Santo
do Dia – 21/04/66 – 6ª feira .
Santo do Dia — 21/04/66 — 6ª feira
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Como é que cada membro do Grupo deve realizar e viver o próprio ser * As classes armadas têm uma participação especial na dignidade do Estado por causa da vocação que elas têm para a morte * Certas vocações excepcionais são chamadas a renunciar toda e qualquer situação honrosa * Nossa vocação pede que nos preocupemos com o interesse de Deus, a implantação do Reino de Maria, e que sejamos indiferentes a qualquer outra coisa neste mundo * Nossa Senhora é o “Vas honorabile”, um vaso precioso, cheio de honra. Toda a honra existente em todos os séculos está ligada a Ela e é uma participação da honra por Ela recebida * O Grupo, por um favor não merecido de Nossa Senhora, tem uma participação com todos os bens de Nossa Senhora * Mais vale a honra vinda da Fé que irradia dos membros do Grupo, do que ter toda espécie de luxo, fausto e brilho que se encontra no mundo * O exemplo de um membro do Grupo pobre, que tinha muito mais que automóveis, etc.: tinha honra — Há gente que entre Jesus e Barrabás preferiu Barrabás * Nós constituímos esse “vas honorabile”, e por toda parte onde o Grupo entra, entra também a honra * Nós somos a honra, por pertencermos à Nossa Senhora, por participarmos de algo de Nossa Senhora e de servir a Nossa Senhora
* Como é que cada membro do Grupo deve realizar e viver o próprio ser. Se o homem se conservar na categoria em que nasceu, não por interesse, mas por honra, ele cumpriu seu dever
Eu tenho aqui uma pergunta, uma consulta a responder — são duas consultas — ainda daquele velho remanescente de consultas do Carnaval: como é que cada membro do Grupo deve realizar e viver o próprio ser?
Sobre essa pergunta eu pedira ao Umberto, que é o autor, que desse uma explicitação.
(Umberto Braccesi: [Explicação]…)
Sei, estou entendendo o sentido da palavra. Se eu entendi bem a consulta, a questão é essa: nós não devemos, dentro de nossa vocação, pôr o desejo nem de fazer, nem de poder, nem de ter, nem de ser grande coisa.
Nós devemos ser, ou melhor, nós devemos nos contentar com aquilo que nós somos. Mas aí é suposto que está dado o lado negativo do ideal.
O lado positivo do ideal é o seguinte: o que é que somos, então? Porque se é só não-não-não, qual é o fim de tudo? É bem essa a pergunta, não é?
A resposta a essa pergunta não é muito fácil, porque eu vou dar a resposta num vôo comum, mas a resposta num vôo comum não fica depois colocada a solução do problema. E na segunda parte… [inaudível] …comum, é que eu devo me estender um bocadinho mais.
O princípio é o seguinte: que cada homem deve procurar ter uma posição, não de interesse de. Quer dizer, não é ter uma posição de comer e beber, mas é uma posição diferente — é quase uma questão de dignidade. Cada homem normalmente deve procurar conservar-se numa categoria igual àquela em que ele nasceu, em que pertencem os elementos de sua família.
Se ele se conservar bem nessa categoria social, ele cumpriu, nesse sentido, seu dever.
Não está de acordo com a compostura, não está de acordo com a honra, não está de acordo com a dignidade, que um homem se deixe arrastar indolentemente, estupidamente, a uma condição menor do que aquela que é dele, que toca e que pertence aos seus.
Aqui entra uma questão que é a seguinte: isso não é interesse, mas isso é honra; e agora nós devemos ver o que que honra significa dentro disso, e que é o lado religioso da palavra honra. E, portanto, aqui vem a tal idéia do que nós devemos ser etc..
E, realmente, quando nós temos um corpo de caráter hierárquico — vamos dizer, por exemplo, uma organização social em que haja muitas classes.
[inaudível] …Igreja, onde existem muitas categorias de membros, existem os clérigos e os fiéis. Depois dos clérigos há uma enorme hierarquia. Ou então, numa corporação militar, onde existem os oficiais, existem os praças de pré e depois existe a hierarquia do oficiais, nós podemos dizer que o pertencer a uma categoria mais alta é, em si mesmo, um verdadeiro bem, é uma coisa que em si mesma é boa. Mas em si mesma é boa no sentido religioso da palavra, que não é muito fácil a gente entender.
* Ser padre é uma coisa que aproxima mais a pessoa de Deus e dá à pessoa uma certa participação do poder divino. A pessoa fica com uma espécie de representação de Deus na terra
O sentido religioso da palavra está nisso. É mais fácil pegar isso na Igreja do que na ordem temporal.
Não é nenhuma vergonha um fiel não ser padre. Mas ser padre é uma coisa que aproxima mais a pessoa de Deus e dá a pessoa uma certa participação do poder divino; a pessoa fica com uma espécie de representação de Deus na Terra.
E, portanto, é uma coisa boa em si e apetecível em si do ponto de vista religioso que a pessoa procure ter essa dignidade. Não por uma vantagem pessoal, mas porque isso lhe confere uma maior proximidade com Deus. A elevação do sacerdócio confere a quem a tem uma maior proximidade com Deus.
O mesmo pode dizer um sacerdote piedoso em relação ao episcopado. É natural que ele procure, que ele fique alegre em ser elevado ao episcopado porque é um poder sagrado que… [inaudível] a pessoa dele; enquanto… [inaudível] a pessoa dele, lhe confere uma certa participação com Deus, a qual em si mesma é um bem. E assim nós poderíamos chegar até o papado.
É bem compreensível que um padre ou um bispo só devem procurar ocupar esse lugar quando está certo de que essa é a vontade de Deus. Ele só deve aceitar esse lugar e aceitá-lo com alegria quando ele sabe que ele pode cumprir inteiramente o seu dever, e não por uma vantagem pessoal, mas para cumprir bem o seu dever.
Mas até, colateralmente, é legítimo que ele tenha nisso uma certa alegria. Se nós transpormos da ordem espiritual para a ordem temporal, os senhores tomem, por exemplo, as classes armadas.
Nas classes armadas é natural, por exemplo, que o nosso tenente Poli tenha alegria em ser tenente e não ser praça de pré. Por quê?
* As classes armadas têm uma participação especial na dignidade do Estado por causa da vocação que elas têm para a morte
Não é por uma questão de vaidade pessoal, para a pessoa aparecer: “Olha aqui, você é praça de pré; eu sou tenente e você é praça de pré, tome um pontapé”. Não é por causa disso.
Mas é por uma outra questão: é que as classes armadas têm uma participação especial na dignidade do Estado, porque, ou melhor, e que é por causa da vocação que elas têm para a morte, por causa do preço que têm a dedicação delas à segurança do bem comum.
Nessas classes armadas o poder é uma participação do poder temporal, e o poder temporal do Estado vem de Deus. E é uma honra a gente poder participar do poder temporal do Estado.
E quanto mais alto se sobe na hierarquia militar, mais se tem essa participação, em si mesma boa.
De maneira que se pode compreender que a pessoa, por uma questão de honra — aí é que entra a questão de honra — é condição de uma participação de uma dignidade que tem algo de religioso, e da honra que a gente recebe em se aproximar mais de Deus, e por causa disso a pessoa aprecie ter esse cargo.
É claro que o militar não vai ser militar — pelo menos o militar que não seja um bobo — não vai ser militar apenas por causa de lantejoulas, para poder passear com uma espada arrastando pela avenida São João.
Vai ser militar para cumprir um dever para com a pátria. Mas compreende-se que ele fique alegre com a dignidade que isso lhe confere. Ora, se isso se pode dizer na esfera temporal do militar, pode-se dizer do civil.
* Há uma participação do poder divino no fato de uma pessoa querer subir de cargo social por honra, desinteressadamente
Por exemplo, é natural que uma pessoa goste mais de ser um homem formado do que o que não é formado. É natural que uma pessoa goste mais, por exemplo, de ser professor de uma, ou melhor, reitor de uma Universidade, do que professor.
Agora, por quê? Porque são graus de participação do poder divino não mais na ordem política, mas na ordem social; e com isso, algo se liga a Deus a esse título e que lhe confere… [inaudível] a esse título, que ele por amor de Deus deve ter.
Agora, essa posição deve ser uma posição eminentemente desinteressada, eminentemente despreocupada de vantagem social outra que não seja essa comunicação, esse imponderável que a gente chama exatamente a honra, e que é algo dirigido a Deus Nosso Senhor.
Aí os senhores compreendem bem, por exemplo, o seguinte: um oficial que, por exemplo, seja injustamente destituído de seu cargo, ele se sinta desonrado.
A gente compreende que para ele seja muito duro voltar para a caserna, onde ele servia, para ser visto por todos como… [inaudível] oficial.
A gente compreende que um padre que tenha sido reduzido ao estado laical tenha vergonha. Por quê? Porque ele perdeu a honra, nesse sentido da palavra que ele perdeu a categoria que lhe conferia uma participação com Deus.
De maneira que então a gente compreende de que maneira é que há um verdadeiro acréscimo em ter esse cargo, e há uma verdadeira diminuição em não ter esse cargo.
Então a gente compreende também que mesmo um homem que não seja nem um pouco ambicioso tenha um certo empenho em se conservar na posição dos seus, na posição dele. Isso é uma questão de honra; é uma questão de concordar com o grau de participação com Deus que aquela situação confere, que aquela situação de família recomenda.
* Certas vocações excepcionais são chamadas a renunciar toda e qualquer situação honrosa
Bem, agora pode vocações excepcionais — não é a regra comum de todos, mas são vocações excepcionais — para a qual a pessoa é chamada a realizar, ou melhor, a renunciar até a isso.
Por exemplo, São Bento José Labre foi chamado para o estado de mendicância. E ele, que era de uma família abastada, acabou rodando por vários lugares, de tal maneira tomou ares de mendigo, que enquanto mendigo perdeu a semelhança que tinha com o estado dele anterior, de filho de família.
E acabou então, indo morar na casa paterna, embaixo de uma escada. E vivia como mendigo na casa paterna, sem que se soubesse que ele era ele. Só depois dele morrer é que se percebeu que ele era ele.
Porque a Providência pediu que ele renunciasse até isso. Isso se dá muito com os religiosos que renunciam ao seu estado. Dá-se isso numa porção de situações da vida.
Dá-se também com aqueles que a Providência permitiu que perdessem a fortuna sem culpa própria, ou que perdesse seu cargo sem culpa própria, e que devem resignar-se a isso por amor de Deus.
Mas normalmente se deve supor que a pessoa deve procurar conserva-se na ordem em que está, por uma questão de amor de Deus, por uma questão de honra.
Agora, isso é o princípio geral para o geral dos homens.
* Nossa vocação pede que nos preocupemos com o interesse de Deus, a implantação do Reino de Maria, e que sejamos indiferentes a qualquer outra coisa neste mundo
Agora, nós nos pomos no que diz respeito ao Catolicismo. No que diz respeito ao Catolicismo existe este fato de que nós aqui dentro fazemos intrinsecamente o ato pelo qual nós aceitamos uma vocação.
E é claro que essa vocação pede de nós que nós nos preocupemos com o interesse de Deus, a causa de Nossa Senhora, a implantação do Reino de Maria, e que sejamos indiferentes a qualquer coisa nessa terra.
Então, portanto, inclusive se nós devermos renunciar ao estado que nós naturalmente ficamos nós devemos renunciar a isso e renunciar alegremente.
Por exemplo, no meu caso: se eu ficar colocado numa situação de não poder morar onde eu moro, não poder ter os móveis que eu tenho, não poder ter algumas relações que eu tenho; que eu tenha de ir morar, por exemplo, não sei, na Vila Maconha, num cortiço etc., para poder continuar a trabalhar no Catolicismo, se a condição for essa, eu devo desistir e devo ir morar na Vila Maconha para poder continuar a trabalhar no Catolicismo.
Por quê? Porque a minha vocação é trabalhar no Catolicismo. Eu quanto possível devo conservar a situação que tenho. Eu a devo conservar por uma questão de amor de Deus, eu a devo conservar também pelo desejo de pôr os valores dessa situação ao serviço da causa do Catolicismo. Mas entretanto eu devo ser desapegado delas.
De maneira que se minha vocação pedir que eu renuncie a essas coisas, eu devo renunciar. Eu devo interiormente ser como quem já tivesse renunciado. Eu sobretudo devo compreender que minha vida sendo para o Catolicismo, eu não devo procurar promoções; eu não devo procurar… [inaudível] …sempre, para melhorar a minha situação.
Devo ter o suficiente para manter a minha condição. Isso não é o normal… [inaudível] …de toda a minha vida para o Catolicismo.
(…)
Isso mesmo devem entender… [inaudível].
…deve até ser rolado nessa direção pelo regulamento do exército. Não quer dizer que algum dos senhores em alguma firma, que seja inclusive do Grupo, apresentando uma ocasião razoável não peça uma promoção razoável também. Não quer dizer isso.
Mas quer dizer que a pessoa não deve perder tempo, não deve despender esforço, não deve fazer uma coisa extraordinária, não deve tirar o tempo que dá ao Grupo, a atenção que dá ao Grupo, a dedicação que dá ao Grupo exclusivamente por uma questão de promoção. Isso não.
Mais ainda: essa promoção não sendo dada, a gente deve pedir, deve argumentar, mas deve receber com humildade qualquer solução dada. [inaudível] …estamos no Grupo e vivemos para o Grupo. Agora, o que o Grupo nos dá em compensação disso?
* Nossa Senhora é o “Vas honorabile”, um vaso precioso, cheio de honra — toda a honra existente em todos os séculos está ligada a Ela e é uma participação da honra por Ela recebida
Há uma invocação na ladainha de Nossa Senhora que é muito pouco comentada e que eu acho uma beleza: Vas honorabile, vaso de honra; quer dizer, um vaso, um vaso precioso — os senhores podem imaginar um vaso de alabastro — cheio de honra; e naturalmente para Nossa Senhora, que é centro de, ou melhor, que é o ponto de polarização de tudo quanto há de bem na criatura. Toda a honra existente em todos os séculos está ligada a Ela e é uma participação da honra por Ela recebida.
Então, Nossa Senhora é o vaso honorabile. E o que quer dizer isso? É que nEla há tanta consciência de sua própria dignidade, é tão verdade que essa dignidade é uma grande dignidade, é uma imensa dignidade, que contém em si toda espécie de participação com Deus, que é impossível ver Nossa Senhora e não sentir Nossa Senhora uma verdadeira rainha. A gente vê isso em todas as aparições.
As aparições nos falam da suavidade de Nossa Senhora, da bondade de Nossa Senhora, da doçura de Nossa Senhora, e a horas tantas dizem: uma verdadeira rainha, imensamente majestosa.
Pode estar vestida com a pobreza que for, pode estar apresentada do modo que for, Ela é o vaso da honra. A posse de uma participação com Deus e a consciência da posse dessa participação lhe dão prestígio que todas [honras] do mundo não podem dar. [inaudível] é lataria e lataria ordinária em comparação com isso que está nEla. Brilhante e pérola são pedregulhos vagabundos em comparação com isso que está nEla.
Então diz d’Ela a liturgia: omnes gloriae filiae regis ab intus — toda a glória da filha do rei lhe vem de dentro. Não vem do que usa, não vem daquilo que aparenta, mas vem de algo que está dentro d’Ela e que lhe sai para fora.
* O Grupo, por um favor não merecido de Nossa Senhora, tem uma participação com todos os bens de Nossa Senhora
O Grupo de Catolicismo, por um favor não merecido de Nossa Senhora, mas muito real, é um grupo que tem uma enorme participação com todos os bens de Nossa Senhora.
E é um grupo que por causa disso pode e deve ser chamado, a seu modo vas honorabile. É um vaso de toda honra. Quando a gente entra nas nossas sedes a impressão predominante que a nossa decoração procura apresentar, não é a impressão de luxo, é a impressão de honra; é tudo impregnado com a nota da honorabilidade, quer dizer, da participação efetiva de bens de caráter espiritual, de bens de caráter moral, de bens de caráter cultural dominados pelos bens espirituais, de bens mesmo de tradição e de origem impregnados por esse caráter espiritual, e que fazem com que tudo isso seja visto como uma participação de Deus e que isso seja visto, portanto, como [inaudível].
* Mais vale a honra vinda da Fé que irradia dos membros do Grupo, do que ter toda espécie de luxo, fausto e brilho que se encontra no mundo
E o resultado é o seguinte: a gente vê às vezes na rua o mais modesto dos membros do Catolicismo, às vezes há uma coisa que brilha nele e que não brilha no mundo de fassures que andam pela rua de um lado para o outro: é a honra.
É uma compostura, é uma dignidade, é uma consciência de uma valor religioso, é uma seriedade, é uma tranqüilidade, é uma força, é uma combatividade, é uma afirmatividade e, sobretudo, é Fé — porque tudo isso nasce da Fé — que faz com que um membro de Catolicismo seja completamente diferente dos outros.
E isso é um modo de honra que os pagãos podem conhecer ou não conhecer, ver ou não ver, mas que existe mesmo, que existe mesmo e que é nossa recompensa na Terra.
Vale mil vezes mais ter uma honra que irradia das nossas pessoas do que ter toda espécie de luxo, toda espécie de fausto, toda espécie de brilho fausto.
Aqui está a recompensa que Nossa Senhora a nós nos dá pelo fato de nós não procurarmos as honras a que… [inaudível] …temos no esplendor da luta.
Ainda há algum tempo atrás, uma pessoa de minha família — nada afeita ao Catolicismo, nada simpática ao Catolicismo — me contava que foi a Ouro Preto, para turismo, para ver lá as coisas antigas de Ouro Preto, e que se levantou extraordinariamente cedo para percorrer desde logo as igrejas e tal.
Era domingo, foi à missa. Diz ela que a igreja estava cheia de mulheres e de homens em trajes domingueiros. E naturalmente os homens vestido como os senhores podem imaginar com essas malhas, com esses andrajos etc., — com isso que chamam de roupa, mas que não são senão trapos mais ou menos novos e bem cortados colocados uns em cima dos outros. Porque o vestuário está degenerando em trapos.
* O exemplo de um membro do Grupo pobre, que tinha muito mais que automóveis, etc.: tinha honra. Há gente que entre Jesus e Barrabás preferiu Barrabás
Há um… [inaudível] de “trapificação” revolucionária do vestuário. Essa pessoa contou que a horas tantas ela viu se aproximar da mesa da comunhão um rapaz — diz ela que um rapaz muito pobre — eu creio porque eu tenho impressão que nossa gente de Ouro Preto é muito pobre. Um rapaz muito pobre…
Um rapaz muito pobre, diz ela que a roupa era rapada e lustrosa — os senhores podem imaginar quantas vezes funcionou o ferro de passar aí e quantas vezes o clássico recurso… [inaudível] para quebrar aquele brilho seboso, lamentável, [inaudível] em vão etc.
Diz ela que perfeitamente limpo, asseado, vestido com colarinho, uma gravata — diz ela, “velhérrima”, mas bem posta — se aproximou com muita compostura da mesa da comunhão e que ela teve um choque. O pensamento dela foi: “Até aqui?! Até aqui?!”
Olhou para o rapaz, o rapaz por uma razão qualquer estava sem distintivo, de maneira que ela ficou na dúvida: quem sabe se não.
Depois o rapaz levantou-se, acabou a comunhão, deu ação de graças, e foi à imagem de Nossa Senhora rezar…
A gente vê que ela ficou comovida de admiração com a dignidade desse rapaz. Olhem que é uma pessoa mundana, muito mundana.
Esse rapaz tinha muito mais do que um mundo de rapazes que estão de automóvel. Tinha honra, que é isso que um pagão que não seja inteiramente filho das trevas percebe.
Se houve gente que entre Jesus e Barrabás, preferiu Barrabás, haverá muita gente que fica com ódio; haverá até, talvez, um tipo tão obtuso que não perceba isso. Mas isso não importa.
O fato é que é uma coisa que existe, existe em si, existe de um modo objetivo e fura os olhos de um mundo de pessoas. De onde acontece exatamente que há um espécie de plenitude de carreira que nos é dada, ficando cada um de nós na sua situação: nem procurando parecer mais rico do que é, nem procurando parecer de melhor família do que é, nem fazendo nenhuma espécie de fraude ou tapeação dessas.
* Nós constituímos esse “vas honorabile”, e por toda parte onde o Grupo entra, entra também a honra
Os senhores conhecem a nós da Pará e da Martim. Os senhores nunca devem ter visto em nós a tendência de [aparentar?] o que nós não somos. Não aparentamos o que somos porque devemos aparentar. Não aparentamos aquilo que nós não somos. O que nós não somos também nós não somos.
Bem, mas o que somos, cada um de nós no grau de participação que a Providência quis que houvesse, isso que nós somos com uma posição de honra.
E nós constituímos então no Grupo esse vas honorabile que faz com que por toda parte onde o Grupo entre num restaurante há um arrepio, há um mal estar dos precitos e há uma admiração até de quem não quer. Agora, por isso? Porque entrou a honra.
* Nós somos a honra, por pertencermos à Nossa Senhora, por participarmos de algo de Nossa Senhora e de servir a Nossa Senhora
Eu termino com esse fato histórico: quando Napoleão caiu, estava para cair, Talleyrand — que era aliás um grande sem vergonha mas que tinha a arte do bem dizer — Talleyrand escreveu uma carta ao irmão do rei da França, que estava nas fronteiras, para dizer ao rei da França para preparar a restauração do Bourbons. E como os senhores sabem, Napoleão era um bandido mas estava coberto de glória.
E Talleyrand mandou-lhe um bilhetinho só assim: “Mon Seigneur: a França está saciada de glória; traga-nos a honra”.
Está certo. É o bilhete perfeito ele nota que a honra é mais do que a reputação, mesmo napoleônica e sem vergonha. E com isso está dita a palavra final.
O que nós somos, nós somos a honra. A honra de que? A honra de pertencer a Nossa Senhora, de participar de algo de Nossa Senhora, de participar de algo de Nossa Senhora e de servir a Nossa Senhora. Esses somos nós. Não sei se era essa…
Bem, vamos rezar então.
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