Santo do Dia – 12/5/1966 – p. 4 de 4

Santo do Dia — 12/5/1966 — 5ª-feira [SD 257] (Carlos Nini)

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Nossa Senhora do Desamparados São Roberto Belarmino

Hoje é festa de Santo Inácio de [Bacone?], confessor, da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Sua relíquia se venera em nossa capela.

Hoje também é festa do Bem-aventurado Francisco Patrizi, confessor, da Ordem dos Servos de Maria. Sua relíquia se venera em nossa capela.

Hoje também é, em Valença, festa de Nossa Senhora sob a belíssima epígrafe ou sob a belíssima invocação de Nossa Senhora dos Desamparados. O histórico dessa devoção é o seguinte.

Foi fundado em Valença no século XV, uma confraria para a proteção das crianças desamparadas sob a invocação de Nossa Senhora dos Desamparados.

Faltando a imagem para a capela do asilo, apareceram três jovens de maravilhosa beleza, pedindo abrigo e propondo que em troca fariam uma imagem da Virgem, se lhes dessem o material necessário e lhes deixassem sós por três dias.

No fim desse tempo, como não davam sinal de vida, os irmãos forçaram a porta da habitação e encontraram, no centro, majestosa e protetora, a imagem esculpida da Virgem. O prodígio foi seguido de numerosos milagres, e em 1677, Nossa Senhora dos Desamparados foi proclamada patrona de Valença”.

Os senhores estudam aí o desenvolvimento dessa devoção. Como outras tantas devoções de Nossa Senhora, ela nasceu de uma maravilha de prodígio, de um milagre.

Essas três crianças que apareceram em Valença, no século XV, provavelmente seriam, três anjos e eles cercaram de mistério e de expectativa o que se ia realizar. Foi altamente psicológico o que eles fizeram, porque eles pediram… três crianças lindas e desamparadas, já um primeiro mistério. Naquele tempo em que havia reis, havia um aspecto mítico da vida de corte, três crianças assim já se pensava imediatamente se não seriam crianças de altíssima linhagem, perseguidas e que um dia seriam restauradas no trono, uma porção de coisas assim, filhos de um príncipe, qualquer coisa assim, uma porção de coisas assim, são três crianças que chegaram.

Ora, essas crianças prometem fazer uma imagem de Nossa Senhora. São tão bonitas, parecem tão capazes, que se dá para elas o material necessário. Mas, imaginem durante três dias, ficar vendo o que as crianças estão fazendo; ouvir barulho, não ouve, mas as crianças estão lá dentro. A gente sente uma influencia agradável quando chega perto da porta, tem vontade de rezar; um tal ouviu, às vezes, um cântico muito bonito chegando lá perto. Como há de ser a coisa?

No último dia, silêncio completo. Curiosidade que cresce. Chega a hora marcada, arrombam a porta. Não é isso? Depois, o susto, a sensação. Uma linda imagem de Nossa Senhora — muito bem conjugados os dois adjetivos que pintam a perfeição de Nossa Senhora —, majestosa e ao mesmo tempo, amparadora; é tão bonito a gente ver a majestade e a nobreza enquanto amparo, enquanto auxílio, enquanto misericórdia, enquanto unção, não é verdade? Nossa Senhora… então, ao mesmo tempo, majestosa e amparadora é Nossa Senhora dos Desamparados. Aí se dão conta do prodígio.

Mas, desamparados tinham um sentido restrito. Eram as crianças desamparadas. A imagem faz saltar o sentido. Porque ela começa a fazer tantos prodígios, quer dizer, ela começa a atender tanta gente desamparada sob tantos pontos de vista, que se compreende que Ela é Nossa Senhora de todos os desamparados. E então ela vai para a capital de Sevilha — lindíssima cidade, da qual jamais e esquecerei — ela vai para os altares de Sevilha, para a catedral de Sevilha, como padroeira de Sevilha.

[Aqui parece que o Sr. Dr. Plinio se equivocou, porque acima diz que foi proclamada padroeira de Valença. (Carlos Nini)]

Os senhores vejam que verdadeira maravilha. Bem, os senhores vejam agora a miséria de nossas coisas de turismo. Eu, em Sevilha, não vi isso em nenhuma indicação turística. Como eu gostaria de ter rezado junto à imagem de Nossa Senhora, sabendo que era Nossa Senhora dos Desamparados e que sua origem é relacionada com esse fato tão remoto. Me interessara muito mais do que o Alcácer mouro que estava lá. Não soube porque era preciso fazer um turismo de coisas dessas para os ultramontanos viajarem na Europa. Eu lhes garanto que a viajem na Europa tomaria um outro sentido. Mas, quando é que sairá isso? Só quando a comissão do exterior estiver tão equiparada que possa fazer coisas dessas. Ainda leva muito tempo.

Bem, o pensamento que está ligado a isso — está mencionado aqui —, é um pensamento de São Boaventura que diz bem respeito ao auxílio que Nossa Senhora dá aos desamparados: “Quando todo o socorro humano falha, é preciso não nos desampararmos, porque aí é que chega o socorro divino de Maria”.

Quer dizer, quando o homem está inteiramente desamparado — porque o homem ao qual falha todo o socorro humano é um homem inteiramente desamparado —, então aí é preciso esperar, porque aí vem a hora do socorro divino de Maria.

Nós temos agora, aqui o santo de amanhã. É São Roberto Belarmino, bispo, confessor e doutor. Há dados aqui dele, ou sobre ele, tirados do [Pe] Rohrbacher, da “Vida dos Santos”, do [Pe] Rohrbacher e do [“Année Liturgique” ?]de Dom Guéranger. A ficha diz especialmente, fala especialmente das obras de São Roberto Belarmino:

Desde as origens da Igreja até nossos dias, jamais a Providencia deixou de suscitar homens ilustríssimos pela ciência e santidade, pelos quais foram conservadas e interpretadas as verdades da Fé Católica e refutados os ataques com os quais os heréticos refutavam essas mesmas verdades.

Entre tais homens brilha São Roberto Belarmino, tão célebre pelo seu ensino e suas obras polêmicas, como seu zelo pela reforma da Igreja e por suas virtudes. De fato, parece que o santo cardeal recebeu de Deus a tríplice vocação de ensinar os fiéis, de orientar a piedade das almas e de confundir os heréticos protestantes de sua época, que era o século XVI. O século da plena efervescência do protestantismo.

Foi grande como pregador, professor e polemista, tendo recebido de Bento XV o título de ‘martelo da heresia’. Escreveu muito e sobre o valor de seus livros nada é mais necessário do que transcrever o que deles dizia São Francisco de Salles, seu contemporâneo e amigo: ‘Preguei em Chablais durante cinco anos sem outros livros que a Bíblia e as obras de São Roberto Belarmino’.

Sua obra mais famosa são as ‘Controvérsias’, compilação de obras suas dadas no Colégio Romano. Nelas, recolhendo o testemunho dos Padres, dos Concílios e do Direito da Igreja, defende vitoriosamente os dogmas atacados pelos luteranos. Clara, equilibrada, enérgica, esta obra é tão magistral que muitos consideram nunca ter sido superada nos séculos posteriores. A tempo de sua publicação, provocou tanta satisfação no campo católico, quanto cólera no campo adversário, onde o protestante Téodore de Baise dizia, referindo-se a ela: ‘Eis o livro que nos perdeu. Sua leitura foi proibida na Inglaterra pela rainha Isabel, a quem não fosse doutor em teologia, sob pena de morte, tal o número de conversões que operava’.”

Sim senhores…

Não se satisfazendo de convencer os herejes de seu erro, queria também prevenir os simples fiéis contra sua propaganda (propaganda dos herejes) e, para este fim, compôs seu notável e pequeno catecismo, que fazia questão de ensinar, ele mesmo, às crianças e às pessoas simples, por mais importantes que pudessem ser suas ocupações.

Além de outras famosas publicações e de uma numerosíssima correspondência, escreveu no fim de sua vida, notas espirituais, frutos de suas meditações e de seus retiros, que foram cinco pequenos tratados ascéticos, reveladores da beleza da alma do autor. Sua última produção foi, simbolicamente, ‘A Arte de Bem Morrer’.”

É preciso dar mais um dado que é empolgante na vida dele. Ele foi o diretor espiritual de São Luiz de Gonzaga. Isso só bastaria para encher a vida de um homem. Que comentário fazer dessa vida deste santo?

Os senhores estão vendo — vamos considerá-lo enquanto homem que luta contra as heresias. Os senhores estão vendo que ele era uma pessoa chamada, elogiosamente — porque houve tempo que na Igreja isso foi elogio, ele era chamado elogiosamente — pelo Papa Bento XV, “o martelo dos herejes”, alcunha que a Igreja tem dado a alguns grandes santos, que têm produzido contra a heresia danos particulares…

Abre um pouco a porta que assim… isso.

danos muito particulares. Bem, como martelo dos herejes, ele escreveu uma porção de livros demonstrando a verdade e atacando duramente os herejes. Esses ataques duros ao herejes converteram muitos herejes. E o testemunho disso, primeiro é do Téodore de Baise, que era o protestante máximo que sucedeu a Calvino — foi o famoso protestante com quem São Francisco de Salles teve sua célebre discussão — e depois o pânico de Isabel, a católica [ou melhor], a não-católica, Isabel, a horrenda, diante das obas dele; a tal ponto que quem não fosse doutor em teologia era morto se lesse o livro dele, tal o número de conversões que operava.

Quer dizer, ele entendia que a gente não pode destruir simplesmente ensinando a verdade. Mas que é preciso, além de ensinar a verdade, atacar o erro; além de propugnar o bem, é preciso atracar o mal. E ele entendia que por essa forma operavam conversões e portanto se trabalhava pela união da Igreja. E ele foi canonizado, quer dizer, ele agiu de acordo com as quatro virtudes cardeais: a justiça, a prudência, a temperança e a fortaleza. Bem, ora, se ele, o método dele fosse errado, ele não teria sido justo, porque ele teria feito ataques inúteis; ele não teria sido prudente porque ele teria adotado uma tática que chegava ao resultado oposto à tática que ele devia seguir; ele não teria sido forte porque ele não teria sabido dominar o seu desejo de atacar os adversários; ele não teria sido temperante pela mesma razão.

Os senhores estão vendo, portanto, que o que há nele é que a vida dele é uma prova viva do princípio de que se deve atacar o mal, de que se deve atacar o erro, de que não basta ensinar o bem e a verdade, e de que isso é o eficiente. Quem quiser a união das igrejas trabalhará — não a união das igrejas, pela conversão das igrejas à Igreja Católica —, trabalhará de um modo sumamente eficaz se fizer a mesma coisa; e se houvesse em nossa época cem São Robertos Belarminos fazendo obras tão eficazes quanto as dele, poderia possivelmente converter a maior parte dos herejes, possivelmente. Bem, então, isso nos serve para nós nos defendermos do erro tão freqüentemente espanado por aqui, que não é ensinado pelo Concílio, mas que dá um certo aroma na aplicação do Concílio, de que toda polemica e todo ataque ao adversário é prejudicial à união das igrejas, e de que toda a oba de apostolado só consiste em elogiar e em aplaudir, nunca atacar. Porque atacar é inútil, e até contraproducente, porque afasta as pessoas. E iiso se pode dizer de boca cheia, porque aqui está um santo no altar e cuja vida não foi outra coisa senão ininterruptamente isso.

Agora, os senhores vejam a beleza dos contrastes harmônicos dentro da Igreja. Um tal campeão contra a heresia, um tal campeão da ortodoxia, ao mesmo tempo que um grande lutador, como era um burilador de almas delicadíssimo. A alma tão varonil, mas tão delicada de São Luiz Gonzaga, como ele sabia burilar, e como ele fez dessa alma — difícil de compreender — uma verdadeira obra prima de santidade.

Por que difícil de compreende? Porque tal era a virtude de São Luiz Gonzaga que naqueles tempos áureos da Companhia de Jesus, os biógrafos contam que alguns acham que a pureza dele era de um [détraquée?], quando era de um verdadeiro santo.

São Roberto Belarmino que com um olhar de verdadeiro santo, soube ver até o fim o valor dessa alma, dirigiu-a de acordo com sua própria via; levou-a portanto até a honra dos altares — não é? — e que até depôs no processo de canonização de São Luiz Gonzaga e das mãos deste, portanto, saiu essa obra prima que é a alma de São Luiz Gonzaga.

Para aqueles que tiveram ocasião de fazer juntamente conosco algumas reflexões sobre o artigo que o general Weigand escreveu sobre o Marechal Foch, a vida de São Roberto Belarmino é uma obra prima de serenidade abacial, dentro do auge da luta. Cardeal ocupadíssimo, entretanto, ele sabia de tal maneira temperar o tempo, temperar o uso do tempo, de tal maneira dispor bem das suas coisas, que ele encontrava tempo de calma, tempo do lazer para pensar e para escrever obras tão profundas, que ele chegou a ser Doutor da Igreja. Os senhores estão vendo aí horas e horas de serenidade, de meditação e de estudo, enquanto rugia a batalha contra o protestantismo. Que linda ilustração do livro de Dom Chautard, “A Alma de Todo o Apostolado”, e que linda e sobrenatural ilustração dos princípios que o general Weigand expôs num campo apenas natural. Essas são as considerações de hoje.

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