Santo do Dia – 4/5/1966 – p. 6 de 6

Santo do Dia — 4/5/1966 — 4ª-feira

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São Pio V

Hoje é festa de São Pio V, papa e confessor. Dele diz o martirológio que se aplicou com zelo e entusiasmo a restaurar a disciplina eclesiástica, extirpar as heresias e esmagar os inimigos do nome cristão. Ele foi inquisidor supremo, previsor da paz de Lepanto, contra os turcos. Sua relíquia se venera em nossa capela. Século XVI. Hoje festa também de Santo Ângelo, mártir. Carmelita, filho de judeus convertidos, combateu tenazmente as heresias. Em Roma predisse a São Francisco os estigmas e é por ele informado de seu próximo martírio. Em Leocádia é assassinado pelo Conde Berengário no próprio púlpito de onde o censurava por viver amancebado com sua própria irmã. Ferido de morte, de joelhos… expirando a rezar: im manos tuas. Século XIII.

Antes de passar ao comentário da biografia de São Pio X, que é a escolhida para a noite de hoje, é interessante referir, assentar aqui esse bonito fato: houve um momento em Roma em que se encontraram três santos: São Domingos, São Francisco e Santo Ângelo, fortuitamente. E como todos eles eram cercados de grande expressão de santidade, quando eles se viram, todos caíram de joelhos um diante do outro. E assim conversaram de joelhos. De maneira que ha até algumas estampas que representam os três santos conversando de joelhos, em veneração uns pelos outros. Isso é tão contrário à trivialidade democrática que entende que quando as pessoas são iguais se devem tratar por você, tapas na barriga, como é seu nome? Zé balão, não sei o que, e ditos, mora aqui, enfim dai para fora, e mais não podia ser, essa reverência entre os iguais, e profundo respeito entre os iguais, que é uma nota fundamental: não é a única, nem é a principal, mas é fundamental também do verdadeiro espírito democrático, espírito antidemocrático, anti-igualitário. Bem, por outro lado, é muito bonito a gente ver aqui cada santo fazer uma profecia sobre o outro. Santo Ângelo predisse a São Francisco que ele seria estigmatizado e São Francisco predisse a Santo Ângelo que ele ia ser martirizado. E isso repercute como boa notícia… dizer para o outro que vai morrer martirizado… o outro vai ter estigmas veneradíssimos, da paixão…

De tal maneira para esses homens sobrenaturais o sofrimento não significa nada. O que era ruim era ficar longe de Nosso Senhor. E todo sofrimento que aproximasse de Nosso Senhor era uma alta, legitimíssima fonte de alegria. Nesse deserto de hoje a gente lembrar que houve tempo em que havia santos vivos na terra e que podiam se encontrar os três, e pensar nessa conjugação de três santos conversando, são verdadeiros fioretti da história da Igreja a respeito do qual eu nunca penso sem extasiar-me, sem me deliciar. De maneira que aqui fica essa pequena referência contida na noite de hoje.

Vamos passar agora a consideração de aspectos da vida e da personalidade de São Pio V.

Miguel Ghislieri, futuro São Pio V, foi nomeado superior de numerosos conventos, e… [faltam palavras] …logo o relaxamento, corrigindo abusos, mantendo a disciplina. Com ele pareceram ressuscitados os Pacômios e os… [faltam palavras] … Onde se encontrasse fazia reviver o espírito de São Domingos em toda sua pureza e fervor. Era notável sua assiduidade nos exercícios do claustro — no exercício divino, destacava-se por sua humildade sincera, por seu amor à solidão, ao silêncio, à pobreza, à mortificação e seu zelo contra as heresias de seu tempo. Por isso foi feito inquisidor da fé em Como. Cumpriu seu ofício com prudência… [faltam palavras] … correndo risco de vida. Em 1557, Carlos IV o fez cardeal. Foi ao Sacro-Colégio agradecer ao pontífice. Ou melhor, em 1557, Paulo IV o fez cardeal. Todo o Sacro-Colégio agradeceu ao pontífice por lhe ter dado um tão digno colega. Malgrado suas numerosas ocupações, o agora cardeal Ghislieri era imensamente afável, quer com aqueles que vinham tratar de negócios sérios, quer com os que vinham importuná-lo…

A ninguém jamais fez recusas, foi recusada uma audiência e o todo de sua conduta, como suas menores atitudes, faziam compreender que Deus o elevava dia a dia, a fim de que dessa altura ele pudesse servir, instruir, edificar o maior número de pessoas. Eleito papa, Pio V reuniu todos os dignitários e domésticos de sua casa, prescreveu-lhes… [falta palavra] …regras de conduta, declarou que esperava deles, segundo seu estado, e advertiu que não aceitava nenhuma infração aos princípios de uma piedade exemplar. E ele dava exemplo. Austerissimo consigo mesmo, não abandonava suas vestes de monge sob os trajes pontifícios, nem mesmo sob a dura enxerga que lhe servia de leito. Todas as noites fazia uma longa visita aos sete altares da igreja de São Pedro.

Que cena bonita! A igreja de São Pedro já fechada, e o papa, santo, indo de altar em altar para rezar na solidão da igreja. Seguido, provavelmente, por uma ou duas pessoas que conduziam velas, alguma coisa assim, e rezando longamente. Que cena maravilhosa!

Em conjunturas importantes, passava noites inteiras de joelhos, consultando a Deus sobre suas.

[Pergunta do auditório.]

É dominicano.

Seu selo, no lugar do escudo, trazia esse versículo de um salmo: possam meus caminhos estar dirigidos e guardar a vossa justiça. E para não se afastar nunca do sofrimento de Cristo tinha sempre diante de si sobre a mesa, uma imagem de Nosso Salvador na Cruz, ao redor da qual estavam escritas essas palavras de São Paulo: Longe de mim gloriar-me senão na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Dirigindo-se a cardeais, notou-lhes que o meio mais seguro de apaziguar a cólera de Deus, de deter os hereges que atacavam a Igreja, os muçulmanos que estendiam seu império da barbárie, era em primeiro lugar regular… [faltam palavras] …e suas casas. É a vós, dizia, que Cristo dirige-as palavras: Vós sois a luz do mundo, vós sois o sal da terra. Roma era publicamente devorada pelas cortesãs e pelos judeus. Pio V publicou um edito muito rigoroso contra as primeiras, banindo-as de Roma e dos estados pontifícios, chamando-as as pestes da república (respublica, não república.) Contra os judeus que faziam comércio com horóscopos e penetravam nas famílias para aí promover todas as libertinagens e precipitá-los na ruína da usura, o papa baniu-as das terras da Igreja, com exceção de Roma e Ancona, porque aí eram julgados indispensáveis para manter o comércio com o levante. Esse comércio interessava…

Mas, a fim de dificultar o mais possível suas práticas criminosas, foram confinados num bairro à para parte — gueto — com a proibição de saírem sem um chapéu cor de laranja, com essas palavras… [faltam palavras] …e também, quando era noite fechada, não podiam entrar em casa de cristão… [faltam palavras] …segregacionismo…

Depois de seis anos de um pontificado cheio de lutas, entre os quais destaca-se o esforço do papa contra os turcos e a obtenção da vitória de Lepanto por sua oração a Nossa Senhora do Rosário, Pio V passou a ser objeto de ódio por parte dos inimigos da Igreja. Tentaram matá-lo, empregando para isso os meios mais pérfidos. Uma vez, por uma estratagema tão [covarde?] contra o sacrilégio, secundados por uma odiosa traição, passaram veneno nos pés do crucifixo que o santo tinha em seu oratório.

Isso é uma infâmia! Matar um papa, um papa santo, matar na hora em que ele vai beijar o crucifixo, e pôr o veneno no próprio crucifixo, são requintes da infâmia…. O sujeito é um precursor do século XX…

Então, que beijava com freqüência. Como se preparasse para sua homenagem diária à sagrada imagem, eis que os pés do crucificado destacam-se da cruz e como que afastam do respeitoso ancião. Pio V compreendeu então que a malicia de seus inimigos transformara então para ele em instrumento de morte… [faltam palavras] …que nos deu a vida. No leito de morte, lançando um último olhar à Igreja da terra que ia deixar pelo céu, e querendo implorar uma última vez a divina bondade em favor do rebanho que deixava exposto a tantos perigos, recitou com uma voz quase apagada essa estrofe dos hinos do tempo pascal: Criador do homem, dignai-vos… [faltam palavras] …repletos das alegrias da Páscoa, preservar vosso povo dos assaltos da morte. Tendo acabado essas palavras, dormiu suavemente no Senhor.

É tão bonita, são tão bonitos esses dados tirados do D. Guérenger, L’Année Liturgique e do Rohrbacher, Historie Universelle de l’Eglise Catholique, que agente tem dificuldade em os comentar. Nós podemos em alguma coisa tomar nota da fisionomia dele. Em primeiro lugar essa coisa que nós temos comentado tanto aqui, a distinção entre o briguento e o lutador, o indivíduo lutador é aquele que luta por príncipes, ele nunca faz uma briga por razoes de caráter individual. No campo dos interesses individuais, ele tolera, ele suporta, ele perdoa, ele é longânime, ele não se incomoda com nada. Mas no campo da doutrina e dos interesses da Igreja Católica, ele é um leão. E aí ele é verdadeiramente indomável. E aí ele pode ser considerado uma fera porque o próprio Nosso Senhor Jesus foi chamado pela Escritura “Leão de Judá”. E sempre que daí, quando alguém é muito briguento, é pouco lutador, quando é muito lutador, é pouco briguento. Luta o que luta pela Igreja, briga aquele que briga por seus interesses pessoais. Os senhores estão vendo aqui São Pio V. Afabilíssimo, modelo de afabilidade. Naquele tempo, os senhores podem considerar, era uma época de renascentismo, uma vida de corte muito desenvolvida — todos os prelados eram importunados por um mundo de cacetes iam fazer pedidos, iam fazer visitas supérfluas, atrapalhava a vida do prelado debaixo de várias maneiras — paciência completa, recebendo todo mundo de modo edificante, maravilhoso. Mas isso é porque atrapalhava a vida dele e atrapalhava a vida dele estava em jogo ele. E estando em jogo ele, estavam em jogo interesses dele e os interesses dele não eram nada, porque nenhum de nós diante de Deus é nada, é algo. Nós não somos nada, nós não somos ninguém. E por causa disso a nossa preocupação é de sacrificar nossos interesses individuais, as nossas conveniências, a nossa vontade à causa católica. Agora vejam, quando se trata de moral, vejam quando se trata de doutrina, como a severidade a mais extrema, a mais infatigável, a mais contínua é o traço distintivo desse homem. Do começo a fim, numa época de relaxamento moral, numa época de abandono de todos os princípios, de esboroamento da Cristandade, época da renascença, nessa época como ele representa a moralidade firme. Os senhores vêem que começa por aí. Ele entra no convento. Qual era a meta característica? Destacava-se pela humildade sincera, pelo amos à solidão, ao silêncio, à pobreza e à mortificação. O lutador gosta da solidão, gosta do silêncio, gosta da pobreza e da mortificação. Pelo contrário, o briguento não. Prestem atenção gente briguenta nunca gosta do estar sozinho. Gosta sempre de estar perto dos outros atazanando…

Está bem, mas é como se tivesse pisado… [faltam palavras] … Você está me chamando de mentiroso… [faltam palavras] …e você não toma a sério, você não… [faltam palavras] …minha palavra. Não, mas tenha paciência, ou acredito na sua palavra, você se enganou. Sofista, você está me negando e está dizendo que entretanto acredita na minha palavra no momento mesmo em que você… [faltam palavras] …em poucos minutos não se pode dizer… [faltam palavras] ….

Está bom, meu caro, então você viva naquele quarto, que eu vivo nesse. Está vendo? O que você está querendo é se isolar de mim. Diz a Escritura que e melhor a gente morar numa casa com goteiras do que com uma mulher litigiosa, uma mulher briguenta. Porque a goteira e parada e a mulher vai saindo atrás do homem pela casa. A pessoa briguenta tem muito disso. O lutador, não. O lutador se isola, o lutador se concentra, o lutador tem princípio, ele pensa. E quando chega a hora de falar, ele fala mesmo. Aí os senhores têm um santo verdadeiramente lutador. E ele já era já notado por seu zelo contra as heresias, mas heresias do tempo dele. Eu conheci professores de seminário… [faltam palavras] …para refutar a heresia dos montanistas, dos nonatistas. Dizia-se: esse aí é um monstro. Fazia aulas com uma energia contra Ario, mas uma coisa extraordinária. Mas incapaz de protestar contra o vereador do bairro que propusesse uma lei imoral qualquer. Não, aí não. Quer dizer, corajosos retrospectivos. Isso havia: hoje não há mais disso, mas havia isso. Bom, feito cardeal, qual é a preocupação dele? É da luta — ele foi nomeado ao mesmo tempo inquisidor — é a luta contra a inquisição, ou melhor, a favor da inquisição, contra os hereges. Feito papa, recomeça a luta contra a falta da austeridade. Primeiro chama todos os dignitários domésticos de sua casa, prescreve regras de conduta. Naquele tempo de renascimento era exatamente para acabar…

Porque tem que ser sério, tem que ser austero, não pode andar com carinha assim sorrindo, pimpona, que tanto a gente vê em meios augustos e veneráveis, não tem nada de… [faltam palavras] … Porque naquele tempo era o contrário do… [faltam palavras] …de hoje. Era batina de seda… [faltam palavras] …batina de seda preta rendada, quase como saia balão como se fosse uma senhora… [faltam palavras] …femininos adamados, cabelinhos arranjados, dois, três anéis nos dedos etc. Acaba com isso. Porte-se como um ministro de Nosso Senhor Jesus Cristo que conduz consigo o… [faltam palavras] …de Cristo crucificado. Bem, e ele mesmo usava, como todos acabavam de ouvir, a batina dele de dominicano, debaixo dos trajes pontificais. E dormia vestido de dominicano. Isso se observa em várias ordens religiosas, de se dormir com o habito religioso, para trazer o hábito eclesiástico até na hora de dormir. Isso é tão diferente… [faltam palavras] …como mais eu não saberia dizer. O monsenhor Silva foi secretário de D. Duarte Leopoldo, que foi um antigo arcebispo de São Paulo. Dr. Azeredo, Dr. Paulo, D. Paulo, Dr. Fernando, eu, alguns outros aqui, ainda alcançamos D. Duarte. Bem, ele conta que D. Duarte foi acometido de um ataque cardíaco durante a noite. E então, ele dormia de pijama. Ele tocou a campainha para chamar o secretário. Antes do secretário chegar, ele já tinha posto a batina e estava deitado de batina na cama. Quer dizer, isso aí é o senso eclesiástico. Nunca se apresentar, nem sequer à intimidade de seu próprio secretário, sem o traje talar. Isso é muito diferente do espírito do clérigo, ou melhor. Que isso é muito diferente do espírito do clergyman, ninguém pode negar.

Bem, os senhores viram que ele atribuía toda a tristeza da Igreja no tempo dele: à devastação que o protestantismo continuava a fazer, o espírito da renascença, o neopaganismo, a imoralidade, os avanços dos turcos que ameaçavam a Igreja, que ele atribuía tudo isso aos pecados que eram cometidos dentro da própria Igreja. E que ele atribuía particularmente isso aos cardeais. De onde então ele dizer aos cardeais que a reforma de vida devia começar pela reforma deles. Os senhores dirão: Mas Dr. Plínio, aqueles cardeais daquele tempo eram bem parecidos com cardeais de outros tempos, não? Eu digo: é verdade, com uma pequena diferença, mas essa diferença é pequena como o tamanho que vai da terra ao céu. É que os cardeais daquele tempo tinham uma porção de defeitos, mas quando um cardeal Ghislieri era eleito para o Sacro-Colégio, eles iam agradecer ao papa, e depois elegiam esse cardeal papa. Não é pequena a diferença…

Bem, os senhores viram a medida dele contra as cortesãs, quer dizer, as “fassuras” profissionais.

Aqui em São Paulo, a Confederação das Famílias Cristãs, protestou contra o confinamento. É a favor da disseminação da praga pela cidade inteira. Ele, pelo contrário, expulsa essa gente de Roma. E, por outro lado, os senhores viram com os judeus,que medida sábia: se nós quiséssemos montar uma fábrica de chapéus cor de laranja para os judeus, e depois, de chapéu pretos para protestantes, e de gorro amarelo para os cismáticos etc., etc., como seria interessante. Mas nós levantaríamos contra nós uma celeuma tremenda, não é a cólera dessa gente só, é a cólera dos próprios católicos liberais.

Bem, por fim os senhores conhecem o famoso episódio da visão dele, quando ele viu Nossa Senhora Auxiliadora desbaratar em Lepanto as naus dos turcos. E aqui ha uma relação entre a “Bagarre” e esse episódio da vida de São Pio V. Com efeito, São Pio V viu Nossa Senhora desbaratar as naus dos turcos, e na visão que São João Bosco teve Nossa Senhora Auxiliadora estava presidindo, do alto de uma colina… [faltam palavras] …estava presidindo uma batalha em que por sua vez, como em Lepanto, eram completamente dispersadas as naus dos adversários. Quer dizer, eram dispersados os exércitos dos adversários. Quer dizer, eram dispersados os exércitos dos adversários. São Pio V viu uma vitória prefigurativa da vitória que nós devemos ver. Ele viu Lepanto que foi um triunfo no tempo dele, e que era a prefigura do que era a vitória de Nossa Senhora para acabar com a “Bagarre” e para implantar o Reino de Maria. O que é que nós podemos pedir a são Pio V na noite de hoje? Que ele faça vir quanto antes esses acontecimentos, para que venha logo o Reino de Maria, e nós possamos ver uma Lepanto imensamente maior do que a Lepanto dele, para a glória de Nossa Senhora, que com tanto amor ele serviu. Essa é a intenção nossa para a noite de hoje.