Santo do Dia – 11/5/1966 – p. 3 de 3

Santo do Dia — 11/5/1966 — 4ª-feira

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Nossa Senhora do Bom Sucesso e Santa Joana de Portugal

Durante o mês de Maria, além do santo do dia, vai ser colocada sempre uma referência a uma invocação de Nossa Senhora, da qual seja o dia em algum lugar do mundo neste dia. Assim por exemplo, há um certo lugar do mundo aonde se celebra no dia de hoje, se celebra Nossa Senhora do Bom Sucesso. Então vem uma referência a isso, e depois também um pensamento piedoso sobre Nossa Senhora, depois vem a ficha do santo do dia.

Então, nós temos como santos de hoje São Felipe e São Tiago, Apóstolos. A relíquia de São Tiago Maior se venera em nossa capela. São Mayeul, abade, do qual nós tivemos a biografia ontem. Hoje é Nossa Senhora do Bom Sucesso.

Estas festas diárias de Nossa Senhora, que nós utilizamos então aqui no nosso mês de Maio, foram tiradas do livro “Le Calendrier Mariale”, edição da Congregação de Nossa Senhora de Sion, de Istambul, na Turquia. Isso veio parar aqui provavelmente por fazer parte dos livros vendidos para nós. Agora, os senhores vejam que tesouro: um livro que dá as festas de Nossa Senhora no mundo inteiro é um tesouro de compilação, de objetividade, de piedade, de erudição que se vende assim e que estaria hoje num sebo qualquer e posto não sei em que mão, provavelmente comido pelas baratas e pelos ratos e não comprado por ninguém se Nossa Senhora não [nos] tivesse feito conhecer esse tesouro para pelo menos nós darmos glória a Ela. Razão pela qual há um pensamento de reparação que se deve juntar a esse ato de piedade. É o pensamento de reparação, é esse reparar junto a Nossa Senhora o desprezo de que ela é alvo por este e tantos outros modos análogos. Porque esse, afinal de contas, é um modo entre mil outros.

Vamos ver, então, o que se diz de Nossa Senhora do Bom Sucesso:

Em Nossa Senhora de Finistère, em Bruxelas,…

Quer dizer, na igreja de Nossa Senhora de Finistère, em Bruxelas.

venera-se [a] milagrosa imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso, trazida da Escócia em 1572. Essa devoção foi introduzida também em Bérgamo, na igreja de Santa Ágata, em 1642, onde socorreu os habitantes por ocasião das calamidades que assolaram a região.

Os senhores estão vendo que a invocação, por si, já diz muito. É Nossa Senhora enquanto levando ao bom sucesso, enquanto levando ao bom termo os bons empreendimentos dos seus filhos — então são os empreendimentos da vida espiritual, são os empreendimentos da vida material, são os empreendimentos do apostolado. Nossa Senhora, como Mãe onipotente, extremamente cheia de complacência, de indulgência, de bondade, e que intervém para levar a bom termo os empreendimentos de seus filhos. Os senhores estão vendo quanto essa invocação diz e quanto, portanto, é próprio que nós aqui a lembremos entre nós.

O pensamento destacado é um pensamento de Santo Antonino de Florença:

Pedir, sem recorrer a Maria, é pretender voar sem asas.

Que nós encontramos também na “Divina Comédia”, de Dante.

Amanhã nós vamos ter Santa Joana de Portugal, no dia 12 de maio. A biografia dela é a seguinte — tirada do Rohrbacher:

Joana, filha do rei D. Afonso V, décimo segundo rei de Portugal, e de sua esposa, D. Isabel, nasceu a seis de fevereiro de 1452, e foi jurada princesa herdeira do trono. Trocou esse título pelo de infanta, depois do nascimento de seu irmão, que foi o rei D. João II.

Tendo vivido na corte, praticou as mais altas virtudes cristãs. Tomou como emblema uma coroa de espinhos, e debaixo de suas ricas vestes ninguém suspeitava que envergava um cilício. Profundamente compassiva, procurava o quanto podia amenizar as misérias de seu próximo. Muitos príncipes pediram-lhe a mão insistentemente, mas negou-a a todos.

Encerrou-se no mosteiro de Aveiro, da Ordem de São Domingos, onde sua humildade e obediência foram tão grandes que ninguém podia dizer que ali estava uma filha de rei. Trabalhou denodadamente pela conversão das almas, pois a preocupava muito a sorte dos pecadores.

A sua obra predileta foi a redenção dos cativos de África. Acometida de longa e dolorosa enfermidade, aceita com grande resignação, Santa Joana de Portugal faleceu a doze de maio de 1490.

A doze de maio de 1490, quando já soprava intenso, no mundo inteiro, o vento da Renascença. E quando infelizmente este vento, com caráter pomposo, luxuoso da Renascença, soprava sobretudo nas cortes, nos altos estabelecimentos eclesiásticos e nos meios da alta burguesia. Mas sobretudo nas cortes e de um modo tão infeliz que em todas as cortes européias se podia dizer, de todas elas, que a corte era o pondo de irradiação dos costumes renascentistas. Não propriamente do pensamento renascentista, porque o pensamento era soprado por pequenos cenáculos de intelectuais, pertencentes, provavelmente, a uma mesma Força Secreta internacional, do tipo de Lorenzo Valla, em Roma, daqueles que faziam pactos… perdão, reuniões nas catacumbas, reuniões bisavós ou trisavôs remotas do pacto das catacumbas. Mas mesmo quanto à difusão das idéias, as cortes tinham uma grande responsabilidade, porque elas davam prestígio aos intelectuais que sopravam as idéias da Renascença e aos juristas que plasmavam o Estado absolutista, que era de acordo com o pensamento da Renascença.

Em razão de todos esses fatos, as cortes levavam uma vida esplêndida, e a categoria de príncipe era sinônimo de gozador da vida, daquele que leva uma vida magnífica, faustosa, luxuosa, no meio das delícias, etc., etc. De maneira que, naquele tempo, o [fato de] uma princesa ficar freira depois de ter praticado, durante tanto tempo, a virtude da mortificação na própria corte, a ponto de tomar, na corte, como um emblema a coroa de espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo; o [fato de] uma princesa fazer isso era entrar em choque com todas as tendências da época e fazer uma coisa que se considerava feia, que se considerava ridícula, que se considerava de uma pessoa mesquinha, que não tinha a alma grande para compreender os grandes prazeres e as grandes lutas da vida. De maneira que essa atitude que ela tomou repercute — já não são albores — nesse período já adiantado da Renascença, como uma espécie de reminiscência da Idade Média. Então os senhores estão vendo a longa permanência dela na corte, representando sempre a mortificação, representando sempre a virtude remando sempre contra a maré entrante do Renascimento, nessa corte. E depois recusando os vários casamentos que lhe eram dados, com preferência para com o estado de virgindade que, como os senhores sabem, a Renascença prezava tão pouco. E depois levando tudo isso ao cúmulo do desafio recolhendo-se a um convento, tudo isso era já de si uma espécie de ruptura não só com o mundo, como seria… [faltam palavras] …,mas com a mentalidade dominante da época, sobretudo a respeito de reis, de príncipes e princesas.

Naturalmente, mais acentuado ainda, mais acentuado era o reflexo que constava fora sobre o modo como ela praticava as virtudes religiosas dentro do convento. Porque essas virtudes religiosas eram praticadas, naquele tempo, de um modo muito relaxado. Os senhores precisam se lembrar que estamos no auge da decadência das Ordens Religiosas. Para compreender como vivia uma freira naquele tempo, é preciso lembrar, por exemplo, que Santa Teresa conta, umas décadas depois, a respeito do modo pelo qual viviam as carmelitas no tempo dela. As carmelitas dela viviam, pura e simplesmente, num pensionato: elas recebiam visitas o dia inteiro; tinham guitarras, alaúdes, outras coisas, e no claustro cantavam canções, muitas das quais eram canções de amor; recebiam, por fúteis razões de saúde, autorização para passar temporadas enormes na casa da família — mas, nas casas de família, elas se davam com todo mundo, saíam, portavam-se como uma filha da casa qualquer, apenas conservando em parte, ou no todo, o hábito religioso — e os conventos eram verdadeiros receptáculos de mundanismo.

Sobretudo ninguém compreenderia que uma filha de rei, entrando no convento, ela fosse tratada como uma religiosa qualquer. Como, por exemplo, sujeitar à pobreza uma filha de rei, que era filha de um sangue feito exclusivamente para o luxo? Como sujeitar à obediência uma filha de rei, que era feita para mandar? E assim por diante. Então, o [fato de] ela ter praticado de um modo tão exímio essas virtudes, tudo isso era um escândalo contínuo para o espírito da Renascença. E era, nesse sentido, em face desse ângulo — quer dizer, na linha de uma Contra-Revolução tendenciosa muito profunda, um pouco remota até numa visão simplista do problema Revolução–Contra-Revolução, mas muito profundo — era uma atitude contra-revolucionária, de primeira ordem, como choque com a Renascença do tempo. Admirável lição, em todos os tempos, do modo pelo qual a Revolução deve ser combatida de frente, com violência e, no bom sentido da palavra, até escandalosamente.

Vamos, então, fazer as nossas orações.

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