Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 2/8/1966 – 3ª feira [SD 216] – p. 4 de 4

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 2/8/1966 — 3ª feira [SD 216]

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Uma catástrofe em tudo que a vida podia significar: padre, religioso, fundador, bispo, é expulso da congregação que fundou e fica mal-visto pela Santa Sé * Imaginar-se expulso do Grupo por Dr. Plinio , para avaliar o que se passou com Santo Afonso Ligório * Paralítico, com tentações contra a pureza e a fé, a crucifixão no crepúsculo, até voltar aliviado a gozar da graça de Deus * Isso se dá com instituições como a nossa e, por proteção divina, não nos aterrorizamos com o túnel por que passamos

Dia 2 de agosto é festa de Santo Afonso Maria de Ligório, bispo e confessor da Igreja. De família nobre, era grande devoto de Nossa Senhora. Doutor por excelência da moral católica, que fora falseada pelo jansenismo. Fundador da Congregação do Santíssimo Redentor, viu-se excluído dela pela Santa Sé, mal informada. Século XVIII

Síntese biográfica dada por D. Guéranger:

Afonso Maria de Ligório nasceu de pais nobres, em Nápoles, em 27 de setembro de 1696. Sua juventude foi piedosa, estudiosa e caritativa. Aos 17 anos ele era doutor em direito civil e canônico.

Aos 17 anos, hein!

E começava pouco depois uma brilhante carreira de advogado. Mas nem seu sucesso, nem as instâncias de seu pai, que queria que ele casasse, não o impediram de deixar o mundo. Diante do altar de Nossa Senhora, ele fez o voto de se tornar sacerdote. Ordenado padre em 1726, ele se consagrou à prédica. Em 1729 uma epidemia lhe permitiu se dedicar aos doentes em Nápoles. Pouco depois ele se retirou, com companheiros, a Santa Maria dos Montes, e com eles se preparou à evangelização dos campos.

Em 1732, ele estabelece a Congregação do Santíssimo Redentor, que lhe deveria acarretar numerosas dificuldades e perseguições. Mas enfim os recrutas afluíram e o instituto se expandiu rapidamente.

Em 1762 ele foi nomeado bispo de Santa Ágata dos Godos, perto de Nápoles. Ele empreendeu ato contínuo a visita à sua diocese, pregando em todas as paróquias e reformando o clero. Ele continuava a dirigir seu Instituto e o das religiosas que ele tinha fundado para servir de apoio, por sua oração contemplativa, a seus filhos missionários.

Em 1765, ele se demitiu de seu episcopado e voltou a viver entre seus filhos. Dentro em pouco uma cisão se produziu no Instituto dos Redentoristas. Santo Afonso foi expulso de sua família religiosa. A provação foi muito grande, mas ele não perdeu a coragem e predisse mesmo que a unidade se restabeleceria depois de sua morte. Às suas doenças se acrescentaram sofrimentos morais que lhe causaram longas crises de escrúpulos e diversas tentações. Mas seu amor por Deus não fez senão crescer.

Enfim, no dia 1 de agosto de 1787, ele morreu na hora em que soava o Ângelus. Gregório VI o inscreveu no catálogo dos santos em 1839 e Pio IX o declarou Doutor da Igreja.

A respeito da missão dos Doutores da Igreja, dois quais um foi exatamente Santo Afonso de Ligório, e aplicando essas considerações a Santo Afonso de Ligório, D. Guéranger diz o seguinte:

Um grande papa tinha dito que o próprio dos Doutores é esclarecer a Igreja, de a ornar de virtudes, de formar os seus costumes. Por eles, acrescenta o papa, ele brilha no meio das trevas como a estrela da manhã. Sua palavra, fecundada pelo alto, resolve os enigmas das Escrituras, desata as dificuldades, esclarece as obscuridades, interpreta o que é duvidoso. Suas obras profundas e realçadas pela eloqüência do discurso são outras tantas pérolas preciosas que enobrecem a casa de Deus, não menos que a fazem resplandecer.

Assim se exprimia no século XIII, Bonifácio VIII. Mas maior ainda foi o exemplo que Deus quis dar ao mundo, quando Ele permitiu que acabrunhado por anos, a traição de vossos filhos, ó Santo Afonso, acarretasse para vós a desgraça dessa Sé Apostólica, pela qual vós tínheis consumido a vossa vida e que por retribuição vos imputava como membro indigno do Instituto que vós mesmo tínheis fundado. O Inferno teve então licença de ajuntar os seus golpes aos do céu, e vós, o Doutor da paz, conhecestes pavorosos assaltos contra a fé e a santa esperança”.

* Uma catástrofe em tudo que a vida podia significar: padre, religioso, fundador, bispo, é expulso da congregação que fundou e fica mal-visto pela Santa Sé

A vida de Santo Afonso apresenta esse particular que nós acabamos de ler aqui, e que é a existência de um momento na sua trajetória terrena, um momento que pode ser comparado a um túnel escuro por onde ele teve que passar. Não é uma provação, não é um sofrimento, mas é uma espécie de desabafo em que tudo quanto ele podia humanamente se considerar que dava significação à sua vida, parecia ruir e ele ficava completamente privado de qualquer dom, de qualquer vantagem, de qualquer bem que não fosse a pura graça de Deus atuando de um modo provavelmente insensível no interior de sua alma.

Eu não sei se os senhores se dão conta do que possa significar isso.

Um homem que era um advogado, e um advogado provavelmente brilhante, porque ele era um homem muito inteligente, de uma família nobre, que deixa uma situação humana, portanto, auspiciosa e capaz de lhe favorecer a carreira e as ambições, que se dedica completamente ao sacerdócio. Depois disso, um passo para a frente, e ele constitui uma congregação religiosa. Essa congregação religiosa floresce, ele é um homem bem-visto pela Santa Sé, ele escreve livros e ele é aclamado como um Doutor, como um homem de grande significação na vida intelectual católica de seu tempo, os seus livros se espalham por toda a Europa, ele é elevado ao episcopado. Ele então está numa situação eminente, mas não só numa situação eminente, mas numa situação que tem todos os aspectos da coroa de uma vocação bem correspondida. Porque ele, como padre, se fez religioso; como religioso, fundador geral. Além disso, com a honra do episcopado, vendo que o bom odor de sua doutrina perfumava a Europa inteira.

Dir-se-ia que o para que ele se ordenou estava realizando, que a sua vida tinha atingido o objetivo desejado pela Providência. E que ele era, portanto, um homem que poderia morrer naquela hora, dizendo como São Paulo: “Eu combati o bom combate, dai-me agora o prêmio de vossa glória”.

Pois bem, no momento em que todo isso parecia realizado, uma catástrofe. E a catástrofe é que ele é expulso — ele, bispo resignatário — de sua congregação religiosa.

* Imaginar-se expulso do Grupo por Dr. Plinio , para avaliar o que se passou com Santo Afonso Ligório

Não sei se os senhores podem imaginar o que seria um dos senhores ser expulso injustamente do “Catolicismo”.

Os senhores imaginem um pouco agora, acabada a reunião, eu dizer para um dos senhores: “Fulano, eu quero falar com você”. E já dizer com ar fulminante: “Me espere lá fora”. Já aí uma perda de distância psíquica e o resto da reunião a gente não acompanhava muito bem.

Bom, chega lá fora e diz: “Fulano, você… eu não tenho que dar explicações, ponha-se daqui para fora e que eu nunca mais o veja nem de costas. Saia, não se despeça de ninguém, saia. Se você tiver objetos aqui eu vou mandar jogar por cima do portão porque a rua é sua e é só para o que você presta”.

Imaginem. Não sei o que é que dava.

Agora imaginem um fundador de uma ordem religiosa que é expulso pela Santa Sé da ordem religiosa, e expulso como membro pobre dessa ordem religiosa. Os senhores já imaginaram o que isso representa?

* Paralítico, com tentações contra a pureza e a fé, a crucifixão no crepúsculo, até voltar aliviado a gozar da graça de Deus

Agora, considerem coisa mais grave: é que começam então, junto, as doenças. Ele ficou paralítico — aliás, foi o fim da vida dele, ele não podia mais andar a não ser um carrinho —, ele tomou uma forma qualquer que só podia ficar com cabeça inclinada, não podia levantar a cabeça. Isso também durou até o fim da vida dele. Depois escrúpulos, tentações fortíssimas, até o fim da vida dele, contra a pureza e tentação contra a fé. O pior tipo de tentação. E isso tudo se acumulando num homem que estava quebrado por essa forma.

Isso era o que faltava, era exatamente o prêmio máximo que devia vir para a vida dele. Era a crucifixão depois de um longo apostolado, depois de uma longa ação.

A Providência prepara isso com freqüência para as almas que ela prefere. São certas situações em que tudo se reúne e em que há uma espécie de crepúsculo geral. Depois, então, a alma purificada, a alma lavada pelo sofrimento, volta a gozar da graça de Deus. Então ela respira, então ela se sente outra e se sente transformada.

Naturalmente essa foi a última nota da santificação, o último esforço que a Providência exigiu de Santo Afonso de Ligório.

* Isso se dá com instituições como a nossa e, por proteção divina, não nos aterrorizamos com o túnel por que passamos

Isso que se dá com as pessoas, isso se dá também com as instituições. O “Catolicismo” e a TFP têm , várias vezes, passado por coisas dessas. Nós somos os veteranos aqui, várias vezes temos falado aos senhores das aflições pelas quais nós passamos.

Por exemplo, quando uma vez D. Mayer teve um famoso colóquio com um ilustre personagem, etc., as várias aflições pelas quais nós passamos. Todas elas tiveram como suas características a impressão de um desabamento, de uma coisa que ruiu por terra e um caminho que não passa mais ali. E depois mais luz, mais amparo, outras vitórias, alegrias. E assim, com sucessões de túneis e de estrada larga, Nossa Senhora vai ajudando nossa … [inaudível]… a realizar as suas finalidades.

Nós estamos num momento de estrada larga. Passamos por um túnel que não foi, na realidade, tão escuro assim, porque tivemos o bom senso de não nos aterrorizar com ele. Mas nós devemos compreender essas coisas, porque de vez em quando, na vida espiritual, elas se dão, e a gente deve estar pronta a compreendê-las para resistir à provação, sabendo que por de lá do túnel desabado a Providência está traçando uma estrada muito mais bonita do que a que tinha antes.

De maneira que essas são, salvo erro a ser corrigido pela Excelência, essas são as considerações que sobre Santo Afonso de Ligório se poderiam fazer.

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