Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 18/8/1966 – 5ª feira [SD060] – p. 5 de 5

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 18/8/1966 — 5ª feira [SD060]

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Deus suscitou santos de fogo para combater a crise religiosa do séculos XVII e XVIII e reacender a mecha da tibieza * A devoção ao Coração de Jesus, principal meio de reacender o amor de Deus, recusada por Luís XIV e pelo povo em geral, apesar de missionários fogosos a difundirem * Além da pregação, São João Eudes usou uma arma jurídica: criar seminários com ambiente fervoroso, anti chacunière * A chacunière é muito pior para o Grupo do que a corrupção do mundo: é a tibieza do deixa como está para ver como fica * A devoção ao Coração de Jesus e Maria é a arma contra a vidinha: virar uma “fornalha ardente do Amor de Deus” * “Eu quereria ver a tibieza totalmente expulsa, não tendo um laivo, não tendo um sintoma” no Grupo

Hoje é a festa de Santa Helena, Imperatriz, viúva, de que D. Sigaud falou ontem. Amanhã nós devemos ter a festa de São João Eudes, confessor. São João Eudes foi o primeiro promotor do culto litúrgico aos Sagrados Corações de Jesus e Maria. Ele lutou contra os jansenistas e promoveu a criação de seminários para reforma do clero. É fundador de ordem religiosa e viveu no século XVII. Continuamos na novena do Imaculado Coração de Maria.

Sobre São João Eudes, diz D. Guéranger no “L’Année Liturgique”:

São João Eudes nasceu em 1601, na aldeia de Ri, na diocese de Orne, de pais piedosos, que o consagraram à Santa Virgem. Em 1615, sendo educado pelos jesuítas de Caen, fez voto de virgindade, doou-se a Maria e votou-lhe desde então um culto fervoroso. Da Universidade de Caen entrou na Congregação do Oratório fundada por Bérulle, onde ele permaneceu durante vinte anos.

Bérulle, era o famoso Cardeal Bérulle.

Bérulle quisera restabelecer entre o clero a doutrina e a santidade, mas não havia pensado em seminários, e foi para instituí-los que São João Eudes, em 1643, deixou o Oratório…

Que é a ordem religiosa de Bérulle.

e fundou a Congregação de Jesus e Maria; e logo com seus cinco companheiros padres abriu o primeiro seminário de Caen, logo seguido de muitos outros. Para reconduzir os pecadores à vida cristã, fundou a Ordem de Nossa Senhora da Caridade e para evangelizar as almas abandonadas fez-se missionário durante longos anos, pregando nos campos abandonados, nas cidades e até na Corte, com uma liberdade e uma eloqüência que tinham como suporte a sua eminente santidade.

Ele difundiu a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e foi o primeiro a lhes oferecer um culto litúrgico. Sempre fiel à Cátedra de Pedro, foi perseguido pelos jansenistas, aos quais resistiu com força. Enfim exausto pelos inumeráveis trabalhos, morreu a 19 de agosto de 1680, pronunciando os doces nomes de Jesus e de Maria. Foi beatificado por São Pio X e canonizado por São Pio XI.

* Deus suscitou santos de fogo para combater a crise religiosa do séculos XVII e XVIII e reacender a mecha da tibieza

Da vida de São João Eudes, há uma coincidência entre a obra jurídica e a obra espiritual, que é muito bonito assinalar.

Ele viveu, como os senhores estão vendo, num país católico, como era a França. E sua tarefa não foi a tarefa de combater os inimigos expressos e extrínsecos da Igreja. Ele estava num país que estava corroído por uma profunda crise religiosa, da qual haveria de nascer afinal a Revolução Francesa.

Esta crise religiosa provinha do fato de que o fervor tinha decaído inteiramente, o amor de Deus não existia mais, o senso católico estava muito baixo, e a Providência então para evitar as tragédias da Revolução e sobretudo a apostasia da Revolução, a Providência suscitava grandes almas que de várias maneiras procuravam reacender o fervor na França.

Todos os santos do século XVII e do século XVIII foram santos de fogo. Não foram tanto grandes teólogos quanto foram santos que tomavam por intenção contaminar com o amor de Deus essa mecha que ainda fumegava, mas na qual havia apenas um fogo em estado de brasa e não mais um fogo em estado de chama.

Então os senhores têm, entre outros, São Vicente de Paulo, que era um homem de um amor de Deus irradiante; os senhores encontram São Francisco de Sales, que exercia uma penetração profunda de amor de Deus nas camadas da alta sociedade; os senhores encontram uma série de outros santos. E os senhores encontram para essa obra de combustão, de amor de Deus, de acender de caridade, os senhores encontram sobretudo duas obras fundamentais: a obra de São Luís Grignion de Montfort, no século XVIII, na Vendéia e na Bretanha, de que nasceu depois a Chouannerie, e a obra de São João Eudes, que nós devemos analisar mais especialmente hoje.

* A devoção ao Coração de Jesus, principal meio de reacender o amor de Deus, recusada por Luís XIV e pelo povo em geral, apesar de missionários fogosos a difundirem

Quem lê as revelações do Sagrado Coração de Jesus a Santa Maria Margarida Alacoque, vê que essas revelações tiveram como intenção expressa de enunciar a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, dizendo que essa devoção, especificamente considerada, tinha um dom de tirar os tíbios de sua tibieza, de acender o amor de Deus nas almas frias. É a finalidade específica dessa devoção.

Quando se toma um tíbio, quando se toma um sabugo, quando se toma um homem que está mais amando suas coisas do que as coisas de Deus, a devoção indicada para acender nele o amor de Deus desfalecente é a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, e naturalmente também ao Imaculado Coração de Maria.

Santa Margarida Maria, portanto, recebeu essa devoção, mas ela era uma freira visitandina, era reclusa, não podia sair do convento. Ela não tinha como missão difundir essa devoção. Ela tinha como missão registrá-la, praticá-la, com isso ser canonizada e ser uma espécie de aprovação dessa nova devoção. Ela tinha como missão fazer conhecer essa devoção aos homens que poderiam difundi-la. Entre outros, temos Luís XIV.

Ela mandou pedir a Luís XIV que fizesse uma alteração na bandeira da França, incluindo o Sagrado Coração de Jesus; mandou também pedir a Luís XIV que fizesse a Consagração da França ao Sagrado Coração de Jesus. Luís XIV recusou-se a isso. O resultado é que no que diz respeito ao poder real, não havendo a Consagração, foi água abaixo a monarquia francesa.

Luís XVI, como os senhores sabem, na prisão do Templo, fez essa Consagração e prometeu que se ele fosse salvo dos perigos da morte que já circundava, ele faria essa Consagração de modo solene. Mas já era tarde. Ele ainda tinha o poder de direito, mas ele não tinha mais o poder de fato. E a França estava em condições em que essa Consagração não podia mais ser considerada um ato nacional, como seria feito por Luís XIV, mas era o ato de um rei desacompanhado da população que estava naquelas convulsões da revolução e não podia acompanhar esse ato.

Além de fazer chegar isso ao rei, ela quis também fazer chegar isso a missionários. E essa devoção espalhando-se nos círculos piedosos, tocou em São João Eudes, cuja vida os senhores acabam de ver.

Então, São João Eudes chamou sobre si a tarefa de difundir essas devoções. E ele que era um grande orador, um santo muito fogoso, fundou essa Congregação para ver se com o prestígio da santidade dele e de uma Congregação religiosa nova, essa devoção pegava na França.

Ora, aí nós vemos uma outra recusa, e essa recusa já não é do rei, mas é uma recusa do povo francês, pecador solidariamente com o rei. A devoção pegou pouco, impressionou pouco.

São João Eudes santificou-se, deu um grande santo. Os escritos dele no século XIX foram muito aproveitados para a generalização que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus teve no século XIX. Mas no século XVIII não pegou.

E nós temos então um grande santo, que é uma espécie de profeta não atendido e que lutou com todas as suas forças no campo espiritual para combater a tibieza francesa por meio dessa devoção.

* Além da pregação, São João Eudes usou uma arma jurídica: criar seminários com ambiente fervoroso, anti chacunière

Para combater a tibieza francesa, além de usar um método de caráter espiritual, ele usou um método de caráter jurídico. Ele procurou fazer a fundação de seminários. Os seminários eram destinados a tirar os seminaristas das respectivas famílias e educá-los num ambiente fervoroso, de maneira tal que, quando eles fossem padres, tivessem verdadeiro entusiasmo, verdadeira consagração de sua vocação e não estivessem presos às coisas do mundo. Até então não havia seminários e os seminários — até ficarem como os de hoje — foram uma coisa verdadeiramente admirável para a formação do clero. E uma das grandes coisas, uma das grandes alavancas para a restauração religiosa da Europa no século passado, foram precisamente os seminários.

Os senhores estão vendo, portanto, um santo que lutou contra a tibieza de dois modos: de um modo espiritual, fundando uma Congregação destinada a difundir uma devoção; do lado jurídico, fundando um tipo de organização de ensino, que já existia em tese, mas que ainda não fora constituída de fato na França, e que ele constituiu dando as características atuais.

Daí o que devemos tirar como conseqüência?

Nós devemos tirar como conseqüência que São João Eudes pode ser padroeiro para o problema que a meu ver é o mais sério para grupos que têm uma vocação como a nossa: e é o perigo da chacunière.

* A chacunière é muito pior para o Grupo do que a corrupção do mundo: é a tibieza do deixa como está para ver como fica

Num simpósio que eu fiz para o grupo de Buenos Aires, e que depois repeti para o grupo de Belo Horizonte, eu disse o seguinte.

Se tomarem cidades como São Paulo, Rio, Belo Horizonte, outras ainda, com todos os fatores de corrupção que têm, cinemas péssimos, revistas péssimas, imprensa, ruas imorais, enfim, rádio, televisão tudo quanto há, se tomarmos esses fatores de corrupção dessas cidades e nos perguntarmos qual é o mal que isso faz ao Grupo, se perguntarmos que mal faz ao Grupo a chacunière, eu devo dizer que a chacunière faz um mal muitas vezes maior do que todos esses fatores de corrupção. Porque ela dá uma certa tibieza, dá uma certa “deixa como está para ver como é que fica”, cuidar da vidinha pessoal dentro do Grupo transformando-se numa espécie de pensionista dentro do Grupo, que é exatamente o que há de pior. É um homem que viaja dentro da nau de Nossa Senhora, indiferente aos rumos, ocupado apenas com os aperitivos. Ele não quer chegar, ele quer chupar, ele quer beber, ele quer levar a bordo uma vidinha agradável. Que haja ou não haja Lepanto, que o final chegue ou não chegue a bom termo, para ele pouco importa contanto que ele possa bebericar sua bebidinha, e viver sua vidinha nos tombadilhos, nos camarotes de bordo.

* A devoção ao Coração de Jesus e Maria é a arma contra a vidinha: virar uma “fornalha ardente do Amor de Deus”

Contra isso, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria são os meios adequados. Quem quiser corrigir-se disso, apele para esses dois Corações Sagrados, reze e reze muito.

Por uma coincidência feliz, em São Paulo as duas Igrejas do Sagrado Coração de Jesus e do Coração Imaculado de Maria encontram-se, por assim dizer, no mesmo eixo. É uma mesma reta que conduz de uma a outra e continuamente freqüentadas por nós. É uma oportunidade para termos diante de nós essas duas devoções. E pedirmos ao Coração de Jesus, em cuja ladainha está escrito que é “a fornalha ardente do Amor de Deus”, quer dizer, da qual qualquer chispa que saia pode gerar um incêndio, pedir então ao Sagrado Coração de Jesus, por meio do Coração Imaculado de Maria, que é o Mediador universal junto ao Sagrado Coração de Jesus, pedir essa graça: de acabar com a chacunière, com a mania da vidinha, das pequenas preocupações próprias, do querer ser alguma coisa dentro do Grupo, de querer aparecer dentro do Grupo, enfim, de tantas outras coisas que existem. É assim que nós podemos combater tudo isso.

* “Eu quereria ver a tibieza totalmente expulsa, não tendo um laivo, não tendo um sintoma” no Grupo

Eu sei que, graças a Deus, o Grupo tem tentações de defeitos desses, mas lhes concede guarida em pouca medida. Mas eu queria que não fosse medida nenhuma. Eu quereria ver a tibieza totalmente expulsa, não tendo um laivo, não tendo um sintoma. Eu quereria o nosso fervor num grau inimaginável, que fosse comparável ao fervor dos Apóstolos depois de Pentecostes. É assim que eu quisera. E, evidentemente, nem de mim nem dos senhores nós podemos dizer isso.

De maneira que, então é preciso nós pedirmos a esses Corações. E São João Eudes, que pregou essa devoção, é um ótimo intercessor.

Assim, os senhores vêem que amanhã é uma festa muito adequada para nós pedirmos, se não isso, ao menos a compenetração do que eu acabo de dizer. Já é o primeiro passo para depois a gente mais assiduamente pedir isso.

Com essas considerações podemos então encerrar nossa reunião.

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