Santo do Dia – 3/5/1966 – p. 3 de 3

Santo do Dia — 3/5/1966 — 3ª-feira

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Invenção da Santa Cruz

Invenção da Santa Cruz — é a festa de hoje — por Santa Helena, mãe de Constantino. Comentário de Dom Guéranger:

Jamais Satanás experimentou fracasso tão doloroso, como aquele que se abateu sobre ele, quando viu que o madeiro, instrumento de nossa perda, tornar-se o instrumento de nossa salvação. Sua raiva impotente voltou-se contra essa árvore salvadora, que lhe recordava tão cruelmente… [faltam palavras] …do homem resgatado por tal preço.

Ele queria aniquilar essa Cruz, mas, sentindo-se impotente para realizar um desígnio tão culpável, tentou, ao menos, profanar e ocultar a todos os olhares um objeto tão odioso para si. Ao pé do Calvário, não longe do Sepulcro, abria-se uma profunda escavação. É ali que os homens da Sinagoga precipitam a Cruz do Salvador, com as dos ladrões. Os pregos, a coroa de espinhos, a inscrição destacada da Cruz iriam reunir-se a ela nesse fosso, que os inimigos de Jesus vão encher de terra e escombros.

O Sinédrio pensa, assim, apagar a lembrança desse Nazareno. Em breve os lugares de nossa redenção estavam manchados pela superstição pagã: um templo a Vênus sobre o Calvário, um outro para Júpiter sobre o Santo Sepulcro, tais foram as indicações pelas quais a ironia pagã conservou, sem saber, as lembranças das maravilhas que… [faltam palavras] …sobre o terreno sagrado.

Com a paz de Constantino, os cristãos destruíram esses vergonhosos monumentos e descobriram o túmulo glorioso. Mas a Cruz não se revelou, continuando a repousar na terra. A Igreja só entraria na posse do instrumento da salvação dos homens anos após a morte de Constantino. O Oriente e o Ocidente comoveram-se à nova dessa descoberta, concedida pela persistência de Santa Helena. Cristo selava seu império sobre o mundo pagão, elevando seu estandarte real, esse madeiro maravilhoso… [faltam palavras] …, loucura aos olhos dos gentios, ante o qual todo cristão, desde então, dobrará os joelhos.

Esses são os comentários de Dom Guéranger.

Agora, Catharina Emmerick, em suas “Visões e Revelações Completas”, declara o seguinte: de que Santa Helena mandou destruir o templo que estava sobre o Santo Sepulcro, mas os judeus não queriam fazê-lo. Mas levantou-se uma espantosa tormenta e varreu dali todos os escombros e também muitas casas de judeus construídas ao redor. Então, apossou-se dos judeus um grande temor e começaram a trabalhar. … [faltam palavras] …não?

Eu tenho impressão de que esse aspecto do histórico da Cruz, evocado por Dom Guéranger, é uma coisa que diz muito como símbolo de muitos aspectos da História da Igreja. Os senhores imaginam isso: termina a Crucifixão, Nosso Senhor é tirado da Cruz, o cadáver d’Ele é entregue aos desvelos de Nossa Senhora e das santas mulheres, de São João Evangelista e de outros, que usam ungüentos, embalsamam, preparam para a sepultura, etc. E ao mesmo tempo que se dão essas coisas e que Nosso Senhor vai ser sepultado, ao mesmo tempo ou mais ou menos ao mesmo tempo, então, os perseguidores de Nosso Senhor fazem isso: abrem um fosso e pegam os restos da Paixão: escada, os cravos, a coroa de espinhos, a Cruz e jogam tudo no fosso e tapam para que disso não perdure memória nenhuma. E sobre isso, para sepultar a Cruz, constrói-se, então, um templo pagão em cima desse lugar. Os senhores vêem que é uma coisa horrorosa, tanto mais que ele fala aqui de um templo pagão construído em louvor de Vênus e outro templo pagão construído em honra de Júpiter, sendo que, sobre o Calvário, que era o local aonde a Cruz, quer dizer, o sofrimento, a renúncia a todas as volúpias da terra se tinham levado, ali o demônio fez, muito adequadamente para a infâmia dele, um templo a Vênus. Porque realmente era preciso erguer um templo à luxúria, à impureza, para sepultar a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Bem, está sepultada, faz-se o deserto em torno do lugar. Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscita, os Apóstolos se dispersam, os anos passam, os séculos passam e a Cruz continua sepultada, continua sepultada com a coroa de espinhos, continua sepultada com todo o resto. Até se esquecem, as pessoas, de onde estava o Santo Lenho, de onde estava a Santa Cruz, ninguém mais pensa nisso e está acabado, e se diria que tudo está perdido. Afinal, passados os séculos, nas noites daquela terra, aonde apenas entrariam vermes, passaria, talvez, algum pequeno curso de água, alguma umidade, alguma coisa estragando a Cruz, esta história da Cruz sepultada, ignorada, abandonada, esquecida… perdido o rastro da Cruz. Entretanto, chega um determinado momento, Constantino vence! Constantino vence, Santa Helena faz a invenção da Cruz, atestada por meio de milagres que não deixam dúvida nenhuma de que era a verdadeira Cruz. Então, a verdadeira Cruz é tirada de lá, com uma honra sem igual, com procissões famosas, e até hoje ela é respeitada e venerada no mundo inteiro. Pedaços da Cruz nos anéis dos bispos, nas cruzes peitorais dos bispos do mundo inteiro; pedaços da Cruz na coroa dos reis, pedaços da Cruz nas maiores catedrais da Europa; da coroa de espinhos, para abrigar, se não me engano, um cravo ou dois, um espinho da coroa de Nosso Senhor, São Luís levantou a maior maravilha arquitetônica de todos os séculos, a meu ver, que é a “Sainte-Chapelle”.

Então, nós estamos em presença do quê? Um “resíduo voltará!”. A história da Cruz é a história do ultramontanismo, é a história da ortodoxia pisada, ferida, negada, espezinhada; dir-se-á que ela não volta mais, mas ela sempre volta de novo. Quer dizer, mais de uma vez, “residuum revertetur”, quer dizer, um resto voltará de novo. Quer dizer, são os novos triunfos, depois das humilhações, e triunfos cada vez maiores, seguidos de humilhações cada vez maiores. Os senhores dirão: “Doutor Plinio, com a Cruz não se dá, no momento, humilhação nenhuma. Ela, no momento, está adorada, venerada pela terra inteira, ela está quase tão respeitada como no tempo da Idade Média. Dir-se-ia, na aparência, que isso é verdade. Mas, quando nós percebemos todas as humilhações que a Igreja sofre hoje, quando nós pensamos na afirmação do Marcel de Corte, este grande intelectual católico, cujos textos eu tive ocasião de ler agora, na reunião, escrevendo na revista… [faltam palavras] …, que hoje há duas religiões dentro da Igreja Católica, e que há uma religião que é um misto de Cristianismo em decomposição e de ateísmo nascente, e que se chama o progressismo, e que vive leprosa dentro do seio virginal da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Nós compreendemos quanto falso culto, quanto ato de irreverência, quanto desprezo da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo está nisso tudo. Tanto mais que a Cruz de Nosso Senhor é um símbolo, e o desprezo da Cruz é menos o desprezo do madeiro do que o desprezo à glória do espírito de sacrifício que a Cruz representa. Em nenhuma época da História, infelizmente, os católicos estiveram tão longe daquilo que São Luís Maria Grignion de Montfort fala: a loucura da Cruz. Os senhores compreendem, por aí, como a Cruz está novamente pisada, está novamente calcada aos pés. Mas Nossa Senhora nos dará a graça de, quando chegar o Reino d’Ela — que vai ser evidentemente o Reino do Coração d’Ela, mas, no centro do Coração d’Ela, está a Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo — nessa ocasião nós assistirmos a um novo triunfo da Cruz. E a implantação, bem no meio do mundo do Reino de Maria, da Cruz escura, seca, preta, sem ornatos de Nosso Senhor Jesus Cristo, representando o sofrimento, o sofrimento [da] renúncia a si mesmo, o espírito de mortificação, o espírito de austeridade, sério e que vai até o fim, e aceita completamente o sacrifício. É esse o espírito da Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eu proponho, portanto, que nós nos dirijamos agora à reprodução da Cruz que está aqui — os senhores sabem que tem um papel em nossa história, porque foi uma das cruzes do Congresso de Serra Negra — e que nós rezemos aí.

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