Santo do Dia – 18/5/1966 – p. 5 de 5

Santo do Dia — 18/5/1966 — 4ª-feira

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Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos – II

Bem, hoje é, como os senhores estarão lembrados, festa de São Felix de Cantalício, Confessor, e, ao mesmo tempo, continua hoje e amanhã a novena de Nossa Senhora Auxiliadora dos Cristãos. Eu, ontem, tinha falado a respeito da oração de Nossa Senhora como Auxiliadora dos Cristãos nas crises agudas e graves da vida espiritual. Eu deveria falar hoje a respeito de Nossa Senhora como Auxiliadora dos Cristãos, em outro tipo de crise da vida espiritual.

Há uma crise de vida espiritual que é de um sujeito — para me reportar a uma escada — que está numa escada, está com perigo de cair em cima de uma fogueira. Está cai, não cai, naquela história. Há um outro sistema de vida espiritual, de crise espiritual, que não é assim; é o sujeito que está parado na escada e, na hora que tem o patamar, tem vazio, e depois continuam outros degraus para lá, de maneira que não sabe como é que ele fala, como faz para pular aquele vazio. São as tais vidas espirituais que atolam a alturas diferentes da vida espiritual.

Há uns que atolam, por exemplo, num estado assim: levam anos — isso não deve ser o do Grupo — no meio termo entre o estado (no meio termo…) ora no estado de graça, ora fora do estado de graça, e fica assim naquele “pim-pão”, do inferno para o Céu e do Céu para o inferno não sei quanto tempo. Bem, outros atolam numa espécie de mediocridade de estado de graça: não pecam mortalmente nunca, mas torrentes de pecados veniais. Por exemplo, as tais mentirinhas ditas “inocentes”, à vontade, quanto as queira. Bem, há outros que vencem as tais mentirinhas, mas atolam numa outra coisa: “Acabou. Eu combati todos os pecados que eu tinha, os leves e os pesados, e percebo que não estou valendo grande coisa. O que é que está faltando? Há algo que falta e que eu não pego em nada. Eu só sinto em mim que eu, apesar de toda profilaxia, não valho nada. Pior seria se eu não tivesse feito a profilaxia… Eu, antes, estava sujo; agora fiquei vazio. Mas, daí para diante, como encher isto? Também não sei”. E pára naquilo.

Bem, há outros que não, que adquirem virtudes, progridem, e param já num alto grau de virtude. No alto… enfim, num certo grau de virtude, mas, de vez em quando, o carro encalha. Encalha e o patamar de cima não há meio de pegar. O sujeito fica assim um tempão. Isto corresponde, em qualquer altura da escada, sempre a um ponto: é algo de que a pessoa devia se desapegar, que, ao mesmo tempo, é a coisa mais clara do mundo e a mais confusa do mundo; ela vê com toda a clareza que devia deixar daquilo, mas, ao mesmo tempo, não vê de nenhum modo que é aquilo que ela devia deixar. E a Providência fica provando aquela alma até criar um momento em que haja um estalo naquela cabeça e que, em geral, representa uma graça grande que a pessoa recebe, e na hora dessa graça: “Ah! mas imaginem… tal coisa, ah! Eu agora vejo, tem isto, tem aquilo, tem mais tal outra conseqüência assim. Agora que eu compreendo”… Então começa uma emenda, vai mais para diante um pouco. Um ano, dois anos, três anos depois pára naquilo de novo. Essa coisa, cada solução de um encalhe destes equivale verdadeiramente a uma espécie de conversão. E tanto é conversão, neste sentido da palavra, o indivíduo que deixa o ziguezague entre o estado de pecado mortal e o estado de graça, como é conversão aquele que está vazio, se bem que não sujo, mas sente a necessidade de [se] encher de virtudes que não possui. Então é mais uma conversão. Conversão neste sentido: é preciso uma graça extraordinária, é preciso uma graça como Nosso Senhor dava a um paralítico que, de repente, começa a andar.

Esta graça precisa ser pedida, e ela representa o desapego de algo de muito claro e muito obscuro a que a pessoa estava apegada. Bem, esta graça, é uma coisa evidente que nós não a podemos produzir de nós, porque a graça é um dom dado por Deus, é um dom criado e dado por Deus e não é obtido de mim, mais ou menos como um isqueiro que, [de] si mesmo, tira a sua própria chama. Eu preciso pedir que Nossa Senhora me dê essa graça para que, com ela, de fato eu resolva pedir e obter essa graça de Nosso Senhor para mim. E, então, há nestes estados assim, o que Nossa Senhora quer deixar bem claro é a necessidade de sobrenatural. Durante muito tempo nós, por nós, nada conseguimos. Pedimos para Ela e, de repente, conseguimos. Quer dizer, Ela pode levar mais tempo ou menos para dar, mas quando Ela dá, dá de uma vez, dá rapidamente, de um modo impressionante. Esse tipo de graça assim, que é como que a cura que Nosso Senhor dava a paralíticos… Diz: “Levanta-te e anda” e o homem sai levantado e anda, sai andando, o homem se levanta e sai andando.

Este tipo de graça também Nossa Senhora também nos obtém, como auxílio dos Cristãos, para circunstâncias extraordinárias, para casos que não se resolvem de outro modo. E eu acho muito importante isto, porque eu conheço muitas almas boas — ou pelo menos semiboas, o que já é uma coisa excelente1, esplêndida nos dias que correm —, eu conheço muitas almas boas que acabam desanimando na vida espiritual à força de rotina, de estagnação, petrificação e paralisação: “O que é que eu vou fazer daqui por diante?”. Não se sabe. Às vezes a gente entra em igreja, hoje já é mais raro, mas antigamente quando havia vida espiritual nas igrejas — Pe. José Luiz deve ter notado isto muitas vezes —, por exemplo, a gente vê certas beatas, certas senhoras rezando, etc., etc., a gente tinha impressão de que podiam passar dois mil anos fazendo aquela oração, que não saíam daquele pouco de vida espiritual, mas é fato. Pois é… “bá-bá-bá-bá”, direitinho, arranjadinho, depois voltava para casa, ia ver o filhinho bêbado, um filhinho ateu que tem, cuidava do filhinho, “aaah, nhe, nhe, eeeh”, depois pegava uma imagenzinha de Nossa Senhora, fazia uma novenazinha dentro de casa, aquilo tudo, etc. Mas uma chama de uma virtude heróica, de algo de generoso, de algo que convertesse, nada. E, então também esta, tudo, desânimo, uma certa rotina, aquilo rodando assim no vácuo.2

Agora, por que isto? Tanto bom católico, tanto bom congregado mariano parado. Por que isto? Parado porque não lhe ensinaram que o estado dele tem uma solução, que o estado dele tem um remédio, e que o fato dele não encontrar uma solução para o estado dele é a prova de que Nossa Senhora quer mostrar que a solução é só Ela. Ele, de fato, não encontra; ele, de fato, não vai para frente; está apegado, entalou, ele enrascou em qualquer coisa; o resultado é que não vai para frente mesmo. Então é preciso pedir a Nossa Senhora a graça de — Ela quer deixar bem claro que é preciso pedir a Ela, e que pedindo a Ela, Ela dá, e que o sobrenatural é que resolve a coisa; é uma questão de espírito de Fé. Pedindo então empenhadamente, afincadamente, a gente consegue.

Agora, o título de Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos é um incentivo para que nós peçamos, porque nós compreendemos que o próprio d’Ela é auxiliar; e esse estado é um estado, por excelência, de quem precisa de auxílio. Então, se eu preciso de auxílio e encontro a Ela, que é a Auxiliadora dos Cristãos, então eu estou certo de ser atendido, porque o necessitado encontra seu alívio junto à auxiliadora. Se ele considera que a auxiliadora é Mãe, etc., etc., etc., ele compreenderá que certeza ele tem de ser atendido. Então, nós, aqueles dentre nós que se encontram neste estado, a qualquer estágio da vida espiritual, devem fazer… eu sugiro, é claro; não posso, não vou além de uma sugestão, mas há uma novena a Nossa Senhora Auxiliadora — reza apenas três Ave-Marias, por dia, pedindo a Ela isto: que intervenha, e intervenha logo para nos socorrer neste estado, que tenha a bondade, a condescendência, a misericórdia de intervir neste estado, e então uma oração como “Lembrai-Vos”, que eu comentei ontem, pode ser sumamente útil para isto.

O “Lembrai-Vos”, que eu comentei ontem, dizia isto, não é? “Lembrai-Vos de que nunca se ouviu dizer que Vós abandonastes alguém. Agora, eu sou necessitado, ou por outra, nunca se ouviu dizer que Vós abandonastes algum pecador. Ora, eu sou um pecador. Será que Vós ireis interromper dois mil anos de gloriosa assistência aos necessitados e abrir uma exceção para mim? Eu não acredito”. Daí vem essa linda palavra: “Lembrai-Vos”. Quando a gente lembra todo o rebotado que passou… E quanta coisa Nossa Senhora tem perdoado de toda ordem, de todo jeito; uns judeus empedernidos como Ratisbonne, bêbados, sem-vergonhas, canalhas, gente de toda ordem que Ela converte, eu posso pensar comigo: “Está bom, porque nunca se ouviu dizer. Será que Vós permitireis que a primeira vez seja comigo? Não é possível”. Eu, então, crio alento e toco para frente.

Eu li uma vez, num livro de leitura espiritual, uma coisa muito bonita a respeito de Nossa Senhora, do auxílio de Nossa Senhora. Era uma casa de uma senhora, se não me engano da nobreza de Paris, muito bem arranjada a casa, etc., etc., etc., em cuja sala de visitas havia um quadro com uma moldura bonita e, dentro, uma almofada de veludo e uma medalhinha muito comum, muito comum, amassada. Então, um ou outro visitante que aparecia lá perguntava, às vezes, o que era aquilo no meio daquela sala tão faustosa e de tanto gosto, aquele objeto inteiramente sem valor artístico, até estragado, uma medalhinha ordinária e estragada. E, então, a mãe contava o seguinte, que: “A essa medalhinha devo a vida e a conversão do meu filho. Meu filho era ateu, estava saindo de um mau lugar — ou estava bebendo, qualquer coisa assim; enfim, estava em estado de pecado — e houve um crime na rua e a bala desviou-se e bateu nele, e bateu no peito dele, e a bala se chocou contra essa medalhazinha — os senhores sabem como medalhas de Nossa Senhora são medalhas frágeis, ultracomerciais, de alumínio, etc. —, e miraculosamente bateu e entortou e — a bala está guardada junto com a medalha — entortou e estragou a medalha e não matou meu filho. Ele teve um tal golpe, tal golpe, que se converteu. E este grande milagre merece bem que eu tenha a bala e a medalha aqui”.

Veja a bondade de Nossa Senhora por um tipo que, sendo pego por uma bala, iria para o inferno, e que estava ofendendo a Ela naquele momento que o tiro foi dado. Para esse tipo, Ela realiza um milagre esplêndido. Está bom! Então: “‘Lembrai-vos’ para mim também. Comigo, eu não estou fazendo uma coisa horrorosa, eu não estou pecando, mas eu estou encalhado, eu estou vilmente encalhado, estou bestamente encalhado, estou encalhado sem saída e não há o que me desencalhe. Disto eu estou farto de saber. Está bem, então, eu já estou pronto a compreender que só Vós me podeis desencalhar; me faz favor, me desencalhe”. Quer dizer, uma coisa que só pode nos alentar e que pode ser um incentivo para nossa novena de Nossa Senhora Auxiliadora.

Eu gostaria de dar um pequeno esclarecimento aos meus amigos da Aureliano, que estão aqui presentes, a respeito de um ponto. Na nossa sala do MNF há uma imagem de Nossa Senhora de Guadalupe que, depois, embaixo, um objeto muito decorativo — vou mudar de assunto agora —, um objeto muito decorativo, que é um quadrinho de moldura dourada, com vidro, mas que não tem nenhuma bala, nem imagem de Nossa Senhora Auxiliadora; tem seis relíquias muito bem guardadas sobre uma almofadazinha de vermelho vivo. Eu tenho muito prazer em ter as relíquias lá naquela sala do MNF, mas eu recomendei, hoje, ao Grecco que levasse as relíquias para baixo e colocasse junto àquela imagem de Nossa Senhora de Fátima que está posta no salão de entrada. Isto pela razão seguinte: eu gosto muito de ver a piedade e o cuidado com que aquela imagem é entretida lá; gosto de ver como tem sempre flores e bonitas flores lá; gosto de ver gente rezando diante da imagem. Quando nós terminamos a reunião do MNF, que eu vejo gente… Eu gosto de ver três coisas, é paradoxal: eu gosto quando vejo gente cochilando junto à imagem, e gosto quando vejo gente conversando junto à imagem, porque aquela imagem está posta numa situação em que Nossa Senhora figura, ali, como uma boa Mãe em relação a qual tanto é lícito a gente gostar de estar perto para rezar, como de estar perto para descansar um pouco à sombra d’Ela, como também, discretamente, a sotto voce, uma pequena conversa de filho num ambiente marcado pela presença da Mãe.

Está muito direito ali. Mas aquelas relíquias, ali em cima, é que não estão bem. Porque eu lembro o princípio que, algum tempo atrás, eu já externei: que o ter relíquias é uma grande graça e que, quem tem as relíquias, deve prestar culto às relíquias que tem. Não pode ter as relíquias guardadas numa gaveta, assim, como uma espécie de amuleto, de talismã, uma figa. Pega a figa, guarda aqui: “Agora, diga: você me proteja, senão eu não penso mais em você”. Não! É uma tal graça ter uma relíquia que se a gente quer conservar a relíquia, tem que prestar, com conta, peso e medida, um culto às relíquias que tem. Ora, eu já receei muito que aquelas relíquias, ali em cima, ficassem sem culto. Já me passou até pela idéia de sugerir, na reunião do MNF, que nós invocássemos os santos cujas relíquias ali se encontram; mas o normal é que elas beneficiem a Sede da Aureliano. Então, eu pediria aos senhores o favor de, tendo aquelas relíquias diante dos olhos, de vez em quando rezaram uma jaculatória que seja para um ou outro daqueles santos, ou rezar sempre quando forem lá, conforme o movimento interior de cada um, sem métodos nem “quadratices”.

(Sr. –: O Grecco levou para baixo as relíquias.)

Pois é, eu recomendei. Desculpe, ah… Ótimo, muito bem.

(Sr. –:… [faltam palavras] …)

Então, tanto melhor, tanto melhor.

Também uma outra coisa: não é muito bom o seguinte: eu ter uma relíquia lá, então eu, daqui, sem nunca ir olhar a relíquia, então pã, acabou-se. Não, é porque a presença da relíquia pede, como perfeição, o culto de presença minha junto à relíquia. Isso é o verdadeiro. E eu digo um pouco com essa insistência porque, pela generosidade do Luizinho, bons serviços do Sérgio e de outros que estiveram na Europa, nós todos temos muitas relíquias. Eu, às vezes, tenho pavor de pensar nessas relíquias guardadas junto com remédio, tesourinhas de unhas, etc., na gaveta do criado mudo. O… [falta palavra] …das coisas, eu não sei se há um pouco de pessimismo meu nisso, mas, com o nosso relaxamento brasileiro, bem pode acontecer. Ora, não é bom. Para relíquias nós devemos arranjar uma caixa digna — não precisa ser de luxo, deve ser proporcionada às condições de cada um de nós, mas devemos arranjar uma caixa digna —, devemos pôr num lugar onde elas nos caiam debaixo dos olhos, e devemos, se de preferência, diariamente oscular as relíquias e rezar, pelo menos, uma jaculatória para cada santo que se encontra na relíquia; desejar conhecer a biografia na medida do possível.

Eu tenho, por exemplo, uma série de santos cuja biografia fui descobrindo aos poucos, de relíquias que me deram na Europa. Só não descobri ainda a biografia de Santa Elizabete Picanardi. Eu não sei quem será. Se alguém tem essa biografia, enfim, quem foi, eu gostaria de saber. Se o Pe. José Luiz sabe quem é… Bem, os outros, São Felipe Benício, acabei descobrindo quem eram, mas esta Santa Elizabete eu ainda não descobri. Mas, quer dizer, esse é o modo pelo qual nós devemos cultuar as nossas relíquias. Eu amplio um pouco, não só, portanto, para aquelas relíquias de lá, mas as relíquias que estão guardadas conosco. Eu sugeriria que isto não ficasse para as calendas gregas, mas, quem tem relíquias, pedisse, enfim uma sugestão, enfim qualquer coisa a algum membro do respectivo grupo e que guardasse as relíquias adequadamente.

Eu pediria também o favor ao Eduardo e ao Caio de, enfim, na medida do possível, mandarem organizar uma lista das relíquias que estão na nossa caixa na capela, e colocar junto com aquela folha de celofone… Como?

(Sr. –: A lista já existe.)

É, eu digo mandar fazer datilografar a lista para nós; os que forem rezar na capela também, querendo, fazer uma invocação dos santos cujas relíquias ali estão. Eu gostaria de estudar com o Castilho, depois, num momento que tenhamos tempo, que não é tão freqüente assim, se seria ou não a conveniência, nos dias em que hoje uma relíquia, o santo de cuja relíquia se venera, de fazer talvez a ostentação da relíquia aqui. Eu ontem vi alguma coisa… Você faria o favor de ver? Assim nós mesmos aprimoraríamos esse modo, essa obrigação nossa de cultuarmos nós mesmos nossas relíquias.

E, com isto, se o Pe. José Luiz não tem nenhuma observação de ortodoxia do que eu disse, podíamos encerra.

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1 No original do microfilme, a palavra “excelente” está entre parêntesis.

2 A frase no microfilme está exatamente assim. O Sr. Dr. Plinio deu a entender sem completar as palavras e o datilógrafo não transpôs a intenção.