Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 28/7/1966 – 5ª feira [SD 213] – p. 6 de 6

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 28/7/1966 — 5ª feira [SD 213]

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Sem a hegemonia da Igreja, surgiram correntes antagônicas, pois sem ela vem a divisão considerada efeito da democracia * Após a Segunda Guerra, as correntes de opinião pública diminuíram em número e a polêmica se atenuou, iniciando a colaboração — Exemplo: alopatia x homeopatia * Dado o surto da imprensa, o homem ficou incapaz de pensar sem ela e perdeu as opiniões próprias, por preguiça e não por convicção * Criou-se assim o unanimismo de homens sem pensamento, sujeitos a impressões simultâneas, no fundo bestificados * Na civilização católica há diversidade harmônica, diferença de escolas, variedade, não discussão crônica sobre tudo * O unanimismo é preparado levando a discussão ao auge, para desgastar e morrer, até chegar ao acarneiramento * Nosso adversário teme mais a formação de uma corrente, de um filão, do que campanhas circunscritas a um tema

* Sem a hegemonia da Igreja, surgiram correntes antagônicas, pois sem ela vem a divisão considerada efeito da democracia

O Emílio pediu que se fizesse um comentário a respeito do unanimismo, suas causas e conseqüências.

A expressão unanimismo é tomada entre nós num sentido diferente do que se poderia chamar uma filosofia unanimista. Nós tomamos como unanimismo o seguinte fenômeno de opinião pública:

Até mais ou menos o fim da Segunda Guerra Mundial, a opinião pública estava dividida entre correntes antagônicas, que lutavam umas contra as outras. Isto se dava na Europa, isto se dava também na América e, em geral, em todos os países onde a civilização ocidental chegou. E este estado de luta de correntes de opinião era tido como a própria ordem natural das coisas, em vista do fato de que a Igreja tinha perdido a sua hegemonia sobre as almas e que, portanto, as almas estavam entregues ao livre alvedrio. Entregues ao livre alvedrio, saía a dissensão, porque só dentro da Igreja Católica a união verdadeira existe. Quando as almas se afastam da Igreja, cria-se normalmente a dissensão e a desunião. É a história de todas as religiões, de todas as seitas religiosas.

Vamos dizer, por exemplo, os cismáticos russos, gregos, estão divididos num mundo de seitas. Os islamitas e o maometanos também. Quem se afasta da Igreja divide-se. E quem se divide, tem correntes de opinião em luta.

Nós, católicos, conhecendo a realidade dos fatos, sabíamos que este era o sentido desta divisão. Os não católicos achavam que isto era uma imposição da democracia, que tendo cada um o direito de pensar como quer, as opiniões forçosamente se dividiam, e este embate de opiniões era até um processo de progresso, era uma manifestação normal da vida. Onde nós vemos a chaga, o próprio estado letal, eles viam uma manifestação normal da vida.

* Após a Segunda Guerra, as correntes de opinião pública diminuíram em número e a polêmica se atenuou, iniciando a colaboração — Exemplo: alopatia x homeopatia

A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, começamos a notar um movimento que era o seguinte: as correntes de opinião não desapareceram, mas começaram a perder o seu vigor. Isto em dois sentidos da palavra: antigamente a opinião pública inteira se dividia nestas corrente de opinião … [inaudível]… corrente nenhuma, ou por não se interessar por assunto nenhum, ou por ter uma impressão tão vaga sobre estes assuntos que, definidamente, não se metia em nenhuma corrente de opinião.

Depois aconteceu também que estas correntes de opinião se foram transformando, de maneira que as diferenças entre elas foram lentamente se atenuando e as polêmicas entre elas também. As diferenças não desapareceram, mas as polêmicas diminuíram muito.

Quer dizer, estas diferenças de opinião passaram a representar um papel pequeno nas relações entre correntes diversas, enquanto, pelo contrário, se estabelecia um desejo de colaboração prática, de colaboração concreta, passando por cima da diferença de corrente de opinião.

Isto se dava quanto às correntes políticas, quanto às correntes religiosas, quanto às correntes ideológicas em geral, mas em todos os domínios do pensamento humano.

Por exemplo, para mencionar só um fato, eu fui criado num ambiente de polêmica muito grande entre a homeopatia e a alopatia. Minha família toda homeopata; meus íntimos, entre os quais o Dr. Paulo, com o costumeiro fogo, alopatas. Então, muita polêmica.

Eu cheguei a acompanhar o tempo em que numa família de homeopatas, convidar um médico alopata para fazer um diagnóstico podia ter o aspecto de uma pequena apostasia. Hoje a coisa está completamente mudada: os homeopatas receitam remédios alopatas, dizendo que a alopatia inventou alguns remédios fabulosos e que é preciso usar. Alopatas há que receitam remédios homeopatas, dizendo que a homeopatia tem alguns princípios científicos verdadeiros, que não foram devidamente desenvolvidos, que está muito atrasada, mas que algo dentro dela é bom. E o médico de minha família é um alo-homeopata mamonocrata, que exprime bem esta síntese entre a homeopatia e a alopatia.

Os senhores encontrariam este fenômeno representado em tudo.

Por exemplo, se havia antes da guerra duas correntes a respeito do modo como fazer uma boa cerveja, eu lhes garanto que estas correntes depois diminuíram de pugnacidade, e que apareceu uma situação intermediária, ou pelo menos deixaram de discutir, e que tudo tende para fazer com que desapareçam estas polêmicas, para dar lugar depois a uma espécie de união geral de pensamento geral, em que todos são unânimes. Uma opinião unânime que é uma resultante daquelas várias correntes de opinião.

* Dado o surto da imprensa, o homem ficou incapaz de pensar sem ela e perdeu as opiniões próprias, por preguiça e não por convicção

Isto em uma certa relação com o diálogo, mas é apenas uma certa relação. O diálogo, sem dúvida, deve conduzir a isto, mas antes mesmo de se ter lançado o diálogo, na praça mundial das idéias, já houve uma corrosão no interior de todas as correntes de opinião, preparando o lançamento do diálogo, fenômeno este que apareceu, que se deu à maneira de um fato imponderável, de uma tendência incoercível dos espíritos.

De fato, como é que isto se passou?

Desde que a imprensa começou a tomar surto, os homens começaram a agir em face das idéias como o ouvinte de futebol que acompanha a partida de futebol com o rádio ligado para saber o que está acontecendo. Quer dizer, os homens se desabituaram de pensar sem imprensa. E todas as reações temperamentais e psíquicas deles são comandadas pela imprensa e por um jogo mais obscuro de opinião pública, que não é o caso aqui de exprimir.

O resultado é que quando a imprensa começou a tirar o caráter polêmico do choque de opiniões, as pessoas, incapazes de se sustentarem por suas próprias pernas, e habituadas a vibrarem exclusivamente com a imprensa, estas pessoas começaram a deixar também de vibrar.

E houve, portanto, um fenômeno temperamental e psíquico, preparado por uma evolução da imprensa e de um outro fator — que eu não posso expor aqui no momento, exporei outro dia — ainda mais poderoso do que a imprensa, para a modelação da opinião pública, e que criou uma espécie de atonia, idiotizada e aborrecida, atonia que leva todo mundo a ficar assim diante das coisas e depois aceitar, como próprias, opiniões intermediárias que, no fundo, a própria pessoa não aceita, a não ser por preguiça e sem convicção verdadeira.

* Criou-se assim o unanimismo de homens sem pensamento, sujeitos a impressões simultâneas, no fundo bestificados

Cria-se então uma massa de homens unânimes, que não é tanto uma massa de homens com o mesmo pensamento, mas é de homens sem pensamento, que têm impressões fugidias.

Então todos, sujeitos ao mesmo movimento de impressões, têm impressionabilidade simultânea. E estas impressionabilidades simultâneas constituem então o unanimismo.

É este o fenômeno do unanimismo que nós temos dito, por exemplo, que é tão intenso na França de de Gaulle. De Gaulle não é monarquista, não é realista, nem bonapartista, nem comunista, nem socialista, nem republicano conservador inteiramente. Ele tem algo de tudo isto. E ele é, afinal de contas, o ponto de encontro, anódino, bobo, inexpressivo, que de proeminente só tem o elemento nasal de um mundo de franceses unanimizados, e que por isto o seguem bem:

Por que você acha isto?

Ah, c’est le general que l’a dit.

Bom, mas que valor tem a opinião do general?

Não sabia? É o libertador da França!

Ah, bom, então quer dizer que tem razão em tudo?

C’est ça!

Pronto, está acabado! É uma impressão, acabou-se.

Então, o unanimismo é este fenômeno antecedente ao lançamento do diálogo, que produziu uma preparação da opinião pública para o ecumenismo e para o diálogo. É isto que chamamos então de unanimismo.

O próprio do unanimismo, por exemplo, no Brasil, seria o governo Castelo Branco declarar: “Está vendo estas lutas até onde chegaram? Não é possível: bomba de cá, bomba de lá. Acaba com tudo, acaba com as discussões. Vamos tratar de trabalhar”.

A expressão que vou usar é pesada, mas é verdadeira. Há um mundo de bestas quadradas que vão achar isto lindo:

Vamos trabalhar e começar a trabalhar. Não pensar a respeito de mais nada.

O que você está fazendo?

Ah, não sabia? Eu estou trabalhando — mais ou menos como um burro de carga.

Se ele pudesse falar, a gente diria para ele:

O que você está fazendo?

Puxando a carroça! — está acabado.

Isto com a anulação completa da capacidade de pensar, que é matéria-prima de todos os totalitarismos, para todas as ditaduras e para todas as decadências.

* Na civilização católica há diversidade harmônica, diferença de escolas, variedade, não discussão crônica sobre tudo

Numa civilização católica, como é que é isto? Na civilização católica há diferença de correntes de opinião?

Existe a asseitas de que falei naquela minha conferência. Esta asseitas, quando é feita de pessoas virtuosas, produz um prodigioso borbulhar de diversidades legítimas. Estas diversidades legítimas não são diversidades que dêem choques; são diversidades que variam e combinam harmoniosamente. Aí há, portanto, uma enorme unidade numa enorme variedade. Mas não existe o fenômeno crônico, endêmico, do choque de opinião. O que pode haver, sim, é diferença de escolas na elaboração do progresso teológico, na elaboração do progresso científico, etc., mas que não tomam este caráter de escolas de opinião discutindo tudo a propósito de tudo, cronicamente, normalmente. É um fenômeno de natureza completamente diversa.

Então, aqui está uma divisão católica.

* O unanimismo é preparado levando a discussão ao auge, para desgastar e morrer, até chegar ao acarneiramento

Eu dei a visão liberal da divisão absoluta e dou agora a visão pré-totalitária do acarneiramento, para não falar do aparvalhamento unanimista.

Eu não sei se tornei claro o que chamamos de unanimismo, palavra que fizemos derivar de unanimidade.

(Sr. –: …)

E por causa disto, o futebol está num paroxismo de dissensão. A preparação de todo unanimismo consiste em levar a divisão de opiniões até um auge impossível, para cansar as pessoas, para fazerem as pessoas sentirem a desproporção entre aquele ardor que têm e a realidade da coisa. Depois, eles desgastam a coisa porque aquela luta fica um beco sem saída. E depois aquilo morre.

Por enquanto eles ainda vão distraindo o povo, que ainda tem restos de hábitos não unanimistas, com a polêmica do futebol. Haverá um determinado momento em que o futebol fica um beco-sem-saída. É possível que este campeonato perdido já seja um elemento disto. E daí começa uma prostração.

Faz parte do processo do unanimismo não deter o mecanismo das discussões inteiramente, mas ir deslocando este mecanismo para esferas cada vez mais circunscritas e mais sem importância, fazendo a noite da unanimidade nos pontos mais importantes, até que a noite do unanimismo possa pairar sobre a totalidade dos aspectos da vida.

Não sei se me exprimi bem.

* Nosso adversário teme mais a formação de uma corrente, de um filão, do que campanhas circunscritas a um tema

(Sr. –: …)

O pavor de nossos adversários não é de que levantemos apenas uma polêmica com o divórcio, a propósito do divórcio, mas que à medida que a Revolução for andando, nós levantemos outros casos. Sobretudo com uma coisa da qual eu fiz a testagem cuidadosa durante as conferências dos juízes, às vezes até fingindo enganar-me para poder fazer o teste … [inaudível]… que é o seguinte: ligar depois num todo só as nossas várias campanhas. Eles não têm tanto horror de que haja uma campanha contra o divórcio, uma campanha contra a reforma agrária e uma campanha de defesa em relação ao episcopado, mas eles têm horror da formação de uma corrente que nestes vários pontos tomem a mesma opinião. Porque aí é que a coisa fica grossa, e a ruptura contra o unanimismo é profunda.

Eu lá às vezes até fazia-me enganar, o uso do cachimbo faz a boca torta, reforma agrária, não sei o quê, não sei o quê, para ver como saía a coisa lá no público. Sondar as caras. Eu, graças a Deus, à distância vejo muito bem, o que é muito mais importante do que ver de perto. O que está perto a gente domina; a questão é ver longe. Este é o problema. E é pena não poder ver de costas, que ainda seria melhor.

Mas, enfim, o fato concreto é que eu notava em um ou outro da sala um repelão. Um grande número ainda nem percebia. E alguns que lambiam a coisa: “Interessante, divórcio e reforma agrária!”. Já ia pegando este filão que constitui então uma corrente grossa que não se deixa enrolar e que se põe a lutar contra os outros.

(Sr. –: …)

Eu acho que ela está grossamente mal colocada. Com o favor de Nossa Senhora, eu tenho esta impressão.

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