Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 24/8/1966 –
4ª feira [SD 029 e 070] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 24/8/1966 — 4ª feira [SD 029 e 070]
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São Luís IX teve sabedoria, que é conhecer a realidade última das coisas, o sentido da vida, e para aí dirigir todos seus atos * O estulto é o oposto: quer divertir-se, ignorar a realidade última das coisas, ser superficial, sem rumo na vida * A Sabedoria, da qual nascem todas virtudes, é o pressuposto da Fé, necessária sobretudo ao que tem poder espiritual ou temporal * A mais alta função do governante é defender e difundir a Igreja, o resto vem por acréscimo e o governo é fácil * Punição e perdão devem ser regulados segundo as condições de empedernimento e espírito revolucionário
Hoje é dia 24, festa de São Bartolomeu apóstolo, e de Santa Joana Antida Thouret. E amanhã nós temos São Luís de França, confessor, modelo de estadista católico. Participou de duas Cruzadas. Sua relíquia de venera em nossa capela. Século XIII.
A respeito dele, D. Guéranger faz a citação do livro da Sabedoria, na parte referente aos reis. O texto é este:
Escutai, ó reis, e compreendei. Aprendei, governantes das extremidades da terra. Prestai ouvidos, vós, que dominais a multidão, e vos envaideceis como os povos das nações.
O domínio vos foi dado, com efeito, pelo Senhor, e o poder pelo Altíssimo, que examinará vossas obras e sondará vossos desejos. É a vós, ó príncipes, que se dirigem minhas palavras, a fim de que conheçais a sabedoria e que não tombeis. Pois, aqueles que guardam santamente as coisas sagradas serão santificados, e aqueles que nelas forem instruídos terão com que se defender. Desejai, então, minhas palavras, embebei-vos dela e sereis instruídos. Radiosa e iluminadora é a sabedoria, e ela se deixa facilmente contemplar pelos que a amam, encontrar-se pelos que a procuram, e ela se deixa reconhecer de antemão por aqueles que a desejam.
Isto é o Livro da Sabedoria.
Agora, outra citação é tirada de Santo Agostinho, “A Cidade de Deus”, e é um outro pensamento a respeito do principado católico.
* São Luís IX teve sabedoria, que é conhecer a realidade última das coisas, o sentido da vida, e para aí dirigir todos seus atos
São Luís foi um rei sábio, no sentido verdadeiro da palavra, porque o sábio verdadeiro não é o cientista que sabe muitas coisas, mas é o santo. E é o santo no sentido especial da palavra sabedoria, que é uma palavra esquecida, tão pouco cuidada em nossos dias, mas que afinal de contas vem a ser o quê?
A sabedoria é a virtude fundamental pela qual o homem quer conhecer o fundo das coisas, a realidade última das coisas, penetrá-las inteiramente, não desta coisa, daquela, daquela, mas do universo, do cosmos, para compreender o sentido de sua própria existência e o sentido da vida humana, o sentido de todas as coisas, o que elas significam, por que existem, para que é que são, do que é que servem. E não é só para compreender, mas é com o intuito de depois dirigir a sua própria existência, dirigir todos os seus atos, segundo a resposta que se der a esta pergunta.
* O estulto é o oposto: quer divertir-se, ignorar a realidade última das coisas, ser superficial, sem rumo na vida
Nós temos, então, um espírito sábio, em oposição ao espírito estulto. O espírito estulto é o que não se preocupa com essas coisas, quer apenas divertir-se. Ele não quer saber qual é o fim último para o qual todas as coisas existem, ele não quer saber qual é o significado último, a realidade última que está por detrás de todas as coisas, ele não quer pautar a sua existência de maneira a dirigir a esse fim, ele quer apenas gozar da vida. E gozar da vida no sentido mais estúpido da palavra, que não é só gozar das coisas imorais, o que evidentemente é o pior, mas é também nas outras coisas não pensar em nada de profundo. Ser superficial em tudo, ser raso em tudo, não se preocupar com nada, apenas divertir-se na vida.
Eu conheço gente que não pratica propriamente ações imorais, ações más. Mas é que é completamente falho de sabedoria. Quer dizer, toca a vida sem se preocupar com nada daquilo que nós falamos.
Por exemplo, quantas senhoras que nós conhecemos que são esposas fiéis, que são mães que cuidam do grosso de seus deveres de um modo satisfatório, que vão à missa, que comungam, que confessam, mas não têm sabedoria. Por quê? Porque é um ajuste da vida e esta última perspectiva, essas não têm. Elas vivem fora da horinha da oração olhando isto, olhando aquilo, conversando, falando, extrovertendo-se, mas sem nenhum pensamento profundo, e sem nenhum sentido profundo da sua existência.
* A Sabedoria, da qual nascem todas virtudes, é o pressuposto da Fé, necessária sobretudo ao que tem poder espiritual ou temporal
São Luís Maria Grignion de Montfort, no “Tratado da Sabedoria” que nós estamos comentando nas reuniões da Rua Pará aos domingos, São Luís Grignion de Montfort trata disso, ele mostra que a Sabedoria é a virtude que leva o homem à Fé, e a Fé é por sua vez a virtude da qual nascem todas as outras. De maneira que a Sabedoria é um pressuposto da virtude radical da Fé, da virtude raiz da Fé. É exatamente ter este feitio de espírito, esta tendência de espírito.
E se isso é exigido por Deus de todos, e Nossa Senhora nesse sentido é chamada a Sede da Sabedoria, se isto é exigido por Deus Nosso Senhor de todos, evidentemente ainda mais é exigido pelos grandes. É exigido dos reis: um rei sem Sabedoria perde seu povo; a glória de um rei é ter Sabedoria, porque ele salva o seu povo. E exigido ainda mais daqueles que têm principado da ordem eclesiástica. A Sabedoria é exigida por todo aquele que tem qualquer forma de poder. Se ele não tem Sabedoria, o poder se transforma nas mãos dele num instrumento de perdição.
Daí este elogio magnífico do rei sábio. Exatamente é ele que vai conduzir as coisas para este fim último, neste sentido, e que dá ao seu reino esse significado. Quando não há isto, ele é um estulto. Está acabado!
Então nós contemplamos em São Luís um modelo do sábio posto no trono e na realeza. Sábio, então, com este sentido da palavra. Não no sentido da palavra de que Pedro II seria o rei sábio, de nenhum modo, mas é no sentido bem outro da palavra, no sentido que São Luís foi um rei sábio.
Agora aqui outra referência também de Santo Agostinho:
* A mais alta função do governante é defender e difundir a Igreja, o resto vem por acréscimo e o governo é fácil
Nós chamamos felizes os príncipes que fazem reinar a justiça, que no meio dos louvores mais servis que lhe são dirigidos, não se ensoberbecem, mas lembram-se de que são homens. Que se servem do seu poder sobretudo para difundir o culto do Senhor, e fazerem seus servidores fiéis de sua majestade soberana.
Os senhores vejam aqui o elogio de Santo Agostinho ao rei que se serve do poder para expandir a religião católica. Isto é exatamente o contrário do que querem muitos daqueles que dão interpretações do Concílio hoje em dia.
(…)
E querer portanto o poder do Estado para fazer a expansão da Igreja é o maior dos absurdos, porque o Estado não se presta a isto. Ele é leigo permanente. Isto é falso!
Nós devemos louvar o rei que dirija o poder do Estado para a expansão da Igreja. E eu digo mais: é a mais alta finalidade do Estado em função da Igreja. E ainda acrescentando mais: se o Estado cuida a fundo da expansão da religião Católica — é claro que coordenado e subordinado à Igreja, não tem dúvida — mas se ele cuida disto a fundo, ele ganha o cêntuplo nesta terra, e ainda terá o Céu. Porque uma vez assegurada a verdadeira difusão da verdadeira religião, tudo vem de acréscimo, e com muito pouco trabalho para o Estado.
Eu não sei se os senhores pensaram, por exemplo, numa procissão, em qualquer cerimônia católica. Há dois, três polícias para um caso de uma senhora desmaiar, precisa levar para uma farmácia, qualquer coisa, mas são multidões enormes, pacíficas, e que tudo corre em ordem.
A gente pega uma reunião qualquer… o quê? essas casinholas, essas boites imundas, essas coisas que têm pela Vila Buarque. Já na entrada a gente nota polícia, atopetada pelo lado de fora, assim. Por quê? Porque está longe a religião! Ali está o crime, ali está a desordem, ali está a Revolução.
Onde está presente a religião, tudo corre bem, e nada é mais fácil do que governar um povo religioso. Se o povo não é religioso, o governo é um inferno. E se ainda não é pior, é porque ainda há hoje uns restos de religião. Se não houvesse resto nenhum de religião, não podia mais haver governo.
Então aqui está o louvor do príncipe católico que utiliza todo o seu poder na difusão da Fé.
* Punição e perdão devem ser regulados segundo as condições de empedernimento e espírito revolucionário
Então:
O culto do Senhor faz dos servidores dele sua majestade soberana. Os príncipes que temem a Deus, o amam e adoram, que preferem a posse do Seu Reino, onde não temem os competidores, que são lentos em punir e prontos a perdoar.
Isto, depois da Revolução ter começado, a gente deve dizer o contrário. A gente deve louvar os príncipes que, em se tratando da Revolução, são prontos em punir e lentos a perdoar, porque a Revolução é uma hidra, ela tem de ser tratada assim.
Que empregam os castigos por necessidade e bem do Estado que devem defender e não para satisfazer suas vinganças pessoais, está muito bem.
Que perdoam não para que o crime permaneça impune, mas na esperança de que o culpado se corrigirá: zero, vírgula, mil zeros, um por cento entre os revolucionários, não é?
Que obrigados a agir com rigor, temperam a severidade pela doçura e bondade, aqui dever-se-ia dizer o seguinte: que mesmo quando agem com doçura e bondade, temperam com rigor quando se tratasse de um revolucionário.
Temperantes em seus prazeres preferem comandar suas paixões que todos os povos do mundo. Agem assim não para satisfazerem vãos desejos de glória, mas por amor à felicidade eterna.
Enfim, os príncipes que têm cuidado de oferecerem a Deus por seus pecados, o sacrifício da humildade, da misericórdia, e da oração.
Tais são os príncipes cristãos que chamamos felizes, eles o são neste mundo pela esperança e que serão na realidade, quando vier o que esperamos (Santo Agostinho, “A Cidade de Deus”).
Eis uma magnífica dissertação sobre o Príncipe Cristão.
Os senhores vejam quantos presidentes da República que os senhores podem encontrar correspondendo a esta definição, podem tomar um gatão, dividir em quatro … [inaudível]… fica um espaço vazio, não é?
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