Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 15/8/1966 – 2ª feira [SD 148] – p. 8 de 8

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 15/8/1966 — 2ª feira [SD 148]

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A infelicidade total é insuportável — É virtude alegrar-se quando há motivo, e Nossa Senhora teve vários, a Assunção foi o maior * Não se alegrando quando há razão, nasce a tibieza que não se alegra com as coisas boas e santas e sim com as más ou indiferentes * Reflexão prévia com a coroação da rainha da Inglaterra: o crescente da alegria, seu auge, seus prosaísmos e incômodos — Tudo é efêmero * Nossa Senhora atingiu o apogeu de perfeição e santidade e conhecia bem o que é a visão beatífica e a glorificação que ia receber * Se a complacência de um anjo embeveceria um homem, o que foi a aclamação de todo o Céu na Assunção de Maria? * A Coroação da Rainha: inimaginável e autêntica festa no Céu com o auge da alegria e sem a menor sombra ou mancha * Aplicação para nós: a delícia eterna do convívio, ainda que rememorando as dificuldades desta terra * Esta vida passa num minuto: o que se sofre aqui não tem comparação com o que será ver a Rainha * Isto ainda é nada, comparado com a visão beatífica pela qual tudo, até Jesus e Maria, tomará brilho ainda maior * O que é comparável com a eternidade fixa mas sempre nova, sem jaça e empolgante? * De um gládio que traspassa o Imaculado Coração sair a maior das luzes: símbolo do sofrimento e da glória * Elevar a alma para o desejo das coisas celestes * Comentário de uma lavadeira sobre a Sala do Reino de Maria: depois de conhecê-la tem-se menos medo de morrer

* A infelicidade total é insuportável — É virtude alegrar-se quando há motivo, e Nossa Senhora teve vários, a Assunção foi o maior

Tem-se tratado muitas vezes a respeito das dores de Nossa Senhora, mas os antigos tratavam mais do que os contemporâneos das alegrias de Nossa Senhora. E até é preciso dizer que era uma devoção bastante intensificada, bastante generalizada antigamente, as alegrias de Nossa Senhora. A ponto mesmo de um dos santuários mais famosos do Brasil, que é o santuário de Nossa Senhora dos Guararapes, onde se deram as duas batalhas que foram a derrota dos hereges holandeses e depois onde se deu uma espécie de primeiro armistício com os holandeses, foi exatamente em Nossa Senhora dos Prazeres em Guararapes, a igreja era de Nossa Senhora dos Prazeres.

Nós devemos tratar também dos prazeres de Nossa Senhora, porque todos os aspectos da vida de Nossa Senhora nos são caros, mas também por causa de um aspecto muito importante, que é o seguinte:

Santo Tomás de Aquino diz bem que nenhuma pessoa pode subsistir nesta terra numa infelicidade total. É sempre preciso que haja alguma coisinha, algum ponto de respiração, algum ponto de alívio, para que um infortúnio seja suportável a longo prazo. A pequeno prazo, não. Mas a longo prazo é sempre preciso haver algum alívio, é preciso haver alguma coisa, sem o quê esse infortúnio não é suportável.

Ora, acontece exatamente que então devemos nos alegrar. E nos devemos alegrar pelas razões que merecem alegria. E estas razões que devem causar a nossa alegria, é virtude que nós nos alegremos por elas.

É por isso que nós notamos na vida de Nossa Senhora muitos movimentos de alegria, o mais insigne dos quais é evidentemente o Magnificat. Mas há outros fatos da vida d’Ela que indicam o prazer que Ela teve. E daí vêem os mistérios gozosos do rosário, que são mistérios exatamente que fixam, que mostram o prazer que Ela teve, a alegria que Ela teve em vários aspectos da existência d’Ela.

Mas nenhuma das alegrias que Nossa Senhora teve nesta vida foi tão grande quanto as alegrias da Assunção. É a respeito das alegrias desta terra e das alegrias da Assunção, que hoje se comemora, que eu quereria dizer algumas palavras.

* Não se alegrando quando há razão, nasce a tibieza que não se alegra com as coisas boas e santas e sim com as más ou indiferentes

Eu volto um pouco àquela minha idéia de que nós devemos saber por que nos alegrar. Porque tem o seguinte: a virtude não consiste só em nós nos entristecermos com as coisas que devem despertar tristeza, mas também que nós nos alegremos com as coisas que devem despertar alegria. E há muitas coisas que devem despertar alegria na vida do católico, embora não seja de nenhum modo alegria como o mundo a entende.

Por exemplo, existe na Igreja o costume de haver uma festa, e depois uma oitava litúrgica depois da festa, para marcar a alegria que a festa deixou. Nós estamos na oitava da festa da vitória contra o divórcio e é natural de que durante oito dias, e mais até, nós nos alegremos com a vitória que tivemos. E é conveniente que isto fique nas nossas almas, que nós nos lembremos disso várias vezes durante o dia, que isto nos dê satisfação, e isto é virtude. Ter alegria por causa disso, é virtude.

Ter alegria porque o Grupo existe. Ter alegria porque a gente pertence ao Grupo. Ter alegria porque o Grupo tem as qualidades que Nossa Senhora pôs nele. Ter alegria pela esperança de que o Grupo vença os defeitos que tem, para ser perfeitamente santo e ser inteiramente como Nossa Senhora quer. Ter alegria por… homem! todo um conjunto de circunstâncias que cercam a nossa vocação — a própria vocação nossa, ela mesma, em si mesma considerada — devem ser fontes ininterruptas de alegria.

E é quando a pessoa não sente essas alegrias que começa a baixa, começa a depressão, começa a tristeza. É exatamente porque nessas almas falta a alegria pelas boas razões de alegria que Nossa Senhora nelas colocou.

Então a pessoa que não tem essas alegrias, começa a se alegrar com as alegrias do mundo e começa a sentir atrativo pelas coisas do mundo. E a partir desse momento, naturalmente, começa um processo de entibiamento, porque a tibieza, em última análise, é uma incapacidade ou um dos sintomas da tibieza é uma incapacidade de se alegrar com as coisas boas, santas, e uma alegria ruim com uma porção de coisas que ou são indiferentes, ou que são positivamente más.

* Reflexão prévia com a coroação da rainha da Inglaterra: o crescente da alegria, seu auge, seus prosaísmos e incômodos — Tudo é efêmero

Agora, nós devemos também fazer nossas. Não só pensar nas alegrias de Nossa Senhora e pedir a Ela que nos dê este espírito de alegria dentro das coisas que Ela pôs em nossa vida, mas nós devemos pensar nas alegrias extraordinárias da Assunção, que foram as maiores alegrias que Ela teve na sua existência terrena, se é que a Assunção pode ser chamada de existência terrena.

Então seria conveniente nós fazermos uma reflexão a respeito da Assunção.

Como podemos pensar, como é que nós podemos refletir a respeito da Assunção?

Os senhores — vários dos senhores pelo menos — terão assistido a fita da coroação da rainha da Inglaterra, e terão visto como a rainha sai do seu palácio, como ela entra numa carruagem dourada magnífica, revestida de um diadema, de ornatos esplêndidos. Ela entra nessa carruagem precedida por um cortejo de cavalaria esplêndido, seguida por outro cortejo com notabilidades, etc., tocam os sinos, troam os canhões. No momento em que se dá o sinal é que o cortejo se põe em marcha. E ela começa então a caminhar para a Abadia de Westminster, ela recebe a homenagem de todos os pares do reino, dos membros da casa real, de outras notabilidades que estão por lá. Ela recebe estas homenagens, e ela, ao final de contas, vai ao seu trono. E no seu trono, depois de algumas cerimônias, a sua alegria chega ao máximo no momento em que ela é coroada, em que então a cidade toda está em júbilo, o júbilo se espalha pelo império e do império se espalha ao mundo. Há uma espécie de alegria universal porque hoje em dia, com a queda das outras monarquias, ela é a rainha por excelência, e então a coroação dela é uma espécie de festa universal da realeza.

Nós podemos compreender que a alegria desta rainha passa por etapas. Ela amanhece jubilosa e a alegria vai subindo de grau até o momento da coroação, em que o seu triunfo é completo, e ela tem esta alegria feita de honra, feita de dignidade, feita de consórcio com um destino magnífico que Deus Nosso Senhor lhe deu, e que é de reger um enorme povo. Ela tem essas alegrias por etapas, até chegar a uma verdadeira plenitude.

Mas no meio de todas essas alegrias, quantas pequenas coisas incomodam. A pessoa está andando na carruagem, de repente sente uma coceira no rosto e não pode coçar porque fica feio. Agüenta a coceira no duro. E em vez de estar pensando na popularidade, começa a pensar na coceira.

Eu li uma vez um comentário da Imperatriz Maria Teresa, do Sacro Império Romano Alemão, descrevendo a coroação dela como rainha da Boêmia. Até não tinha muito bom espírito o comentário.

Ela falava dos joalheiros que tinham estado, dias antes, adaptando a velha coroa da Boêmia ao formato da cabeça dela. O que é uma obra de ourivesaria, mas é também uma obra de estética, porque se um chapéu precisa ser bem colocado, um chapéu de senhora, quanto mais uma coroa! É preciso adaptar bem, estudar o tipo da rainha, como é que fica, que tamanho deve ter, enfim, é todo um trabalho de adaptação enorme. E ela então descrevia a paciência de ficar sentada, e vai indo para trás, mexe um pouco para lá, põe a coroa para cá, e ela equilibrando o peso na cabeça. Depois ela descreve indo para o cortejo, com a coroa pesadíssima, enorme. Depois, não era o mais importante dos Estados dela, com a carruagem (não havia pneumáticos naquele tempo) dando solavancos nos maus calçamentos de Praga, e ela cahin-caha, indo para lá para se coroar.

Esses pequenos pormenores acabam enchendo, com seu prosaísmo, cenas magníficas. E por outro lado, a convicção de que aquilo morre, aquilo desaparece, aquilo não tem um lendemain. O momento da coroação é um momento transitório. O dia seguinte já se apresenta pálido em relação à véspera, e cheio de preocupações em relação ao dia de amanhã.

Essas são as alegrias verdadeiras desta vida. Porque essa é uma alegria verdadeira e é uma alegria nobre. Mas esta vida, em matéria de alegria, dá isso.

* Nossa Senhora atingiu o apogeu de perfeição e santidade e conhecia bem o que é a visão beatífica e a glorificação que ia receber

Agora vamos nos reportar à coroação de Nossa Senhora, à Assunção de Nossa Senhora.

Nossa Senhora sabia, no dia da sua Assunção… Ela sabia porque Ela estava na plenitude de sua santidade. A sua alma santíssima, que não deixou um minuto de progredir de um modo perfeitíssimo em matéria de vida espiritual durante toda sua existência, tinha chegado àquele clímax em que Ela era a perfeição perfeita, a beleza belíssima, a virtude virtuosíssima, que tinha chegado então ao apogeu dos apogeus, e o seu amor de Deus nunca foi maior do que naquele momento. Ela então sabe que Ela, depois de ressuscitada, imediatamente depois, ia ser elevada pelos anjos ao céu, etc.

Os senhores podem imaginar, portanto, o estado de espírito d’Ela, sabendo que Ela, a partir daquele momento, vai gozar da visão beatífica, de que Ela vai passar por um cortejo infindo de anjos, em que Ela vai receber as maiores homenagens possíveis, que nunca nenhuma rainha do mundo recebeu coisa que nem de longe se pareça. Mas Ela é capaz de compreender a natureza de cada anjo, a luz primordial de cada anjo, a graça de cada anjo, o amor que cada anjo tem a Deus e o amor de Deus de cada anjo. E tomando um conhecimento perfeito da veneração e da hiperdulia dos milhares, e provavelmente mais, dos milhões e milhões de anjos que há, todos se dirigindo a Ela e aclamando-A e aclamando-A com o maior amor, com o maior respeito, com a maior veneração. E Ela tomando conhecimento de cada louvor, e sentindo um amor e uma alegria completas por cada um desses louvores, ciente de que esses louvores eram merecidos a Ela, porque Ela tinha sido a Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e o espelho fidelíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

* Se a complacência de um anjo embeveceria um homem, o que foi a aclamação de todo o Céu na Assunção de Maria?

Os senhores imaginem só isto que um anjo da guarda aparecesse para um de nós, agora, e dissesse: “Meu filho dileto. Você é extraordinário. Sobre você pousam todas as minhas complacências. Você é digno inteira e perpendicularmente do jorro de minha benevolência”. Uma tentação para a vaidade! Um perigo de megalice pouco comum. Não é verdade? De tal maneira um elogio desses, feito por uma natureza angélica, imensamente maior que a nossa, é uma coisa que é inebriante.

Podem imaginar, para uma mera criatura humana, como era Nossa Senhora, o que era o amor entusiástico de todos os anjos, a transformação do céu angélico, transformado numa coisa lindíssima porque a Rainha estava vindo lá. Era uma corte que durante milhares de anos tinha esperado sua Rainha. Afinal de contas a Rainha vinha, e Ela ia pôr o termo final na beleza do céu. A beleza do mundo angélico não tinha atingido toda a formosura de que era capaz, porque era preciso uma criatura angélica que dominasse sobre ele.

Agora, isto não é nada. No momento em que Nossa Senhora, depois de ter percorrido todos esses anjos, depois de ter percorrido, antes disso, as almas santas que já tinham subido ao Céu depois da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, depois de ter se encontrado com seu esposo São José e de ter ali permutado com ele uma saudação cheia de um respeito e de um afeto de que nós nem sequer podemos ter uma idéia, depois de tudo isso feito, então a Assunção estava no auge. Nossa Senhora tinha chegado ao termo da Assunção, e o termo da Assunção é a coroação d’Ela.

* A Coroação da Rainha: inimaginável e autêntica festa no Céu com o auge da alegria e sem a menor sombra ou mancha

Quer dizer, Ela ia ser coroada como Rainha dos anjos e dos santos, do Céu e da terra, pela Santíssima Trindade. E aí uma festa de coroação, mas uma verdadeira festa no Céu.

Não pensem que isso é uma hipérbole, mas é uma festa autêntica no Céu, embora em termos e modos que nós não podemos imaginar bem. Uma festa de coroação que era o auge, mas o auge sem sombra, o auge sem mancha, o auge sem incerteza, o auge sem preocupação, o auge sem a menor nuvem, um auge total e pleno de alegria. Porque Ela ia ser coroada como Rainha do Céu e da terra, por ser Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, por ser Filha do Padre Eterno e Esposa do Divino Espírito Santo.

E o primeiro momento da visão beatífica, o primeiro instante — mas desde logo um instante eterno, porque a visão beatífica é eterna —, podem imaginar o que é que foi para Nossa Senhora esta primeira alegria da visão direta de Deus?

Ora, toda a Assunção d’Ela era uma marcha para isto. E Ela sabia que era uma marcha para isto e desejava isto ardentemente. De maneira que então nós podemos por aí aquilatar os oceanos de oceanos — eu diria infinitudes — de alegrias que Ela teve na alma d’Ela santíssima, por causa disso.

* Aplicação para nós: a delícia eterna do convívio, ainda que rememorando as dificuldades desta terra

Nós podemos fazer alguma aplicação disso para nós e tirar disto para nós algum proveito nesta terra? Evidentemente podemos.

Nós devemos imaginar, nós devemos tomar em consideração que também nós somos chamados para uma verdadeira assunção. Nós devemos morrer, mas logo que nós morrermos nossa alma vai ser julgada e vai ser mostrada a Nossa Senhora, vai gozar, pela misericórdia d’Ela, evidentemente, da visão beatífica. Depois, quando vier o Juízo Final, nós vamos ser levados para o Paraíso Terrestre. É misterioso como será, se será por mão de anjos, se será por império de Deus, mas também nós vamos fazer essa viagem da terra, completamente transformada, para o Paraíso celeste, e no Paraíso celeste gozarmos daquilo que já Nossa Senhora tem.

Então nós vamos ter a familiaridade dos anjos, nós vamos ter a familiaridade dos santos, nós vamos ali, nas delícias desse Paraíso, nos encontrar novamente uns aos outros. E uma das fontes maiores de alegria que nós vamos ter lá, vai ser de lembrar das dores desta terra, de tudo quanto passamos nesta terra.

A gente vai encontrar um membro do Grupo com quem a gente tinha nó e que tinha nó com a gente, e a gente :

Oh meu caro, você está aqui? Lembra-se daquele nó que eu dei em você? Lembra-se também você do nó?

Aliás, não se vai dizer “você” no Paraíso. É uma coisa chula demais, tem todos os maus odores igualitários … [inaudível]…

Lembra-se também daqueles aborrecimentos que eu lhe dei? Olhe, eu passei no Purgatório tanto tempo.

Eu depois lhe aborreci, também eu. Nossa Senhora nos perdoou. Aquilo vai constituir entre nós um vínculo maior. Lembra-se dos favores? Lembra-se de Fulano e Sicrano que eram tão nossos amigos? Onde estão?

Estão lá.

Eu não tenho a menor dificuldade em admitir que haverá festas no Paraíso em que todo o nosso movimento se encontre junto para louvar de um modo especial a Nossa Senhora. Então, todas as dores que nós temos no momento presente serão transformadas em alegrias superabundantes, em satisfações insondáveis, que vão nos inundando durante toda a eternidade.

* Esta vida passa num minuto: o que se sofre aqui não tem comparação com o que será ver a Rainha

Meus caros, esta vida, em comparação com isso, é um minuto. Pode durar trinta anos ou cinqüenta anos, passa. Porque é um minuto quando nós nos colocarmos diante da idéia da eternidade. Nós sofremos agora, mas depois, quanta coisa, mas quanta coisa!…

Agora, desta coisa toda, a maior das máximas vai ser de olhar para Nossa Senhora.

Nossa Senhora, o que se pode dizer de olhar para Nossa Senhora? Nem se tem propriamente o que dizer.

Os senhores conhecem a famosa historieta medieval de um jogral, de um homem assim, um irmão leigo de uma ordem religiosa, qualquer coisa assim, que pediu muito para ver Nossa Senhora, ainda que ele devesse ficar cego depois. Nossa Senhora apareceu a ele, e ele ficou tão encantado, tão deliciado com a vista d’Ela, que nem soube o que dizer. Quando Ela desapareceu, ele estava cego de um olho. Então foi-lhe dito interiormente, ou um anjo lhe disse, eu não me lembro bem os pormenores da narração, se ele quereria vê-La ainda mais uma vez, com a condição de perder o outro olho. Ele pensou e disse: “Quero. Mais vale a pena nunca ver mais nada, mas ver Nossa Senhora mais uma vez”.

Esse homem entendeu bem.

Do que adianta ver, por exemplo, isto ou isto? Guardar a possibilidade de ver, não sei, o leito da Rua Pará, está compreendendo? O ônibus que vai passar na Av. Angélica, do que é que adianta ver isto, ou a cara de fulano, se eu posso ver Nossa Senhora? O resto, para quê?

Qualquer treva é aceitável, desde que por um instante, eu possa pôr os meus olhos nesta luz. Então, ele aceitou.

Aceitou, Nossa Senhora veio, ele viu longamente Nossa Senhora, e quando foi embora, ele estava curado da outra vista. Ele estava com as duas vistas em ordem.

* Isto ainda é nada, comparado com a visão beatífica pela qual tudo, até Jesus e Maria, tomará brilho ainda maior

Os senhores já imaginaram o que é, portanto, ver Nossa Senhora? Mas ver Nossa Senhora não é nada. Em Nossa Senhora e por Nossa Senhora, ver Nosso Senhor Jesus Cristo, isso, então, nem há palavras que bastem. Porque, para dizer tudo, Nossa Senhora eclipsa qualquer coisa, mas Nosso Senhor Jesus Cristo, enfim, quando é Ele, nem se tem o que dizer. Não é verdade?

Então, ver Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas ver a essência de Deus na visão beatífica. Isto é eterno, pelos séculos dos séculos.

Mais ainda — a observação é de Santa Terezinha e é muito boa:

A gente diz que Nossa Senhora eclipsa, que Nosso Senhor eclipsa. É um modo de apresentar uma parte da realidade. Outra verdade é que todo o resto toma um brilho enormemente maior, porque nós vimos Nosso Senhor e Nossa Senhora, e porque nós vimos a essência de Deus.

* O que é comparável com a eternidade fixa mas sempre nova, sem jaça e empolgante?

E agora eu pergunto: depois disto, por causa de uma coisinha, uma coisinha que dure cinqüenta anos? Em comparação desta eternidade fixa, imóvel, perpetuamente nova, sem jaça, insondavelmente interessante, curiosa para ver, animada, empolgante, o que é em comparação com tudo isto, esta vida que passa? Não é absolutamente nada. Isso é uma escória, é um pesadelo. Nós temos a impressão que esta vida é uma realidade. Muito mais do que ser uma realidade, ela é um pesadelo.

Então, pensarmos que vamos ter alegrias análogas às de Nossa Senhora, pensarmos que nós vamos ter uma ida ao Céu que é uma analogia com a ida de Nossa Senhora ao Céu no dia da Assunção, pensar nisto é, ao meu ver, a melhor das meditações.

* De um gládio que traspassa o Imaculado Coração sair a maior das luzes: símbolo do sofrimento e da glória

Para terminar, eu diria o seguinte:

Representa-se Nossa Senhora com um coração circundado de rosas brancas, para lembrar a pureza, e depois perfurado, conforme a representação, por um gládio ou por sete gládios. Esses gládios são evidentemente gládios espirituais e o coração representa aí a alma d’Ela ferida pelo gládio de dor de que falou o Profeta Simeão.

Pois bem, eu gostaria de ser pintor para poder representar Nossa Senhora subindo ao Céu, com o coração à mostra, mas deste gládio saindo a maior das luzes que se possa imaginar. Porque esta era a grande alegria d’Ela.

A grande alegria eram os tormentos sofridos, as lutas aceitas e vai ser a nossa também. Quanto mais nós sofrermos, mais nos devemos lembrar disso: a glória e a alegria que teremos, na passagem desta terra para o Céu, e sobretudo no Céu, pelos séculos dos séculos.

* Elevar a alma para o desejo das coisas celestes

Na Ladainha das Rogações há uma jaculatória, uma invocação que sempre me impressionou muito e que eu já tive ocasião de falar aqui: “Senhor, dignai-vos elevar a nossa alma para o desejo das coisas celestes”. É com meditações assim que a gente toma conta das coisas celestes, toma alegria porque o Céu existe, e toma inteira consolação com as coisas da terra. A gente suporta, a gente aceita, porque o Céu existe.

* Comentário de uma lavadeira sobre a Sala do Reino de Maria: depois de conhecê-la tem-se menos medo de morrer

Eu já mencionei aqui também — e com isso termino a minha exposição que está se alongando um pouco — uma outra coisa.

O Dr. Paulo contou-me de uma lavadeira dele, uma coisa assim, que viu pela primeira vez a sala do Reino de Maria, e depois fez esse comentário: “Depois de ver essa sala, a gente tem menos medo de morrer”.

Isto é uma teologia profunda. E até hoje ninguém fez este elogio igual à sala do Reino de Maria. É o mais faustoso elogio que se possa fazer de uma sala.

Nós há pouco comentamos que era muito inteligente o elogio do Cognac, que dizia que nunca tinha visto tanta sobriedade no fausto. Mas o que é que é o pobre Cognac em comparação desta estupenda lavadeira, que vendo uma sala dessas é capaz de dizer uma coisa dessas? É uma coisa extraordinária.

Está bem, nós devemos pensar na sala do Reino de Maria e no Grupo assim: depois de ter visto o Grupo e ter visto a sala do Reino de Maria, a gente não só tem menos medo de morrer, mas quase tem vontade de morrer, para sair depressa e ir para o Céu. A gente só não quer fazer isso porque vivendo na terra todo o tempo que Nossa Senhora quiser, é só assim que nós teremos o Céu perfeito que para nós Ela destina.

Que essas considerações tenham vida em nossa alma, nós devemos pedir então a Nossa Senhora na noite de hoje.

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