Santo do Dia (Auditório da Pará ) – 15/9/1966 – 5ª-feira – p. 3 de 3

Santo do Dia (Auditório da Pará ) — 15/9/1966 — 5ª-feira

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As Sete Dores de Nossa Senhora

Hoje é festa das Sete Dores de Nossa Senhora, colocada, com muita felicidade, logo depois da festa da Exaltação da Santa Cruz.

Festa estendida a toda Igreja por Pio VIII, em memória da proteção da Santíssima Virgem na libertação de Pio VII.”

Sobre isso comenta D. Guéranger:

* Comentário de D. Guéranger sobre as Sete Dores de Nossa Senhora

No decurso da oitava da Natividade, o pensamento do sofrimento não se apresentava ao espírito do fiel. Mas se nós nos tivéssemos posto a questão: “o que será essa criança”, nós teríamos visto exatamente que se todas as nações devessem um dia proclamá-la bem-aventurada, Maria deveria sofrer antes com seu Filho, para a salvação do mundo. Ela mesma, pela voz da Liturgia, nos convida a considerar sua dor: “Ó vós todos que passais pelo caminho, parai, e vede se há uma dor igual à minha dor. Deus Me pôs e estabeleceu na desolação. Minha dor é obra de Deus.“

É Ele que, predestinando-A a ser Mãe de seu Filho, uniu indissoluvelmente Sua vida à, ou melhor, uniu indissoluvelmente Sua pessoa à vida, aos mistérios, aos sofrimentos de Jesus, para ser, na obra da Redenção, Sua fiel cooperadora. É preciso que o sofrimento seja um bem muito considerável, para que Deus, que ama tanto seu Filho, tenha dado sofrimento a Ele. E como depois de seu Filho, Ele ama a Santa Virgem mais do que qualquer criatura, Ele quis dar a Ela também o sofrimento como o mais rico dos presentes.

Por Maria, o sofrimento não dava só no Calvário; o sofrimento Lhe veio com Jesus, “essa Criança incômoda”, como disse Bossuet, porque Jesus, entrando em qualquer lugar, entra com sua Cruz; e atrás, com seus espinhos, ou melhor, e a traz com seus espinhos e a distribui a todos que a amam.

A solenidade desse dia, que nos mostra, sobretudo Maria no Calvário, nos lembra, nessa dor suprema de todas as dores, conhecidas ou não, que encheram a vida de Nossa Senhora. Se a Igreja se deteve no número de sete, é porque esse número exprime sempre a idéia de totalidade ou universalidade.

Para compreender, com efeito, a extensão e intensidade
dos sofrimentos de Nossa Senhora, é preciso conhecer o que foi seu amor por Jesus. E Seu amor aumentou Seu sofrimento. A natureza e a graça concorrem juntas para produzir no Coração de Maria impressões profundas. Nada é mais forte e mais premente do que o amor que a natureza dá para um filho e aquele que a graça dá para um Deus.

*Deus deu a Nossa Senhora, o que Ele tinha de melhor: aquela imensidade de cruzes que é representada pelo número sete

São tantos pensamentos excelentes, que a gente seria tentado a desenvolver excessivamente esse Santo do Dia, mas em todo caso vamos nos concentrar sobre duas idéias que estão aqui: a primeira das idéias é que Nosso Senhor tendo amado com amor infinito ao seu Verbo Encarnado, a Nosso Senhor Jesus Cristo. E tendo amado com um amor, inferior a esse, mas superior a todos os outros amores, a Nossa Senhora, Lhes deu tudo quanto há de bom. E por isso Lhes deu aquela imensidade de cruzes que é representado pelo número sete. São sete dores, quer dizer, são todas as dores.

E Nossa Senhora das Dores poderia ser chamada perfeitamente Nossa Senhora de Todas as Dores, porque não houve dor que ela não tivesse. Por causa disso, se é verdade que todas as gerações a chamarão de bem-aventurada, a um título menor, mas imensamente real; todas as gerações a poderiam ter chamado “infeliz”.

* Ao membro do Grupo que não sofre, falta uma nota de maturidade, estabilidade e elevação que só tem aquele que sofreu

Ora, se isso é assim, nós deveríamos compreender melhor, quando a dor entra na nossa vida, que é uma prova de amor de Deus. E que enquanto a dor não penetra em nossa vida, nós não temos todas as provas de amor de ,Deus. E eu acrescentaria, e justificarei daqui a pouco isso, [nós mal temos a principal prova do amor de Deus.] [trecho borrado]

E que quer dizer isso? Há muitos membros do Grupo que eu olho assim e vejo a cara. E no fundo da cara eu vejo isso: falta-lhe ainda sofrer. Falta, no fundo, uma nota de maturidade, uma nota de estabilidade, uma nota de racionalidade, uma elevação que só tem aquele que sofreu. E aquele que sofreu muito. E quem leva uma vida sem sofrimento, leva uma vida em que essa nota não transparece na fisionomia e o que é muito pior, não transparece na alma. Nós devemos compreender isso, e quando começam a aparecer os contratempos, dificuldades em nosso apostolado, mal-entendidos com os amigos dentro do Grupo, mal-entendidos com os nossos chefes, saúde que anda mal, negócios que andam mal, encrencas dentro de casa, nós não deveríamos tomar isso como um bicho de sete cabeças, como o espírito americano gostaria que se tomasse, quer dizer, como uma coisa que não devia acontecer. Como foi acontecer uma coisa dessas?…Não senhor! É quem não sofre que deve se perguntar como é que está me acontecendo isso, pois não estou sofrendo nada. Porque o normal é sofrer. Aquele quem Deus ama, aquele a quem Nossa Senhora ama; esse sofre, porque Deus não vai recusar a esse filho aquilo que Ele deu em abundância aos dois entes que Ele mais amou, que é Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora.

Os senhores compreendem, então, que o normal é sofrer. E os senhores tenham isso por normal em sua vida: tentações, provações, crises nervosas, toda espécie de coisa, a gente deve pedir para que passem, mas na medida em que não passarem, a gente deve bendizer a Deus, bendizer a Nossa Senhora. São Luís Grignion chega a dizer que quem não sofre deve fazer peregrinações e orações pedindo sofrimento, embora ele considere esse pedido à aprovação de um diretor espiritual, porque é um pedido muito grave. Mas é porque quem não sofre não vai indo tão bem com deveria ir, e às vezes vai a isso inteiramente mal.

* O lembrarmos o dever aos outros nos torna incômodos, e é um peso que devemos carregar

Aí os senhores têm a frase estupenda de Bossuet, a respeito de Nosso Senhor Menino: “Aquele Menino incômodo”. Como todos aqueles que querem seguir a Nosso Senhor são incômodos!

Às vezes a gente tem a sensação experimental disso. A gente começa a dar um conselho, começa a dar um exemplo, começa a pedir um sacrifício, o semblante do interlocutor da gente vai denunciando que esta vendo a gente incômodo. Como seria mais fácil, dizer uma piada alegre, fazer uma brincadeira, acabar tudo com um tapinha nas costas e dispensar de uma obrigação.

Como mandar seria agradável, se fosse isso. Mas mandar é o contrário. Mandar é estar exigindo que o subordinado da gente tome as coisas a sério, que se olhe pelo seu lado mais profundo. Que ele veja as coisas pelo seu lado mais alto, mais sério, mais sublime, que ele veja de frente a sua própria alma, que ele se examine a si mesmo detidamente, que ele procure corrigir afetivamente e seriamente os seus defeitos. E como isso é incomodo!

Pois bem, o peso de sermos incômodos é um dos maiores pesos, e também esse nós devemos carregar. Mas nossas famílias nos acham incômodos, porque lembramos às nossas famílias o dever. A resignação alegre a essa incomodidade, a coragem de sermos incômodos em todas as circunstâncias, a amizade de preferência aos nossos amigos incômodos, quando a incomodidade deles consiste em nos lembrar o dever.

Essas são as virtudes que, no dia das Sete Dores de Nossa Senhora, devemos pedir a Nossa Senhora que nos dê. Ela que também teve um Filho que lhe trouxe tantos divinos incômodos e que, nos convidando a meditar sobre a dor d’Ela, nos convida a meditar sobre a seriedade e sublimidade da existência d’Ela e de nossa existência, e que a esse título é também para nós maternal e estupendamente incômoda.

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Auditório da Pará