Santo do Dia – 13/9/1966 – p. 3 de 3

Santo do Dia — 13/9/1966 — 3ª-feira

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* Cruz e humildade * Apóstolo despretensioso é fecundo * Homem vaidoso, apóstolo fracassado * Apostolado é transmitir a graça. Esquema * A vaidade também emperra coletividades

Hoje é aniversário de D. Pedro Henrique de Orleans e Bragança e amanhã é festa da Exaltação da Santa Cruz. D. Guéranger diz o seguinte:

Desde os primeiros tempos do cristianismo, a Santa Cruz do Salvador foi glorificada. Ele mesmo dissera: “Quando Eu for exaltado, levantado sobre a terra, atrairei toda as coisas a Mim”. Constantino a reproduz em seu lábaro e Santa Helena a encontra no Calvário. Desde então a exaltação da Santa Cruz torna-se uma festa na Igreja, festa que se tornará mais solene a partir do século VII. No inicio desse século irrompeu uma guerra sangrenta entre gregos e persas que perdurou vinte e quatro anos. Os gregos sofreram contínuas derrotas; os persas, em vitórias contínuas, devastaram a Palestina, tomando Jerusalém e carregando da cidade todo o precioso, inclusive o Santo Lenho da Cruz.

Entretanto, em 621, o Imperador Heráclio, como que despertou de um letargo e inicia uma série de campanhas batendo os persas sem tréguas. Conseguindo a paz, re-obteve os lugares santos. Em 629, o Imperador grego embarcou de Constantinopla para Jerusalém, para levar a verdadeira cruz e dar graças ao Senhor pela vitória. Lá chegando, vestido de magníficas roupas como vencedor que era, tomou a cruz aos ombros a fim de levá-la à Igreja do Calvário, seguindo o caminho que fizera o Salvador. Entretanto, mão invisível deteve-o à porta do Calvário. Não mais conseguiu avançar, até que o Patriarca Zacarias aconselhou-o a vestir-se mais simplesmente para imitar o seu Salvador. Heráclio despojou-se de seus adornos, vestiu um hábito…

Deve ser, provavelmente, hábito de monge.

e descalço, levou facilmente a cruz. Ela permanecia no estojo de prata, tal qual como fora levada. O Patriarca verificou se os sinetes estavam perfeitos. Abriu o invólucro com a chave, adorou o Santo Lenho e mostrou-o ao povo. Esse restabelecimento da Cruz tornou ainda mais solene a festa já anteriormente celebrada.

* Cruz e humildade

O fato fala por si, mas ele tem um ensinamento que é muito interessante. E é essa advertência de que a Cruz só pode ser carregada com espírito de humildade. O Imperador tinha direito, como imperador do Império do Oriente, que era um império católico, ele tinha o direito a se vestir de um modo esplêndido. Mas na hora em que ele ia levar a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, o traje era inadequado. Porque para celebrar os despojamentos e humilhações de Nosso Senhor, pedem-se, como corolário, os despojamentos e a humilhação daqueles que estão celebrando isso. E a glorificação da humildade pede que aqueles que a fazem, se apresentem de um modo humilde. E então a Cruz parou e não foi para frente senão depois do Imperador ter tirado seus trajes e ter vestido um simples hábito de monge.

* Apóstolo despretensioso é fecundo

Essa coisa, esse fato, nos dá também um [ensinamento] muito importante, que é o seguinte: é impróprio [a] um imperador se revestir das galas imperiais para carregar a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, como é impróprio, também, a gente, para fazer a estação —, que é de algum modo carregar a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a ação do apostolado —, nós procurarmos qualquer coisa que diga respeito à nossa vaidade, à projeção de nossa pessoa, a exaltação de nossas qualidades individuais.

O livro de D.Chautard, “A alma de todo apostolado”, coloca a questão em termos inteiramente claros. O apostolado praticado por aquele que procura, a propósito da ação apostólica, manifestar dotes pessoais, atrair a admiração, adquirir influência e prestígio, este apostolado não tem as bênçãos de Nosso Senhor, não têm o favor de Nossa Senhora. E por causa disso resulta num apostolado estéril. A graça não circula através do apóstolo vaidoso. E sem a circulação da graça não existe apostolado. A ação apostólica é fundamentalmente uma transmissão de graça. E onde não há transmissão de graça não existe apostolado. De maneira que fazer apostolado com vaidade, é absolutamente tão inócuo quanto a gente procurar, por exemplo, desenvolver uma batalha de artilharia, sem pólvora. Quer dizer, é ridículo, é uma coisa de gagá. O elemento dinâmico e conquistador no apostolado é a graça. E o homem que faz o apostolado pensando em quanto ele aparece etc., etc., esse homem não consegue absolutamente nada.

* Homem vaidoso, apóstolo fracassado

E então, isso é muito bom para nossa vida interior. Eu há dias venho pensando em desenvolver esse pensamento aqui, no Santo do Dia, e relembrá-lo de vez em quando, porque de quando em vez eu o lembro, e é dessas verdades que os homens tendem a esquecer, e que são verdades fundamentais para o desenvolvimento de nossa vida espiritual. Se eu estou fazendo apostolado com vaidade, eu posso estar certo de que eu estou fazendo apostolado estéril. Não adianta. A graça de Deus não precisa de mim. Suscitará um outro qualquer, me rejeitará. Ou, talvez pior, não suscitará ninguém porque eu não quis ser fiel. Mas eu não conseguirei, eu não conquistarei os resultados apostólicos, porque eu estou fazendo uma ação maluca. Eu estou pensando que a graça circula pelos lábios, que ela se marca nos olhos do homem vaidoso. E isso não pode acontecer. O homem vaidoso, o homem orgulhoso é o apóstolo fracassado.

Eu digo isso, com esse calor, não porque haja qualquer fato próximo na vida do Grupo que me incite a dizer isso. Mas é porque eu acho que a todo momento se deve dizer isso, e é uma coisa que é sempre boa de se lembrar. Não há melhor incentivo para nós evitarmos a vaidade no apostolado do que nós compreendermos a esterilidade do apostolado com a vaidade. De maneira que, vale a pena, de tempos em tempos, a gente rememorar isso.

* Apostolado é transmitir a graça. Esquema

E de um modo esquemático, repetindo, a coisa é essa: apostolado é transmissão de graça. Apóstolo é veículo de graça. A graça vai para o homem fiel. Ela não vai através do homem infiel. E o homem fiel é aquele que não tem vaidade, entre outras coisas. Se ele for um homem vaidoso, quer dizer, se ele faz o apostolado com obstáculos à graça que nele deve circular, ele liquida o apostolado.

Quantas vezes a gente vê, gente, por exemplo, que se esbalda e se esforça por fazer apostolado junto com alguém e não consegue resultado. Eu não digo porque eu não sou amigo de dizer as coisas assim na cara de uma vez, a não ser que eu note que existe uma graça no momento para dizer. Mas a gente vai prestar atenção porque aquele apostolado não vai para frente. Prodígios de habilidade, de paciência, de jeito, de flexibilidade, não dão resultado.

Bem, é claro que muitas vezes será porque aquele [apostolando] opõe obstáculo. Está acabado. Também Nosso Senhor foi o apóstolo perfeito e não conseguiu muitos dos apostolados ao qual Ele se dedicou. Mas, em grande número de casos é porque o apóstolo opõe obstáculo. Se ele não opusesse, as graças aumentavam e aquele apostolado se movia. Por que fica parado? Vaidade! orgulho! Querer mostrar-se! [Não] fazer com amor de Deus, mas com amor de si mesmo! E o amor de si mesmo nesse sentido é incompatível com o amor de Deus. E o resultado: o apostolado não é abençoado, e fracassa completamente.

* A vaidade também emperra coletividades

Às vezes situações coletivas. Às vezes ouço assim uma coisa: “Dr. Plínio, vamos fazer uma reunião no nosso grupo, ou no nosso subgrupo e não sei [o] que é que tem pelo ar, que a reunião não pega, aquilo não toca. É árido, nós acabamos nos olhando de um modo esquisito durante a reunião; acabamos rosnando um contra o outro, sai encrenca”. Depois: “Não sei Dr. Plínio; não se formou um ‘nós’ coletivo, não entrou uma bênção lá”.

Eu estou ouvindo e estou quieto. Mas não é porque eu não saiba o que é que tem dentro. É porque um ou alguns se afirmam com vaidade pessoal. Afirmando com vaidade pessoal, a graça deserta. E então dá aquele apostolado: “Olha, você devia fazer tal coisa, é melhor”.O sujeito em vez de ter vontade de fazer a coisa melhor por causa da advertência, diz: “Você é que deveria ter feito aquela tal outra coisa assim”. Diz um terceiro: “Olha, eu sempre disse a respeito de vocês dois, tal coisa assim”. Bem, acaba a reunião, o que é que foi essa reunião? O que é que foi? Qual a graça que circulou nessa reunião?

A gente vê as coisas magníficas que a Escritura diz da graça: é como uma luz, é como uma vida, é como um encanto que se espalha pelos lábios, é como um perfume. O que é que houve de luz, de perfume…

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