Santo do Dia – 29/8/1966 – p. 5 de 5

Santo do Dia — 29/8/1966 — 2ª-feira

Nome anterior do arquivo: 660829--Santo_do_Dia_2__a.doc

Santa Rosa de Lima, filha de nobres empobrecidos, bordava e cultivava flores; imagem de sua bela alma; usava o corpo para ingentes sacrifícios, mas era consolada na oração; a resignação cristã confere paz de alma e força na dor; apenas chorinhos e carícias não consolam.

* Mérito da antiga nobreza empobrecida * Bordava e cultivava flores. Símbolos da elevação de sua alma * Conceito dela sobre o corpo: altar para oferecer sacrifícios * Sustentação nos sacrifícios: consolações na oração * Vias de oração na santidade * Resignação cristão: profunda paz de alma * Consolação hodierna: choramingos * Consolação verdadeira é dar força para agüentar a dor * O Espírito Santo pode acentuar o consolo da resignação

Santa Rosa de Lima

Hoje é festa da degolação de São João batista e é aniversario do primeiro dia em que chorou a imagem de Nossa Senhora de Siracusa. Amanhã é festa de Santa Rosa de Lima, virgem e padroeira principal da América Latina. Século XVII. No livro de Scamoni, “El Verdadero Rostro de los Santos”. Há alguns dados biográficos sobre Santa Rosa de Lima.

Rosa Flores, ou Rosa de Santa Maria, nasceu em Lima, no dia 20 de março de 1586, de pais pobres, mas da antiga nobreza espanhola. Com inclinação ao misticismo desde a mais tenra idade, teve que sofrer contrariedades sobretudo da parte de sua mãe, que se havia empenhado em casá-la. Aos vinte anos fez-se Terceira Dominicana e seu modelo foi Santa Catarina de Sena. Vivia reclusa numa cela do jardim da casa paterna e ajudava seus pais fazendo bordados e cuidando das flores, que vendia. No que se refere a mortificação, ninguém a superou. Considerava que o corpo somente é bom para o sacrifício. Certa vez que se achava acabrunhada por mil inquietações, ouviu a voz do Senhor que lhe dizia: “Aquele que deu sua vida e seu sangue por ti, saberá cuidar de teu corpo. As leis naturais foram criadas por ele e são para ele.” Rosa distribuía seus dias desse modo, destinava dez horas à oração, dez horas ao trabalho e duas ao sono.

Nossa vida seria muito mais produtiva se fossemos capazes de adotar esse horário.

sobre um leito de sarmentos. Rogou a Deus que não deixasse transparecer no meu corpo o que acontecia no fundo de sua alma, e cada dia, no decurso de horas inteiras, via-se assaltada por terríveis tormentos, temendo que o Senhor a abandonara, considerando esse suplicio pior do que a morte. Porém depois, sentia-se fortalecida por novas manifestações da graça divina. A uma comissão de teólogos que a interrogava acerca de sua oração, confessou: “Rezar não me custa nenhum trabalho. Minhas energias concentram-se no meu interior como o ferro atraído pelo imã e se sentem embriagadas por tal doçura que nenhum mal é mais possível. Meu coração arde. Sinto a Deus em todo o meu ser e tenho absoluta certeza de sua adorável presença. Tal contemplação não me cansa, e minha única alegria é sentir Deus presente em minha alma. Ver-se privada dele seria para mim um inferno e nada criado poderia consolar-me.”

Os três últimos meses de sua vida foram de incessante luta com a morte e um misterioso não poder morrer. O ultimo pedido que saiu de seus lábios foi para sua mãe: “Senhor, deixo-a em vossas mãos. Dai-lhe forças, não permitia que seu coração se dilacere de tristeza.” Tão logo a santa expirou, viu-se sua mãe tomando por um consolo e alegria tais que precisou retirar-se para ocultar a felicidade que seu rosto estampava. Faleceu Santa Rosa a 26 de agosto de 1617.

* Mérito da antiga nobreza empobrecida

Há vários aspectos dessa vida que merecem um comentário. Em primeiro lugar, é o fato de Santa Rosa pertencer a uma velha família nobre, mas empobrecida. Eu não tenho dados estatísticos que me permitam fazer a esse respeito uma observação, mas eu tenho impressão de que proporcionalmente falando, a categoria de pessoas – proporcionalmente falando – que a Providência tira maior numero de santos são, exatamente, as famílias nobres, mas sem dinheiro, que imitam nisso a Sagrada Família de Nazaré, que era de sangue real, mas que também não dispunha de recursos para se manter. É uma situação sumamente penosa, sumamente difícil, a esse titulo também sumamente abençoada, e em que a dignidade da estirpe e a dignidade da educação, e do caráter, têm que brilhar sozinhos, sem os recursos tão prestigiosos e tão úteis do dinheiro. De maneira que se compreende que haja aqui um traço da predileção divina.

* Bordava e cultivava flores. Símbolos da elevação de sua alma

De outro lado, é muito bonita essa visão da profissão dela, de que ela vivia quando era menina. Os senhores viram que ela vivia reclusa numa cela do jardim da casa paterna e ajudava seus pais fazendo bordados e cuidando das flores, que vendia. Quer dizer que ela cuidava de flores e fazia bordado. Eu creio que a redação aqui não está muito boa e que não era [ela] que vendia, que era a família que vendia; porque eu não posso compreender como ela vivia reclusa e vendia flores, que é uma profissão que, naturalmente, se exerce na rua. Mas isso de uma jovem santa, já da mais alta santidade, que se retira para reclusão inteira.

E que depois, na reclusão, simboliza a sua profissão, simboliza algo dos altos e delicados assuntos de que trata sua alma; ela cultiva flores para serem vendidas, ela faz bordados bonitos; isso dá até um certo encanto, dá uma certa graça no inicio da vida dela, que de passagem não deve deixar de ser registrado.

Há coisas assim na vida dos santos que a Providência permite, com a intenção de ornamentar a vida dos santos, e fazer com que nós vejamos, através dessa beleza secundária e quase episódica, algo de mais profundo dentro da santidade, e de nos atrair por aí para a admiração para com a santidade.

* Conceito dela sobre o corpo: altar para oferecer sacrifícios

É também interessante a opinião dela sobre o corpo e a atitude dela diante do sofrimento. Ela ao corpo não concedia nada. Os senhores estão vendo que eram apenas duas horas de sono, à noite. E o corpo, para ela, era apenas um instrumento para receber os sacrifícios, para sofrer as dores. Que deveria ajudá-la a completar, no que dizia respeito a seu próprio contributo, os méritos e as dores da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

* Sustentação nos sacrifícios: consolações na oração

Essa situação, essa posição, a gente quase não compreende se não compreende a contra partida que está dita a respeito da oração. Quer dizer, durante a oração ela tinha consolações extraordinárias. Os senhores estão vendo que ela sentia um verdadeiro céu na terra durante dez horas por dia. E era isso que dava a ela o animo para suportar depois uma vida de dor e de sofrimento, que sem isso seria literalmente insuportável. Os senhores vêem aí as semelhanças e as dessemelhanças das vidas dos santos.

Santa Teresinha do Menino Jesus dizia isso: que ela estava tão habituada a sofrer, que quando ela chegasse no céu ela precisaria ter uma espécie de segunda natureza para se desabituar de sofrer e para se sentir verdadeiramente feliz. Aí há uma enorme analogia com este conceito de Santa Rosa de Lima sobre o sofrimento.

* Vias de oração na santidade

Mas vejam agora no que diz respeito na vias da oração como eram diferentes. Santa Rosa de Lima tendo uma oração altíssima e muito sensível; Santa Teresinha do Menino Jesus tinha uma oração árida, tão árida que ela às vezes chegava a dormir durante o coro, foi uma tal dificuldade de prestar atenção, que o simples ruído natural que fazia o rosário de uma freira ajoelhada perto dela já a impedia de fixar a atenção na oração. E, entretanto, a oração da aridez e a oração da consolação igualmente aceitas por Nossa Senhora e encaminhadas a Deus Nosso Senhor como sendo variantes de uma mesma coisa que no total é inteiramente coerente, uniforme consigo mesmo, e que é a santidade.

* Resignação cristão: profunda paz de alma

De outro lado, os senhores podem fazer também uma observação de certo proveito para a vida espiritual, no que diz respeito à atitude dela com a mãe. Ela sabia que a mãe sofreria muito com a morte dela, e pediu então que a mãe recebesse, tivesse força para resistir a esse sofrimento. Pois bem, ela foi tão amplamente atendida, que a mãe não só teve força, mas teve uma alegria com o sofrimento dela, com a morte dela.

Como é que se pode explicar essa alegria? É que a resignação cristã, aquilo que de fato se chama consolação — é um aspecto da resignação cristã — a resignação cristã é uma tristeza. Mas é uma tristeza em que há tais contrafortes de paz, em que há tais contrafortes de alegria que há, no fundo, mais felicidade numa alma cristã profundamente triste mas resignada , do que há felicidade… [faltam palavras] …as coisas mudam; consolar… [faltam palavras] …sentido das palavras mudam.

* Consolação hodierna: choramingos

Hoje, consolar é fazer carícias dengosas para uma pessoa que está chorominguenta. A gente vê, a caricatura disso é nos enterros: aqueles abraços: “fulano, eu também senti muito; era entre nós um traço de união.” Outras coisas assim; outros choramingam um pouco também. Outro aspecto de consolação — eu não sei se isso ainda existe, mas há alguns anos atrás ainda existia, que há muito tempo que eu não vou à missa de Sétimo Dia — era, por ocasião da elevação, algumas pessoas da família, algumas senhoras já antes da elevação iam preparando um lencinho para um pequeno choramingo; parece que havia uma evocação especial da memória do morto no silencio da elevação, eu não sei bem o que é. Mas, enfim, aquele sininho pareceria um pouco a alminha que dava uma corridinha pelo meio da Igreja com o tilintar do sino, eu não sei bem o quê que é. Mas alguma coisa assim se produzia. Esse é o sentido atual de consolação.

* Consolação verdadeira é dar força para agüentar a dor

Antigamente, não. No latim, consolare era dar força. Era dar, exatamente, a capacidade de agüentar a dor. E não era de fazer um afaguinho, senão muito secundariamente; o afaguinho entrava também. Não esse afaguinho ridículo, mas um afaguinho com conta, peso e medida entrava também. Mas era secundário. Era o robustecimento da alma para agüentar a dor, que era a verdadeira consolação.

Bem, a resignação cristã é exatamente filha da consolação. Ela é filha dessa aceitação forte da dor, e de uma idéia, de uma ordem. De uma razão de ser para as coisas, supereminente em relação ao que é transitório e episódico. De maneira tal que essa alegria, essa consideração dá ao homem uma alegria superior no meio das suas tristezas. Uma mãe, por exemplo, que chora e diz: “Meu filho, ou minha filha morreu, que coisa lamentável! Mas, eu sei que tudo passa, eu sei que Deus permitiu isso para nosso bem, eu sei que isso no céu terá uma explicação e terá um encontro de novo com ele. Eu sei, sobretudo, que no céu ele e eu não pensaremos tanto em nós, quanto principalissimamente em Deus que nos prometeu que Jesus Cristo seria Ele próprio a nossa recompensa demasiadamente grande.”

Então, à vista dessas considerações muito altas a alma, ao mesmo tempo que deplora a morte, encontra uma estabilidade e uma fixidez em face dela, encontra uma posição de equilíbrio em face dela e é isso que se chama resignação cristã.

* O Espírito Santo pode acentuar o consolo da resignação

É claro que graças do Espírito Santo podem acentuar esse fundo de alegria que existe na resignação. E foi exatamente o que se deu com a mãe de Santa Catarina de Sena [Santa Rosa de Lima]. Ela recebeu tanta força e esse elemento de alegria que havia dentro da resignação dela foi de tal maneira acentuado pelas graças do Divino Espírito Santo, que ela até teve que se esconder para que não julgassem mal da alegria dela. Que é que era essa alegria? Com certeza, uma participação da alegria de Santa Cantarina que já estava no céu, inundada pelas plenitudes das alegrias celestes.

Aqui estão algumas de Santa Catarina, não, de Santa Rosa de Lima — aqui estão algumas observações a respeito da vida de Santa Rosa de Lima.

*_*_*_*_*