Santo do Dia – 12/5/1966 – p. 4 de 4

Santo do Dia — 12/5/1966 — 5ª-feira

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Nossa Senhora dos Desamparados

Hoje, em Valença, festa de Nossa Senhora sob a belíssima epígrafe, sob a belíssima invocação de Nossa Senhora dos Desamparados. O histórico dessa devoção é o seguinte:

Fui fundada em Valença, no século XV, uma confraria para a proteção das crianças desamparadas, sob a invocação de Nossa Senhora dos Desamparados. Faltando a imagem para a capela do asilo, apareceram três jovens de maravilhosa beleza pedindo abrigo e propondo que em troca fariam a imagem da Virgem se lhes dessem o material necessário e os deixassem sós por três dias. No fim desse tempo, como não davam sinal de vida, os irmãos forçaram a porta da habitação e encontraram no centro, majestosa e protetora, a imagem esculpida da Virgem. O prodígio foi seguido de numerosos milagres e em 1667. Nossa Senhora dos Desamparados foi proclamada patrona de Valença.

Os senhores estudam aí o desenvolvimento dessa devoção. Como tantas outras devoções a Nossa Senhora, ela nasceu de uma maravilha, de um prodígio, de um milagre. Essas três crianças que apareceram em Valença, no século XV, seriam provavelmente três anjos e eles cercaram de mistério e de expectativa o que ia se realizar. Foi altamente psicológico o que eles fizeram.

Três crianças lindas e desamparadas: já é um primeiro mistério. Naquele tempo em que havia reis, em que havia um aspecto místico da vida de corte, três crianças assim já se pensava imediatamente se não seriam crianças de altíssima linhagem, perseguidas e que um dia seriam restauradas no trono, uma porção de coisas assim, filhos de um príncipe qualquer coisa assim, uma porção de coisas assim, são três crianças que chegaram. Ora, essas crianças prometem fazer uma imagem de Nossa Senhora. São tão bonitas, parecem tão capazes que se lhes dá o material necessário. Mas imaginem durante três dias ficar vendo o que as crianças estão fazendo: ouvem barulhos, não ouvem. As crianças estão lá dentro, a gente sente uma influencia agradável quando chega perto da porta, tem vontade de rezar. Um tal ouviu, às vezes, um cântico muito bonito, chegando lá perto. Como há de ser a coisa? No último dia, silêncio completo. Curiosidade que cresce. Chega à hora marcada, arromba a porta. Batem, não respondem, arrombam a porta. Não é isso? Depois o susto, a sensação. Uma linda imagem de Nossa Senhora, muito bem conjugados os dois adjetivos que pintam a perfeição de Nossa Senhora, majestosa e, ao mesmo tempo, protetora. É tão bonito a gente ver a majestade e a nobreza enquanto amparo, enquanto auxílio, enquanto misericórdia, enquanto unção — não é verdade? Nossa Senhora, então ao mesmo tempo majestosa e amparadora, é Nossa Senhora dos Desamparados. Aí eles se dão contra prodígio.

Mas desamparados tinha um sentido restrito. Eram crianças desamparadas. A imagem faz saltar o sentido, porque ela começa a fazer tantos prodígios, começa a atender tanta gente desamparada sob tantos pontos de vista, que se compreende que ela é Nossa Senhora de todos os desamparados. E então ela vai para a capital de Sevilha — lindíssima cidade que jamais esquecerei — para os altares de Sevilha, para a catedral de Sevilha e é padroeira de Sevilha.

Os senhores vejam que verdadeira maravilha. Bem, os vejam agora a miséria de nossas coisas de turismo. Eu, em Sevilha não vi isto em nenhuma indicação turística. Como eu gostaria de ter rezado junto à imagem de Nossa Senhora sabendo que ela é Nossa Senhora dos Desamparados e que sua origem é relacionada com esse fato tão remoto. Interessaria-me muito mais do que o Alcacer mouro que estava lá. Não soube, era preciso fazer um turismo de coisas dessas para ultramontanos viajarem na Europa. Eu lhes garanto que a viagem a Europa tomaria outro sentido. Mas quando sairá isso? Só quando a comissão do exterior estiver tão equipada que possa fazer coisas dessas. Mas isto ainda leva muito tempo.

Bem, o pensamento que está ligado a isso está mencionado aqui é um pensamento de São Boaventura que diz muito bem respeito ao auxílio que Nossa Senhora dá aos desamparados: “Quando todo socorro humano falha, é preciso não nós desesperarmos, porque é aí que chega o socorro divino de Maria”. Quer dizer, quando o homem está inteiramente desamparado — porque um homem ao qual falha todo o socorro humano é um homem inteiramente desamparado — então aí é preciso esperar, porque aí vem a hora do socorro divino de Maria.

Nós temos agora, aqui, o santo de amanhã. É São Roberto Belarmino, bispo, confessor e Doutor. Há dados aqui dele, ou sobre ele, tirados do Rohrbacher, da Vida dos Santos, de Rohrbacher e do Année Liturgique de D. Guéranguer. A ficha diz especialmente, fala especialmente sobre as obras de São Roberto Belarmino:

Desde as origens da Igreja até nossos dias, jamais a Divina Providência deixou de suscitar homens ilustríssimos e interpretadas as verdades de fé católica e refutados os ataques com os quais os heréticos refutavam essas mesmas verdades. Entre tais homens brilha São Roberto Belarmino, tão célebre pelo seu ensino e suas obras polêmico, como pelo seu zelo pela reforma da Igreja e por suas virtudes. De fato, parece que o santo cardeal recebeu de Deus a tríplice vocação de ensinar os fiéis, de orientar a piedade das almas fervorosas e de confundir os heréticos protestantes de sua época, que era o século XVI. O século de plena efervescência do protestantismo. Foi grande como pregador, professor e polemista, tendo recebido de Bento XV o título de “martelo da heresia”. Escreveu muito sobre o valor de seus livros nada é mais necessário do que transcrever o que deles dizia São Francisco de Sales, seu contemporâneo e amigo “Preguei em Chablais durante cinco anos sem outros livros que a Bíblia e as obras do grande Belarmino”. Sua obra mais famosa são as controvérsias compilação de obras suas no Colégio Romano. Nelas, recolhendo o testemunho dos Padres, do concílio e do Direito da Igreja, defende vitoriosamente os dogmas atacados pelos luteranos. Clara, equilibrada, enérgica, esta obra é tão magistral que muitos consideram nunca ter sido superada nos séculos posteriores. Ao tempo de sua publicação, provocou tanta satisfação no campo católico, quanto cólera no campo adversário, onde o protestante Téodore de Balse dizia referindo-se a ela: Eis o livro que nos perdeu. Sua leitura foi proibida na Inglaterra pela rainha Isabel, a quem não fosse doutro em teologia, sob pena de morte, tal o número de conversões que operava.

Sim senhores…

Não se satisfazendo de convencer os hereges de seu erro, queria também prevenir os simples fiéis contra sua propaganda.

Propaganda dos hereges.

E para este fim, compôs seu notável pequeno catecismo que fazia questão de ensinar, ele mesmo, as crianças e as pessoas simples, por mais importantes que pudessem ser suas ocupações. Além de outras fabulosas publicações e de uma numerosíssima correspondência, escreveu, no fim de sua vida, notas espirituais, frutos de suas meditações e de seus retiros, que formam cinco pequenos tratados ascéticos, reveladores da beleza da alma do autor. Sua última produção foi, simbolicamente. “A arte de bem morrer”.

É preciso dar mais um dado e que é empolgante na vida dele:

Ele foi diretor espiritual de São Luiz Gonzaga.

Isso só bastaria para encher a vida de um homem. Que comentário fazer dessa vida deste santo? Os senhores estão vendo, vamos considerá-lo enquanto homem que luta contra as heresias. Os senhores estão vendo que ele era uma pessoa chamada, elogiosamente — porque houve tempo na Igreja isso foi elogio, ele era chamado elogiosamente — pelo papa Bento XV, “O martelo dos hereges” alcunha que a Igreja tem dado a alguns santos, que têm produzido contra a heresia, danos muito particulares — abre um pouco a porta, que assim… isso — danos muito particulares. Bem, como martelo dos hereges ele escreveu uma porção de livros demonstrando a verdade e atacando duramente os hereges. Esses ataques duros aos hereges converteram muitos hereges. E o testemunho disso, primeiro é o do Teodoro de Baise, que era o protestante máximo que sucedeu a Calvino — foi o famoso protestante com quem São Francisco de Sales teve a sua celebre discussão — e depois o pânico de Isabel a católica — a não católica, Isabel a horrenda, diante das obras dele: a tal ponto que quem não fosse doutor em teologia era morto se lesse o livro dele, tal o número de concessões que operava. Quer dizer, ele entendia que a gente não pode destruir a heresia simplesmente ensinando a verdade. Mas que é preciso, além de ensinar a verdade, atacar o erro, além de promulgar o bem, é preciso atacar o mal. E ele entendia que por essa forma se operavam conversões e portanto se trabalhava pela união da Igreja. E ele foi canonizado, quer dizer, ele agiu de acordo com as quatro virtudes cardeais, a justiça, a prudência, a temperança e a fortaleza. Bem, ora, se esse método dele fosse errado, ele não teria sido justo, porque ele teria feito ataques inúteis, ele não teria sido prudente, porque ele teria adotado uma tática que chegava ao resultado oposto à tática que ele devia seguir, ele não teria sido forte, porque ele não teria sabido dominar o seu desejo de atacar os adversários, ele não teria sido temperante, pela mesma razão. Os senhores estão vendo, portanto, que o que há nele é que a vida dele é uma prova viva do princípio de que se deve atacar o mal, de que se deve atacar o erro, de que não basta ensinar o bem e a verdade, e de que isso é o eficiente. Quem quiser a união das igrejas trabalhará — não a união das igrejas, pela conversão das igrejas á Igreja Católica — trabalhará de um modo sumamente eficaz se fizer a mesma coisa, e que se houvesse, em nossa época cem Robertos Belarminos fazendo obras tão eficazes quanto as dele, poderia, possivelmente, converter a maior parte dos hereges, possivelmente. Bem, então isso nos serve para nós nos defendermos do erro tão freqüentemente espalhado por aqui, que não é ensinado pelo Concílio, mas que dá um certo aroma na aplicação do Concilio, de que toda polêmica e todo ataque ao adversário é prejudicial à união das igrejas, e de que toda a obra de apostolado só consiste em elogiar e em aplaudir, nunca em atacar é inutilmente até contra producente, porque afasta as pessoas. E isso se pode dizer de boca cheia, porque está aqui um santo no altar e cuja vida não foi outra coisa senão ininterruptamente isso.

Agora, os senhores vejam a beleza dos contrastes harmônicos dentro da Igreja: um tal campeão contra a heresia, um tal campeão da ortodoxia, ao mesmo tempo que grande lutador, como era um burilador de almas delicadíssimo. A alma varonil, mas tão delicada de São Luís Gonzaga, como ele sabia burilar, e como ele fez dessa alma, difícil de compreender, uma verdadeira obra prima de santidade. Por que difícil compreender? Porque tal era a virtude de São Luís Gonzaga que naqueles tempos áureos da Companhia de Jesus, os biógrafos contam que alguns acham que a pureza dele era de um détraqué quando era de um verdadeiro santo. Foi São Roberto Belarmino que com olhar de verdadeiro santo soube ver até o fim o valor dessa alma, dirigiu-a de acordo com sua via própria, levou-a, portanto, até a honra dos altares — não é? — e que até depôs no processo de canonização de São Luís Gonzaga e das mãos deste portanto, saiu essa obra prima que é a alma de São Luís Gonzaga.

Para aqueles que tiveram ocasião de fazer juntamente conosco algumas reflexões sobre o artigo que o general Weingand escreveu sobre o marechal Foch, a vida de São Roberto Belarmino é uma obra prima de serenidade abacial dentro do auge da luta.

Cardeal ocupadíssimo, entretanto, ele sabia de tal maneira temperar o tempo, temperar, o uso do tempo, sabia de tal maneira dispor bem das suas coisas que ele encontrava tempo de calma, tempo de lazer para pensar e para escrever obras tão profundas, que ele chegou a ser Doutro da Igreja.

Os senhores estão vendo aí horas e horas de serenidade, de meditação e de estudo, enquanto rugia a Batalha contra o protestantismo. Que linda ilustração do livro de D. Chautard, “A alma de todo apostolado”, e que linda e sobrenatural ilustração dos príncipes que o general Weigand expôs num campo apenas natural. Essas são as considerações de hoje.