Santo
do Dia (Auditório da Rua Pará) – 9/4/1966 –
Sábado [SD 313] – p.
Santo do Dia (Auditório da Rua Pará) — 9/4/1966 — Sábado [SD 313]
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Que se passou enquanto Nosso Senhor estava no sepulcro; a crise dos apóstolos antecede à Paixão; todos fogem, só São João ao pé da Cruz; apavorados procuram Nossa Senhora; Ela lhes concede graças e os prepara para a ressurreição; paralelo com a atual situação da Igreja.
* Nosso Senhor no sepulcro. Que se passou? * Os apóstolos já estavam em crise * Dormiram no Horto e na Paixão fugiram * Post paixão. Crise dos Apóstolos * Ponto de convergência dos fugitivos: Nossa Senhora * Nossa Senhora atua sobre as almas deles * Lição: nas crises e tragédias, procurar Nossa Senhora * Na “paixão” da Igreja, esperar a “ressurreição”
Comentário sobre o abatimento dos apóstolos
…Santo do Dia, não vamos ter hoje, [nem] amanhã “Santo do Dia”, de maneira que é bom que eu fale uma palavra aos senhores a respeito de Nosso Senhor no sepulcro e depois da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
* Nosso Senhor no sepulcro. Que se passou?
A respeito de Nosso Senhor no sepulcro, nós devemos considerar a coisa seguinte: o que é que se passou com os apóstolos enquanto Nosso Senhor estava no sepulcro. A Escritura nos diz pouco a esse respeito. Algo a gente pode conjecturar. E Anna Catarina Emmerick diz, como de costume, uma imensidade de coisas sensatas, piedosas, interessantes, sumamente verossímeis e que eu tenho por certas, a respeito desse assunto. Os senhores devem imaginar o que é que se passou com os apóstolos.
Os apóstolos, afinal, seguiram Nosso Senhor durante muito tempo, viram toda espécie de milagres, receberam toda espécie de ensinamentos verdadeiros, profundos, santíssimos. Mais do que isso, eles tiveram contato pessoal com Nosso Senhor Jesus Cristo e, nesse contato pessoal, puderam fazer uma idéia da sabedoria e da santidade infinitas d’Ele. E, portanto, tinham todos os motivos para estarem absolutamente empolgados por Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando chega, entretanto, o período em que Nosso Senhor começa a ser atacado e começa a ser perseguido, os apóstolos têm uma espécie de baixa e têm uma espécie de desânimo. O triunfo de Nosso Senhor na cidade de Jerusalém deve ter dado a eles alguma alegria. Mas a Santa Ceia foi uma cerimônia ao mesmo tempo alegre e sumamente triste; em que a tristeza de Nosso Senhor diante dos tormentos que se apresentavam, se aproximavam, transparecia claramente, tendo mesmo Ele dito coisas expressivas e significativas a respeito do assunto. De mais a mais aconteceu que os apóstolos, por causa disso, sabendo também que um deles ia trair, e com a baixa que naturalmente essa traição devia dar, os apóstolos não estiveram à altura das condições.
* Os apóstolos já estavam em crise
E Catarina Emmerick diz que ela, no dia da Santa Ceia, viu Nosso Senhor tratando com os apóstolos e os discípulos, e que ela percebeu que enquanto os discípulos, que eram mais novos, estavam em pleno fervor, os apóstolos tratavam Nosso Senhor com menos respeito, com menos reverência, com menos ternura do que os discípulos. Apesar do que Nosso Senhor os tratou com tanta bondade que chegou a lhes lavar os pés e convidar a eles, a mais ninguém, nem a Nossa Senhora, ele convidou para a Ceia em que pela última vez Ele comeu com eles e instituiu o Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Isso indica que os apóstolos já estavam, mais ou menos, em crise. E os senhores talvez dissessem, na linguagem pitoresca adotada, que os apóstolos talvez estivessem um pouco “ensabugados” quando chegou o momento da Paixão. O fato concreto é que no Horto das Oliveiras e depois, durante a Paixão, eles tiveram várias características que correspondem mais ou menos à noção de “sabuguismo”. Porque durante o Horto das Oliveiras, eles dormiram. Dormiram com negligência, com indiferença, mais ou menos se portaram como um membro tíbio se porta numa reunião, quando ele não tem interesse pelas coisas do Grupo. Se se fala do automóvel dele que, lá fora, pode sofrer um arranhão, ele acorda inteiro. Se se fala, não sei, de que houve uma tempestade fenomenal que arrasou um pedaço da cidade de Campinas, ele acha sumamente interessante. Se se fala de um dogma da Igreja Católica, ele dorme como sob a ação do melhor dos narcóticos.
* Dormiram no Horto e na Paixão fugiram
Bem, eles dormiram enquanto Nosso Senhor sofria. Eles dormiram quando Nosso Senhor disse a eles: “Então, vós não pudestes uma hora vigiar comigo? Eis que se aproximam os adversários para me prender.” Não é isso? Eles dormiram. Bom, o resultado é que quando eles acordaram, era quando Nosso Senhor estava sendo preso. Então, um pânico pavoroso. E o que é triste é que parece que a esse pânico, nem São João Evangelista, o Apóstolo Virgem, o Apóstolo predileto — fugiu! — escapou. Parece que o moço que fugiu deixando a túnica em mãos dos soldados foi São João Evangelista. Ele reapareceu depois ao pé da Cruz, mas até São João Evangelista fugiu. Ele reapareceu depois e recebeu Nossa Senhora como Mãe. E os comentadores dizem que São Pedro não a recebeu como mãe porque não estava presente ao pé da cruz. Os senhores calculem o que é não estar presente ao pé da Cruz na hora do sofrimento da Igreja e de Nosso Senhor. Ele esteve presente, mas todos os outros estiveram fora.
* Post paixão. Crise dos Apóstolos
Os senhores podem imaginar a mentalidade desses apóstolos envergonhados. São Pedro chorando amargamente. Eles provavelmente dispersos, desconjuntados uns dos outros; quando eles souberam que Nosso Senhor morreu e quando eles viram a Terra tremer, e depois trovoadas, e depois o véu do templo se rasgar, e depois ele viram os justos da Antiga Lei, os cadáveres dos justos andando pelo meio da cidade e olhando tudo com ares de tremenda severidade, os senhores podem imaginar o que é que eles sentiram? Eles devem ter sentido uma coisa tremenda, uma coisa do outro mundo. Não é verdade? Quando eles viram tudo isso. E, entretanto, como deveriam estar abatidos… Como deveriam estar prostrados, como deviam estar horrorizados, sem saída nenhuma.
Bom, acabou-se tudo, acabou o terremoto, acabou, acabaram-se as trevas, a “vidinha” de todos os dias voltou para Jerusalém, no quarto onde eles estavam penetravam, naturalmente, todos os mil barulhos da rua indicando que tudo se tinha normalizado; mas eles, naturalmente, com medo de serem perseguidos, com medo de serem presos.
* Ponto de convergência dos fugitivos: Nossa Senhora
Bom, o que é que aconteceu então? Evidentemente aconteceu algum trabalho misterioso da graça. Porém que no estado péssimo em que eles estavam, eles foram levados a procurar Nossa Senhora. E procurando Nossa Senhora, que era o ponto de encontro natural entre eles, procurando Nossa Senhora, encontraram-se uns aos outros. E estavam ali chorando, sem nenhuma idéia da Ressurreição — porque só quem tinha idéia da Ressurreição era Nossa Senhora — num futuro completamente sem futuro. Porque uma vez que Nosso Senhor tinha morrido, o que é que ia acontecer? O que é que era aquilo tudo sem Ele? Dir-se-á: “Havia Ela.” É bem verdade. Mas acontece que parece que durante a vida terrena d’Ele, as graças e dons d’Ela não foram tão manifestos aos homens como depois. Eles entenderiam bem toda a Mariologia naquele momento? E mediram todo o valor sem medida daquele tesouro que estava nas mãos deles? É uma coisa que a gente pode bem presumir que não. Então, estava tudo na maior noite, estava tudo na maior treva, estava tudo no desespero mais completo.
* Nossa Senhora atua sobre as almas deles
Mas naturalmente Nossa Senhora começou a atuar sobre a alma deles. E provavelmente sem lhes revelar a Ressurreição, começou a fazer, pela ação da graça, despertar no íntimo da alma deles uma porção de sensações de esperança, uma porção de percepções imponderáveis da graça que viria, que foram levantando esses homens e que foram dando a eles uma segurança no meio da tormenta, que era uma segurança nova que eles deveriam, naturalmente, guiar[-se] e a que eles corresponderam. Então, unidos a Nossa Senhora, estando eles em torno de Nossa Senhora, eles já estavam em condições de acreditar na Ressurreição que viria. Então deu-se exatamente esse fato, de que no momento preciso eles foram informados da Ressurreição. E informados da Ressurreição, eles aceitaram, tiveram fé. Tiveram fé e exultaram. E então, tudo quanto era caminho sem caminho se abriu; tudo quanto era via, sem via tornou-se via; e todas as esperanças, as mais audaciosas, se confirmaram numa Ressurreição de Cristo que era a afirmação de toda a vida d’Ele e que representava para eles, apóstolos, um grande perdão.
Foi daí que os apóstolos passaram por uma verdadeira conversão. Foi daí que os apóstolos depois receberam o Espírito Santo, em Pentecostes e se tornaram o que nós sabemos depois. Que dizer, na pior das horas, eles, porque foram para junto de Nossa Senhora, porque se puseram junto a Nossa Senhora, receberam toda espécie de graças. E daí veio a maravilha toda que nós sabemos.
* Lição: nas crises e tragédias, procurar Nossa Senhora
O que é que nós devemos concluir daí? A Santa Igreja Católica é imortal. Ela não morre. Mas Ela pode passar por horas tão tristes e tão ruins que possam parecer uma verdadeira crucifixão. Nessas horas, o que é que a gente deve fazer? Não dormir como os apóstolos, não ter a indiferença que os apóstolos tinham, mas, pelo contrário, aproximarmo-nos de Nossa Senhora e pedir que Ela nos dê coragem e alento nessa hora tremenda em que nós estamos atravessando. Junto com Ela, nós poderemos passar os piores momentos, mas acontecerá o que fatalmente tem que acontecer. Quando a Igreja parece mais abandonada, Ela está mais próxima de sua como que Ressurreição, do seu levantar-se de novo; e junto a Nossa Senhora, nós devemos esperar a hora, que é a hora da Bagarre, e a hora do Reino de Maria, em que a Igreja vai brilhar de novo como um sol ainda mais brilhante do que outrora.
* Na “paixão” da Igreja, esperar a “ressurreição”
Então, junto a Nossa Senhora confiar na Igreja de todo jeito, amar a Igreja por cima de todas as coisas da terra sentirmo-nos ligados a Ela como filhos incondicionais, de todos os modos e de todos os jeitos; embora até Ela possa parecer morta, nunca acreditar que Ela morreu, porque ela é absolutamente imortal. Haverá um momento junto a Nossa Senhora e recebendo forças e as graças d’Ela, que nós vamos assistir essa coisa prodigiosa, a maior vitória da Igreja em todos os tempos. Nossa Senhora disse em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.” Não há vitória de Nossa Senhora que não seja vitória da Igreja Católica. Depois de Pentecostes, a maior das vitórias é a vitória que os senhores assistirão, se os senhores souberem estar bem unidos a Nossa Senhora nas piores horas, procurando sempre por Ela, porque quem está perto d’Ela encontra o caminho da salvação. É isso que eu queria dizer.
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Auditório da Rua Pará