Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 20/4/1966 – 4ª feira [SD 123] – p. 3 de 3

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 20/4/1966 — 4ª feira [SD 123]

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Santo Anselmo, homem típico da Idade Média: lutou contra um rei prepotente, contra cismáticos, muito viajou; abade e bispo modelar * Marcou seu século pela ciência e piedade, numa época em que a solidez consistia na luta * A solidez ou a precariedade do Reino de Maria dependerá da energia e da dependência dos homens a Maria * Um dia sem luta e sem cruz é um dia frustrado

Hoje, como declarado ontem, é festa de São Conrado de Pazran, Confessor, da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, cuja relíquia se venera em nossa capela.

Amanhã, dia 21 de abril, será festa de Santo Anselmo, bispo e Doutor, cuja biografia, segundo D. Guéranger, apresenta os seguintes traços:

Anselmo nasceu em Aosta, no Piemonte, de família nobre. Como o pai o afastasse da vida religiosa, entregou-se aos prazeres durante alguns anos. Mas aos 26 anos entrou na abadia de Bec, na Normandia, onde se entregou à pratica das virtudes religiosas e ao estudo das Escrituras. Aos 30 anos tornou-se prior e em seguida abade. Governou sua abadia com uma bondade incansável que lhe permitiu triunfar de todas as dificuldades. Os papas Gregório VII e Urbano II manifestaram-lhe grande estima. “O bom odor de vossas virtudes chegou até nós”, escrevia-lhe Gregório, e Urbano II diz: “Vinde cá o mais depressa possível a fim de podermos gozar juntos da afeição que nos une”.

Chamado à Inglaterra em 1092 não pôde voltar à França pois foi nomeado Arcebispo de Canterbury. Nesse cargo muito sofreu do rei Guilherme o Ruivo pela defesa dos direitos e liberdade da Igreja. Exilado, foi à Roma, onde o papa o cumulou de honras e lhe deu ocasião, no concilio de Bari, de convencer do seu erro os gregos que negavam que o Espírito Santo procedesse do Filho como do Pai.

Voltando à Inglaterra após a morte de] Guilherme, Santo Anselmo morreu a 21 de abril de 1109. Clemente XI em 1720 o declarou Doutor da Igreja.

Monge, bispo, Doutor, Anselmo reuniu em sua pessoa os grandes apanágios do cristão privilegiado. E se a auréola do martírio não veio completar tanta glória, pode-se dizer que a palma faltou a Anselmo, mas que ele não faltou à sua palma. Sua vida foi toda entregue às lutas pela liberdade da Igreja. Nele o cordeiro revestiu-se do vigor do leão. Cristo, dizia, não quer uma escrava para esposa. Nada Ele ama tanto no mundo quanto a liberdade de sua Igreja. O nome de Anselmo lembra a mansidão do homem do claustro unida à firmeza episcopal, a ciência junto com a piedade. Nenhuma memória foi mais suave e, ao mesmo tempo, mais brilhante do que a sua.

* Santo Anselmo, homem típico da Idade Média: lutou contra um rei prepotente, contra cismáticos, muito viajou; abade e bispo modelar

Os senhores estão vendo nesses traços da vida de Santo Anselmo uma confirmação do que eu falava ontem e anteontem a respeito das condições de existência da Igreja na Idade Média. Os senhores estão vendo as lutas que esse santo teve que enfrentar em plena Idade Média. Ele parece não ter tido — ao menos segundo esses traços biográficos — especiais lutas em seu convento. Mas ele teve dois grandes inimigos a vencer: um era um rei prepotente que queria sujeitar a Igreja à sua autoridade; e outros eram os cismáticos gregos que reunidos no concílio de Bari com os católicos ele conseguiu persuadir, mas de maneira efêmera, que a doutrina católica era verdadeira.

Ele ao mesmo tempo foi um homem que se deslocou muito, que viajou muito. Os senhores estão vendo que era italiano, depois foi para a Normandia, depois foi para a Inglaterra, depois foi para Bari, depois esteve em Roma. Quer dizer, foi um homem que viajou muito numa época em que essas viagens representavam enormidades. Eram feitas em estradas péssimas, com riscos de toda ordem, como muita dificuldade, com muita lentidão, etc.

Os senhores vêem nesse conjunto as condições de vida dele. Quer dizer, um homem que era favorecido por Nosso Senhor por especiais graças e que levou a bom termo tudo aquilo de que foi incumbido: abade, foi um abade muitíssimo estimado; arcebispo de Canterbury, ele levou uma luta rigorosa contra o rei e acabou sendo reintegrado na sua sede episcopal; lutando contra os cismáticos, ele acabou persuadindo os cismáticos de seus erros. Depois, extinguiu-se na alegria de todos e no amor de todos pela vida que tinha levado, porque a morte dos santos é muito mais uma alegria do que uma fonte de tristeza.

* Marcou seu século pela ciência e piedade, numa época em que a solidez consistia na luta

Mas os senhores vêem aí qual é a natureza da verdadeira grandeza da Idade Média: esse homem passa pela história do século XI, ele marca o século pela sua ciência, pela sua piedade, pelas suas lutas, e a causa católica ele vence, ele leva a causa à vitória.

Então, transcorrida a vida dele, a gente olhando para trás, a gente tem impressão de uma fortaleza formidável, de um homem que encheu o seu tempo, de um homem que venceu, de um homem cuja glória perdura por todos os séculos por causa das vitórias que ele obteve em favor da Fé. Quando a gente olha isso, a gente tem impressão de solidez de toda a Idade Média, da força, de grandeza de toda a Idade Média, que contrasta com a pequenez, o efêmero, a índole de matéria plástica de todas as coisas de nossos dias. E essa impressão não é falsa, essa impressão é verdadeira porque nos mostra a solidez da estatura dos grandes homens que marcaram a Idade Média.

Mas de fato ele teve muitas lutas. De fato, se não tivesse havido campeões como ele, a Igreja teria afundado. Na Idade Média havia uma luta contínua: a solidez não consistia em não haver luta, consistia em que a boa reação vencia sempre e era, portanto, nesse sentido, sólida. Mas um pouco que os homens fraquejassem, a coisa poderia cair.

* A solidez ou a precariedade do Reino de Maria dependerá da energia e da dependência dos homens a Maria

E os senhores então vêem aqui de antemão qual vai ser a solidez e qual vai ser a precariedade do Reino de Maria. A solidez vai ser enorme enquanto haja homens de uma grande solidez dispostos a lutar em todos os sentidos.

Nesse sentido, o Reino de Maria poderá levar séculos e séculos. Se encontrar homens fracos ele soçobrará imediatamente, porque o reino do demônio é forte, porque nós estamos numa humanidade marcada pelo pecado original e num mundo imerso na presença dos tais demônios dos ares de que falava São Paulo. Portanto, é preciso estar lutando sempre, com uma energia inquebrantável, com uma atividade contínua, com um desprendimento de si inteiro, com os olhos postos completamente em Nossa Senhora, para que a luta seja levada a bom termo. Mas encontrando verdadeiros lutadores, verdadeiramente dependentes de Nossa Senhora, a causa é solidíssima, ela vence mesmo. A questão é de haver quem lute por ela. Aqui está a questão.

* Um dia sem luta e sem cruz é um dia frustrado

Isso dito, não nos resta senão pedir a Nossa Senhora que nos dê forças e que nos compenetre da verdade para nós compreendermos bem o seguinte: agora, como durante o Reino de Maria, a nossa vida de luta deve ser uma coisa constante, e no dia em que nós não tivermos lutado, nós temos que nos compenetrar que não carregamos a cruz de Cristo e que esse dia foi um dia frustrado em nossa vida.

Não lutar é não sofrer; não sofrer é não carregar a cruz de Cristo. Um dia passado, por um católico, longe da cruz de Cristo, longe de Nossa Senhora, é um dia cancelado, é um dia em branco.

Vamos pedir a Nossa Senhora que nunca nos dê um dia desses em nossa vida.

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