Santo do Dia (Rua Pará) – 10/5/1966 – 3ª feira [SD 020 e 257] – p. 5 de 5

Santo do Dia (Rua Pará) — 10/5/1966 — 3ª feira [SD 020 e 257]

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Biografia de São Mayeul * A Providência orientando as diversas formas de santidade * Peripécias na vida de São Mayeul mostram que a Providência quer também de nós uma confiança cega * Ao contrário da filosofia de sucesso norte-americana, Deus nos dá a vitória através de muitos aparentes abandonos

Hoje, dia 10, é festa de Santo Antonino, bispo e confessor. Lutou contra a Renascença em sua diocese de Florença. Dominicano, século XV.

É aniversário de falecimento de uma benfeitora do “Catolicismo” em seus primórdios, D. Nineta de Souza Queiroz, cuja alma nós incluímos nas orações da noite de hoje.

Amanhã, dia 11, é festa de São Mayeul, abade, e dele temos, então, uma biografia de Rohrbacher.

Eu vejo aqui nas nossas notas que hoje também é festa de outro santo, quer dizer, é festa de Nossa Senhora sob uma outra inovação, Nossa Senhora do Tesouro. Essa imagem da Virgem em cedro foi doada por Carlos Magno às cônegas de Ramiremont, que a conservavam no tesouro de sua igreja, entre outras relíquias, de onde o nome de Nossa Senhora do Tesouro. Em 1682, quando um tremor de terra castigou Ramiremont, levou-se a imagem em procissão no dia 10 de maio e o tremor cessou nesse mesmo dia.

A esta invocação de Nossa Senhora do Tesouro, a pessoa que fez a agenda para hoje associou uma linda lembrança, como uma linda lembrança, um trecho de São Luís Grignion de Montfort, que diz o seguinte: “Deus tem um tesouro onde Ele colocou tudo quanto possui de belo, de grande, de precioso, até seu próprio Filho. Este tesouro imenso é o Coração de Maria”.

A respeito da festa de amanhã, é festa de São Mayeul, abade do qual nós vamos ver a biografia do Rohrbacher.

* Biografia de São Mayeul

São Mayeul de Cluny, século X, nasceu no Avignon e foi cônego de Mâcon. Evitando ser nomeado bispo de Besançon, fez-se monge. Foi abade de Cluny quase cinqüenta anos. A confiança que lhe dispensavam papas e príncipes deu-lhe oportunidade de exercer grande influência e sobretudo de reformar grande número de mosteiros.

Em 973, São Mayeul regressava de Roma, acompanhado de grande número de homens de vários países, que se criam seguros na companhia de um santo. Mas na passagem dos Alpes foram atacados pelos sarracenos de Freysinet, que colocaram todos a ferros. O santo abade, cheio de aflição, pediu a Deus que ninguém fosse morto e foi atendido. Como alguns mouros zombassem da religião cristã, São Mayeul começou a mostrar-lhes com fortes razões a segurança da nossa religião e a falsidade da deles. Isto os irritou a tal ponto, que lhe algemaram os pés e o encerraram numa horrível gruta. Neste local, tendo o santo encontrado ao seu lado a obra de São Jerônimo, o “Tratado da Assunção da Virgem Santa”, pediu à Mãe de Deus que lhe fosse ainda concedido celebrar esta festa com os cristãos. Estavam a 24 de julho. Milagrosamente viu-se livre das algemas e os infiéis, estupefatos, passaram a tratá-lo com respeito. Permitiram que escrevesse a Cluny para obter seu resgate e de seus companheiros, e restituíram os víveres que haviam guardado como despojos de guerra.

Enquanto a quantia exigida não chegava, aumentou a devoção dos bárbaros pelo abade. Como este não estivesse habituado aos seus alimentos, preparavam um pão especialmente para ele. Certa vez, querendo polir um bastão, um sarraceno colocou o pé sobre a Bíblia que Mayeul trazia sempre consigo. O santo deixou escapar um gemido e o soldado foi pronta e severamente repreendido pelos companheiros. No mesmo dia este sarraceno, entrando numa briga, teve cortado o pé com que pisara a Bíblia.

Vindo enfim o resgate, São Mayeul foi libertado e celebrou a festa da Assunção entre os seus, como pedira. Os sarracenos de Freysinet não tardaram a ser completamente batidos por tropas cristãs, o que foi considerado como uma punição divina pelo aprisionamento do santo abade.

* A Providência orientando as diversas formas de santidade

Os senhores vêem aí, de um modo maravilhoso, como Deus via cada alma de acordo com uma orientação própria, que corresponde aos desígnios d’Ele de colocar no universo, em que haja um número incontável mas ordenado e sábio de formas diversas de santidade. Então, há um tipo de alma, há um tipo de graça destinada a este tipo de alma, e há uma conduta especial da Providência ajustada a este tipo de alma, dispondo dos acontecimentos terrenos produzindo-os, permitindo outros, de maneira que estas almas correspondam a estas graças e realizem, através da fidelidade à luz primordial, aquela forma de santidade à qual foram chamadas.

Os senhores vêem isto aqui de um modo esplêndido no que diz respeito a São Mayeul. Ele é preso pelos sarracenos e é interessante a gente ver de passagem que as pessoas daquele tempo procuravam viajar junto com os homens tidos como santos, certos de que eram mais protegidos do que quando viajavam sozinhos.

A gente vê o espírito de fé que isto representa. Eles foram viajar com este santo e na aparência Deus os iludiu, porque foram viajar com o santo e os sarracenos tomaram conta de todos. Portanto, a confiança que eles tinham posto no santo parecia uma confiança objeto de uma severa, de uma amarga desilusão.

Ora, o que é que foi que aconteceu? Que, presos, o santo, cheio de aflição, pediu a Deus que ninguém fosse morto e fosse atendido, e foi atendido.

Ora, um outro santo qualquer poderia dizer o contrário, pedir a Deus que neste momento desse a todos a palma do martírio, e que todo mundo fosse morto. Poderia pelo menos não pedir a vida para todos. Ele poderia ficar quieto e dizer que Deus dispusesse como quisesse. Mas é que todas estas atitudes — propriamente a de pedir a morte para os outros não, mas de pedir que venha a morte se os outros deverem pecar sim — correspondem a operações diversas da graça de Deus nas almas, e há modos, portanto, pelos quais legitimamente as almas santas respondem de modos diversos a estes acontecimentos.

Agora, o que é que aconteceu?

Ele foi atendido e todos aqueles homens não morreram. Portanto, a confiança que tinham depositado em Deus na pessoa dele, esta confiança foi justificada, e foi justificada porque realmente eles queriam não morrer e não morreram. Mas foi justificada por uma espécie de superabundância, porque eles não só não morreram, mas eles presenciaram uma série de maravilhas, que deve ter feito um bem enorme para as almas deles, e que é toda esta sucessão de milagres que nós vamos analisar agora.

Puderam privar com um santo. Deus, numa aparência de lhes tirar algo, de fato aquilo lhes deu. Deus age exatamente de modo oposto ao do demônio. Nós costumamos dizer que o demônio quando promete algo, é aquilo que ele vai tirar. Deus é ao contrário: quando parece tirar algo, é aquilo que Ele vai dar. De maneira que é preciso ter uma confiança enorme em Deus, porque Ele acabará dando aquilo que na aparência Ele está tirando.

Assim, também na aparência, Ele está pondo estes homens em risco de vida. De fato Ele deu a vida, e deu muito mais do que a vida, porque deu preciosíssimos dons espirituais.

* Peripécias na vida de São Mayeul mostram que a Providência quer também de nós uma confiança cega

Vamos analisar um pouco estes dons.

Eles viram o santo entrar em discussão com os hereges e viram a glória da religião manifestar-se pelo fato de os sarracenos não serem capazes de discutir e se irritarem, e então por esta forma viram a força dos argumentos da religião verdadeira.

Mais ainda.

Eles viram, entretanto, o santo sofrer uma prisão injusta. Ele foi algemado, foi duramente tratado por causa da defesa que ele fez da doutrina católica, mas eles viram outra coisa que é outra forma de glória de Deus e que é o fato de que o santo, lendo um livro que provavelmente vinha nas bagagens dele e que era o “Tratado da Assunção da Virgem Santa”, ter feito um pedido e ter sido atendido. Quer dizer, ele foi libertado, as algemas se quebraram e os muçulmanos ficaram estarrecidos com isto. Os senhores estão vendo, portanto, que é uma grande graça que Deus deu a esses homens…

Bom, depois Ele viu estes homens ficarem cheios de respeito para com o santo no qual não acreditavam e tiveram para com o santo toda espécie de atenções. Eles puderam medir a força da intervenção de Deus, vendo ser cortado o pé de um homem que tinha calcado aos pés a Bíblia. Ele puderam medir a maldade humana vendo que apesar disto os sarracenos não se converteram e eles puderam ver o castigo de Deus vendo que depois os sarracenos eram derrotados.

De maneira que, tendo posto a sua confiança no santo, eles foram atendidos com uma verdadeira superabundância, e daí decorreu ainda mais: é que ficaram estes fatos na História, há quase mil anos que estes fatos se deram e gente que eles nunca ouviram, num lugar que eles nem sabiam que pudesse existir, está lembrando com devoção nisto, num momento de grande aflição para a Igreja Católica.

Os senhores vêem, portanto, quanta coisa boa, quanta coisa santa resultou dessas peripécias, que na aparência eram coisas ruins que levaram ao insucesso, que levaram à desordem e que levaram ao não confiar na Providência Divina.

Qual é o resultado?

Como a gente deve confiar na Providência. Mas com um requinte: esta Providência quer que a nossa confiança seja cega. Diz-se que a justiça é cega; muito mais cega do que a justiça deve ser cega a confiança. É uma coisa que confia contra todas as evidências, que confia contra todas as aparências e se mantém fiel apesar de todas as circunstâncias em contrário.

Quando a pessoa passa longo tempo assim, confiando, confiando contra … [inaudível]… acumula para si um tesouro de misericórdia, um tesouro de recompensa, que nem é bom a gente dizer quanto é.

Pode-se simplesmente lembrar as palavras de Nosso Senhor: “Eu serei Eu mesmo a vossa recompensa demasiadamente grande”. E como Jesus está em Maria, são Jesus e Maria — Maria contendo Jesus — que serão a nossa recompensa demasiadamente grande.

* Ao contrário da filosofia de sucesso norte-americana, Deus nos dá a vitória através de muitos aparentes abandonos

Nós devemos pedir, portanto, esta confiança cega, na noite de hoje. Esta confiança que resiste a todas as evidências no sentido contrário, para a solução dos nossos problemas interiores, para obtermos misericórdia para com nossos pecados, nossos defeitos, para obter a graça para o progresso da santidade nos torvelinhos mais esquisitos e às vezes mais lamentáveis da vida espiritual.

Confiar, confiar, confiar sempre, lembrando o que dizia São Francisco Xavier: o pior do pecado não é o pecado; é que a alma perca a confiança depois do pecado e continue a pecar. Se o pecador não perder a confiança depois do pecado e continuar a confiar, ser-lhe-à dada a misericórdia. Mais cedo ou mais tarde, mas a misericórdia lhe será dada.

Também nas vicissitudes da nossa vida quotidiana, nas vicissitudes das nossas coisas de apostolado, o que é preciso é confiar.

Há uma filosofia do sucesso que é uma coisa muito norte-americana e que fala o seguinte: que tudo aquilo que nós fazemos tem que dar sempre um sucesso visível e palpável, e que todo insucesso é uma espécie de “mãe da natureza”, uma coisa que não devia existir e que indica que Deus nos abandonou.

Então, se nós tentamos, por exemplo, fundar uma escola e a escola se fecha, aquilo não devia existir, Deus nos abandonou. Se nós devemos, por exemplo, convidar alguém para fazer parte do Grupo e este alguém não consente, não devia ser, é esquisito, Deus nos abandonou. E assim por diante.

Nunca é este o modo de operar de Deus. Deus dá o sucesso através de muitos aparentes abandonos, pelo menos através de muitas catástrofes reais, mas que resultarão depois na vitória. E é essa aceitação das catástrofes intermediárias que nos dá o resultado pleno que nós devemos desejar. Às vezes até a gente começa algo e começam as catástrofes, catástrofes e não aquilo que a gente esperava. A gente vai ver depois, nem Nossa Senhora nos deu aquilo que a gente esperava, deu-nos outra coisa. Mas a gente vai ver, aquela outra coisa que Ela nos deu é incomparavelmente melhor do que aquilo que nós esperávamos.

De maneira que nunca acontece que uma confiança não seja coroada, que uma confiança não seja atendida, embora às vezes de um modo que supere as próprias exigências, os próprios pedidos da mais afetuosa e humilde confiança.

Quer dizer, portanto, de qualquer maneira e contra toda esperança esperar, esta é a fidelidade perfeita na virtude da confiança. E isto é o que se vê em todos os homens que acompanharam este santo.

Vamos pedir então a São Mayeul que ele nos conceda a graça de ver isto representado nos episódios de nossa vida e de compreender a mão de Deus nos guiando através dos túneis e dos precipícios mais desconcertantes, a providência de Nossa Senhora pairando sobre nós para nos dar sempre incomparavelmente mais do que nós desejamos.

Durante o mês de Maria, além… [inaudível] …Santo do Dia, vai ser colocada sempre uma referência a uma invocação a Nossa Senhora da qual seja dia em algum lugar do mundo nesse dia.

Assim, por exemplo, há um certo lugar no mundo onde no dia de hoje se celebra Nossa Senhora do Bom Sucesso, então têm uma referência a isto e depois também um pensamento piedoso sobre Nossa Senhora.

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