Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 21/7/1966 – 5ª feira [SD 027] – p. 5 de 5

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 21/7/1966 — 5ª feira [SD 027]

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De burel e sandália, sem pompa para se impor, mas como enviado de Deus, São Lourenço empolga e se torna a alma do exército * Promete vitória e prepara o combate com prece e penitência * Chamado ao conselho, na pompa da tenda do arquiduque, demove a idéia de retirada e promete de novo a vitória * Na frente da tropa, de burel, com o crucifixo na mão, entusiasma a tropa, que se lança ao ataque * Rodeado pelo inimigo, recusa se retirar, bradando: “Avancemos, avancemos, a vitória é nossa!” — Os turcos fogem * Depois de Deus e de Maria, a vitória foi atribuida a ele, pois “não poupou à espada o sangue”, como diz a Escritura * No prosaísmo da vida diária, pedir auxílio a ele, para estar preparado e ser grande batalhador na Bagarre

Amanhã nós temos a festa de São Lourenço de Brindisi, a respeito do qual diz Rohrbacher o seguinte:

O imperador Rodolfo II, conhecendo a habilidade do padre Lourenço, empregou-o num trabalho bem difícil. Maomé III, tendo avançado em direção ao Danúbio, anunciava o projeto de invadir a Hungria.

Ele dizia, Maomé III, que ele queria penetrar através do Danúbio, da Hungria e da Áustria, ele queria penetrar até a Itália, e ele queria que os cavalos do exército dele comessem no altar de São Pedro como se fosse uma manjedoira.

Rodolfo organizou um exército e convidou todos os príncipes da Alemanha, tanto católicos quanto protestantes, para unirem-se a ele em defesa da Cristandade. Mas temendo que seu convite não fosse bastante eficaz, enviou-lhes o padre Lourenço. O sucesso do piedoso capuchinho foi completo. Todos os socorros pedidos foram enviados rapidamente e o arquiduque Matias foi escolhido como generalíssimo do exército cristão. Mas não devia terminar aí a missão do bem-aventurado Lourenço. O senhor lhe reservava um triunfo de outro gênero.

A pedido de Matias, do núncio e de numerosos príncipes confederados, o Papa ordenou-lhe de se unir ao exército a fim de contribuir para o sucesso da campanha com seus conselhos e com suas preces. Ele obedeceu sem resistência. Logo que chegou, postou-se diante dele o exército em ordem de batalha.

* De burel e sandália, sem pompa para se impor, mas como enviado de Deus, São Lourenço empolga e se torna a alma do exército

Os senhores precisam ver a beleza disso.

Ele era um capuchinho, de aspecto venerável, e que comparecia então às cortes, algumas delas bastante pomposas, da Europa Central, para pregar essa nova Cruzada. Então é preciso a gente se pôr em mente os trajes pomposos da época, o fausto das salas, de todo o ambiente, e a majestade do capuchinho que entra, só com sua sandália, com seu burel, com seu rosário, com sua longa barba, com seu bastão de viandante, não tendo outra coisa para se impor a não ser a carência de tudo aquilo por onde os outros se impunham, mais a missão de Nosso Senhor e a grandeza da pobreza franciscana. Falando então como enviado do Papa e enviado de Deus, falando de cima para baixo com os maiores da terra, e ouvido como tal dentro de toda a sua pobreza.

Isso é que é compreender e amar… e não esses padres Josafás, coisas que conhecemos por aí.

Depois de ele conseguir que os príncipes mandassem numerosas forças, ele é enviado então como a alma do exército que deve dar os conselhos, orientar na luta, etc. Então nós temos essa cena magnífica descrita aqui.

O santo logo que chegou ao exército, o exército, em batalha, postou-se diante dele. Os senhores podem imaginar a beleza da coisa: um exército com cavalaria, com couraça, com armas reluzentes, com todos aqueles homens, com aqueles chapéus de plumas, com canhões daquele tipo que os senhores podem ver algum por aí em gravura, todos eles de bronze e trabalhados, época da arte e do grande estilo. A batalha ainda com qualquer coisa de cavalheiresco. Chega o velho capuchinho, o exército todo se posta diante dele em atitude de batalha. Ele chega e é um acontecimento no exército.

Isso é que é o esplendor da era constantiniana, que já não se conhece hoje mais nem de longe. Mas que é a refulgência da glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.

* Promete vitória e prepara o combate com prece e penitência

O santo religioso, a cruz na mão, falou aos soldados e assegurou-lhes uma vitória certa.

O verbo candente e, naturalmente, o que ele falou era capaz de estimular. Não era irenismo, não era nada disso. Mata o turco, essa é que era a coisa.

Em seguida preparou-os para o combate pela prece e pela penitência.

Nós já vimos isso outro dia a respeito de Lepanto também. Preparar para a luta não é preparar nas comedorias, mas é preparar pela penitência e pela oração. Assim é que o homem se torna verdadeiramente lutador.

* Chamado ao conselho, na pompa da tenda do arquiduque, demove a idéia de retirada e promete de novo a vitória

No dia da luta o chefe dos turcos apresentou oitenta mil homens em ordem de batalha. O general cristão tinha somente dezoito mil.

Os senhores estão vendo a desproporção.

Tocados com essa diferença, alguns oficiais do imperador, mesmo dos mais intrépidos, aconselharam agir com prudência e retirar-se para o interior do país.

Ceder para não perder. Por toda parte há gente que tem esse tipo de prudência. São os que enterram todas as causas boas.

O arquiduque, tendo chamado frei Lourenço ao conselho fê-lo tomar conhecimento da deliberação.

Os senhores imaginem o conselho de guerra reunido. O conselho interpreta a situação do ponto de vista militar. E do ponto de vista militar talvez houvesse razões para achar que era o caso de se retirar. Quando do ponto de vista militar a questão está ou resolvida ou com prós e contras, quer dizer, resolvida a retirada com prós e contras, chama-se o homem de Deus.

Então nós podemos imaginar a tenda do arquiduque Matias, com tudo quanto havia de magnífico na tenda de um arquiduque generalíssimo do exército, guardas do lado de fora, uma mesa de conselho, chega lá o capuchinho leigo em matéria militar e que vai dar sua opinião, e opinião que é acatada como de um homem de Deus. Porque os homens de Deus já eram raros, mas ainda eram profundamente ouvidos.

Então continua:

O frade opinou pelo ataque. E pela segunda vez assegurou a Assembléia uma vitória completa.

O que evidentemente transmitia uma certeza carismática.

Tendo diminuído o temor com essa resposta, decidiu-se começar a batalha e os soldados foram colocados em posição.

Quer dizer, foi a palavra dele que determinou isso que humanamente falando seria possivelmente ou provavelmente uma temeridade.

* Na frente da tropa, de burel, com o crucifixo na mão, entusiasma a tropa, que se lança ao ataque

Frei Lourenço, a cavalo, colocou-se na primeira linha, revestido de seu hábito religioso.

Não para combater, porque um padre não derrama sangue. Mas é para estimular com sua presença. Quer dizer, para levar os outros ao combate, para levar os outros à luta.

Então, elevando um crucifixo que segurava, voltou-se para as tropas e falou-lhes com tanta força, que elas não quiseram mais esperar o ataque dos turcos…

Isso é um orador, e isso é um orador sacro.

Os senhores viram alguma vez do alto de um púlpito alguém falar com esse fogo de maneira que todo mundo saísse de lá disposto a entrar numa igreja protestante, por exemplo, e desafiar os pastores? Nada disso. Prudência e depois um ham, ham, ham soporífero que pregam, que previamente tira toda forma de entusiasmo e não faz bem nenhum à alma, para não dizer que faz um mal positivo, categórico.

e lançaram-se contra o inimigo com um valor incrível.

D. Chautard, a “Alma de Todo o Apostolado” aplicado a assuntos militares.

Quer dizer, se é um homem de Deus e se tem verdadeiramente a vida interior, a sua palavra pega fogo e move montanhas. Mas é preciso ser um homem de Deus. Aqui está a precedência da santidade sobre a vida ativa.

* Rodeado pelo inimigo, recusa se retirar, bradando: “Avancemos, avancemos, a vitória é nossa!” — Os turcos fogem

Os turcos, de seu lado, receberam-nos com firmeza e o choque foi terrível. O irmão Lourenço foi, um momento, rodeado pelos infiéis.

Os senhores já imaginaram a coragem de ir cavalgando na frente dos outros e sem armas? E, naturalmente, gritando: “Avancem! Avancem!”. Que atitude magnífica ver esse capuchinho a cavalo e incentivando todo mundo para a guerra e continuando os seus sermões por meio de exclamações.

De repente, quase foi cercado pelos infiéis. Mas os coronéis Rossburg e Altaim, correndo para defendê-lo, arrancaram-no do perigo e o conjuraram a retirar-se dizendo que lá não era seu lugar. “Vós vos enganais, respondeu-lhes em voz alta, é aqui que eu devo estar. Avancemos, avancemos, a vitória é nossa!”.

Os senhores já imaginaram o que é isso? Um santo a cavalo, no meio da guerra, que grita: “Avancemos, avancemos, a vitória é nossa”, com o crucifixo na mão. Isso é lutar, isso é fazer guerra. Onde o santo?

Os cristãos recomeçaram a carga e o inimigo, tomado de terror, fugiu em todas as direções.

Não tem comentários.

Essa batalha deu-se a 11 de outubro de 1611. Uma segunda batalha teve lugar a 14 do mesmo mês, seguida do mesmo sucesso. Os turcos retiraram-se para além do Danúbio, após terem perdido trinta mil homens.

Não se saberia exprimir os sentimentos de admiração que o irmão Lourenço havia inspirado aos generais e soldados. O duque de Mercoeur, que comandava sob o arquiduque, declarou que o santo religioso fizera mais nessa guerra do que todas as tropas juntas.

É evidente que foi mesmo. E é um homem no qual está Deus. Aqui está a questão.

* Depois de Deus e de Maria, a vitória foi atribuida a ele, pois “não poupou à espada o sangue”, como diz a Escritura

E, depois de Deus e da Virgem Maria, era a ele que se deveriam atribuir as duas vitórias conseguidas. Mais uma vez a Europa livrava-se da barbárie do infiel oriental.

Os senhores podem imaginar o que seria a história do mundo se essa batalha tivesse sido perdida? Se as tropas tivessem chegado até Viena? Se tivessem chegado até Roma? Com aquele pulular de protestantismo e de heresias por toda a Europa, nós não podemos imaginar o que poderia ter sido.

Enfim, isso foi salvo por um homem de Deus que compreendeu bem um verso de um Salmo que está na imagem do Cruzado que me deu o Grupo por ocasião do Congresso de Serra Negra, e que é uma coisa que nunca me sai da memória: “Maldito o homem que poupa à sua espada o sangue”, quer dizer, que tem medo de derramar o sangue com sua espada.

São Lourenço foi o bem-aventurado que não teve medo de fazer dezoito mil homens derramarem o sangue abundantemente pela causa da Igreja. E o resultado magnífico aí está.

Vamos nos recomendar, portanto, a ele…

* No prosaísmo da vida diária, pedir auxílio a ele, para estar preparado e ser grande batalhador na Bagarre

É muito bonito na vida militar nós termos esses riscos, etc. A vida de todos os dias parece muito menos arriscada. Ela tem até qualquer coisa de um pouco prosaico, de um pouco comum. E é para nós termos o senso do heroísmo no prosaico da vida de todos os dias, é para isso que nós devemos pedir, no momento, o auxílio de São Lourenço de Brindisi. Assim, quando chegar a Bagarre, nós estaremos bem afiados para ela. Porque será grande batalhador na Bagarre quem tiver sido grande batalhador agora.

Por isso nós devemos preparar a nossa alma para feitos dessa natureza, esperando o momento em que nós também [teremos] essa felicidade.

Nós seremos, certamente, muito menos do que dezoito mil. Mas haverá um momento em que nós também daremos a nossa carga. E haverá um momento em que também o adversário vai voltar para trás. E nesse momento nossa alegria será incomparavelmente maior do que a de São Lourenço de Brindisi, porque nós veremos uma coisa que ele não viu. Ele retardou o ocaso da Civilização Cristã; nós teremos tido a alegria de ter derrubado a Revolução e de ter visto a aurora do Reino de Maria. Como isso, ninguém teve alegria igual, a não ser as pessoas que assistiram a Pentecostes.

De maneira que é nessa perspectiva que nós devemos preparar as nossas almas.

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