Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará)
– 24/5/66 – 3ª feira – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará) — 24/5/66 — 3ª feira
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A mentalidade socialista de nossos dias que destrói em nossas almas a verdadeira idéia de bondade, invade até nosso relacionamento para com Deus * Nas relações para com a Providência, é preponderantíssimo o papel da bondade. Nós fomos amados gratuitamente por Deus e a Ele devemos devotar todo nosso amor * O primeiro elemento para retribuirmos o amor que Deus nos tem é aceitar esse amor * A idéia do auxílio de Nossa Senhora se baseia num relacionamento entre os homens e Deus todo ele impregnado de bondade e misericórdia * Em nosso trato, o respeito é um traço importantíssimo e representa uma espécie de perdão permanente * Leitura de uma biografia de São Gregório VII
* A mentalidade socialista de nossos dias que destrói em nossas almas a verdadeira idéia de bondade, invade até nosso relacionamento para com Deus
Hoje é uma tão grande festa — Nossa Senhora Auxiliadora dos Cristãos — que quase eclipsa a grande festa de amanhã, que é São Gregório, Papa e Confessor.
Eu gostaria de terminar as considerações que fizemos a respeito de Nossa Senhora, Auxílio dos Cristãos, com uma nota que me parece que é muito importante, e que é a seguinte: existe algo de difuso no espírito de hoje e que é algo difuso do espírito socialista, que apresenta a questão social da maneira seguinte:
Todos os homens têm determinados direitos. Caso qualquer homem esteja inteiramente no gozo dos direitos que possui, ele tem tudo aquilo de que precisa. De maneira que, então, o ato de bondade, o ato de caridade, o ato inteiramente gratuito de amor não tem razão de ser. Tudo se cobra. Eu tenho direitos, e esses direitos eu cobro como se cobra uma letra de câmbio. E quando uma pessoa atende a uma necessidade minha, como isto corresponde a um direito meu, eu não tenho agradecimento a fazer. Eu apenas fui atendido.
É mais ou menos como, por exemplo, eu vou a um banco, apresento um cheque e sou pago da quantia que o cheque representa. Pode ser que eu queira dizer ao pagador, no momento, um “muito obrigado”. Mas se eu disser isto, é por mera cortesia. Porque está bem entendido que eu não tenho obrigação de agradecer. O cheque me dá um direito absoluto à quantia que me é paga.
Todas as relações humanas se reduziriam a um jogo de cheques. Quer dizer, um pobre, por exemplo, ele tem direito ao pão, tem direito à liberdade, tem direito à dignidade, tem direito a não sei mais o quê. E se tem o direito, exige. E exigindo, os outros não lhe fazem favor em reconhecer. Então, aquela velha noção de caridade, de bondade, de um ato que é uma prestação de um serviço que é dado por amor, que é dado por simpatia, de uma vantagem que é concedida, mas não era obrigatório conceder, e que a gente concede por que quer conceder; esta velha noção desaparece. Tudo fica resolvido num jogo de direitos estritos.
Mais ainda: então a idéia de bondade e a idéia de caridade ficam como que sobrando. Elas atrapalham os conceitos. A gente não sabe o que quer dizer.
Alguém poderia dizer: “Dr. Plinio, caberia dentro dessa concepção a idéia de bondade. Quer dizer, eu exijo tudo aquilo de que tenho direito, mas alguém que me estima me dá mais do que aquilo de que eu tenho direito”.
[A idéia de bondade] não cabe muito nessa concepção. Porque nessa concepão a coisa é assim: “Eu te dou aquilo a que você tem direito. Se você quer mais, mereça. Agora vire-se, esforce-se. more, boleie, craneie e arranque aquilo que você quer. [inaudível] …você é um AEpafúncio AF, é um inútil, é um bobo, e que não vou dar para você. Faça esforço, atire-se à competição da vida e arranque. Não espere estima, não espere pena, não espere caridade, não espere amor. É a contabilidade em toda ordem de coisas que faz o jogo das exigências e essas exigências constituem as relações humanas. Fora disso não existe nada.”
Então, há uma transposição desse modo de ver as coisas para a ordem sobrenatural. E essa transposição põe-se da maneira seguinte: “Eu não compreendo o que a bondade de Deus quis fazer comigo. [Se] eu faço uma ação boa, [que] Deus me recompense. Se faço uma ação má, que Deus me dê na cabeça. Por que eu fiz uma ação má? Nem compreendo, nem peço para Ele me fazer qualquer coisa, porque não tem sentido. Ele que me dê na cabeça e, mais ainda, eu pressinto que Ele está com vontade de me dar na cabeça. E eu tenho uma cabeça com vontade de levar paulada, porque aquilo é que está na lógica das coisas. Caridade, bondade o quê? Eu fiz a Ele uma coisa ruim. Que sentido tem Ele agora vir com um sorriso e com uma babugem para mim? Não senhor! Me dê na cabeça, porque nem eu quero receber uma coisa que não seja esta. Eu recebo meu direito, eu não quero receber nada. Estou baseado sobre meu direito e acabou-se.”
* Nas relações para com a Providência, é preponderantíssimo o papel da bondade. Nós fomos amados gratuitamente por Deus e a Ele devemos devotar todo nosso amor
Daí vem uma certa incompreensão do homem moderno para uma série de coisas que na piedade antiga se punha muito em realce, e até um perigo de isso parecer por vezes laxismo, quando isto não é laxismo, mas pelo contrário é o requinte da piedade. É de compreendermos que, em primeiro lugar, as relações entre os homens têm algo do que acabo de dizer, mas não se reduzem a isto; e que nessas relações com Deus também têm algo do que acabo de dizer, mas não se reduzem nem de longe àquilo que eu acabo de dizer. Pelo contrário, nelas é preponderantíssimo o fator bondade, bondade gratuita, efusão de misericórdia, pena, assistência contínua, a caridade de Deus para conosco e nós, diante de Deus, pequeninos, impotentes, muitas vezes pecadores, mas encontrando a razão de esperar a misericórdia na própria pequenez nossa, no próprio zero nosso, e até no próprio pecado em que caímos.
Quer dizer, é uma ordem de idéias completamente diferente que se põe dentro disso. E é uma ordem de idéias baseada em três conceitos:
Em primeiro lugar o conceito da Criação. Nós não éramos nada e Deus nos tirou do nada, nos deu tudo quanto nos deu e está continuamente nos mantendo e conservando no ser. De maneira que a todo momento esse benefício fundamental e gratuito está sendo renovado em nós.
Em segundo lugar, a Redenção do gênero humano. Nós pecamos na pessoa de Adão e na pessoa de Eva e nós caímos nos efeitos desse pecado, e nós, portanto, ao nascer já estamos concebidos no pecado e já nascemos escravos do demônio. Nosso Senhor Jesus Cristo veio ao mundo, encarnou-se e nos resgatou, e por causa disso nós como que recebemos uma segunda vez o benefício da Criação. Porque a Redenção é uma nova criação, debaixo de um certo ponto de vista mais preciosa do que é a própria Criação.
Porque se eu não tivesse sido criado, para mim teria sido uma grande desgraça, mas teria sido desgraça apenas num sentido da palavra: não teria o ser, mas eu não seria eternamente infeliz.
Sem a Redenção como isto seria? Como iria abrir para mim as portas do Céu? Eu ficaria no Inferno, quer dizer, uma coisa simplesmente horrorosa.
Então há um segundo benefício. E esses benefícios nos foram dados sem nós merecermos, nos foram dados por puro amor e impõe-se que nós retribuamos amor com amor e que nós amemos a Deus e desinteressadamente queiramos fazer a Deus as coisas boas, como Deus nos faz a nós coisas boas também. Então, nós O amemos, nós queiramos nos dedicar a Ele, de tal maneira que, como diz Santa Teresa de Jesus, “ainda que não houvesse Céu eu te amara, ainda que não houvesse Inferno eu te temera”.
Quer dizer, um amor desinteressado, porque Ele é Ele, porque Nossa Senhora é Nossa Senhora. Por esta razão então se estabelece esse vínculo.
* O primeiro elemento para retribuirmos o amor que Deus nos tem é aceitar esse amor
Isso depois se repete nos episódios de nossa vida. Além da vacuidade de nós como criaturas e depois de nós como filhos do pecado, nós cometemos outros pecados, e nós recebemos mais uma vez títulos para precisarmos do perdão que não tínhamos direito. E quando nós não pecamos, disse muito bem Santa Teresinha, é também um título enorme, porque foi Deus que afastou do nosso caminho ocasiões de pecado tremendas, sem as quais provavelmente teríamos pecado também.
De maneira que estamos diante ou debaixo de um cúmulo de dívidas e essas dívidas não se reduzem a chequezinhos, mas elas têm de ser pagas com o único modo que pode haver: se o amor se paga com amor, o amor desinteressado se paga com amor desinteressado. E o primeiro elemento para o pagamento do amor é aceitá-lo; é compreender humildemente que nós precisamos de ajuda, que precisamos de ajuda como a criança precisa, e que devemos ter, nesse sentido, um espírito de infância espiritual em relação a Nosso Senhor, sem estar fazendo contabilidades enormes e querendo ser grandes homens diante de Deus, aos olhos de Deus, mas recebendo tudo, tudo, tudo com uma espécie até de — eu diria — santa sem-cerimônia. Compreendendo que nossa condição é esta.
* A idéia do auxílio de Nossa Senhora se baseia num relacionamento entre os homens e Deus todo ele impregnado de bondade e misericórdia
Então aqui entra o fundamento da idéia de Nossa Senhora Auxiliadora. Ela nos auxilia, quer dizer, está a todo momento nos dispensando misericórdia, nos dispensando favores aos quais não tínhamos direito. Mas nos dispensando tudo isto com uma superabundância de amor, com uma superabundância de ternura, com uma superabundância de sorrisos, de perdão, indo muitas vezes antecipando-se a nós e nos dando aquilo que não pedimos, dando-nos mais do que pedimos, dando-nos coisas que, às vezes, em nossa maldade nem quereríamos receber.
Aí está, portanto, a idéia do auxílio de Nossa Senhora. Esta idéia está toda banhada no princípio de um conjunto de relações entre o homem e Deus, feitos não só da estrita justiça — que naturalmente também entra nesse conjunto de relações —, mas feitos também, e em parte larguíssima, da misericórdia, e da misericórdia que é bondade, de algo que é dado não por justiça, mas porque a bondade quis dar e acabou-se.
E então encontramos o reflexo disso na vida terrena das relações de nós uns com os outros. Nem tudo se cifra na justiça, embora também haja justiça, mas existe esta bondade por onde a gente é inflexível com o pecador empedernido no seu pecado, como um Judas Escariotes, como aquilo que chamamos um “fassur” — porque o “fassur” é propriamente isso: um pecador empedernido e composto no seu pecado e que não quer sair de dentro disso. Para ele eu não quero dizer que não exista misericórdia, mas a nota de justiça é muito tônica, muito aguda e muito dinâmica. Ele é um homem marcado pela cólera de Deus e que a Bagarre vai pegar, se antes disso não o pegar a morte.
Mas em relação ao pecador que será, por exemplo, como um ultramontano que tenha a infelicidade de cometer algum pegado, em relação a este existem as catadupas da misericórdia, desde que ele não faça esse pecado com a intenção de abusar da misericórdia e continuar no pecado. Se ele tiver vontade verdadeiramente de se emendar e de progredir, de corrigir-se, ainda que seja a vontade do fraco, que é cheia de vacilações, existe a misericórdia de Nossa Senhora, como também de nós uns para com os outros.
O nosso convívio não pode medir-se no contínuo confronto de direitos. Porque se fosse um contínuo confronto de direitos, daria num convívio calvinista execrável, insuportável. É também a efusão da misericórdia, é também a efusão da bondade, que é o fundamento daquela atmosfera em que se banhava a civilização antes da Revolução Francesa e que levou o inteligentíssimo e torpíssimo Talleyrand a dizer aquela frase famosa: “Quem não viveu antes da Revolução, não conheceu a doceur de vivre.” A doçura de viver que depois desapareceu de tal maneira, e os restos que ficaram vão de tal maneira desaparecendo, que eu nem sei se se pode falar ainda de restos disso.
* Em nosso trato, o respeito é um traço importantíssimo e representa uma espécie de perdão permanente
Desta doceur de vivre, desta misericórdia, existe uma nota que eu gostaria de ressaltar, e que é o respeito. O respeito em relação mesmo àquele que não dá muitas razões para ser respeitado, mas o respeito cavalheiresco, o respeito cheio de cortesia, o respeito cheio de consideração, dado por bondade, dado por generosidade, mas dado de fato, de maneira tal que nosso trato seja sempre e sempre um trato respeitoso.
Isso, portanto, no trato entre nós é uma nota importantíssima e representa uma espécie de perdão permanente. E perdão permanente — aqui se aplica a parábola — é a condição para nós também sermos perdoados. “Perdoai — eu vou usar a fórmula antiga — as nossas dívidas, assim com nós perdoamos os nossos devedores.”
Aqui então está a idéia de Nossa Senhora Auxiliadora: este perdão contínuo, esta bondade contínua. E é a afirmação desse princípio de gratuidade de favores, de gratuidade de perdão, como um elemento fundamental das relações entre Deus e nós e de nós com nosso próximo. E depois a introdução da importantíssima nota do respeito nisso.
* Leitura de uma biografia de São Gregório VII
Eu me limito a ler a biografia de São Gregório VII. [É um] santo tão importante para nós, e incluído na ladainha especial [das orações do Grupo], que eu sentiria remorso se não lesse a nota dele hoje.
Pelo magistério e pela ação afirmou e defendeu os direitos do Papa sobre a Igreja e desta sobre a sociedade temporal. Exemplo de intransigência, de coragem e confiança nos meios sobrenaturais. Sua relíquia se venera em nossa capela. Século XI.
Sobre São Gregório VII: “Entre as armas que com o auxílio de Deus…
Isto é tirado da Vida dos Santos do Rohrbacher. É um trecho de uma carta de São Gregório VII à condessa Santa Matilde.
… eu vos forneci contra o príncipe deste mundo, lembro-vos que as principais são: receber freqüentemente o Corpo do Senhor e ter uma confiança segura e completa em sua Santa Mãe.
“Eis que Santo Ambrósio, no livro IV dos Sacramentos, diz: AESe nós anunciamos a morte do Senhor, anunciamos o perdão dos pecados. Se cada vez que o Sangue do Senhor é derramado, Ele [o] é para remissão dos pecados, devo recebê-lo sempre, para que meus pecados sejam sempre perdoados. Pecando sempre, devo sempre tomar o remédio. Se há um pão quotidiano, por que o recebeis uma vez ao ano, como os gregos costumam fazer no Oriente? Recebei-o cada dia, a fim de que cada dia vos seja proveitoso. Vivei de maneira a merecer recebê-lo todos os dias. AF
“Eu quis, queridíssima filha de São Pedro, escrever-vos estas coisas a fim de aumentar a vossa fé e vossa confiança em receber o Corpo do Senhor. Porque é este o tesouro, estes são os presentes — não de ouro nem de pedras preciosas — que por amor de vosso Pai, o Soberano dos Céus, vossa alma espera de mim, embora possais, segundo vossos méritos, melhor recebê-lo de outros Pontífices.
“Quanto à Mãe do Senhor, à qual eu vos tenho especialmente recomendado, recomendo e não deixarei de recomendar até que tenhamos a felicidade de vê-La como desejamos. Sobre Ela o que vos direi? Ela a quem o Céu e a Terra não cessam de louvar, embora não a possam louvar dignamente. Tende, entretanto, isso fora de dúvida: tanto Ela é elevada, a melhor e mais santa do que qualquer outra mãe, mais Ela é clemente e suave com os pecadores e pecadores convertidos. Detestai assim o pecado e prostrada diante dEla com o coração contrito e humilhado, chorai. Vós A encontrareis — eu o prometo sem vacilar — mais pronta que uma mãe carnal e mais terna em vos amar.”
Esta carta de São Gregório VII é bem notável. Ela nos mostra uma maravilha que o mundo não compreende mais. Este poderoso gênio que, com um olhar, abarcava todos os reinos, todos os benefícios e males da humanidade, que atacava, ao mesmo tempo, em toda parte, os vícios e as desordens, que não se intimidava com nenhum obstáculo, que parecia aos homens de seu tempo mais firme e mais inquebrantável que o Céu e a Terra, esse gênio possante tinha uma grande piedade, uma ardente devoção à Sagrada Eucaristia, uma confiança filial na Santíssima Virgem, uma terna compaixão para com a fraqueza humana. Vede que ele vivia dessa sabedoria sobrenatural que a tudo atinge com energia e tudo dispõe com doçura.
O comentário é tão esplêndido, que não comporta comentários colaterais.
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Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará