Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 30/9/1966 –
6ª feira [SD 217] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 30/9/1966 — 6ª feira [SD 217]
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Matatias é o prenúncio dos apóstolos dos últimos tempos, que representa a fidelidade na sinagoga conspurcada * Antes de tudo, uma fidelidade de alma que não se deixa arrastar pelo século, pela Revolução * Inconformidade que não cede e odeia tanto o mal que não quer fruir nenhum gozo no meio dos maus, nunca admite uma paz irênica, mas apenas a luta * Ele não se limita a não pecar, mas não admite que se peque impunemente em sua presença: isto é amor de Deus * O verdadeiro ultramontano é o que não pactua, mas abomina — Paralelo repugnante com um indiferente num campo de concentração * A indiferença pelo crime contra a religião é mais culposa — Ver a Revolução como terra hostil é fundamental para a Contra-Revolução * A coragem vale em razão do fim visado; a do bandido nada vale, pode cair no Inferno com ela * Guerrilheiro, conglomera descendentes espirituais que constituiriam o núcleo dos primeiros cristãos * Dá mais glória a Nossa Senhora pedir esse espírito de São Matatias, que foi o de São Miguel e Elias e é o dos apóstolos do Reino de Maria
Nós temos amanhã, 1º de outubro, a festa da Mediação Universal de Nossa Senhora, e nós temos também a festa de São Matatias.
A respeito de São Matatias está dito o seguinte — é Gal. Silveira Mello, em “Os Santos Militares”:
Depois do cativeiro da Babilônia, viveram quase sempre os judeus sob a dominação estrangeira, passando sucessivamente do domínio de Alexandre da Macedônia, para o domínio persa, egípcio e sírio. Sob o reinado do sírio Antíoco IV, alguns pérfidos judeus revelaram ao rei que o templo de Jerusalém entesourava grandes riquezas. Foi o bastante para despertar a cobiça do senhor estrangeiro. O templo foi atacado e profanado horrivelmente, após o que foi consagrado a Júpiter olímpico. A casa de Israel se cobriu de confusão. Tal foi a degradação do povo sob a opressão síria, que muitos judeus começaram a sacrificar aos ídolos. Para terminar com esse estado de coisas foi preciso que Deus suscitasse um grupo de homens de têmpera excepcional na fé e na coragem: a família dos Asmoreus. Seu chefe Matatias, temente ao Senhor e cumpridor da Lei, não pôde suportar passivamente as abominações que caiam sobre a cidade santa. Saiu de Jerusalém e foi refugiar-se no monte Modim.
Aconteceu, porém, que agentes de Antíoco percorriam o país constrangendo os israelitas a sacrificar aos ídolos, chegaram a Modim. Erguendo um altar idólatra, concitaram os moradores a curvarem-se às práticas pagãs para caírem nas boas graças do soberano. Procuraram convencer especialmente a Matatias, sabendo-o o mais precioso judeu da cidade. “Ainda que todas as nações se submetam às ordens do rei, eu e meus filhos só obedeceremos à lei de Deus e de nossos pais”, respondeu Matatias. Entretanto, um vil judeu apresenta-se para sacrificar aos ídolos. Matatias indigna-se ante tal procedimento infame. Precipitou-se sobre o renegado e o prostrou morto junto ao altar do ídolo. Em seguida, voltando-se contra um oficial do rei que ali estava, também o matou. Depois concitou o povo: “Quem quiser permanecer fiel à lei de Deus, siga-me”. E abandonando tudo, refugiou-se nas montanhas com sua família, onde procurou viver segundo os preceitos da lei. A ele uniram-se outros patriotas.
O grupo começa por eliminar os traidores e destruir os altares dos ídolos. Em breve um pequeno exército se formara, que reconquistou as cidades e aldeias. Matatias, esgotado pelas lutas, vê chegar o fim de seus dias. Aconselha que seu filho Simão seja o futuro conselheiro do grupo e Judas o general e que não descansem enquanto não varrerem da pátria o inimigo ímpio, que sejam vingados os agravos feitos à nação e que perseverem na fé de seus pais. O povo chorou sua morte como chorara a de Josué.
* Matatias é o prenúncio dos apóstolos dos últimos tempos, que representa a fidelidade na sinagoga conspurcada
Essa ficha biográfica começa por resolver uma pequena dúvida que se lamentou há alguns dias entre nós sobre: se certos personagens do Antigo Testamento poderiam ser venerados como santos. Nós vemos aqui São Matatias, personagem do Antigo Testamento, venerado como santo. Portanto, o mesmo pode dizer de Santo Elias e de outras figuras do Antigo Testamento.
Mas essa é apenas uma consideração acidental; a consideração principal é a respeito da própria figura de Matatias.
Matatias é um prenúncio dos apóstolos dos últimos tempos e dos ultramontanos que vieram no Novo Testamento. Porque ele, no regime da Antiga Lei, tem todas as características do verdadeiro ultramontano.
Em primeiro lugar, ele representa dentro da nação de Israel, corrompida, deteriorada, prestes a se entregar ao adversário pagão, entregar-se não só politicamente, mas aderir de alma, aderindo aos ídolos, e tomando a mentalidade, a psicologia do paganismo — portanto, a nação eleita, que estava quase em vias de extinção, porque na medida em que ela passasse para a idolatria, ela perdia a sua eleição —, então esse Matatias representa na nação deteriorada, na nação degradada, na sinagoga conspurcada, representa o veio da fidelidade, da fidelidade a todo preço e a todo custo, que resiste ainda que todos se entreguem, que está disposta à resistência … [inaudível]… e que está disposta à luta, ainda que a luta pareça uma luta perdida.
* Antes de tudo, uma fidelidade de alma que não se deixa arrastar pelo século, pela Revolução
Ele tem o espírito íntegro, ele tem o espírito completo da Antiga Lei, que é o prenúncio do espírito da Nova lei. E ele então é dentro de um mundo submerso pelo paganismo, o que é o contra-revolucionário no mundo submerso pelo espírito da Revolução.
A Revolução penetra por toda parte, ela conspurca tudo, ela entra em tudo. Há, entretanto, homens que são fiéis. Esses homens estão dispostos a todas as reações e a todas as lutas, por causa de uma fidelidade primeira, que não foi a fidelidade guerreira, não foi a fidelidade militar, mas é uma fidelidade de alma. A sua alma não seguiu as almas dos outros, ela não se deixou arrastar pela moda, ela não se deixou arrastar pelo século, ela ficou com a tradição sacrossanta, verdadeira, perfeita e divina. Ele resistiu a tudo e preferiu sacrificar todos os bens da terra a aderir ao paganismo, a aderir àquilo que naquele tempo era o modernismo.
* Inconformidade que não cede e odeia tanto o mal que não quer fruir nenhum gozo no meio dos maus, nunca admite uma paz irênica, mas apenas a luta
Com efeito, o que caracteriza Matatias?
Caracteriza-o essa idéia de que nada na vida tem valor se é para viver no meio do paganismo e aderindo o paganismo, e que viver no conforto, viver na riqueza, viver no bem‑estar, viver na despreocupação, nada disso vale nada se é para estar cercado de um mundo pagão. É exatamente essa espécie de inconformidade que não consiste apenas em não ceder, mas consiste em odiar tanto o mal que nenhum gozo é gozo, nenhum prazer é prazer se é para ser gozado, ou ser fruído no meio dos maus. Aquilo não presta, aquilo não vale, a gente sente mais bem‑estar lutando, rompendo com tudo, levando uma vida de irregularidade e de guerrilha nos altos montes, a gente sente mais bem‑estar nisso do que sente bem‑estar numa paz de charco, numa paz de pântano, uma paz que abusivamente se chamaria hoje paz ecumênica ou paz irênica. Isso absolutamente não.
Se estão dominando a nação, se estão conspurcando a sinagoga, vamos à luta, mas não podemos aceitar de viver em paz, vendo as piores abominações se realizarem do nosso lado e nós nos contentaremos em não aderir, em não fazer a mesma coisa. Não! isso não pode ser. Se está sendo feito, eu entro em guerra.
E a ocasião que foi a centelha da insurreição é, neste sentido, uma ocasião muito frisante. Não pediram a ele para ele sacrificar os ídolos diretamente. Ele viu que alguém sacrificava aos ídolos. E porque ele não se resignou com que essa infâmia se passasse sem uma punição, ele não se resignou na atmosfera de concórdia que estava se constituindo em torno dessa torpeza, ele jogou tudo. Ele resolveu entrar na ilegalidade. Ele matou esse sujeito, e já de uma vez matou o oficial que era responsável pelo ato que acabava de ser praticado. E depois fugiu com toda a sua família.
* Ele não se limita a não pecar, mas não admite que se peque impunemente em sua presença: isto é amor de Deus
Quer dizer, os senhores estão vendo aqui o verdadeiro homem que tem zelo pela casa de Deus. Não é apenas um homem que diz: “Bem, eu não peco. Aquele lá esta ofendendo a Deus, está ofendendo até de morte, mas eu não tenho nada com isso porque eu não peco”. Não é isso, não: “Deus está sendo ofendido, eu não suporto isso. E ainda que não seja eu que esteja fazendo, eu não quero que se faça em minha presença. E não quero porque Deus é meu pai e eu não posso permitir que meu pai seja injuriado por outros impunemente, na minha presença. Deus é muito mais do que meu pai. Deus é meu Deus. A palavra pai nem se aplica a Deus, a não ser metaforicamente. Eu não permito que Deus seja injuriado na minha presença. E eu farei tudo para impedir que essa injuria se faça”.
Isto é amor de Deus, isto é zelo. E não é atitude boba: “Ah, coitado, aquele como está agindo mal. Meu Senhor, como me pesa que aquele esteja fazendo isso. Bom, já esta na hora de eu ir tomar meu piteuzinho em casa. Eu já fiz meu atozinho de reparação, agora vou tomar meu leitezinho”.
* O verdadeiro ultramontano é o que não pactua, mas abomina — Paralelo repugnante com um indiferente num campo de concentração
Pelo amor de Deus! Isto é amor de Deus da boca para fora. Amor de Deus verdadeiro é o de Matatias: “Passou o … [inaudível]… ? Está bom, vão ver. Eu entro inteiro na fogueira, mas eu quebro essa história”. E foi o que se deu. Quer dizer, a alma do ultramontano é esta.
E eu friso bem esse ponto. O ultramontano que não tem supremo desgosto em ver por essa forma o mundo posto na Revolução; o ultramontano que acha que seria possível ele viver feliz neste mundo revolucionário, este não alcançou o verdadeiro espírito contra-revolucionário. Ele, no fundo, teria condescendências e se sentiria bem no mundo da Revolução. Precisa fazer força para não pactuar com o mundo da Revolução. Este não é o verdadeiro ultramontano. Ele poderá estar a caminho, mas é um caminho em ziguezague. Abra os olhos, porque deste caminho muita gente sai e muita gente cai. O verdadeiro ultramontano é o que não quer pactuar, abomina a coisa.
Os senhores imaginem um pouco o seguinte: que um de nó fosse chamado, durante a guerra, a viver no campo de concentração de Dachau, ou de Belson, ou então viver naquela famosa prisão de Lubianca, de Moscou. Então, é levado para lá e se diz: “Olha, o governo nazista, por exemplo, quer para você uma reclusão, mas não quer maltratá-lo. Por exemplo, porque você é brasileiro, não quer encrenca com Brasil. Então manda arranjar um bom apartamentozinho para você, aqui, num pedaço de prédio, contíguo à câmara de torturas, bem arranjadinho, cretones claros, molas boas, aquecimento, boa comida. Você fica aqui até o fim da guerra”.
Esse sujeito sabe que a meia parede dele estão torturando gente. Ele vê aquela gente toda naquela desgraça, mas ele não se incomoda. Come seus pãezinhos, ouve seu rádio, dorme, passeia um pouco por lá. Alguém dirá a ele:
— Mas você não sente nada?
— Não. Eu censuro muito esses homens que estão fazendo isso, mas por mim eu não sou cúmplice, eu não faço nada. Eu estou até passando uma boa temporadinha aqui.
Esse sujeito deveria inspirar asco. Porque um homem que, no meio da desgraça de todos os outros, encontra alma para sentir felicidade e que ouve gemido de um que está sendo liquidado, e se rola de outro lado da cama comentando: “Essas molas da indústria alemã são muito boas”, esse homem é um asqueroso, é um homem indigno da presença de Deus.
* A indiferença pelo crime contra a religião é mais culposa — Ver a Revolução como terra hostil é fundamental para a Contra-Revolução
Agora, isto é muito menos culpado do que ser culpado de uma indiferença diante de um crime contra a religião, feito diretamente a Deus Nosso Senhor. Porque Deus Nosso Senhor vale infinitamente mais do que qualquer homem que está na câmara de tortura. E se o sentimento de misericórdia pelo homem que está na câmara de tortura for um mero humanitarismo, então vale incomparavelmente menos do que o sentimento de solidariedade para com Deus Nosso Senhor, que está sendo atacado.
Esta idéia, portanto, de que nós estamos em terra estrangeira no mundo da Revolução, em terra hostil, na qual nós não podemos querer implantar a nossa felicidade terrena, esta idéia é idéia fundamental para o verdadeiro contra-revolucionário. E sem ela não existe formação contra-revolucionária séria nem verdadeira. É sobretudo do que São Matatias nos dá a lição.
* A coragem vale em razão do fim visado; a do bandido nada vale, pode cair no Inferno com ela
Algum dos senhores me dirá: “Dr. Plinio, seu comentário me surpreende. E não só me surpreende, mas, até certo ponto, me desaponta. Eu julgaria que o senhor acharia bonito em São Matatias a coragem de morrer. E o senhor está apresentando um outro aspecto da alma dele”.
Eu digo: coragem de morrer vale quando ela é pelas verdadeiras razões; quando ela não é pelas verdadeira razões não tem valor. Há muito bandido de far-west, de cowboy e sei lá quantos sete dedos, duas orelhas, três narizes, sei lá o que é que rouba, Totó Fufuca de não sei que lugar do interior do Brasil que rouba, que pinta o caneco e que é corajoso. Quantos facínoras corajosos que houve na História? Quantos pagãos corajosos morreram e caíram vivos no Inferno porque estavam cometendo crimes, porque estavam cometendo pecados?
A coragem enquanto coragem vale em razão do fim que se tem em vista. Não vale pela mera coragem. E o fim é que tem que ser bom para a coragem valer. Uma vez que a alma tenha aderido com todo amor ao fim verdadeiro, então ela lutar pela causa verdadeira e morrer pela causa verdadeira é belíssimo. Mas não é qualquer coragem em favor de qualquer coisa.
* Guerrilheiro, conglomera descendentes espirituais que constituiriam o núcleo dos primeiros cristãos
Aí isso posto, temos que admirar a segunda parte da vida de Matatias.
Ele entra propriamente na vida de um guerrilheiro. Ele sobe para as montanhas. Para os exércitos daquele tempo as montanhas eram mais difíceis de acesso. E o homem estava de cima, num regime que não tinha as armas de hoje, tinha sempre muito mais facilidade para se defender contra o que estava em baixo. Nas montanhas, portanto, havia uma espécie de maquis. E ele constitui uma espécie de maquis dos ultramontanos.
E aí a sua vida é coerente com a posição ideológica que tomara. Ele luta heroicamente, conglomera o resto da nação. Ele faz com que o que a nação tem de fiel se reúna em torno dele, conduz à vitória e expira em plena guerra tendo formado herdeiros dignos dele.
Qual foi o resultado da obra dele? Os senhores vão ver que resultado extraordinário.
Acontece que eles foram derrotados à la longue. Mas, com essa reação, o que havia de judeus bons se salvou e a nação não pereceu inteiramente porque foram salvos aqueles que se cristalizaram. E esses foram, os descendentes deles, que aderiram a Nosso Senhor — digo os descendentes espirituais — quando Nosso Senhor veio, e que constituíram o primeiro núcleo da Igreja nascente, que era o núcleo dos judeus que tinham aderido a Nosso Senhor.
Os senhores vêem a glória enorme: eles prepararam aqueles que eram semelhantes à Santa Igreja Católica. Glória maior não podia haver.
* Dá mais glória a Nossa Senhora pedir esse espírito de São Matatias, que foi o de São Miguel e Elias e é o dos apóstolos do Reino de Maria
Alguém me dirá: “Dr. Plinio, eu admito que isso esteja bem. Mas não era mais interessante ter feito um comentário a respeito da mediação de Nossa Senhora, uma vez que nós estamos na véspera dessa festa, ou, como bem salientou o Dr. José Fernando, nós estamos nas primeiras horas dessa festa, nos primeiros minutos dessa festa?”.
E eu digo o seguinte: dá mais glória a Nossa Senhora o comentário a respeito de São Matatias, do que, na vigília da festa d’Ela, um comentário sobre Ela. Porque quando um comentário esclarece verdades que nem sempre estão presentes ao nosso espírito; quando o comentário é tendente a nos afastar pelo exemplo oportuno, claro, expressivo, eloqüente, de qualquer concessão à Revolução, isto dá mais glória a Nossa Senhora do que dizer a respeito d’Ela coisas que nos enche a alma a nós todos, mas que de algum modo já sabemos e às quais já aderimos de todo coração. Reservar em nossas almas espaços maiores para Nossa Senhora, expulsando previamente desses espaços a Revolução, é uma coisa incomparável para dar glória a Ela.
Portanto, essa admiração a São Matatias, à integridade de São Matatias, à coragem de São Matatias, nós oferecemos a Ela na véspera ou já no primeiro comentário da dia da festa d’Ela. Pedindo a Ela — Ela que é Medianeira de todas as graças e principalmente das graças espirituais — que nos obtenha então esse espírito de São Matatias, que é o espírito dos ultramontanos de todos os tempos, já foi o espírito de São Miguel Arcanjo, é o espirito de Santo Elias, e é o espírito de todos os ultramontanos, até raiar a aurora do Reino de Maria, e a aurora dos apóstolos dos últimos tempos, que mais do que todos os outros devem brilhar nesse espírito.
Fica, portanto, esse pedido feito a Nossa Senhora Medianeira de todas as graças.
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