Santo
do Dia – 19/5/1966 – p.
Santo do Dia — 19/5/1966 — 5ª-feira
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Nossa Senhora da Penha de França, São Bernardino de Siena e Nossa Senhora Auxiliadora-III
O que se conta a respeito da invocação de Nossa Senhora da Penha de França é o seguinte: esta imagem milagrosa, que é Nossa Senhora da Penha de França — que é a mesma que se venera em São Paulo, no bairro da Penha, onde há peregrinações, etc., e creio também que no Rio de Janeiro, naquela muito bonita e pitoresca igreja de Nossa Senhora da Penha, que fica num rochedo — esta invocação é que vai ser historiada aqui:
Esta imagem milagrosa foi descoberta por um irmão leigo franciscano em 1434, num penhasco da província de Salamanca, no qual fora escondida por cruzados franceses que, lutando contra os mouros, foram massacrados no local.
Estando esse irmão em oração, em seu convento em Paris, ouviu, por três vezes, uma voz que lhe dizia para procurar na penha de França uma imagem milagrosa da Virgem. Reconhecendo que a ordem vinha do Céu, partiu o humilde religioso em peregrinação durante nove anos.
Peregrinação a pé, e por que estradas! Nenhum dos senhores pense na Via Anchieta ou na Via Anhangüera… e por que bandidos e por que perigos!
…nove anos pela França e pela Espanha até encontrar a milagrosa imagem.
Antes de morrer, predisse que quatro imagens a mais e um sino seriam ainda encontrados, com o correr dos séculos, no local. Foram encontrados um crucifixo e as imagens de São Tiago e São Tomé, faltando, assim, a de Santa Catarina e o sino que se encontram ainda ignorados.
Vejam os senhores como tudo é impregnado de uma grande beleza. Primeiro, o espírito de Fé desses cruzados franceses que, antes de serem massacrados e sentindo-se perdidos, enterram a imagem e não a destroem. Enterram num ato de confiança de que essa imagem, algum dia, poderia ser aproveitada para o culto, e Nossa Senhora poderia ser glorificada a propósito desta imagem ou nesta imagem. Por causa disso enterram a imagem. Morrem, mas estão certos de que alguma coisa, na terra, fica como uma semente de martírio deles. E, então, esse sangue se verte sobre aquele local onde a imagem está sepultada. Ponto final, e passam-se séculos. A morte domina o local; o local está abandonado, isolado, ninguém sabe mais nada de nada do local, e Nossa Senhora deixa correr o tempo. Vem depois, em 1434, uma voz que, por três vezes, fala a um irmão leigo, na França, sobre esta imagem que está na Espanha, e não lhe diz onde está esta imagem. E ele tem que percorrer, durante nove anos, as estradas, os vales e os montes, sempre à procura dessa imagem que Nossa Senhora não quer lhe dizer onde está. Até que, ao cabo de nove anos, ele encontra a imagem. Nove anos de esforços, nove anos de sacrifícios. Risco, esforço, sacrifício… não é nada. O que é mais importante e é mais doloroso é nove anos de contratempo. Quer dizer, pareceria tão normal que, uma vez que a imagem… ou melhor, a descoberta da imagem foi noticiada, a imagem fosse encontrada logo. Porque parece natural que Nossa Senhora coopere com os homens, portanto, parece inteiramente natural que Nossa Senhora faça encontrar logo a imagem que Ela mandou procurar. Mas o contratempo é o maior dos sofrimentos: o algo que parece que não dá sentido; o algo que parece andar e não anda, parece tomar jeito e não toma. Uma esperança que é decepcionada aqui, que fracassa ali, mas que a pessoa não abandona e que continuamente vai atrás disso, numa confiança cega de que, algum dia, esse encontro se dará; numa compreensão de que não há coisa gloriosa que não se obtenha senão pelo sacrifício, e que uma coisa tão gloriosa quanto encontrar essa imagem, atendendo esta voz, deveria normalmente custar nove anos de contratempo. Nesta aceitação desse sacrifício, o irmão junta uma outra ordem de sofrimentos ao sangue que os mártires cruzados verteram sobre essa imagem.
Afinal, ele encontra a imagem, e a imagem então começa a ser cultuada. De fato, organiza-se um desdobramento do culto de Nossa Senhora da Penha de França por todo o mundo. E os senhores encontram mais ou menos por toda a Espanha, França, países latinos em geral — não sei se na Alemanha penetrou — encontram santuários de Nossa Senhora da Penha. O culto de Nossa Senhora da Penha está um pouco amortecido hoje, mas foi, antigamente, uma fonte de graças eficacíssimas, muito abundante. Nossa Senhora premiou isto fazendo-Se cultuar muito por esta forma, concedendo muitas graças, fazendo até milagres, etc. E era a frutificação do esforço cruento dos cruzados e do esforço incruento desse bom irmão franciscano. Com isso, temos o sucesso da imagem.
Agora, fica uma coisa bonita: é que essa predição não está cumprida toda. E alguém deverá encontrar ainda uma imagem de Santa Catarina e um sino, para que esse sino toque e essa imagem seja cultuada no momento adequado, designado pela Providência.
Os senhores estão vendo que o tempo não é nada dentro dessa devoção. Correm aqui quantos séculos! Entretanto, ainda há algo para completar diante disso. E não é temerário conjeturar que só no Reino de Maria vai ser descoberta essa imagem e vai tocar o sino. Quem sabe se, nesse sino, se vai poder escrever nele [mandar gravar num leão]1 o anuncio [do] Reino de Maria: “Regnum Mariæ anuntio!”. Quem sabe se é algum dos senhores, depois de quanto tempo, de quanto cambalear, de quanto verter sangue, de quanto lutar, que acabará encontrando essa imagem e esse sino. Ou, quem sabe, um outro membro do Grupo de Catolicismo na Espanha, ou em algum lugar, que encontrará esta imagem e este sino. De qualquer forma, como isto é parecido com a vida do ultramontano. O ultramontano recebe, no interior da alma, esta certeza, esta confiança de que a vitória virá; recebe, no interior da alma, esta certeza de que residuum revertetur, de que o resto voltará. E ele vai procurar isto por toda parte, vai por toda parte procurar, desenterrar, arrancar da terra as sementes do Reino de Maria, tornar a terra fofa para que as sementes, na terra, possam germinar; vai por toda parte procurando detectar o que restou desse resíduo, até o momento, então, em que isto germinará e que, então, teremos de novo o Reino de Maria.
Nove anos, dezenove anos, vinte e nove anos, quase já poderíamos dizer trinta e nove anos, quarenta anos que estamos nessa labuta procurando, procurando, procurando. Procurando e encontrando, mas quanto falta ainda desenterrar! E quanto falta ainda encontrar! E todos que são encontrados são convidados também a desenterrar também e a procurar também, até que a terra se vai revolvendo, o ar vai, nela, penetrando e as sementes podem vir frutificando.
Aí nós temos um lindo precedente que se aplica com alguma analogia. É claro que não com uma analogia exata à situação do ultramontano. E são essas as considerações que a devoção a Nossa Senhora da Penha traz a nós na noite de hoje.
O pensamento marial, que está ligado a isto, é um pensamento muito justo. É o pensamento de São Justino:
O mundo não subsistiria mais tempo se não houvesse as preces de Maria para sustentá-lo.
Daqui parece que se tira, com lógica, que quando o mundo não subsistir mais, é porque Nossa Senhora se retirará dele e Ela mesma se cansará em Sua misericórdia, e então acaba. Nós não temos hoje o fim do mundo, e provavelmente não o vamos ter em nossos dias, porque Nossa Senhora ainda está presente, ainda está lutando, ainda está rezando. No dia em que Ela virar o rosto ao mundo, então o mundo acaba. Nossa Senhora, como Mediadora onipotente, segura o mundo. Se Ela não estivesse como elo de ligação entre Deus e nós, o mundo desapareceria instantaneamente.
Eu lembro aos senhores que continuamos na novena de Nossa Senhora Auxiliadora. Pediram-me que eu dissesse algumas palavras indicando, para cada dia, um ponto a respeito dessa novena. Eu indicaria, na imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, tal qual ela está em nossa capela, a consideração de um dos vários atributos que se encontram na imagem.
O primeiro atributo e o mais bonito de todos eles, e que eu torno objeto de nossa consideração hoje, é Nossa Senhora com o Menino Jesus no braço. Que conjunção há entre essa idéia de Nossa Senhora enquanto Auxiliadora e Nossa Senhora com o Menino Jesus no braço?
O período em que a mãe tem mais intimidade com o filho, em que o amor filial, o amor do filho pela mãe penetra no filho e perdura depois para a vida inteira é exatamente o período em que o filho é pequeno, em que a mãe governa o filho, dirige, e ele, a bem dizer, vive da vida dela. Em que também a efusão do carinho dela, do amor dela é tal que todo amor que ela terá por ele, no resto da vida, é uma espécie de desdobramento desse amor que ela teve no tempo em que ele era uma simples criancinha nos braços dela. Ora, se os senhores consideram que essa criancinha que brinca nos braços de Nossa Senhora e que quer Se fazer carregar por Ela, e que quer estar colocada naquela singeleza, naquela simplicidade, naquela intimidade, naquela afabilidade e naquela dependência em relação a Nossa Senhora, é Deus onipotente, Criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis, os senhores vêem aí algo de realmente maravilhoso e insondável.
Os senhores precisam imaginar o seguinte. Houve uma santa, que não me lembro qual é, que viu o Anjo da Guarda dela. Quando o viu, achou-o um ser tão esplendoroso que se ajoelhou diante dele, querendo adorá-lo como se fosse Deus. E ele, então, lhe disse que era seu Anjo da Guarda, que não era Deus. Ora, sabemos que os Anjos da Guarda são os anjos menores dentro da hierarquia celeste. Se é assim o Anjo da Guarda, o que é o mais alto dos serafins? Este mais alto dos serafins não é absolutamente nada em comparação com Deus. Se víssemos um serafim e Nossa Senhora brincando com ele, no colo — se se pudesse dizer que se brinca com puro espírito —, mas víssemos a glória de um serafim, nós acharíamos isto inconcebível. Agora, imaginem o que é Nossa Senhora brincar, no colo, com o próprio Deus, cuja majestade é tão imensa, mas em cuja santidade há um aspecto, um reflexo que pode legitimamente fazer-se ver como um menino. Tal é a bondade d’Ele e tal é o tamanho pequeno que Ele intencionalmente toma para depender d’Ela, e em estado de menino, ser por Ela apresentado aos homens. A infância de Jesus é um donativo infinitamente precioso de Nossa Senhora aos homens. Quem brinca no colo com Deus tem tudo quanto Deus pode dar. Evidentemente, aí a onipotência suplicante de Nossa Senhora se fundamenta de modo esplêndido.
Fica aqui uma consideração para compreendermos como Ela pode nos auxiliar. Ela quer nos auxiliar, porque é detentora de toda misericórdia de um Deus que se fez Menino. Ela pode nos auxiliar, porque este Menino está todo na dependência d’Ela. A expressão é tremenda, mas é súdito d’Ela. Este é o Menino Jesus. Aí os senhores têm uma meditação sobre Nossa Senhora enquanto Auxiliadora, que tem nas mãos o Menino Jesus. Se Ela não tivesse Jesus nas mãos, não poderia auxiliar nada.
Vou ser breve no comentário sobre a vida de São Bernardino de Siena. Rohrbacher, “Vidas dos santos”:
Foi grande pregador, especialmente do Santo Nome de Jesus, e reformador da Ordem Franciscana. Considerado um dos grandes precursores da Contra-Reforma católica. Viveu ele de 1380 a 1444.
Um dia, São Vicente Ferrer…
Diz Rohrbacher.
…pregando aos habitantes de Alexandria, no Piemonte, interrompeu-se, de súbito, e disse aos seus ouvintes: “Sabei, meus filhos, que há entre vós um religioso da Ordem dos Frades Menores que, em breve, será um homem célebre em toda a Itália, por sua doutrina e seus exemplos, do qual virá grande proveito ao povo cristão. Embora ele seja jovem, e eu velho, virá um tempo em que ele me será preferido em honra na Igreja Romana”.
Um santo nunca é “mega”.
“Eu vos exorto a dar graças a Deus por isto e de pedir que se cumpra, para a utilidade do povo cristão, o que me foi revelado. E porque isto sucederá, vou pregar aos franceses e espanhóis. Quanto aos povos da Itália, deixo a este o encargo de instruí-los”.
O frade menor que, mais jovem, lhe será preferido em honra e será canonizado primeiro era São Bernardino de Siena.
Desde criança São Bernardino manifestou grande devoção à Santíssima Virgem.
É nota dos predestinados.
Era visto com freqüência ante uma imagem da Mãe de Deus, rezando com fervor especialmente a saudação angélica. Noite e dia, todas as suas preces eram a Ela dirigidas. Durante sua vida inteira, jejuou aos sábados em Sua honra.
Bernardino era de uma beleza invulgar, mas seu amor pela pureza era também muito grande. Embora fosse naturalmente polido, agradável e respeitoso com todos, sabia tomar outras atitudes quando alguém pretendia ferir suas virtudes. Um dos principais habitantes de Siena2 fez-lhe, um dia, em praça pública, uma proposta desonesta. Bernardino deu-lhe tão forte soco no queixo que o ruído repercutiu longe.
A cena tem certo colorido itálico.
Outra ocasião, outra pessoa procurou tentá-lo. O santo, não conseguindo que se afastasse, reuniu alguns companheiros e o grupo perseguiu o indivíduo a pedradas por ruas e praças, quase matando-o.
Perguntaram, um dia, a um grande pregador franciscano por que seus sermões não produziam tanto fruto quanto os de Bernardino.
Que pergunta indiscreta… Eu não conheço pergunta mais árdua para se fazer a alguém do que essa.
Respondeu o frade: “O Pe. Bernardino é um carvão incandescente, e somente quem tem o fogo em si pode iluminar e aquecer os outros”.
Este frade pelo menos disse algo que iluminou, ao dizer isto.
Certa vez, outro pregador pediu-lhe que explicasse as regras que seguia em seus sermões, que tanto fruto produziam. Respondeu-lhe o santo: “Só uma regra observo. Desde que comecei a aplicar-me a este exercício, jamais pronunciei uma palavra que não fosse para a honra e glória de Deus”.
Regra áurea para pregadores, oradores, conferencistas, polemizadores de pátio de faculdade e o que mais haja, preconizadores do “Bucko” e do “Diálogo” na rua: dizer tudo com exclusiva intenção da glória de Deus e de Nossa Senhora. Quando chega na hora de aparecer, não dizer. Se querem vender muito “Bucko”, se querem arrasar indivíduos de “Comando Caça Comunista”, [MMM?] ou qualquer coisa assim, é por esta forma.
“Esta regra, observada com cuidado, ensinou-me tudo que pude aprender de ciência, eloqüência, prontidão e autoridade. A ela devo a conversão de todas as almas que pude conduzir para Deus”.
(…)
…da divina vingança. Ao regressar à casa, caiu morto à soleira da porta. Esses são os prêmios que Deus dá à pregação daqueles que pregam pensando só n’Ele.
Dom Bosco fez isto também [em] uma ocasião. Ele estava pregando um retiro — não estranhem a qualidade de retiro —, retiro de banqueiros. E ele falou severamente contra as rapinas, o que não é inteiramente fora de propósito num retiro de banqueiros. Depois ele disse: “Eu não quero dizer quem é — era um retiro pouco numeroso, de umas vinte pessoas —; um dos senhores que está aqui, até o retiro do ano que vem, vai morrer”. E morreu um realmente.
Santo Antônio Maria Claret também teve coisas dessas. Ele fazia uma coisa muito incômoda: do púlpito, às vezes denunciava o estado de alma de uma pessoa qualquer. “Senhora, a senhora que está ali cheia de enfeites, a senhora já pensou no que fez hoje cedo?”. Naturalmente havia muita gente que tinha medo de ir à igreja, e tinha suas razões para isso… E também profetizou sobre gente que ia morrer, etc.
São Bernardino morreu a 20 de maio de 1444, no exato momento em que o coro cantava essa antífona das primeiras Vésperas: “Pai, manifestai vosso nome aos homens, e agora vou para Vós”.
Realmente, ele pregou a devoção ao Sagrado Nome de Jesus.
Para não deixar inteiramente sem comentário essa fichas, gostaria de assinalar aqui a violência de São Bernardino contra as pessoas que perseguiam sua pureza. Esta violência indica com que violência a virtude da pureza há de ser mantida: violência interna e violência externa. A violência interna se chama intransigência. Não transigir com nenhuma concessão. A violência externa se chama prudência. E se bem que aqui São Bernardino tenha defendido sua pureza agredindo, normalmente devemos defender nossa pureza fugindo; fugindo de qualquer espécie de ocasião, de qualquer espécie de tentação que constitua ocasião próxima de pecado. Esse é um ensinamento sobre o qual nunca é suficiente a gente reprisar.
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1 Estas três palavras estão escritas à mão, quase ilegíveis. Deduziu-se pelo contexto e pelo formato das letras.
2 No original do microfilme consta “Sena”. A cidade italiana chama-se Siena.