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Reunião Normal ─ 1/5/66 ─ Domingo
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“A Sabedoria vem a ser em última análise o desejo de nós conhecermos as últimas e mais altas verdades, a respeito de nós e do universo” * A finalidade da sabedoria mundana é de encontrar nesta vida a felicidade. As duas sabedorias: a do libertino e a do moderado * Pode-se desejar ser mais nesta terra para de algum modo participar da excelência de Deus, mas para um proveito espiritual, não terreno * Modos diversos de conceber a felicidade terrena: ser rico, ter boa saúde, boa cultura, ser um crítico exímio, galanteador esperto etc. * Uma conversa entre um casal que reflete duas concepções da vida: uma antiga, egoísta e inteligente, a outra nova, burra e pré-diabólica * Um tipo de homem que era apreciado pelo mundo: “l’honnet homme”. A honestidade não era o reflexo das virtudes morais
* “A Sabedoria vem a ser em última análise o desejo de nós conhecermos as últimas e mais altas verdades a respeito de nós e do universo”
(…) Que se presta tão bem a comentários que são espirituais e também de caráter sociológico, de um lado para ver como era a mentalidade de São Luís Grignion, e apanhar bem como ele era inteligente, penetrante, perspicaz, e como ele era capaz de sentir os fenômenos psico-sociais dos quais se fala hoje com tanta complicação, como ele era capaz de sentir a fundo.
E de outro lado porque é uma verdadeira ilustração da Revolução tendenciosa A, como na RCR se concebe.
De maneira que pelo lado espiritual, mas também por causa dessas aplicações, me parece que é muito interessante a gente fazer um comentário deste texto.
É preciso para a gente entender bem a coisa, ter em vista o que é que ele vem falando antes. O Tratado é sobre a Sabedoria, e ele mostra que a Sabedoria enquanto virtude, é a rainha de todas as virtudes e diz mesmo num dos seus trechos formalmente que ela é uma virtude que prepara condições até para a pessoa receber a Fé, a Esperança e a Caridade.
Bem, e que todo o outro edifício das virtudes, as virtudes cardeais e as outras virtudes são afinal de contas refrações desta virtude da Sabedoria.
Agora, o que é que vem a ser a Sabedoria. A Sabedoria vem a ser em última análise o desejo de nós conhecermos as últimas e mais altas verdades, a respeito de nós e do universo, para nós entendermos qual é o nosso fim, mas nosso fim visto na sua mais alta e no seu mais sublime aspecto, o fim de todas as coisas e trabalharmos nessa direção.
É uma virtude portanto que tem um aspecto intelectivo que tem um aspecto volitivo.
Esta virtude faz do homem o verdadeiro católico. Quer dizer, o homem que em face dos problemas dessa vida compreende que esta vida não é senão um ensaio para a vida futura e uma prova para a vida futura. E compreende que nesta vida não pode ter a sua felicidade. E que põe portanto toda a sua felicidade na esperança de uma vida futura. Crê nessa vida futura. Sabe que essa vida futura é a contemplação de Deus Uno e Trino e entende que esta contemplação sacia aquela felicidade de que a alma humana é tão profundamente apetente.
Este é portanto o verdadeiro varão católico, que tem uma sabedoria própria que como os senhores vêem bem, é uma sabedoria fundamentalmente religiosa, e que governa religiosamente todos os atos de sua existência.
É de outro lado uma sabedoria religiosa no sentido de que põe tudo em Deus e desta terra espera muito pouco. A única forma de felicidade que o homem tem nesta terra consiste em saber exatamente que Deus existe e que ele vai gozar de Deus no outro mundo. Porque do contrário o mundo seria um absurdo, seria uma verdadeira vida terrena, seria uma verdadeira aberração. Com provações, com sofrimentos, com incertezas, com as angústias que ela tem.
* “Saúde é um estado precário que termina mal”
Outro dia numa revista francesa eu li por exemplo esta definição de saúde que até contei aqui porque achei espirituosa, diz: “saúde é um estado precário que termina mal.”
Termina na morte, e a morte é uma catástrofe para todo mundo. E no gênero próprio é uma suprema catástrofe que envolve o desaparecimento de todas as coisa. Então a função dessa voragem da morte afinal de contas o que que é a vida terrena?
Nós naturalmente pensamos muito pouco nessas coisas porque queremos afastar de nosso espírito a idéia da morte. Não só afastar a idéia da morte, mas afastar a idéia da precariedade da felicidade neste mundo.
Tomem o homem mais feliz do mundo. Basta que ele tenha a possibilidade que existe de qualquer sintoma que ele sinta na sua saúde representar o começo de uma doença sem fim, e de uma doença que pode levar a morte para compreender como tudo isto é precário.
Outro dia por exemplo, eu fiquei espantado ─ era um domingo, um dia que eu dispunha de um pouco mais de tempo ─ e eu li aquela secção médica do “Estado de São Paulo”. Eu verifiquei uma coisa que eu não contava.
Eu sempre pensei que o sujeito que morresse de repente por causa orgânica, morria por uma doença que tinha preparado, minado o organismo dele sem ele saber, mas que a morte propriamente repentina não era. Era repentina para os que não perceberam que ele estava doente, para ele mesmo que não percebeu que estivesse doente. Mas que a morte era sempre o fim de um processo. Como é na moral, o pecado mortal é sempre o fim de um processo.
Qual o quê?! Pela notícia do “Estado de São Paulo”, depois eu sondei uns dois ou três médicos entre os quais o nosso preclaro Edwaldo. Não é nada disso. O sujeito pode estar perfeitamente são, de repente uma bolinha se põe em movimento e o sujeito morre. E não é doença, na saúde mesmo morre, está acabado.
Os senhores vêem a precariedade: ─ nós temos aqui neste auditório umas vinte pessoas ─ nessas vinte pessoas em uma é possível que nesse momento a bolinha esteja se movimentando e é possível que eu antes de terminar a frase ela tenha chegado até a minha cabeça. Então eu morrendo os senhores dirão que eu tive pressentimentos que eu ia morrer, mas não é verdade. Foi pura coincidência. Porque eu não estou tendo nenhuma sensação de que vou morrer agora, mas de repente a tal bolinha se põe em marcha e acabou-se. Taí, como é o negócio.
* A finalidade da sabedoria mundana é de encontrar nesta vida a felicidade. As duas sabedorias: a do libertino e a do moderado
Então a Sabedoria cristã, a Sabedoria católica se constitui em face disto.
Agora existe uma sabedoria do mundo. Nós ouvimos aqui neste auditório várias conferências sobre o mundo, eu pretendo não fazer mais uma conferência sobre ela.
A sabedoria do mundo é afinal de contas aqueles que a acham que o homem pode encontrar nesta vida uma felicidade suficiente. Que as condições desta existência lhes dão uma verdadeira felicidade. Que o mundo como tal, a existência terrena como tal é capaz de dar ao homem uma verdadeira felicidade.
Os senhores estão vendo que são duas sabedorias que se opõem per diametrum. E São Luís Grignion de Montfort depois de ter falado alguma coisa da verdadeira Sabedoria, ele trata da sabedoria mundana que é a falsa sabedoria.
Então ele tem um trecho muito curioso sobre a falsa sabedoria que apresenta a coisa da seguinte maneira.
Há duas falsas sabedorias, ou duas sabedorias mundanas. Uma é a sabedoria do libertino que pensa encontrar a felicidade nos prazeres depravados, nas orgias, nas alegrias excessivas, na corrupção. E outra é a sabedoria mundana moderada, a qual está para a sabedoria, entre a Sabedoria católica e a sabedoria libertina exatamente como a Democracia Cristã está entre o comunismo e a posição verdadeiramente católica. Quer dizer, aparentemente intermediária, mas de fato cobrindo a posição libertina, e favorecendo as coisas para que as pessoas tomem uma posição libertina sem serem inteiramente libertina.
Então, é o semi contra-revolucionário apresentado com toda a sua nitidez em função desta questão das várias Sabedorias.
E eu vou então ler o trecho dele a esse respeito porque me parece que se presta algum comentário, algumas visualizações interessantes.
Então é o capítulo VI, vem uma frase que serve de epígrafe a todo o capítulo e à a seguinte:
Faz a sabedoria do mundo. Se queremos a verdadeira Sabedoria de Deus devemos não ser enganados pela sabedoria mundana.
E agora passa o texto dele:
Deus tem a Sua Sabedoria. É a única e verdadeira, que deva ser amada e procurada como um grande tesouro. Mas o mundo corrompido também tem a sua sabedoria, e ela deve ser detestada e condenada como má e perniciosa.
Os filósofos tem também a sua sabedoria, e ela deve ser desprezada como inútil e muitas vezes como perigosa para a salvação.
Nós até aqui falamos da Sabedoria de Deus para as almas perfeitas como diz o Apóstolo. Mas de medo que ela sejam enganadas pelo falso brilho da sabedoria mundana, nós vamos mostrar-lhe a impostura e a malignidade desta.
* A sabedoria mundana se distingue da sabedoria dos filósofos
Os senhores notem que a sabedoria mundana que ele fala é distinta da sabedoria dos filósofos. Quer dizer, não é propriamente a sabedoria de um filósofo, não é uma escola filosófica, mas é aquilo que se chama o bom senso mundano, o senso comum mundano.
Que é uma espécie de concepção da vida, do homem, das coisas que toda pessoa de alguma cultura tem mais ou menos conscientemente, e que as pessoas sem cultura tem de modo subconsciente. Mas que forma o que os alemães chamam até hoje “uma consideração conjunta do universo”.
Essa sabedoria conjunta que ele vai falar não é portanto a dos sábios, não é portanto a filosofia que se estuda nas escolas, mas é esta mentalidade dos mundanos, esta concepção do mundano a respeito da vida.
Então ele diz:
A sabedoria é aquela (a mundana) da qual está dito “que eu perderei a sabedoria dos sábios segundo o mundo” e que a sabedoria da carne é inimiga de Deus. Esta sabedoria não vem do céu, mas é uma sabedoria terrestre, animal e diabólica.
Vejam os epítetos com que ele qualifica essa espécie de senso moral mediano, senso moral de terceira força, moderado em matéria de moral e religião, que domina, dominava já o mundo no tempo dele e que dominará cada vez mais o mundo a medida que a Revolução for se desenvolvendo. Então diz o seguinte:
Esta sabedoria do mundo consiste com uma perfeita conformidade com as máximas e as modas do mundo.
* O número daqueles que não erguem barreiras à sabedoria do mundo pertence à casa dos milhões
Vejam bem. Então são centenas, de milhares, de milhões de pessoas que estão resolvidas a concordar com as máximas e as normas do ambiente em que estão. Que não reagem contra o ambiente em que estão, que não lutam contra o ambiente em que estão, mas que aceitam a nota dominante do ambiente, a nota do mundo em que elas vivem. Esta permeabilidade, não é isto, a esta mentalidade é um dos defeitos da sabedoria do mundo. E ele trata isto então de uma sabedoria terrestre porque só cuida das coisas da terra, uma sabedoria animal porque só se preocupa com o bem estar do corpo e da matéria e uma sabedoria diabólica, porque isto evidentemente conduz no fim a uma completa sujeição da alma ao demônio. Então:
É uma tendência contínua para a grandeza e para a consideração dos outros. É uma procura contínua e secreta de seu próprio prazer e de seu próprio interesse. Não de um modo grosseiro e aberrante cometendo algum pecado escandaloso, mas de um modo fino, enganador e político. De outra maneira não seria mais segundo o mundo uma sabedoria, mas uma libertinagem.
Quer dizer, esta gente que é assim não comete pecado escandalosos. Como os libertinos, eles vivem também exclusivamente para a sua vaidade, para os seus prazeres, para o seu interesse. Mas é um pessoal que oculta isto, e que se considera sábio em função do libertino. Olha para o libertino e diz: “olha aqui este doido, cabeça estourada, nós não, nós somos criteriosos, nós não vamos tão longe. Fazemos nossos pecados escondidos mas não tem conseqüência. O horroroso é ter conseqüência.”
Agora ele vem então qualificando o que que é um sábio segundo o mundo.
* Os dez mandamentos da sabedoria mundana segundo São Luís Maria Grignion de Montfort
Um sábio do século sabe cuidar bem de seus negócios, e seus afetos são todos os seus interesses. E sabe levar todas as coisas com vistas ao seu próprio interesse temporal sem quase parecer que está fazendo. Que conhece a arte de disfarçar e enganar finamente os outros sem que os outros percebam isto. Que diz ou faz uma coisa e pensa outra. Que não ignora nada dos ares e das reverências do mundo. Que sabe acomodar-se a todos para chegar ao seu próprio fim, sem se pôr muito em preocupação com o que diga respeito a honra e aos interesses de Deus.
Que faz secretamente um acordo mais funesto entre a verdade e a mentira, entre o Evangelho e o mundanismo, entre a virtude e o pecado, entre Jesus Cristo e o demônio. Que quer passar por um homem honrado mas não por um carola. Que despreza, envenena e condena todas as práticas de piedade. Que não se incomoda com as suas próprias práticas. Enfim, um sábio mundano é um homem em que não se conduzindo pela luz dos sentidos e da razão humana, não procura senão cobrir com a aparência de cristão e de homem honesto, sem se pôr muito em pena de agradar a Deus e de espiar pela penitência os pecados que ele cometeu contra a sua Divina Majestade.
A conduta deste sábio do mundo é fundada sobre o ponto de honra. Sobre o que vão achar. Sobre o costume. Sobre uma boa comida, sobre o interesse, sobre os ares imponentes e sobre a palavra engraçada.
São estes os sete móveis inocentes como se poderia imaginar, sobre os quais ele se fixa para manter uma vida mais tranqüila.
Ele tem virtudes particulares que o fazem canonizar pelos mundanos, como a bravura, a finura, a política, o savoir-faire, a galanteria, a polidez, a animação. Ele toma como pecados consideráveis a insensibilidade, a bobice, a rusticeidade e a carolice.
Ele segue o mais fielmente que possa os mandamentos do mundo que são: 1º) tu conhecerás bem a vida no mundo; 2º) tu viverás como um homem decoroso; 3º) farás bens os teus negócios; 4º) conservarás o que te pertence; 5º) sairás da poeira em que estás; 6º) terás amigos; 7º) freqüentarás a alta sociedade; 8º) terás uma boa mesa; 9º) nunca estarás melancólico; 10º) evitarás de ser diferente dos outros, de ser grosseiro e de ser carola.
Jamais o mundo foi tão corrompido quanto é hoje, porque jamais ele foi tão refinado e tão sábio no seu sentido, e nem jamais foi tão político. Nem tão finamente ele se serviu da verdade para inspirar a mentira, da virtude para autorizar o pecado, e das máximas de Jesus Cristo para autorizar as suas próprias que são máximas segundo Deus e que ele alude freqüentemente.
O número desses sábios segundo o mundo, ou desses loucos segundo Deus é infinito “stultorum infinitos est numeros”.
* São Luís Grignion fala do mundanismo aristocrata do Ancien Régime, após o qual veio o mundanismo burguês que foi superado pelo mundanismo atual
Bem. Para nós considerarmos, para nós vermos esses dez mandamentos e essas concepções, que elas foram feitas num tempo que era o do Ancien Regime, e portanto numa atmosfera político social e ideológica, numa atmosfera de monarquia absoluta de corte, mas de uma corte aberta sobretudo aos aristocratas. De maneira que se os aristocratas quase não participavam mais do poder, entretanto a direção da vida social lhes pertencia largamente, e a influência na sociedade ainda era deles. Toda a vida social era marcada por um tônus aristocrático. De maneira que nós estamos num mundanismo aristocrático ─ que é o que ele considera aqui ─ que foi o precursor do mundanismo burguês capitalista, que é o pai do mundanismo burguês capitalista e é o neto ou o avô desta forma mais vil de mundanismo, que é o mundanismo barato, de Peg-Pag, da Democracia Cristã.
São os três degraus ou as três quedas do mundanismo, e que para nós compreendermos bem o que que é hoje essa sabedoria mundana, nós precisamos fazer uma espécie de transposição e de adaptar isto aos conceitos de hoje em dia. Então nós compreendermos melhor o que é que ficou para trás e o que é propriamente a sabedoria mundana hoje em dia.
Mas é preciso para compreendermos isso até o fim, tomar em consideração o seguinte: é que durante a Idade Média se deu um fato único no mundo. Que como Leão XIII descreveu bem, naquele tempo houve em que a sabedoria do Evangelho ─ diz ele ─ penetrou em todas as coisas, e houve tempo em que realmente a sociedade tinha por objetivo o cumprimento da Lei de Deus. Então os usos, os costumes, as fórmulas sociais, o modo das pessoas se apresentarem, etc. eram conforme ao Evangelho e tinham por finalidade o serviço e a glória de Deus.
No tempo de São Luís Grignion de Montfort muito disto restava, mas havia então três espécies de pessoas. As pessoas que viviam segundo os costumes daquele tempo e até atrasados para os costumes daquele tempo, mas para a glória de Deus.
Havia os libertinos escandalosos, e no meio havia uma porção de gente que era gente muito ─ Luis XIV era a expressão mais característica disto nos seus aspectos não libertinos, porque ele também tinha seus aspectos libertinos ─ séria, muito grave, muito posèe. Com ares muito nobres, muito distintos, muito rafinées, muito falsos, que para os quais essa nobreza de atitude, essa elegância de maneira que era nascida do Evangelho, era conservada apenas como uma casca, era conservada apenas como uma aparência.
E uma aparência para praticar por detrás os vícios. Para colaborar com o libertino e para atacar o carola, para atacar o verdadeiro católico.
Por exemplo, na Cabale des Devots fundada por São Vicente de Paulo e outros, e que era uma associação secreta de gente mais ou menos ultramontana na corte, esta gente, Duque de Vantadur e outros, esta gente praticava verdadeiramente a religião católica, mas o modo de eles viverem era muito parecido dessas pessoas que tinham a sabedoria mundana, que fingiam ter a atitude deles que já não tinha a atitude interior. Porque às ocultas praticava um outro sistema de vida.(…)
Então ele começa aqui a mostrar quais são as tendências inerentes a essa sabedoria do mundo. Então na ordem da nobreza como é que é? É uma tendência contínua para com a grandeza e a consideração dos outros.
* Pode-se desejar ser mais nesta terra para de algum modo participar da excelência de Deus, mas para um proveito espiritual, não terreno
Pergunta-se: um católico não pode tender para a grandeza e para a consideração dos outros? Resposta é a seguinte: para uma pessoa que tem nossa vocação, não! Porque na nossa vocação a pessoa deve renunciar aos bens deste mundo para exclusivamente servir a causa de Nossa Senhora.
Mas em tese a gente pode compreender uma família, por exemplo ─ vamos dizer o quê? ─ uma família plebéia que ao longo das gerações vai continuamente em ascensão. Em certo momento se torna burguesa, depois em certo momento se torna nobre de pequena nobreza, depois vai crescendo e acaba entrando para a grande nobreza. É uma coisa que se compreende, é uma coisa louvável, e que não se realiza sem que a pessoa em várias gerações sucessivas, as pessoas tenham estado constantemente apetecendo algo de mais alto.
Este mais alto pode-se se apetecer? A resposta é: pode. Porque toda elevação existente nesta terra é uma imagem da elevação de Deus, e uma pessoa pode em tese querer ser mais nesta terra para de algum modo participar mais de Deus.
É como por exemplo um padre. Eu compreenderia que ele ficasse alegre de receber o episcopado por ser uma honra que o aproxima mais de Deus. Quer dizer, em todo espírito de piedade, em todo o espírito de respeito, um padre poderia aspirar uma coisa dessa.
Vejam bem, não é só por causa do bem que ele poderia fazer na Igreja ─ este seria um outro título muito grande ─ mas é por uma razão mais profunda. Porque sendo a condição de Bispo uma condição excelente, dentro da ordem clerical, compreende-se que ela esteja mais unida a Deus que é a plenitude do pontificado. E se o pontificado é bom, a plenitude do pontificado é ótima. E o amor de Deus pode levar uma pessoa a desejar a plenitude do Pontificado. Isto é uma coisa evidente.
Também é evidente que uma pessoa ─ um pai de família por exemplo ─ queira para si a nobreza, para participar melhor da dignidade da nobreza, e que ele queira até para si uma nobreza excelente.
Eu falei de uma família que sobe ao longo dos séculos. Eu poderia falar de um homem que desejoso de participar desta condição da nobreza, fizesse um grande feito de guerra, ou prestasse a Igreja um grande serviço. Quer dizer, isto pode ser desejado por (…) [falta uma linha]
A sabedoria mundana não consiste portanto propriamente em não desejar estas coisas. Mas não, consiste em desejá-las para um proveito próprio terreno. Para um proveito próprio espiritual sim, para um proveito próprio terreno, não.
Quer dizer, eu ter uma alta posição para o gosto de sentir que sou mais que os outros e de ver que os outros me beijam a mão e o pé, isto é uma coisa contrária a Sabedoria celeste. Aqui sim, é uma pura fruição pessoal terrena, que é admitida não tendo nem um pouco em ordem nas coisas de Deus. E portanto isto não pode ser visto, não pode ser aceito.
* Quase todas as nossas famílias desejam que o filho seja mais do que o pai, por exclusiva vantagem terrena
Mas, uma Sabedoria que seja, que queira isto em união com Deus está bom. Então o que São Luís Grignion de Montfort critica aqui é o desejo de ter isto de modo inteiramente terreno e exclusivamente terreno. É isto que ele critica.
Agora, então os senhores tem aqui o aristocrata que quer ser grandes coisas. Como é que isto se realiza no mundo de hoje?
Nós vemos isto muito no mundo de hoje em quase todas as nossas famílias. Quase todas as nossas famílias quando tem um filho que começa despontar para a vida, a esperança subconsciente é que o filho faça mais do que o pai. Embora o pai já tenha feito muito, a idéia é de que o filho possa continuar a puxar a carroça para frente. E que todos os (…) da família vão para a frente com aquele que vai, o que é então a esperança da família.
Então as nossas famílias querem o quê? As nossas famílias que têm quase todas elas a sabedoria do mundo, querem que nós sejamos mais do que do que eles foram. Que nós representemos pelo menos um passo para a frente na linha da família. Mas querem que representemos não por amor de Deus, mas por exclusiva vantagem terrena. Porque as nossas famílias quando são piedosas, quando são piedosas elas querem que a gente vá para o Céu, mas é para o Céu como fim da carreira terrena.
Já que tem que morrer, e que de outro lado tem um buraco preto e um buraco branco, é melhor cair no buraco branco do que no buraco preto. Então, por interesse próprio ainda procuram o Céu. Mas é exclusivamente por interesse próprio. Não é, senão em raros casos, por um verdadeiro amor de Deus.
Mas a verdadeira sabedoria consiste em aproveitar este mundo o quanto pode e arrepender-se na última hora, isto é o ideal. Porque então dá uma escapada, vai para o Céu, a vida foi gostosa e o Céu é gostoso também. Tem o susto da morte pelo meio mas ninguém pode evitar. Se pudesse, certamente evitariam. Mas como não pode evitar, é melhor não pensar e fingir que não existe. Então tem a morte, morre e vai para o Céu, não é verdade?
Mas aqui na terra é preciso gozar a vida pela vida, é o que nossas famílias nos transmitem ─ eu falo do Brasil, não sei como é no Chile, mas… a polidez me manda dizer que é diferente, mas como a suprema polidez é a verdade, eu devo dizer que devem ser terrivelmente parecidas.
As nossas famílias nos transmitem na convivência materna a convicção de que se pode ser feliz nesta terra, de que se consegue ser feliz e de que vale a pena deitar todo o esforço para ser feliz nesta terra. Que é uma loteria que acontece para poucos, mas que quando acontece vale a pena todo o esforço. De maneira que toca os pimpolhos para a frente.
* Modos diversos de conceber a felicidade terrena: ser rico, ter boa saúde, boa cultura, ser um crítico exímio, galanteador esperto etc.
Bem, então como é que nossas famílias concebem isto? Nossas famílias concebem à maneira de cada uma delas. Cada família tem um conceito próprio da felicidade na terra. Para umas esse conceito próprio da felicidade, é de ser um colosso e ter a terra toda dominada por um pimpolho de futuro. Então ele é antes de tudo o mais rico. isto não é preciso falar.
Em segundo lugar tem que ser muito saudável. Há um pânico de doença que é uma coisa pavorosa. Doença mortal então nem se fala, nem se conversa.
Mas mesmo esse estilo, por exemplo, o Bismarck, eu li outro dia o Bismarck que ele era devastado, coitado, eu ser (?)ele conheço bem este infortúnio pelas nevralgias, está compreendendo. Mas acompanhado de câimbras e de reumatismo. E quando foi proclamado o Reich alemão em Versalles, ele teve umas nevralgias das mais pavorosas, e não sabia se poderia comparecer à proclamação da obra dele na Galeria dos Espelhos. Esse gênero assim tem pavor também.
Todos os tratamentos médicos possíveis e impossíveis, imagináveis e inimagináveis para evitar isto. Isto é a pior coisa possível, não pode acontecer.
Depois disto então cada família tem seu próprio critério, tem sua filosofia. Para uns é como eu dizia, ser um colosso. Então é o sujeito que é muito rico e que tem a arte de ganhar dinheiro por tacadas. Com pouco trabalho, por uma coisa de nada, ele dá uma olhada e ganha uma fortuna. Mas ele por isto não trabalha pouco não, ele dá muitas tacadas. Ele dá tacadas contínuas e enfim é uma catarata sobre a qual os ouros vão chovendo nos vários negócios.
Depois. Este sujeito em matéria de cultura é um leão. Tem um gosto rafinée, critica teatro muito bem, entende de quadros. Em matéria de escultura é um crítico que às vezes até escreve nos jornais, artigos altamente apetecidos pelas sessões competentes.
É um fino perito de política, e mete a ponta do dedo na política na hora decisiva para escolher quem vai ser presidente da República dele. Quanto a ele ser presidente da República, ele não quer porque ele é um arqui-homem, que preside todas as mil repúblicas internas das quais se constitui uma nação. Ele está a testa da república das artes, da república da cultura, da república da sociedade e da república das finanças, e da república das repúblicas. Tudo isso com a ponta do dedo dele ele toca assim.
Bem, no salão é um leão. Galanteia como ele. Mais procurado do que o Roberto Carlos pelo outro sexo. Por outro lado, ninguém como ele para dizer uma palavra amável para uma senhora idosa ─ conversar pouco, com uma senhora idosa só um bobo perde tempo ─ uma palavra amável para uma senhora idosa. Uma gentileza aduladora para um político aposentado mas que ainda tem a sua influência. E o leão da moda extravagante. A maior nudez, do modo mais extravagante, o sapato mais maluco alterna com a casaca mais bem cortada. E ele deixa o ar de play boy para tomar um ar de marquês de casaca com uma naturalidade inteira.
Isto deixa o papai e a mamãe radiante, está compreendendo. E dizia. Os outros não queriam reconhecer, mas eu bem sentia que isto estava em raiz em mim.
Depois cada um pensa. Ele pensa que isto nasceu dele, não percebe que nasceu em mim. Quem comunicou este charme foi eu. E a outra pensa isso também do marido. E aqui está o conflito dos egoísmos.
* Hoje em dia é preciso ser democrático, popular e igualitário para ser um colosso
É a sabedoria mundana na apetência das grandezas. Mas o quadro que eu pinto é um pouco anacrônico. Para ele ser inteiramente atualizado ele precisava ter um dado a mais. E que é o seguinte: era preciso também que o sujeito fosse muito popular. Sem ligação. Muito amável. O automóvel estupendo para na rua para acender o cigarro de um operário. Depois vai para a frente e brinca um pouco com o operário. Orgulhosíssimo para quem é de uma classe social imediatamente inferior a dele. Aí ele é um leão. (…) Ele é muito cortês.
De vez em quando ele dá algumas esmolas mas sem ninguém perceber. Só os amigos íntimos, dos quais ele espera que contem isto. Mas ele faz isto de um modo extremamente delicado e discreto. E também tem um jeito para tratar com o sindicato que é uma coisa colossal. Quiseram fazer uma greve com ele, ele passou o sindicato aqui pelo queixo, está compreendendo. Ele como líder sindical destes macanudos, mata burguês, não há como ele. Ele dá um peteleco na barriga do líder, conta uma piada, o líder sindical acha graça, ele oferece um charutão. Bom agora, seu tapa de monte, senta aqui vamos conversar, o que é que você quer, está compreendendo. A coisa vai por aí.
Então este é o perfeito já meio preparado para viver na era industrial. É a grandeza segundo o mundo atual, e a grandeza segundo as nossas famílias. É a sabedoria terrena.
Quanto conflito das nossas famílias com o Grupo, porque o Grupo quer outra coisa e as nossas famílias querem isto, quanto conflito.
Bem. Continua:
É uma procura contínua e secreta do seu prazer.
No tempo dele os senhores sabem, o prazer como era. Era aqueles palácios magníficos, carruagens esplêndidas, o sujeito ia ouvir teatro clássico, ia conversar com Madame de Montespan, lia as cartas de Madame de Sevigné, se divertia com os ditos de espíritos dos Montmartre, etc.
Hoje em dia a coisa mudou, não se trata mais disto. É o sujeito que leva uma vida de aventuras. É o grande viajante, o grande industrial. Vive até bem mais modestamente do que antigamente, porque luxo é uma coisa que ele não gosta muito. De vez em quando ele está no exterior ele gasta muito. Ele leva no resto uma vida modesta.
Mas… todo mundo fica sabendo as fábricas que ele tem, todo mundo fica sabendo os bens e os imóveis que ele possui, e as transações comerciais que ele faz, em que ele dispõe do destino de milhões. Então ele desce por exemplo ─ isto é um chá do mundo de hoje, é um homem riquíssimo, tem fábricas, ─ desce de um Volkswagen comum. Ele mesmo depois pára, fecha com um cuidado de um burguesinho e um ar modestinho o seu próprio Volkswagen e entra numa mega fábrica que é dele com um ar de um funcionário qualquer, cumprimenta a secretária dele com um ar de quem quase cumprimentava uma [falta palavra] de princesa, “Da. Fulana, como está passando?”, e vai trabalhar.
Senta na mesa, começa a acionar os mil botões com que ele dirige. Eficientíssimo, poderosíssimo, mas… modestíssimo. Como é que a gente não se enternece vendo a pobre Volkswagen dele, que coisa linda não é verdade? É a sabedoria do mundo de hoje. Que como acontece é de uma classe muito inferior a da outra.
Porque a da outra pelo menos tem palácios, pelo menos era champagne, pelo menos era caviar, era patê, era prazer mesmo. Hoje não.
Antigamente o indivíduo era dono do dinheiro, hoje o sujeito é escravo do dinheiro. Ele enrola fortunas imensas que no fundo não lhe servem para nada porque ele vive mais ou menos como os outros. Mas é para saberem que ele poderia viver de outro jeito se quisesse.
Quer dizer, é uma espécie de ─ eu não encontro bem a palavra, não sei qual seria a palavra adequada ─ mas é uma espécie de gozar da coisa platonicamente, potencialmente, sem nada de efetivo, em que entra algo de mais requintado do que no gozo efetivo.
* Uma conversa entre um casal que reflete duas concepções da vida: uma antiga, egoísta e inteligente, a outra nova, burra e pré-diabólica
Uma vez eu conversei com um desses crezos paulistanos, eu assisti uma discussão entre ele e a mulher dele. Então a mulher dele falava de luxo, que gostava muito de luxo, etc. Ele dizia: “luxo não, luxo hoje é uma coisa que não se faz mais, hoje não se luxa mais. Você preste bem atenção, hein! Hoje a gente vive como um qualquer e reaplica, reinverte”.
A mulher disse: “reaplica para quê? Eu aplico em mim, a minha aplicação de capital sou eu, para meu prazer, para eu gozar, você está entendendo?”
“Não estou entendendo. Porque como é que vai fazer com as fábricas novas, como é que vai fazer com as empresas novas, como é que vai aumentar a fortuna?”
Ela: “Não aumento, pronto, o que que tem? Não aumenta, não aumenta mas goza a vida entende! mas goza gozado. Quer dizer, é para aproveitar mesmo, entende?”
Diz ele: “É, nós estamos vindo agora da Inglaterra. Você viu todos aqueles cartolas lá, aquilo tudo vai perder as eleições. Porque se for para gozar a vida como você diz o povo não suporta mais hoje, e faz o comunismo. Então a gente não pode mais gozar o dinheiro que tem. Mas eu ainda tenho o dinheiro agarrado!”.
Diz ela: “Então é melhor, perde a eleição, porque se não ganha a eleição, perde a eleição. Mas é melhor isto do que carregar dinheiro, ter o trabalho de tomar conta do dinheiro e depois não aproveitar o dinheiro”.
São as duas concepções no mesmo casal. Uma concepção velha da vida e uma concepção nova da vida. Mas apesar de tudo como a concepção nova é mais burra do que a concepção velha.(…)
Qual é a diferença dentro da sabedoria mundana, do matiz antigo e do matiz moderno? Qual é a diferença que há? É que o matiz moderno já é pré-diabólico, já vem acompanhado desta apetência do vulgar, desta apetência do trivial, do reles, do cafageste, do apagado, que Camões chamava “uma austera, apagada, vil tristeza”, uma coisa mais ou menos assim. E era o afundar do mundo e da Civilização, etc.
Vamos adiante. Então este milhardário, depois que a mulher saiu da sala ele me disse: “olha, o Senhor veja bem como são as coisas. Hoje, o que a gente faz, a gente se diverte durante as viagens. A gente quando sai do próprio país gasta como um doído, porque aí o dinheiro está guardado, e não irrita o operariado daquele país porque é turista estrangeiro”.
“Mas no país da gente, a gente quando dá uma festinha, dá uma festinha boa, mas é muito pequeno. Lá fora, o pessoal passa olha para a casa e pensa que não está acontecendo nada. Lá dentro a gente está comendo caviar, mas lá fora não precisam saber”.
É a sabedoria mundana da mais horripilante possível. Mas enfim, é o segundo matiz.
Bem, os senhores vêem que para nós pertencermos ao Grupo precisamos ter uma sabedoria diferente desta(…)
Bom, agora então é a procura do prazer e do interesse, é evidente.
“Nem de um modo grosseiro e aberrante cometendo algum pecado, escandaloso, mas de um modo fino, enganador e político”(…)
Se o filho não der um escândalo. “Ho, ho, ho, é mocidade, deixa”. Contanto que não gaste nem a saúde, nem o dinheiro. Porque gastar a saúde e o dinheiro a coisa fica ruim.
Bem, então diz ele: se não fosse assim, já não seria a sabedoria do mundo mas seria a libertinagem.
Nós podemos agora considerar os tais dez mandamentos.(…)
É conhecer que a sociedade é um covil de feras, saber uivar como os lobos, saber iludir os outros, e ter maneiras agradáveis para atrair os outros assim. Quer dizer, é isso e não mais do que isso.
O que que há de verdadeiro dentro desse ideal? Há algo de verdadeiro dentro disso que é o seguinte: nós não devemos ter ilusões a respeito da sociedade. E uma vez que ela é péssima como é devemos sabê-lo. Devemos também não nos deixar iludir, e quando a gente trata com um fassur às vezes é legítimo a gente iludir. Mas de nenhum modo isto é feito para [inaudível] bom, e é ultra católico ter maneiras nobres, maneiras finas, maneiras dignas.
Bem, os senhores estão vendo aqui que este conhecer o mundo é um ideal que tem um resto de tradição católica que é as belas maneiras. Tem algo de senso prático, porque uma vez que o mundo é assim é preciso saber agir assim.
Mas ao mesmo tempo que tem isto tem um lado péssimo, que é uma espécie de ser hipócrita para agir num mundo de hipócritas, e isto é exatamente o que ele condena.
* “Savoir le monde” de hoje é radicalmente diferente de outrora. Hoje é preciso ser superficial, vazio, despreocupado…
Qual é o sentido disto hoje? O sentido disto hoje é o seguinte: savoir le monde hoje é um sentido radicalmente diferente do que era antigamente. Savoir le monde hoje é o seguinte: a pessoa precisa ter a mentalidade de quem não tem mentalidade. Ser completamente vazio, estar sempre rindo com uma cara continuamente despreocupada. Se há uma coisa incompatível com a vida social hoje é usar cara preocupada. Tem que andar com uma cara despreocupada.
Uma cara de pessoa que não tem segundas intenções a respeito de nada. Que não vê nada que não seja a aparência das coisas. Que finge acreditar em toda a aparência das coisas e que é continuamente alegre e superficial de espírito, nada dizendo de profundo. Porque se disser algo de profundo morre completamente a popularidade dessa pessoa.
É preciso ter uma conversinha de nhenhenhê, contar fatinhos, piadinhas, e gracinhas, e o tempo inteiro em torno de si despertando esta atmosfera de pseudo-candura e de pseudo- ingenuidade. Vamos ver na realidade, é um misto de aparência de idiotice com perfeita hipocrisia. Esta é a coisa hoje.
Há algo de diferente disso que é o playboy. O playboy às vezes tem aspecto de tragédia, mas é a exceção. Então é desgrenhado, com uma cara convulsa, de repente é uma coisa descosturada aqui, um jeito de andar meio arrastando uma perna, um jeito assim gagá.
E ele entretanto não escapa a regra. Se ele for dizer qualquer coisa de profundo. Se ele for se revelar sagaz, esperto, racional, com espírito coordenado, ele se acredita completamente.
Ele tem que parecer viver no élan, no impulso dos élans mais animalizados, mais descontrolados, porque o que o que é comum a essas duas escolas ─ a escola da idiotice alegre e a escola da idiotice. [linha ilegível]
…Ausência de racionalidade, e um domínio completo da espontaneidade e da artificialidade. A pessoa se solta. Assim ela é, assim ela fica. Isto é que é propriamente a coisa.
Bem, e é assim que a pessoa faz sucesso hoje. Os senhores imaginem por exemplo uma festa. Vai então um rapaz ingênuo, põe a sua mais bonita roupa, põe a sua mais bonita gravata, penteia-se impecavelmente e vai a festa para ter uma conversa elevada para atrair as pessoas, ele é posto fora a pontapés, dão risada dele, ninguém olha para ele. Ele vai acabar conversando com o maitre d’hotel. E em geral como os garçons e os maitre d’hotel são as pessoas mais educadas que há nos ambientes hoje, e as mais bem vestidas, naturalmente ele ali talvez encontrasse muita receptividade. Mas propriamente isto é assim.
* Impressões que o Senhor Doutor Plinio teve num restaurante da Espanha, Hotel Afonso XII em Sevilha
Eu não posso me esquecer da impressão que eu tive num restaurante da Espanha, Hotel Afonso XII em Sevilha. É um esplêndido hotel, uma sala de restaurante fabulosa.
Garçons servindo o almoço de casaca, elegantes como se fosse cortesões de Afonso XII [inaudível] com aqueles trajes, aquelas malhas. A gente tinha a impressão que estava havendo uma brincadeira. E que a criadagem tinha sentado na mesa e que os patrões estavam servindo, mas era a impressão exata que se tinha. [inaudível] o interesse delas.
Tenha algo de conservador e de tradicional no seu modo de ser para não incorrer no desprezo dos playboys, não, no desprezo dos tradicionais. E tenha algo de playboisco para não incorrer no desprezo dos playboys. Isto é o que propriamente as famílias gostam.
De maneira que os pais ficariam muito alegre se o filho estiver se divertindo como um palhaço, dançando iê-iê-iê numa festa, mas de repente tivesse encontrado na festa o professor dele e tivessem sentado de lado, e tivessem conversado uma boa meia hora sobre Direito Romano de maneira a deixar o professor estratelado. Depois o rapaz tivesse voltado para o iê-iê-iê. Há, o pai e a mãe dormiam quinze dias sossegados. Esse meu filho é um astro, está compreendendo. Não há coisa igual a ele. Isto é a nota que quer. Porque é interesse deles que o filho seja assim. São as leis do mundo e a sabedoria do mundo.
* Um tipo de homem que era apreciado pelo mundo: “l’honnet homme”. A honestidade não era o reflexo das virtudes morais
A segunda coisa: “Tu viverás como um homem honesto”. Mas é preciso ver o que é que se entende por homem honesto. Não é o homem que não rouba. Na linguagem do tempo de São Luís Grignion o honesto é no sentido latino da palavra, é um homem decoroso.
Quer dizer, era o nobre com ares de nobre. Que por exemplo quando joga paga suas dívidas de jogo, que não faz intrigas, que não se mete em comércio de tóxicos, que não assassina. Enfim, depois que tem uma compostura e um todo propriamente dignos e convenientes. Isto é que se entendia o l’honnet home.
Mas o honnet na linguagem do tempo não era senão a referência a aparência do homem, não era a referência as virtudes morais de um homem. Eles concebiam um homem que fosse um modelo de virtudes mas que não fosse um honnet home. Bastava por exemplo, que ele palitasse os dentes à mesa, máxime de um modo desagradável para não ser honnet home.
Bastava por exemplo, que ele tivesse qualquer coisa de contra as boas maneiras para não ser um honnet home. Era uma coisa toda ela de maneiras e toda ela de exterioridades. E estas eram as exterioridades que se queriam naquele tempo para o homem ser considerado. Mas também bastava a exterioridade. Mais do que a exterioridade não era necessário para nada.
Isto existe hoje de algum modo? Existe! O indivíduo tem que ─ segundo os cânones em voga hoje ─ adaptar-se ao conceito de honnet home do ambiente em que ele estiver. E um rapaz colosso dos ambientes de hoje é uma rapaz que hoje em dia seja capaz de em qualquer ambiente viver de acordo com as indicações desse ambiente.
De maneira que se considera um colosso, por exemplo, um político que vai falar com padres e que é capaz de jantar com padres ─ como se imaginava antigamente um padre ─ e ser tão padresco que até se esqueça que ele não é padre.
Depois ele vai jantar, por exemplo, com operários, e ele se porta de modo tão proletário que os operários pensam que ele é um deles.
É o honnet home de cada ambiente. O velhaco que faz o papel de palhaço imitando as honestas de cada ambiente para fazer carreira. Esse é o conceito de “tu será um homem honesto”.
* “Tocarás bem os teus negócios” antigamente era obter um título de nobreza, hoje significa ser jeitoso em habilidades sinárquicas
Bem, terceiro: “tu tocarás bem os teus negócios”. Negócios nesse tempo não era penas fazer dinheiro, mas era também tocar para frente, gerir bem seus interesses todos.
Portanto, obter um título de nobreza, obter o reconhecimento de uma genealogia discutida, saber, por exemplo, resolver uma pendência diplomática complicada, também ganhar dinheiro. Tudo isso fazia parte do gerir bem seus próprios negócios.
Isso supunha naquele tempo o heroísmo das antecâmaras. O sujeito que quisesse conseguir qualquer coisa, tinha que passar horas, e horas, e horas na antecâmara dos ministros, na antecâmara dos príncipes, dos potentados. E os potentados gostavam de saber:
─ Messieur, tal está quatro horas no seu salão.
─ Está bom. Deixa esperar cinco.
Na quinta hora recebe e diz: “o que o Sr. quer?”. Tal coisa, “e entra alegre como se tivesse acabado de chegar. E a primeira coisa é bajular o ministro, depois de ter passado cinco horas lá esperando.
Diz: “olha, eu vou lhe tomar mais tempo do que para os meus interesses, eu vou lhe contar a última piada”. Conta, o ministro dá uma gargalhadona. Então diz: “Então o que é que quer”. “Tal coisa”. “Olha, isto eu não posso fazer hoje, só voltando amanhã”. Mais cinco horas.
Bom, então agüenta cinco horas. Acaba arrancando do ministro o que quer. Esse é o negócio. No Itamarati hoje há coisas desse gênero.
É o que hoje nós chamamos de sinarquismo. A expressão, os negócios de outrora ficaram reduzidos hoje aos negócios financeiros. Quase que só existe o dinheiro, fazer dinheiro. Porque todo o resto perdeu a importância.
Mas então saiba fazer bem dinheiro, seja um sinarca. Esse é que é o negócio. Já que você faz, faça isso bem feito.
Se o sujeito entra numa carreira pouco lucrativa, saiba naquela carreira pelo menos tocar para a frente, mas então aquilo toque. Mas toque por amor de si, por sua conveniência, seu interesse, e sem nada de sobrenatural.
Bem, esses mandamentos se desdobrariam muito e eu creio que nós podemos ficar nestes três primeiros mandamentos.(…)
Em vez de fazer um estado mundano libertino. É bem evidente que se ele fizesse um estado mundano libertino, o mal que ele faria seria menor porque ele cristalizaria. Mas a gente vê bem que este estado mundano não libertino é uma velhacaria do mundanismo para arrastar para a libertinagem sem cristalizar.
Aquilo que para o pessoal mundano não libertino, as saias de hoje há 20 anos atrás seriam consideradas libertinas, mas eles hoje apóiam essa saia, de maneira que esse meio termo vai girando sempre para a libertinagem. É um caminho lento para a libertinagem em vez de ser um caminho rápido para a libertinagem.
Bem, isto é quanto as modas.
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