio, nós podemos perguntar se o ódio voltado ao ultramontano não é maior do que o ódio voltado ao contemplativo não ultramontano; ou não é maior do que o ódio voltado ao contemplativo-ativo, ao ativo ultramontano.

Nós vemos aí o valor do ultramontanismo. Porque o ultramontano, enquanto ultramontano, embora ativo, é mais odiado pelo mundo do que os contemplativos. Se houvesse uma procissão de freiras contemplativas ali, saídas do convento, dirigidas por sua prioresa, com canto sacro, matracas, todo mundo se ajoelhava na beirada, bênção, etc., embora tivesse uma certa incompreensão com a coisa. Mas como são ultramontanos, então, com os ultramontanos, os maus, os revolucionários têm verdadeiro ódio.

Então, a gente compreende bem a graça de ser ultramontano. É um graça que nos atrai mais ódio do que a própria graça de ser um puro contemplativo.

Os senhores dirão: “Mas de onde é que apareceu esta sua doutrina, de que atrair ódio é graça?”. E eu digo: não é só graça, é bem-aventurança. Exatamente aqueles que são perseguidos por amor à justiça, estes são bem-aventurados. Portanto, quanto mais a pessoa representa a justiça, representa a Causa de Deus, tanto mais a pessoa é odiada e, portanto, tanto mais é bem-aventurada. De maneira que é uma verdadeira bem-aventurança e esta bem-aventurança nos coube em tantos momentos de nossa vida.

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