Santo do Dia – 19/4/66 – 3ª feira . 6 de 6

Santo do Dia — 19/4/66 — 3ª feira

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Para se combater o igualitarismo é mister conceber um profundo horror à vulgaridade — A vulgaridade joga um papel ainda mais central do que a inveja na gênese do sentimento igualitário * A odiosa atitude que toma o igualitário diante do maravilhoso * Mesmo quando pobre, o homem antiigualitário se caracteriza por uma postura de alma admirativa em relação ao sublime, elevado e grandioso * Um grande obstáculo a ser vencido pelos espíritos antiigualitários é a tendência de fechar-se mediocremente nos padrões onde se nasceu * Papel regulador da virtude da humildade na aquisição de um espírito antiigualitário

Amanhã é festa de São Conrado de Párzano, confessor, da ordem dos Frades Menores capuchinhos. Sua relíquia se venera em nossa capela.

Fizeram-me uma pergunta sobre sentimentalismo no grupo, e eu respondi. Agora, fizeram-me a mesma pergunta, mas sobre igualitarismo. A pergunta é: em que sentido o grupo pode progredir em matéria de anti-igualitarismo?

* Para se combater o igualitarismo é mister conceber um profundo horror à vulgaridade — A vulgaridade joga um papel ainda mais central do que a inveja na gênese do sentimento igualitário

Tenho a impressão de que a principal coisa para se progredir em matéria de igualitarismo, consiste em progredir na concepção bem exata do que é o antiigualitarismo. Quer dizer, do mal moral que existe no igualitarismo.

Não do antiigualitarismo considerado como uma posição filosófica, metafísica, mas do mal moral que existe no igualitarismo, de maneira que não só se compreende que o igualitarismo é um mal — parece-me que, nesse sentido, a noção está bem firmada no grupo — mas que se tenha também, em relação ao igualitarismo, o horror que se deve ter. Qual o modo pelo qual podemos nos colocar bem diante do mal moral do igualitarismo?

Os senhores tomem uma pessoa que é vulgar, na acepção própria da palavra vulgar. Não é uma pessoa apenas que porque vive na época dos senhores, emprega certos termos do vocabulário dos senhores, termos que eu me lisonjeio em imaginar que os senhores todos execram, como “chato”, “bolar”, “cranear”, “quebra-galho”, “bárbaro”, “tártaro”, depois, em vez de politécnica, “poli”, “tá legal”, e daí para fora, expressões que estão no vocabulário corrente e os senhores devem fazer um esforço para não usar, mas eu compreendo que passem do ouvido para a cabeça e da cabeça para a boca meio irrefletidamente; não se trata disso.

Mas os senhores imaginem uma pessoa no seguinte estilo: ela olha para uma coisa, por exemplo, vê passar um dos senhores de colarinho e gravata, olha e diz: “tenho raiva!” Por quê? Porque gostariam que estivessem com colarinho, mas sem gravata. “Por quê não põe esse colarinho sem gravata?” Se fica o colarinho sem gravata, olha, fica com raiva e diz: “por quê não tira o paletó?”

Se olha e a pessoa está sem paletó, diz: “por quê não põe a camisa para fora em vez de botar dentro da calça?”. E se olha e vê a camisa fora da calça, diz: “por quê não usa blue jeans?” Veja bem, não se trata aqui de uma pessoa que tem menos e fica com inveja porque o outro tem mais.

Mas, trata-se de uma pessoa feita de tal maneira que ela, quanto mais uma coisa é vulgar, mais ela se sente conatural com aquela coisa. E quanto mais a coisa é elevada, mais ela se sente em distonia, em heterogeneidade com aquela coisa, porque ela gosta da coisa vulgar.

* Toda e qualquer fórmula ou atitude igualitária apresenta sempre uma tônica comum: a vulgaridade e uma estranha alegria de voltar-se contra tudo que é ordenado

Então, gosta do sujeito que conversa batendo com as costas da mão na barriga do outro, cuspindo no chão, chamando de “seu mano”, põe a mão no ombro; se não sabe, recua, diz uma mentira espetaculosa, dá uma gargalhada idiota. O outro vê aquilo e diz: “Que simpático!” Quando vê um rapaz distinto, bem composto, fino, diz: “Pedante! Eu tenho raiva dele”.

Notem que a questão não é inveja, mas é questão da vulgaridade. A coisa fina, selecionada, irrita. Pelo contrário, a coisa vulgar desperta uma certa simpatia, porque o sujeito se sente afim com o vulgar.

Se um sujeito assim ficasse rico, não iria comprar coisas luxuosas. Ele gastaria estupidamente num mundo de coisas, mas ele ficava com o calhambeque, ou melhor, com a calça calhambeque e ia gastar um mundo de coisas com a calça calhambeque. Porque ele gosta do calhambeque e gosta que a calça chame-se calhambeque, porque é para ser assim mesmo, porque o símbolo do mundo, da vida e da ordem universal das coisas deveria ser um calhambeque.

Isso é aquilo de que ele gosta. Por exemplo, em matéria de sorvete, ele acha o sorvete Kibon uma delícia. Se lhe falarem de sorvetes mais finos, Cristalo, de outras coisas assim, ele implica. Diz: “por quê isto? Eu gosto é do sorvete Kibon, porque tem gosto de sabão. Mas se encontrar um sorvete com gosto de barro, ainda é melhor, porque é preciso ser bem cafajeste, bem ordinário”.

Se alguém lhe propuser: “eu tenho um tio que quer lhe dar um quarto de dormir esplendidamente mobiliado, tapete magnífico, cortinas admiráveis, uma mobília muito raffinée”. O sujeito dentro, em poucas horas ele emporcalhou tudo. Ele se pendurou numa cortina, cuspiu no chão, jogou cigarro de todo lado, no deitar-se na cama ele quebra as molas da cama dele, derrama água. Ele é um torcionário de todas as coisas que estão bonitas, em ordem, são regra, por uma antipatia, uma alergia que ele tem contra aquilo que está em ordem.

Ele olha para a sociedade do passado e vê aquelas formas de polidez: “creia, senhor, nas expressões da alta […inaudível]”. Ele diz: “quanta pataquada. Não era muito melhor […inaudível] do que tantas bobagens assim?”

* A odiosa atitude que toma o igualitário diante do maravilhoso

Vamos dizer […inaudível] uma carruagem, magnificamente ajaezada e puxada por duas parelhas de cavalos brancos, toda dourada, com pinturas sobre o ouro […inaudível], as rodas, por exemplo, como são as rodas de um carro de gala da rainha da Noruega, rodas de cristal. Dentro, […inaudível] magnífico, com aquelas vidraças de cristal, embombado no alto […inaudível], com postilhões, etc., andando, ele olha para aquilo, a idéia dele é pegar uma pedra e jogar com um assobio. E ele acha que tomou diante daquilo a atitude correta, coerente, porque aquilo é preciso quebrar.

É a mentalidade de tantos turistas que vão lá ver as figuras do Aleijadinho, e quebram um dedo, escrevem o nome, fazem ali uma porção de porcarias. Por quê? Porque é preciso quebrar tudo aquilo que está direito. Tudo aquilo que é elevado é preciso conspurcar.

* O igualitário tem uma sordície de alma tal que professa um amor ao mal pelo mal, ao sujo pelo sujo e ao torto pelo torto, a ponto de preferir Barrabás a Nosso Senhor

Essa mentalidade é uma mentalidade digna de ódio, porque professa um amor do mal pelo mal, porque isto propriamente é amar o mal pelo mal. É o amor do sujo pelo sujo, do errado pelo errado, do torto pelo torto […inaudível] Barrabás. Naquele tempo os bandidos não se penteavam, não eram limpinhos como são hoje.

Barrabás deveria ter um facies horrendo, um olhar desvairado, um cabelão, urros etc. Imaginem lado a lado: um king-kong desses e, de outro lado, Nosso Senhor Jesus Cristo: majestoso, formosíssimo, sublime, mesmo num momento de infortúnio como aquele. Chegar para os dois e dizer: é aquele lindinho que eu quero, é uma depravação, uma imundície de alma que é como ver o demônio a Deus e preferir o demônio.

Ora, essa sordície de alma está no igualitarismo. E por isso a gente tem que entender o igualitarismo para não descer a considerações teológicas mais profundas, ou subir a considerações teológicas mais profundas, o igualitarismo é uma coisa má em si e a disposição de alma da pessoa antiigualitária é a disposição de alma pela qual ela, em todas as coisas, procura o mais sublime; não para ter, mas para conhecer e admitir.

Por exemplo, o normal de uma pessoa antiigualitária é, ao ouvir falar das rodas de cristal do carro da rainha da Noruega, pensar: “que pena eu não poder ver isto!” Não é andar dentro do carro, mas ver. O próprio da pessoa meio imbuída do igualitarismo é [… inaudível] a consideração mecânica de uma coisa sublime.

* Mesmo quando pobre, o homem antiigualitário se caracteriza por uma postura de alma admirativa em relação ao sublime, elevado e grandioso

O sumo do igualitarismo é dizer: “também nem tanto é preciso. Bem podia ser uma roda comum. Por quê essa mulher pretensiosa foi arranjar esta roda de cristal?” É o rabinho do igualitarismo se agitando.

O desejar ver, o desejar amar, o desejar conhecer sempre o que é mais sublime, mais elevado e ter, portanto, uma espécie de cisão de alma em relação ao que é menos sublime e menos elevado, isto é propriamente a coisa do espírito antiigualitário.

O espírito antiigualitário, hierárquico, procura as coisas mais altas, ele não despreza nem odeia as coisas simples, e se uma pessoa, sem espírito igualitário, é pobre, vive compostamente na sua pobreza sem desprezar a sua pobreza. Não é, portanto, o pobre que o espírito igualitário despreza: ele despreza o vulgar.

A casa da Sagrada Família, em Nazaré, era paupérrima, mas não era vulgar. Tudo bem arranjado, tudo direito, tudo em ordem, tudo limpo, tudo exato, tudo elevado, ainda que dentro da pobreza. Não é isto que o antiigualitário despreza. Ele considera até a própria pobreza composta uma coisa boa. O que ele odeia, o que ele despreza, é a coisa desbeiçada, desarranjada, errada pelo amor do desarranjado, pelo amor do sujo, pelo amor do vulgar, pelo amor do ordinário. Isto é que, propriamente, ele detesta.

Então, aqui estaria um primeiro ponto: a gente se examinar e procurar então continuamente em si cultivar este estado de alma, o qual estado de alma, por sua vez, leva o nosso espírito às alturas do amor de Deus. Então, aqui está a primeira nota do espírito antiigualitário.

* Um grande obstáculo a ser vencido pelos espíritos antiigualitários é a tendência de fechar-se mediocremente nos padrões onde se nasceu

Há uma segunda coisa que fica contida dentro da primeira, mas é um escolho dentro do qual muitos espíritos antiigualitários fracassam: todo mundo está habituado a considerar o seguinte: a classe onde eu nasci é a classe própria onde o homem vive bem. Por isto, querer ter mais do que eu tenho, é luxo, é bobagem.

Para quê? Eu estou habituado a tal coisa, se fulano gosta de tal outra coisa, é um luxento, é um bobo. Porque meus hábitos, hábitos que adquiri em meu tempo de menino, são o padrão da vida humana.

E o mais engraçado é que a gente nota isto em todas as gamas. Eu conheço, por exemplo, uma senhora muito rica, e um pouco caipirona. Quando se fala para ela de costura francesa, ela diz: “Que pataquada! Olhe, até na Rua Sebastião Pereira, na Clipper, tem tanto vestidinho bonitinho! Por quê precisa de costura francesa?” Porque ela foi educada no nível Clipper, apesar do dinheiro que ela tem, e ela acha que aquilo está bom. O padrão dela é o padrão do mundo.

Esta mesma senhora uma vez dizia: “Comida da Europa? … Ah, comida da Europa não é nada. Quando eu vou para a minha fazenda e como aqueles frangos, com aquela abundância brasileira, aquilo é que é comida! Em nenhum lugar do mundo se come como aqui no Brasil”. É uma idiotice. Ela foi educada comendo frango e se regozijando com frango. Ela então acha que não precisa de outra coisa a não ser o frango. O frango é o teto.

Haverá [outras] senhoras com a mesma psicologia, que estão habituadas a comer frango uma vez por mês somente. Então dizem: “Para que essa história de frango para cá e para lá? Um bom assadão bem forte, com toucinho dentro, bastante cenoura, um molho grosso, junto com batata, arroz, couve-flor, manteiga e faz um prato só. Nada de franguinho, nada de molho, caviar, então, nem se pensa. Isto é que é gostoso”.

Daí se chega até o pão com banana: “Negócio de carne, bobagem. A gente está cansado, pega um pãozão, põe dentro uma bananona e come com saúde e está acabado”.



* A tendência de implicar com o padrão de vida que nos é superior provém do amor próprio — Fatinho da mocidade do Sr. Dr. Plinio comprova ser a vulgaridade a substância mesma do igualitarismo

Todos nós somos inclinados a implicar com o padrão de vida, com o supérfluo, com o padrão de vida que é superior ao nosso. E daí vem o amor próprio: “o que a mim me basta inteiramente, eu vivo inteiramente bem assim, o que tem agora aquele pelitrica do fulano, que acha que não. Mega. O que ele pensa? O quê é mais do que eu?”

Isto assim é que se passa no espírito. E quando não é mega, é coisa pior: “Bobo… Ele se deixa iludir pela propaganda. Ele acabou convencido que paté é bom, quando cebola é melhor que paté”.

A coisa circula. E a gente diz que o paté tem uma coisa raffinée, ele dirá: “que raffinée coisa nenhuma. Ele está acreditando nisso. Os literatos puseram isso na cabeça dele. O que existe é feijão. Come-se uma boa feijoada, empanturra-se, aquilo é bom, a gente nem janta. Lá vem com patezinho raffinée, com pedacinho numa torradinha. Isto é coisa de homem efeminado, de cretino”.

Eu não posso me esquecer de um episódio que se deu comigo em meu tempo de mocinho. Fui para uma fazenda num lugar aqui do interior de São Paulo, caracterizado por uma abundância — não sei se hoje ainda é assim — de terra vermelha, que era de assustar. Essa fazenda só tinha dois lavatórios: um no compartimento competente e o outro na sala de jantar. E se a gente tinha pressa, a gente tinha que lavar o rosto na sala de jantar onde estavam as pessoas comendo, tomando café.

Lá fui eu. Cheguei lá e, por distração, pega a toalha, deixo cair no chão e ela se mete na terra vermelha. Eu digo: “que maçada, tenho que mandar vir outra toalha”. Ao ouvir isso, três ou quatro rapazes de minha idade, soltaram uma gargalhada: “mandar vir outra toalha por causa dessa poeira? Essa poeira você vai tomar lá fora; já enxuga o rosto de uma vez com poeira”. Eu me formalizei em graus diante da coisa e eles notaram que a coisa ia para incidente e disseram isto, que indica bem a coisa: “Bem, como você teve uma educação finíssima — vejam o conceito de educação finíssima — não suporta as coisas que nós suportamos”.

Quer dizer, é finíssimo, é supérfluo, é superabundante não besuntar a poeira do chão no rosto. Isto é um conceito de uma certa coisa e é um certo estado de espírito. Esse estado de espírito vem desse conceito igualitário: “o que basta para mim, basta absolutamente para tudo. E aquela cretina da rainha da Noruega é pretensiosa e mega querendo andar com carro de rodas de cristal, quando minha mãe anda com pneumáticos goodyear muito bem no automóvel e está muito bom”.

* Papel regulador da virtude da humildade na aquisição de um espírito antiigualitário

Uma segunda coisa então é compreender que há exigências de raffinement, há exigências de requintes de bom gosto que a gente não compreende, mas que nem por isso constitui o bobo; caracteriza o sagaz, que soube perceber. A gente tem que tomar uma atitude de humildade, de compreensão diante daquilo que a gente não foi capaz de compreender.

Nestas duas direções, creio que ainda temos algum progresso a fazer. Não sei se peco em juízo temerário, mas as fisionomias, enquanto eu falava, me fazem ver que, pelo menos num ponto ou noutro, eu não pequei de juízo temerário. Aqui fica essas considerações para um progresso a respeito do igualitarismo como foi pedido.

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