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Santo do Dia — 23/9/1966 — 6ª-feira

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São Pacífico de Sanseverino, uma vítima expiatória; O papel do sofrimento.

São Pacífico, uma vítima expiatória

A biografia de São Pacífico * Uma das mais belas vocações: a de vítima expiatória * Como o sofrimento foi marcando a vida de São Pacífico * Os sofrimentos dos homens como que completam os de Nosso Senhor * O sofrimento: um dos melhores meios de servir a Nosso Senhor * O exemplo de São Pacífico nos incita a amar a Cruz; o aumento de sua glória no Céu * Amar os sofrimentos, os melhores presentes que Nossa Senhora nos dá

Hoje, 23 de setembro, não há santo a comemorar especialmente.

* A biografia de São Pacífico

No dia 24 de setembro, amanhã, nós temos São Pacífico de Sanseverino, Confessor. No livro “O verdadeiro rosto dos santos”, de Scamoni, há os seguintes dados biográficos a respeito dele:

Em Sanseverino, nas Marcas de Ancona, nasceu São Pacífico, no dia 1º de março de 1653, de uma família empobrecida, de nome Divini, na qual havia treze filhos.

Aos quatro anos, perdeu o pai e a mãe, e junto com outros de seus irmãos foi para a casa de um seu tio eclesiástico, homem duro, cujas duas criadas maltratavam e escravizavam os meninos.

Pacífico havia recebido precocemente, de sua mãe, uma boa formação religiosa, que o ajudou a não se sentir desesperado naquele lar sem carinho e a seguir a vocação religiosa que o atraía.

Aos 17 anos ingressou no Convento dos Franciscanos Reformados de Forano, recebendo Ordens Sacras e passou a ser professor de Filosofia no convento.

A parábola do Senhor, segundo a qual a messe é grande e poucos os operários, não se afastava de sua mente, e ele concluiu que o mundo não precisava de doutores, mas de apóstolos. Falou disso a seu Provincial, que o dedicou, em 1683, a tarefas missionárias.

Assim, durante cinco ou seis anos, pregou ativamente. Seu ideal era converter os infiéis e sofrer o martírio. Mas Deus havia reservado a esse caçador de almas outro apostolado: o do sofrimento.

Os pés se lhe incharam e cobriram-se de chagas, e essa doença não o deixou até a morte. Em seus períodos de melhora, foi guardião no Convento de Sanseverino e pôde dedicar-se muitas horas à Confissão.

Entretanto, ficou totalmente surdo, de tal forma que não mais conseguia comunicar-se com os que o rodeavam. Mas com isso intensificou sua união com Deus.

A perda desse sentido não foi o bastante. Pacífico ficou também cego. Durante os últimos anos de sua vida, não pôde mais ir ao coro nem celebrar a Santa Missa.

A essas dores físicas somaram-se outras de ordem psíquica. A vida eclesiástica converteu-se para ele numa caminhada pelo deserto, em meio ao maior abandono e angustiado por uma ardente sede de Deus.

E, como os piores inimigos do homem são os seus semelhantes, São Pacífico encontrou entre algumas pessoas de seu convento — como o sacristão e o enfermeiro — que o maltratavam por palavras e ações, com que o santo, com sua inesgotável e firme paciência tornou-se um modelo de quantos carregavam esta cruz.

Faleceu a 24 de setembro de 1721.

* Uma das mais belas vocações: a de vítima expiatória

Nós estamos aqui diante de uma das mais belas vocações que existem na Santa Igreja, e que é a vocação da vítima expiatória.

Ninguém deve fazer-se de vítima expiatória sem licença de seu confessor, porque a Providência depois atende uma coisa dessas para punir a presunção de um homem e lhe dá sofrimentos para os quais ele não está capacitado. Mas, sem embargo dessa admonição de prudência, nós devemos reconhecer que não há vocação mais bela do que a da vítima expiatória.

Como os senhores estão vendo, se trata aqui de um santo que primeiro estudou e foi aproveitado para ser professor. Mas depois, levado pelo zelo e entendendo que deveria haver na Igreja mais missionários do que doutores, quis se entregar à pregação. E entregando-se por esta forma à pregação, ele fez algum bem durante alguns anos. Mas a Providência o chamava para uma superior pregação, o chamava para um superior apostolado, e que é o dolorosíssimo apostolado da Cruz.

Deu-se com ele o trajeto, ele foi levado pelo trajeto comum da via das vítimas expiatórias. É como um círculo que vai se apertando, apertando, desventuras que o vão cercando cada vez mais, até criarem, em determinado momento para ele, uma situação paroxística, dentro da qual ele morre.

E assim como Nosso Senhor também, na sua Alma santíssima e no seu Corpo divino, Ele foi recebendo tormentos, tormentos, tormentos, até chegar à Crucifixão, e dentro da Crucifixão ao um extremo de dor que O levou à morte, assim também essas almas vão sendo assediadas, assediadas, até o momento em que, a bem dizer, elas morrem de dor e morrem de sofrimentos múltiplos. E entregam sua vida como uma hóstia pura, uma hóstia santa, uma hóstia imaculada, para expiar pelos pecadores. Foi o que se deu com ele.

* Como o sofrimento foi marcando a vida de São Pacífico

O senhores estão vendo que ele primeiro tomou uma doença que o condenou à imobilidade, provavelmente: chagas nos pés. E é por causa disso, provavelmente, que ele se dedicou sobretudo ao confessionário: porque é uma forma de ministério na qual o padre pode ficar parado e pode estar ouvindo confissões. E, enfim, fazendo por essa forma algum bem às almas.

Entretanto, isso não bastou e ele se tornou surdo, e de uma forma de surdez em que ele ficou completamente excluído do convívio humano. Hoje, com esses aparelhos de audição que há, e com essas operações, etc., as pessoas talvez não tenham idéia da exclusão em que fica o surdo… [¾ de linha em branco] …mas um surdo inteiramente surdo. É claro que é possível fazer entender a ele alguma coisa, mas ele fica o cacete, o insuportável, o difícil de carregar. Porque todo o mundo está falando, está conversando; de repente, vem o surdo: “O que é?” A gente é obrigado a dar-lhe um resuminho, que obriga a gente a sair do fluxo da conversa para entrar no poço de silêncio dele. E depois ele quer uma outra pergunta, e a gente faz sinal que explica depois e volta para a conversa, e ele fica com o tostão que jogaram para ele.

Eu tive um parente surdo, e vi bem como era essa situação dele. Tem uma pessoa surda em minha família e vejo qual é a tentação permanente dos que tratam com surdos: é exatamente a de empurrar o surdo de lado e não ter paciência com ele. É o cacetão, que quer explicações do que todo o mundo já entendeu e que tira-nos da linha de nossa atenção e da linha de nosso interesse, para nos preocuparmos com ele.

Bem, paralítico, portanto — ou vamos dizer, pelo menos com a locomoção muito difícil —, sofrendo a dor que chagas devem fazer sofrer; ao mesmo tempo tornado surdo. Os senhores vêem que parece que se diria que o martírio dele chegou ao auge. Mas era preciso uma coisa ainda pior.

Ele sofreu as duas limitações conjugadas que mais completamente afastam o homem do convívio humano: que é a surdez completada pela cegueira. Exatamente, como o surdo recebe alguma notícia de fora? É pela vista. Mas se ele também não vê, o único modo que ele tem de se comunicar com os outros é o tato. E os senhores compreendem que o tato é uma forma de comunicação que só pode servir para os avisos mais sumários: chegou a hora de levantar: quatro tapas, senta; cinco tapinhas é água. E acabou-se.

E os senhores podem imaginar até que ponto o surdo, o surdo-cego fica dependendo de seu enfermeiro. O enfermeiro é um canal que o liga a um mundo que é o mundo dos vivos. Ele, de fato, é um enterrado vivo. Um surdo-cego ou um homem que está na sepultura não faz muita diferença. Que diferença faz uma coisa com a outra? Praticamente quase nada.

Está bem. A Providência permitiu que um agravamento se produzisse nisso e que a maldade humana se exercesse contra esse coitado — entretanto um santo —, se exercesse contra ele na pessoa de seu próprio enfermeiro. Quer dizer, esse canal que o ligava para fora, para alguma comunicação com a vida, era um canal do qual vinham a ele maus tratos e sofrimentos. E além disso, um outro que o perseguia.

Os senhores compreendem qual é a baixeza que tem que haver em uma pessoa que persegue alguém assim. Quando a caridade católica mandaria ser todo atenção, todo gentileza, todo paciência, todo requinte de humildade para com uma pobre pessoa assim, pelo contrário: vem isso e é esse sofrimento complementar.

A biografia até passa um véu para a gente não saber o que foi. Mas, à força de se esconder, a gente desconfia que entraram coisas das piores, talvez até violências físicas. Bem, é assim, com toda a paciência, com toda a calma, com toda a cordura, sem guardar na alma um pingo de ódio, é assim que esse homem acabou o seu martírio nesta Terra.

E ele acabou sofrendo tudo quanto uma pessoa, nessa ordem de coisas, pode sofrer: o isolamento, o abandono, o tédio. Naturalmente, os senhores compreendem as angústias interiores desse estado. Ao lado das angústias interiores desse estado, os senhores podem imaginar as tentações do demônio e as dificuldades e a impossibilidade de se comunicar sequer com um confessor, porque ele podia falar mas não podia ouvir as respostas do confessor. Os senhores compreendem o que [é] que foi, o que é que foram as últimas jornadas dessa pobre alma na Terra.

Quando ele morreu, ele certamente poderia dizer — e foram certamente estas as palavras primeiras que ele ouviu de Nossa Senhora no Céu — ele certamente poderia dizer que ele estava como Nosso Senhor: que do alto da cabeça até a planta dos pés, n’Ele não havia nada que fosse são. Também nesse coitado, na sua alma e no seu corpo, não havia mais nada que fosse são, absolutamente.

* Os sofrimentos dos homens como que completam os de Nosso Senhor

Agora, qual é a razão dessa misteriosa vocação? Por que sofrer tanto assim? Evidentemente, para expiar pelos pecadores. Nosso Senhor Jesus Cristo poderia ter remido o gênero humano com uma só gota de seu Sangue infinitamente precioso. Mas Ele quis derramar todo o Sangue, e até a água misturada com sangue que havia em seu Corpo sagrado, por amor de nós. E quis, por um desígnio admirável, que esses sofrimentos não bastassem. Em si bastariam, mas Ele quis que fossem como que completados pelos sofrimentos dos outros homens. De maneira tal que Ele quis que houvesse almas que completassem, que se associassem à Paixão d’Ele, para o efeito exatamente de pagar inteiramente os pecados dos homens. Redentor, só o Sangue d’Ele; expiatório, entretanto, o sangue dos outros homens misturados com o d’Ele.

Há um fato na Liturgia da Missa, que é muitíssimo bonito e que faz pensar nisso. É no momento em que o sacerdote toma uma colherzinha, põe água e põe dentro do sagrado cálice. Aquela água se mistura com o vinho que vai se transubstanciar no Corpo e no Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e isso indica o sofrimento humano que entra como uma gota na imensidade do sofrimento divino, por assim dizer, para se oferecer, se misturar e se divinizar, por assim dizer, com o sofrimento de Nosso Senhor, para expiação dos pecados dos homens.

* O sofrimento: um dos melhores meios de servir a Nosso Senhor

Agora, de outro lado, tem um papel muito importante: é de nos dar o espetáculo da dor, fazer-nos compreender a dor, fazer-nos admirar a dor, fazer-nos amar a dor, fazer-nos compreender que o grande fim da vida humana é de servir a Nosso Senhor e que um dos meios melhores de servir é sofrendo os sofrimentos que Ele nos manda.

Se alguém quisesse perguntar quem foi, no século dele, que fez carreira, a gente poderia dizer que foi esse santo. Por quê? Porque ele arcou com todos os sofrimentos que a Providência queria que ele suportasse. E ele por isso fez carreira, a admirável carreira do miserável sofredor, a admirável carreira da vítima expiatória, que carregou a cruz até o fim, confortada pelos méritos de Nosso Senhor, pelas orações de Nossa Senhora, e que pôde chegar até o Calvário, como Nosso Senhor.

Isto é a suprema glória, isto é o exemplo magnífico. Para rezar há muitos, para trabalhar há muitos, para lutar há poucos, para sofrer, há quase ninguém. E portanto, aqueles que sofrem são os que prestam o mais eminente serviço à Santa Igreja Católica. É uma verdadeira ilustração do livro de São Luís Grignion, publicado séculos depois, o “Tratado dos Amigos da Cruz”.

Esse sacrifício desinteressado, feito apenas por amor de Deus e de Nossa Senhora e mais nada, uma imolação completa feita para dar glória a Eles, pelo gosto, pelo desejo de se destruir para louvá-Los, e pela ciência de que com isso se resgatava um número incomparável de grandes almas pecadoras que iriam brilhar no Céu, como sóis, por toda a eternidade, por causa dos sofrimentos desse homem…

* O exemplo do São Pacífico nos incita a amar a Cruz; o aumento de sua glória no Céu

Agora os senhores vejam bem: se esse homem não tivesse tido Fé, se esse homem não tivesse tido, em última análise, a convicção da utilidade do sofrimento dele, ele não teria agüentado. Porque são essas situações que quase não se agüentam. Ele agüentou, com certeza, com essa idéia de que o exemplo dele, as orações dele, os sofrimentos dele fariam bem para inúmeras almas. Aqui está o exemplo.

Nesse tempo, não se sabia do Brasil… Eu não vi bem a data, mas me parece que era o século XV. Se se sabia… Eu não me lembro bem que século era, enfim, o que também não importa — dezessete —, então se sabia. Mas era um país de selvagens, lá-bas, índios fabulosos, esquisitos, etc., etc., quase a luz [?]. Bem, ele poderia imaginar que em 1966 o exemplo dele faria bem para muitas almas? Iria incitar muitas almas a amar a Cruz, a amar a dor? Iria fazer bem a um movimento que era de tal maneira o movimento central dos interesses da Igreja em nossa época? Ele não sabia.

Mas do Céu ele está vendo. E o que se passa aqui aumenta a glória dele; e faz com que os ouvidos mortos dele e os olhos cegos dele, que estão esperando a ressurreição, no fim de todos os tempos brilhem com um fulgor todo especial, inclusive por causa dessa glória que a ele está sendo dada neste momento.

* Amar os sofrimentos, os melhores presentes que Nossa Senhora nos dá

Então, vamos compreender que nós não temos, pelo menos de um modo geral, a vocação de vítimas expiatórias; mas que nós também temos sofrimentos, e que esses sofrimentos é preciso amá-los muito, é preciso não procurar desfazer-se deles com horror. Mas compreender que são os melhores presentes que Nossa Senhora nos dá, são pedaços da Cruz de Cristo que Ela quer implantar em nós; e que esses sofrimentos nós os devemos suportar com ânimo, suportar com dedicação, suportar com verdadeira decisão e alegria. E compreendendo que quanto mais Nossa Senhora se dignar de nos fazer sofrer, tanto mais Ela nos prova seu amor e tanto mais Ela prepara para nós méritos no Céu.

Essas são as considerações que a vida dele nos sugere para a noite de hoje.

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