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– 9/4/1966 – p.
Reunião para o Grupo da Martim 1 (Auditório da Santa Sabedoria) — 9/4/1966 — Sábado [cb121] [Datilografado por: C. Pedro]
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Comentário de recorte mostrando técnica progressista
Para adiantarmos um pouquinho a distribuição do nosso tempo,... [faltam palavras] ...saber, eu ia pedir que levantassem o braço os que pretendem comungar hoje à noite, para eu ter um pouco a idéia. A missa é meia-noite e nós temos que organizar... [faltam palavras] ...conforme isso. Aqui, levantem o braço os que vão comungar à meia-noite... [faltam palavras] ...
Do lado de lá, tenham a bondade de levantar o braço os que vão comungar à meia-noite na missa em Santa Teresinha, aqui na Rua Higienópolis. Seria bom os de São Paulo se organizarem... [faltam palavras] ...e quem não fosse de São Paulo... [faltam palavras] ...quem assistir a missa à meia-noite está cumprindo o preceito também para amanhã. Mas os senhores podem comungar amanhã de novo, não é? Eu acho que é bem isso. De maneira...
(Sr. –: [Tenho uma] observação: é o seguinte, quem comungou hoje, Dr. Plinio, não pode comungar agora à noite. Pode comungar agora à noite, depois da meia-noite, mas não pode comungar novamente na missa do domingo. Agora, quem não comungou hoje, pode comungar à meia-noite e pode comungar amanhã novamente.)
Bem, então eu pergunto se está claro: entre hoje e amanhã há o direito de fazer duas comunhões. De maneira que quem comungou hoje na missa dos melquitas, por exemplo, poderá comungar amanhã. Quem comungar hoje, na missa de meia-noite, poderá comungar amanhã também. Mas quem já comungou hoje na missa dos melquitas, comungar à meia-noite e amanhã, não pode porque isso levaria a três comunhões em dois dias. Isso não é possível. É possível duas comunhões em dois dias, ou duas comunhões num dia. Mas não pode mais do que isso.
Então, isso dito nós vamos interromper a nossa conferência às onze e trinta, onze e trinta e cinco, para dar tempo a todos que queiram ir a Santa Teresinha, irem.
E nós vamos entrar diretamente na matéria de hoje. A matéria de hoje é a seguinte: Dr. Sérgio me separou um artigo que é tirado do jornal “Folha da Tarde”, “Jornal da Tarde”, não é, que como os senhores sabem é o suplemento ou é a publicação vespertina do “Estado de S. Paulo”.
Bem, o jornal apresentou no seu número de 4 de abril passado, portanto, de segunda-feira, uma página inteira, espalhafatosa, a respeito de assuntos religiosos. E essa página é uma página intensamente progressista, do ponto de vista religioso. Quer dizer, procurando inculcar as idéias opostas às idéias que nós sustentamos. Nós somos da tradição eclesiástica. Os progressistas querem acabar com a tradição eclesiástica e querem fazer uma reforma que não seja apenas de acidente, mas que atinja a própria substância da Igreja.
Agora, qual é o interesse que essa página apresenta debaixo do ponto de vista dessa conferência aqui? É a gente compreender um pouquinho qual é o modo pelo qual os progressistas fazem a sua propaganda. Eles dizem, ele não podem dizer claramente o que eles desejam. Porque se eles disserem claramente o que desejam, eles são eletrocutados. Todo mundo sabe que a Igreja Católica é infalível; sabe que se é infalível, diria o conselheiro Acácio, que não erra. E aquele que não erra, não muda; porque aquilo que é perfeito não precisa mudar; está constituído.
De maneira que em seus traços essenciais, quer dizer, no seu dogma, nos Livros Sagrados, na Tradição, nos princípios morais, em alguns assuntos de disciplina tão ligados aos princípios morais da Igreja que, praticamente, são indissociáveis, a Igreja não muda. Ela pode mudar em coisas muito secundárias. E a própria disciplina da Igreja é inspirada na doutrina da Igreja, é inspirada no espírito da Igreja. De maneira que uma vez constituída essa disciplina pode haver pequenas [mudanças], é normal que haja pequenas mudanças insignificantes ao longo dos tempos e dos lugares. Mas não é normal, não é de se esperar que haja muitas mudanças em pontos fundamentais, porque os pontos fundamentais estão em coerência com aquilo que a Igreja tem de imutável.
Bem, os progressistas sabendo muito bem disso, têm interesse, naturalmente, em ocultar que é isso que eles querem. E eles adotam então uma linguagem, entendidas as coisas ao pé da letra, não é nada do [mal?] o que eles dizem; mas eles põem por detrás um segundo sentido errado que fica meio impalpável, meio imponderável. Não é um sentido inteiramente claro. De maneira que quando a gente aperta, eles [dizem]: “Não, não foi o que eu disse. Leia bem que está escrito outra coisa”. E de fato, quando a gente vai ver, o que fica na cabeça do leitor, foi aquilo que eles quiseram dizer, não é? É uma coisa mais ou menos assim. Os senhores suponham, por exemplo, que eu diga:
— Eu jamais, por exemplo, irei a, por exemplo, não sei, vamos dizer, ao Piauí.
É possível que eu preveja que jamais irei ao Piauí. Isso pode ter três sentidos: eu posso comunicar isso a uma nota de lamentação: “E eu que jamais irei ao Piauí!...” Essa mesma palavra eu posso apresentar de outra maneira: “Eu jamais irei ao Piauí... Outra: “Eu jamais irei ao Piauí!” Isso escrito está escrito: “Eu jamais irei ao Piauí”, não tem outra coisa. Quer dizer, a palavra humana, falada, é suscetível de uma porção de entonações que lhe comunicam um segundo sentido, que não é o sentido literal de cada palavra empregada. Os franceses dizem:... [faltam palavras] ...de um modo muito expressivo, quando eles dizem: [Le ton sert à chanson?] ou melhor, [le ton fait la chanson?] quer dizer, o tom faz a cantiga, não é verdade? Depende do matiz com que a gente comunica que a coisa se apresenta com um aspecto ou outro.
Bom, à primeira vista dir-se-ia que a palavra escrita não é assim, porque o que está escrito, está escrito. Mas não é verdade. A palavra escrita é suscetível também, quando bem manuseada, de uma porção de meios tons e de insinuações. E são esses meios tons e meias insinuações que eles sabem utilizar admiravelmente para ventilar um pensamento que eles não podem dizer de um modo claro, e que entra nas entrelinhas. Mas acontece que essa arte é uma arte muito difícil. É parecida com a arte da corda bamba. De maneira que quando eles escrevem pouco, eles não dizem bobagem. Em geral, quando eles escrevem muito, quando vai chegando ao fim do que eles estão escrevendo, ou eles se cansam, ou eles perdem a paciência de estar ocultando o que dizem, não sei o que é, a bobagem começa a sair.
Então, diz-se que na cauda da cobra está o veneno; na cauda do trabalho do progressista está o veneno à mostra, que vem ocultado no começo. Então, eu destaquei alguns trechos desse trabalho do “Estado de S. Paulo” para nós lermos juntos e fazermos a análise. Porque importa aos senhores serem especialistas em descobrir a artimanha dos progressistas, naquilo que eles escrevem. Nós devemos ser detetives de ideologias. Ser detetive de ladrão de galinha é a coisa mais poca que há no mundo. Bem, ser detetive de ladrão de diamantes e brilhantes, é uma coisa apenas poca em ponto grande, porque da galinha para o brilhante é uma questão de preço, não é verdade?
Bem, de maneira que ser detetive nessas coisas, não é preciso ser muito capaz. Há muita gente que tem admiração pelos Sherlock Holmes de toda espécie; entram no quarto, não percebem nada, de repente há um fiozinho de palha de vassoura num canto; então, daí, eles reconstituem todo... [faltam palavras] ...toda uma história. O sujeito diz: “Que colosso!”.
Muito mais colosso é ir atrás das idéias falsas, detectar as idéias falsas através das meias palavras, porque essas são caçadas de ladrões no reino dos espíritos, ou no reino do espírito, não dos espíritos. São caçadas de ladrões e ladrões que não são só ladrões, mas assassinos, porque eles não roubam apenas as verdades, mas matam as almas. E há, portanto, muito mais benemerência [em] a gente se habituar a essa... [ilegível] ...rança, do que a gente exercer uma simples aptidão de detetive comum.
Nós vamos agora fazer. Eu sei que é um pouco árido, mas não é à toa que os senhores são brasileiros. Eu estou vendo aqui uma porção de caras não brasileiras, entre outras um número apreciável de nisseis. Mas o Brasil tem uma força penetrante tremenda e abrasileira tudo. Comunica uma esperteza e uma ductilidade direcional... [ilegível] ...a cuja pressão ninguém escapa. De maneira que para os brasileiros, brasileiriformes e abrasileirados que há aqui, isso é relativamente fácil.
E eu então vou tentar uma experiência que eu sei que é uma experiência um pouco árdua, mas que eu acho que cabe num dia em que os senhores não trabalharam. Se fosse um dia de trabalho, eu talvez não ousasse. Mas num dia em que não trabalharam, em que está todo mundo mais ou menos calmo, ou melhor, descansado, eu ouso. Eu só queria saber se os que estão lá fora também... [faltam palavras] ...papel, todos, ou quereriam papel? Como é que se poderia arranjar? Já, já está aí. Você não tem, Fernando? O... [faltam palavras] ..., quer dar um papel aí para... [faltam palavras] ... Olhe aqui, mais quatro papéis, cinco, seis. Os senhores todos aí têm papel? Se não tiver alguém, levante o braço. Parece que aí dentro todo mundo tem, inclusive os que estão de pé? Os senhores todos têm o papel?
Bom, os progressistas — não leiam ainda o papel para poderem pegar a chave da coisa — costumam ensinar a respeito do Catecismo o seguinte: que o modo pelo qual nós aprendemos catecismo, pelo menos eu aprendi catecismo, não sei se os senhores que são tão moços aprenderam em estilo progressista, mas o modo pelo qual eu aprendi, depois o Azeredo aprendeu, creio que inclusive o Dr. Castilho aprendeu, ainda é o velho sistema que começa assim: “És cristão?” Resposta: “Sim, sou cristão pela graça de Deus”. Pergunta: “Que é ser cristão? É crer e professar a doutrina católica”. E lá vai por aí. No meu tempo, tinha-se que decorar as perguntas e as respostas, e o catecismo tinha que ir inteiro decorado. E a razão do catecismo ser inteiro decorado era o seguinte: o catecismo ensina criança. A mentalidade de criança é, naturalmente, uma mentalidade ainda nova, com pontos ainda moles. E em matéria de religião qualquer pequena derrapagem pode dar num abismo, pode dar numa heresia, não é isso? Então, a gente aprende a fórmula de cor para não sair tolices.
É um pouco como quem aprende química de cor. Imaginem os senhores uma aula de química, eu digo: “Bom, sou contra a decoração. Os senhores não precisam decorar aquelas fórmulas, me transmitam impressões”. Ora, se o sujeito vai dizer depois que a água é HUO, saí uma asneira, porque é H²O. É preciso decorar, não é verdade? É uma fórmula que contém de modo tão preciso a realidade que ou aquilo está decorado, ou sai uma tolice. Com o catecismo também. Aquelas fórmulas precisam ser decoradas, porque senão o espírito de uma criança diz uma tolice.
Bem, os progressistas dizem o contrário, dizem: “Não, isso é uma coisa muito seca e muito difícil”. O progressista não gosta do sacrifício, não gosta do que é difícil. Diz, então, por causa disso, “vamos dar um ensino de religião em que a criança fica com uma impressão simpática da religião. E mais nada do que isso. Fica com uma idéia geral simpática”. Os senhores compreendem que daí sai Deus em quatro pessoas, sai barbaridades de toda ordem, porque se é para ficar com uma impressão simpática não sai nada de preciso.
Bem, é o que eles querem. Porque além deles não gostarem de qualquer forma de sacrifício e, portanto, de decoração, o progressista detesta qualquer forma de disciplina. Quer dizer, uma autoridade que ensina uma coisa que é daquele jeito e não do outro, isso eles detestam, porque eles detestam a autoridade e detestam certezas. Eles são relativistas.
— Ah, tal coisa é assim?
— É. Mas também podia ser mais ou menos de um jeito diferente que dava mais ou menos na mesma.
Então, por causa disso eles querem um catecismo não decorado. Um catecismo feito de impressões. Bom, os senhores vão ler aqui essa notícia do “Estado de S. Paulo”. O que está aqui não é a notícia inteira, são trechos.
De maneira que não há ligação entre um trecho e outro. Os senhores vão ler a notícia do “Estado de S. Paulo”. A notícia do “Estado de S. Paulo” dá a entender que hoje a Igreja Católica não ensina mais catecismo e que adotou um ensino como os progressistas querem, sem decoração. Mas quando a gente aperta, não é o que está escrito dentro, mas é o que entra na cabeça do leitor. É uma coisa muito bem feita com essa arte. Vale a pena agora nós lermos isso aqui. Os senhores vejam a notícia:
A época de aprender religião decorando o catecismo começa a acabar hoje.
Os senhores preferem primeiro talvez ler alto, e depois eu dou a velhacaria, ou preferem que eu dê a velhacaria à medida [que a coisa, que eu vou lendo?]. Como é que preferem? A velhacaria à medida que vou lendo. Levantem o braço. Bem, os senhores vejam... pois não.
(Sr. –: Decorando o que quer dizer?)
Como é que é decorado em... [faltam palavras] ...[poniendo em la memoria?], memorizando. Bem, então:
A época de aprender religião decorando o catecismo começa a acabar hoje.
Os senhores entendem então o sentido normal que se está começando a acabar hoje, daqui a alguns dias acabou de acabar. É evidente. Porque o que começa a acabar hoje, amanhã, depois de amanhã, enfim, vai acabar, não é verdade? E, portanto, o que fica na cabeça do leitor é que daqui por diante não vai haver mais catecismo decorado. É o que os progressistas querem. Os senhores continuam a ler. Agora, qual é a razão pela qual vai acabar hoje?
O colégio São Luís abre as matrículas para o seu curso superior de religião, que vai formar novos professores e mudar a mentalidade do ensino religioso.
Então, eles aqui insinuam que vai haver uma mudança de mentalidade por detrás da mudança de método. Eles já não dizem no que essa mudança de mentalidade consiste. Eles dizem que vai haver uma mudança de método. Isso está dito claramente o que é: é não decorar mais. Mas depois vai haver uma mudança de mentalidade e eles não dizem bem qual é a mudança de mentalidade. Fica no vago. É a mentalidade progressista? É apenas uma mudança de estilo, de maneira que é uma vaga mudança de estado de espírito. Isso não fica dito. Fica meio insinuado, fica já nos refolhos. Depois eles continuam:
Depois de um ano de estudos, os alunos do curso estarão preparados para ensinar no ginásio e no colegial, que saber religião não é ter na cabeça uma série de regras, mas sim conhecer o problema humano e buscar soluções para ele.
Então, os senhores estão vendo que eles indicam o que é mudar a mentalidade: é não ter na cabeça uma série de regras, mas sim conhecer o problema humano e buscar solução para ele. Agora, aqui está indicado, no fundo, qual é a mentalidade: é não ter regras. Quer dizer, não ter obrigações, não ter normas, não ter dogmas. Interessar-se apenas pelos interesses dos homens. Quer dizer, é o contrário da religião que nós aprendemos. A nossa religião é uma religião com regras, é uma religião com normas, é uma religião com dogmas, é uma religião que se interessa pelo homem, mas interessa-se sobretudo pela salvação eterna do homem. Aqui, não. Aqui fala [do] problema humano e buscar solução para ele.
Os senhores estão vendo que é a religião do bem-estar nessa terra e que não se ocupa com o Céu. É essa a religião que está insinuada aí. Agora, vamos dizer... Ficou bem clara a insinuação, ou não? Algum dos senhores quer me fazer uma pergunta?
Vamos dizer que a gente queria dizer para eles: “Vocês estão pregando a abolição de todas as regras, vocês estão dizendo que a gente não deve olhar para o Céu nem para a Terra, [não?] que vocês estão dizendo que não se deve olhara para o Céu, mas para a Terra”. Querem ver qual é a resposta deles? “Não. Você está nos caluniando. O problema humano é o problema de salvar a alma. Não está dito que o problema humano é o que você está entendendo. De maneira que você nos caluniou. Você é um caluniador, você é um sem-vergonha, etc., etc.” No fundo, eles deixaram uma arapuca. Depois, outra coisa, a gente diz:
— Não, entenda bem. Eu esqueci de pôr aqui a palavra só. O que quer dizer é o seguinte: não deve ter na cabeça só normas e também regras.
— Não está muito claro isso, muito explícito, mas seu comentário, é Plinio, foi sem benevolência. É isso mesmo, vocês não são caridosos, vocês, ultramontanos, já se sabe, etc., etc., inquisição, tátátá.
De maneira que fica armada a arapuca, eles acabam dizendo. Todo mundo que lê entende que se trata de acabar com as normas, e de acabar com qualquer preocupação com o Céu. Mas foi dito de modo tão frouxo, que o acusado tem uma saída. Eu não sei se consegui tornar claro aos olhos dos senhores a malícia viperina desse processo.
Se o demônio tivesse que inventar um processo ele inventava esse, não é? A falta de honestidade fundamental está nesse processo. Mas como nós temos que estar habilitados a saber comentar as coisas dessas com os outros. Porque comentando assim, nós fazemos como os especialistas em anfíbios: pega pela nuca, espreme, a cobra abre mesmo a boca, a gente quebra o dente e joga fora. A cobra sem veneno é minhoca, quer dizer, progressista sem... [faltam palavras] ...quando a gente quebra essa artimanha vira minhoca. Não tem importância. Daí o interesse... [faltam palavras] ...
Algum dos senhores gostaria de me perguntar algo sobre isso? Eu passo adiante?
Vem outra artimanha: os progressistas gostam de insinuar que todas as religiões são iguais, e que tanto faz pertencer a uma religião, quanto pertencer a outra. Todos se salvam. Isso bem está no hálito do que está escrito aqui, embora não esteja na letra. Vejam a esperteza com que está redigido:
Embora o curso superior de religião seja dirigido por jesuítas, não é preciso ser católico para entrar nele. Desde já os padres avisam que não haverá discriminação religiosa para a admissão.
É uma coisa muito compreensível. Se eu tivesse um curso de religião, é bem possível que eu admitisse não católicos para assistirem. É claro. Pois como é que o não católico vai ficar católico a não ser... [faltam palavras] ... Senão não tem solução, não é verdade? Mas do jeito que está redigido, dá a impressão que no curso se trata como se fosse a mesma coisa católicos e não católicos. Não está dito em nenhum lugar, mas o modo de redigir dá essa impressão. Então, eles querem criar a impressão que a Igreja hoje equipara os católicos aos não católicos. Entretanto, apertem o texto, não se pode provar que isso está escrito. Vamos passar o texto para diante. É a mesma coisa que eu falava há pouco: é dar a entender que na Igreja de hoje não há... [ilegível] ...normas, nem a gente se preocupa com o Céu. A Igreja de hoje é feita só para produzir bem-estar na Terra. Leiam esse trecho aqui e os senhores verão:
Foi-se o tempo em que a religião era apenas um código de prescrições, a que todos tinham que obedecer cegamente. Hoje a religião é uma fonte onde o homem entra em contato com suas origens, sem preconceitos, e é desse modo que vamos ensiná-la. Isso declararia um padre. O [V?] padre Vitor de Aloisi, criador do curso, explica que a vocação do homem é para a felicidade total, isto é o que o novo católico deve saber.
Agora, a interpretação natural é o seguinte: houve um tempo em que a religião era apenas um código de prescrições a que todos tinham que obedecer cegamente, a gente fica entendendo, é a impressão que fica na cabeça do leitor, que a religião já não é mais, não tem mais prescrições, e que a gente já não tem mais que obedecer cegamente à religião. Então, confirma aquela idéia de que a Igreja hoje é liberal, e que não impõe mais normas. Se a gente diz a ele: “Olha aqui, vocês estão dizendo isso, é absurdo”, ele dizem:
— Não, é mais uma vez a sua maldade. Leia com atenção o que eu escrevi. Eu estou dizendo que a religião não é um mero código de prescrições. Você acha que é? Eu não posso achar que é, porque não é. Então, eu fico desapontado. Está vendo? Olha lá, você me leu com maldade. Se você lesse com bondade, você entenderia bem.
Depois continua a velhacaria:
A religião é uma fonte onde o homem entra em contato com suas origens.
Naturalmente, entra em contato com Deus, que é a origem dele. “Tão bom! Você acha isso ruim, é, Plinio?” Porque é assim que...
Depois eles dizem:
... sem preconceitos, e desse modo que vamos ensiná-la.
Quer dizer, em última análise, uma religião inteiramente espontânea, inteiramente natural, inteiramente assim, mas que tem normas. Apenas o que tem é que essas normas são normas, vamos dizer, que antigamente a gente obedecia cegamente e que hoje não tem que obedecer mais cegamente. Então, eu diria para eles:
— Mas então vocês estão caluniando a Igreja. Pois então houve tempo em que a Igreja mandava obedecer cegamente essas ordens, ou melhor, essas normas? A Igreja quer o amor esclarecido de seus filhos. Por outro lado, a Igreja nunca foi só um código de prescrições.
Dizem eles:
— É verdade. Mas eu estou dizendo no clima criado por vocês, ultramontanos. Vocês transformam a religião numa mera série de normas. É por isso que eu estou falando. Não estou falando da religião. Estou falando de vocês.
Quer dizer, é construído para um bobo começar a dar pontapés e o pé depois não sair de dentro. É feito com uma malícia extraordinária, não é? Agora continua a frase:
O [V?] padre Vitor de Aloisi, criador do curso, explica que a vocação do homem é para a felicidade total, isto é o que o novo católico deve saber.
A gente... [faltam palavras] ...que basta o católico novo saber isso. “Se é isso que eu tenho que saber, eu não preciso saber senão isso, não é verdade?” Então, eu digo: “Olha lá, você... [faltam palavras] ...quem tem a religião da felicidade.”
Diz ele sorrindo: “Quem disse que é felicidade terrena? Isso também tem um sentido bom. Pode ser eterna.” Os senhores vêm a velhacaria com que a coisa é feita. Porque quem lê isso não pensa em felicidade eterna. Quando a gente fala em felicidade total, pensa no automóvel, viagem, loteria, preguiça, é nisso que pensa, não é isso? Ele diz: “Não, felicidade total para nós, católicos, é só a eterna.” Pequeno sorriso. Está acabado. Quer dizer, é uma máquina de dizer o erro, sem poder ser apanhado. É uma verdadeira técnica sibilina de dizer o erro sem poder ser apanhado. Bem, agora outra frase.
O padre D´Aloisi conta que o curso tem por finalidade formar professores com nova mentalidade. O professor moderno vai ensinar que a religião é recurso que tem o homem para encontrar a solução de seus problemas e a felicidade.
Então, há uma nova mentalidade, essa nova mentalidade consiste em aprender, em última análise, a solução dos problemas humanos. Está claro que se é uma mentalidade nova não se trata da eternidade, que estava na mentalidade antiga, mas se trata dessa Terra. E é mais uma vez o erro de que a religião só visa a felicidade nessa Terra. A gente vai apertar por eles, eles escapam. De que maneira escapam? Escapam muito bem. Diz, releiam a frase:
O professor moderno vai ensinar que a religião é recurso que tem o homem para encontrar a solução de seus problemas e a felicidade.
Diz: “E quem é que lhe falou de problemas só terrenos? Seus problemas espirituais, a salvação eterna, e está acabado.” Quer dizer, quem lê não entende isso, mas no sentido estrito a gente querendo acertar, pode sustentar que está isso. E com isso ele se cobre de qualquer acusação. Quer dizer, é sempre o mesmo jogo, é sempre a mesma reviravolta. Não sei se isso ficou claro ou se algum dos senhores quer me fazer alguma pergunta. Os senhores vêm por aí como eles têm medo de serem apanhados com a boca na botija, como eles têm medo de que se possa dizer que eles estão errados, porque aí teria a cristalização. E como eles são obrigados a avançar jogando bombas de fumaça na frente para não serem vistos. Sem isso, eles não conseguem absolutamente nada. Para eles, é uma tática fundamental. Agora vem outro trecho. Ah, bom, frasesinha final:
O curso vai basear-se nas decisões do concílio ecumênico.
Os senhores estão vendo o que essa frase tem a dizer, não é? Quer dizer, isso tudo que nós acabamos de dizer em cima, o concílio diz também. Se a gente disser para eles:
— Vocês estão dizendo que o concílio disse isso em cima?
— Não, eu disse que o curso vai basear-se nisso. Isso é um aspecto do curso. Não é todo o curso. Você está me caluniando de todo jeito. Isso é horroroso, eu não agüento.
Quer dizer, isso é uma sagacidade extraordinária.
Bem, isso em cima foi uma notícia do “Estado de S. Paulo” a respeito do curso de religião do São Luís.
Agora é uma entrevista, da qual aparecem apenas trechos, de um frei Bernardo Catão, dominicano, o que já diz muito. Dominicano que, se não me engano, foi dos chefes da “Última Hora” e dessa... “Última Hora”, não, do “Brasil Urgente”, etc., aqui em São Paulo. Não foi? Bem, ele dá uma longa entrevista aqui para o “Estado de S. Paulo” da qual vem alguns trechos. Primeiro eles querem dizer que o Concílio aprova tudo quanto frei Bernardo Catão vai dizer. Vejam com que jeito está dito:
Frei Bernardo Catão, que assistiu o Concílio e se especializou em explicá-lo ...
O bobo da rua que lê isso e diz: “Bom, então é um colosso: especialista em explicar o Concílio! O que ele diz é o Concílio em pessoa. É claro.” Mas quando os senhores vão prestar atenção, não é o que está dito. Está dito que essa é a opinião do frei Bernardo Catão, e está acabado, não é? Quer dizer, é sempre essa arte de mentir, dizendo a verdade.
Bom, “que assistiu o Concílio e se especializou em explicá-lo, vai contar agora como é o novo católico”. Quer dizer, portanto, é ou não é o Concílio que está aqui? Numa sala de convento dos dominicanos, um gravador japonês em cima da mesa para registrar perguntas e respostas, ele diz que agora, depois do Concílio, a fisionomia geral do catolicismo passará por uma alteração muito grande. A gente pergunta:
— Mas o que é uma alteração? E sobretudo o que é uma alteração grande? E sobretudo o que é uma alteração muito grande? Atinge o dogma? Atinge a Tradição? Atinge a Revelação? Atinge os elementos quase imutáveis, não digo estritamente imutáveis, mas quase imutáveis da disciplina?
Não diz nada. Silêncio. É uma transformação muito grande, da qual ele vai dar uma idéia geral, para dar idéia de que tudo mudou, mas que ele não ousa dizer. Então emprega uma palavra vaga: uma transformação geral. Transformação geral é de tudo, não é? A gente aperta, diz:
[Trecho não claro]
— Não, geral na liturgia. Que é isso? Não, no resto não. Está bom. Acabou.
Bem, então, ele diz:
Passar por uma alteração muito grande. Com isso a conduta do católico também terá que mudar, para adaptar-se às novas linhas do pensamento da Igreja.
Ele não diz o novo pensamento, porque se ele dissesse “novo pensamento” ele estava eletrocutado: “A Igreja tem um pensamento só”. Mas o que é a linha nova de um pensamento que não muda? A gente não sabe o que é. Não é? A gente aperta:
— O que é essa linha nova de pensamento que não muda? Você quer explicar?
Ele diz:
— Não, é uma coisa linear dentro do modo de pensar.
A gente diz:
— Meu caro, isso não tem sentido.
Diz ele:
— Se você não entende não é razão para me chamar de herege. Pronto, acabou. A culpa é sua que não entendeu.
Quer dizer, é sempre uma saída infernal preparada, não é?
Ele continua: “Qual foi a principal inovação que o Concílio trouxe?” Resposta: “A principal inovação deve ser vista dentro do discurso de abertura do Concílio”. Vejam bem o... [faltam palavras] ...não é tal ponto. Está no discurso. Que ponto do discurso? Aí já fica vago. “Ficou bem claro que a perspectiva do Concílio seria repensar toda a doutrina da Igreja, dentro do contexto da vida moderna”.
Os senhores entenderam bem isso? O sentido mais provável é o seguinte: quando a gente repensa o pensamento, ou a gente faz uma asneira, ou altera. Porque é só um burro, que repensando o que pensou, não altera, não faz nada de novo.
Então, não devia ter repensado. Já está pensado. Equivale, mais ou menos, a comer o que já comeu. Dizia, creio que São Pedro, São Paulo, não me lembro: “Volta o cão ao seu vômito”2. Isso eu pensei, formulei.
Agora, “grande novidade é que eu vou pensar exatamente a mesma coisa que já pensei?” Quer dizer, fica insinuado que é um pensamento novo, não é? Mas está dito uma coisa colateral, que é a saída: “No contexto da vida moderna”. Então, o que isso pode querer dizer? Pode querer dizer uma porção de coisas e inclusive nada. Quer dizer, uma coisa confusa. Pode querer dizer o seguinte: “Não, são fórmulas um pouco mais adaptadas à vida moderna, mas nada”. Pode querer dizer isso.
Quer dizer, a idéia com que se fica é que o próprio pensamento da Igreja, esse astro desse homem especialista em explicar concílios, insinua que vai mudar. Mas a gente apertando, não é o que está escrito. Para consolo dos senhores, daqui a pouco vai começar a aparecer asneira que a gente pega, porque no fim aparece. Mas os senhores vejam a habilidade do jogo.
Bem, continua:
Essa vida ...
Quer dizer, a vida moderna.
... estava se conduzindo no sentido da incredulidade. O catolicismo era considerado coisa do passado, desligado da realidade concreta de nossos dias. Em vez de condenar isso, o Concílio se preocupou em integrar a Igreja na vida moderna encarando com otimismo o nosso tempo e ressaltando os valores que ele tem.
A idéia confusa fica de que a Igreja aderiu ao mundo moderno. Mas não é bem o que está escrito. Porque diz aqui: “O catolicismo estava se desligando, estava ligado ao passado, etc., desligado da vida moderna.” Agora diz o seguinte:
Em vez de condenar isso ...
O que é o “isso”? Não se sabe se é a vida moderna, o que é. Mas é de propósito, feito para despistar. Deve ser, provavelmente, a vida moderna. Mas está assim: se eles dissessem que a Igreja não condena a vida moderna, isso seria um erro, porque a vida moderna tem muita coisa de errado. Eles não dizem isso.
Condena isso.
Diz:
O Concílio se preocupou em integrar a Igreja na vida moderna.
Ora, isso ao mesmo tempo quer dizer tudo e quer dizer nada. Pode querer dizer que a Igreja aceita o nudismo, aceita o cinema imoral, que aceita o divórcio, que aceita a limitação da natalidade. Pode também não dizer isso, pode dizer que aceita o avião, que aceita o ônibus. É mau gosto, mas enfim, que aceita a grande indústria, e toda espécie de coisas desse gênero. Pode querer dizer. Então, é uma frase que dá a impressão de que a Igreja mudou, mas que pode ser entendida no sentido de que no elemento fundamental a Igreja não mudou.
Encarando com otimismo o nosso tempo e ressaltando os valores que ele tem.
Encarar com otimismo quer dizer o seguinte: achar que é ótimo. É duro, ainda mais para a Igreja. Bom, não é propriamente isso, o otimismo quer dizer procurando os lados bons, isso que quer dizer otimismo. É uma coisa tão vaga que não tem sentido. A impressão do leitor é que a Igreja aderiu ao mundo moderno. É sempre feito com esse intuito diabólico. Bom, agora continua... Eu vou passar a ler no jornal, porque fizeram umas marcações que me interessam mais diretamente. Começa a aparecer coisa palpável... [faltam palavras] ...começa a aparecer:
Como será alterada a fisionomia do catolicismo?
Resposta do frei Catão:
Tenho impressão que de três modos.
Olhe que não é pouco, hein! Alterar uma cara de três modos é uma operação plástica de primeira.
Em primeiro lugar existe agora a visão da Igreja como sendo a comunidade dos fiéis.
Quer dizer, na Igreja depois do Concílio.
A Igreja não é o conjunto dos que estão ligados ao Papa ou ao clero, mas sim uma reunião de homens, uma sociedade em que os membros se ligam pelos mesmos objetivos.
Aqui está errado, porque a definição oficial da Igreja são os fiéis, reunidos em torno do Papa e dos legítimos pastores. Se o Papa e os legítimos pastores não estão presentes, não há fiéis. É como a família. A família se constitui em torno do pai. Se os filhos expulsam os pais de casa, eles deixam de ser aquela família, eles são uma irmandade de revoltosos, mas eles não são mais família. A família supõe a existência do pai e da mãe. Assim também um exército que expulsa seus generais não é mais exército. É um bando de revoltosos. Não é isso? A Igreja se define, no catecismo, como a sociedade instituída por Jesus Cristo, reunida em torno de seus legítimos pastores. E aqui, portanto, diretamente ele errou. Os senhores querem que eu exprima melhor esse erro ou não? No que está errado? Querendo, é só levantar a mão.
Bom, o que ele quer dar a entender é que a Igreja, hoje em dia, é uma república, em que os bispos e o Papa são meros representantes do povo, mas em que o que vale é o povo. E isso é falso. Os bispos e o papa não são representantes do povo, escolhidos pelo povo, eles são representantes de Deus, para governar o povo. Bem, ele continua:
Em segundo lugar, há um novo relacionamento da Igreja com o mundo estabelecido no esquema treze. Há em funcionamento uma máquina esmagadora da pessoa. O concílio estabeleceu o respeito do homem concreto, determinando que os cristãos batalhem pela dignidade da pessoa humana e lutem pelos seus direitos.
A impressão que isso causa é uma impressão boa. Hoje a pessoa humana é comprimida de todos os modos. O homem vive em cidades do tamanho de babéis, participa de organizações do tamanho de um verdadeiro moloch. Ele se sente um grão de areia dentro do mundo de hoje. Então, que a Igreja tome a defesa da pessoa esmagada por esse sistema, parece uma coisa excelente. Bom, agora vem o veneno. Acompanhem a conclusão:
Por outro lado, retomando as encíclicas sociais, esse esquema estabelece como meta da ação dos cristãos fazer com que todos os homens participem dos benefícios da civilização, evitando que qualquer parcela da humanidade fique marginalizada.
Bem, aqui vem uma insinuação seguinte: fazer com que todos os homens participem dos benefícios da civilização é uma frase boa, ou é uma frase comunista conforme se entenda?
Que todos os homens participem dos benefícios básicos da civilização, é uma coisa muito boa, mas que todos os homens participem igualmente de todos os benefícios da civilização é igualitarismo completo que não pode ser. E isso dá no comunismo.
Os senhores vêem como isso fica mais ambíguo. Por exemplo, um automóvel esplêndido, uma Rolls Royce é ou não é um benefício da civilização. Se todos os homens devem participar dos benefícios da civilização, todos os homens devem ter Rolls Royce. Ou nenhum homem tem Rolls Royce, para não estabelecer essa desigualdade. Ora, esse sentido fica meio vago, mas pode se entender de outro modo: a medicina, um benefício da civilização, ter teto, ter comida, ter trajes, ter uma velhice tranqüila e digna, são benefícios da civilização. E nesse sentido todos os homens devem participar dos benefícios da civilização. Esse sentido é um sentido muito bom. Os senhores estão vendo como o sentido comunista e o sentido bom ficam vagamente envoltos numa mesma frase, e fica criada a confusão...
Tudo é sagaz. Vamos passar um pouco adiante e daqui a pouco vem o erro. Não é já, mas vem daqui a pouco.
Por último, o concílio estabeleceu diálogo como instrumento para essa luta em favor do homem.
É o bom diálogo, que é o diálogo discussão, ou é o diálogo hegeliano de que eu falei no meu livro? Quer dizer, o diálogo em que cada um cede um pouco da sua doutrina e, portanto, uma apostasia? Vamos ver na resposta o que... [faltam palavras] ...
O concílio é um convite para que os cristãos entrem em diálogo e procurem, através dele, resolver seus problemas.
Eu, quando entro em contato com um protestante, não vou resolver meus problemas. Vou resolver os dele. Porque os meus estão resolvidos. Não preciso nada. Não faltava mais nada eu ir discutir com um comunista, dizendo: “Meu caro, eu, como católico, enquanto católico, tenho problemas a respeito da religião. Você deve ter a respeito do ateísmo. Vamos discutir.” Não, eu, a respeito da religião, não tenho problemas. A religião não tem problemas. Eu posso ser emproblemado porque não ando direito. Mas se eu andar direito, não tem problemas, porque ela é sem ruga, nem mácula. Ela é perfeita. Essa é a religião. Mas os senhores estão vendo insinuado o outro diálogo: cada parte tem seus problemas, está errado em algum ponto. Vamos discutir. Mas não está dito claramente. Está continuamente insinuado. Vamos continuar:
Mais, esse diálogo deve estender-se a todos os homens, cristãos de outras religiões e ateus, pois é a característica básica da sua habilidade (?), que ele seja universal.
Portanto, eu devo ceder, no fundo, alguma coisa, até aos ateus. Então o que fica? Quer dizer, é uma espécie de deusinho que é e não é. Acaba nisso. Mas não está dito. Na conclusão está insinuado, dito não está. Continua:
Aliás, o concílio diz que os católicos devem reconhecer e estimar e até mesmo promover os valores das outras religiões.
Bem, isso tem algo de verdadeiro, sem dúvida nenhuma, no seguinte sentido de que o erro não existe em estado puro. Nunca há um erro absoluto. Se eu digo, por exemplo, que eu não estou lá, é um erro, mas que tem uma parcela, duas parcelas de verdade: primeiro: que existe lá; segundo lugar, que existe eu. Para eu dizer que eu não estou lá há um erro que tem duas verdades. Todo erro tem alguma verdade. E na mais falsa das religiões um pouco de verdade há. Isso que a religião, a religião falsa tem de comum com a Igreja Católica, nós sabemos dizer que está bem, etc., etc., mas dizendo que essa verdade pertence-nos a nós e que ela lá está [enquilada?] ela está encarcerada lá. É assim que se deve entender. Não é o que está dado a entender aqui. Aqui dá a entender que, afinal de contas, tem coisas boas em todo lado e que, portanto, a gente deve fazer uma espécie de almôndega de religiões. Põe todas no mesmo [acedor?] de carne, sai uma bola pan-religiosa, que é a religião dos tempos novos. Bom, está tudo assim no ar, mas para o que prepara o espírito. Agora continua:
Declarou-se o princípio da liberdade religiosa e a necessidade de que o homem seja completamente livre em todas as suas decisões.
Aqui está errado, porque não foi declarado o princípio da liberdade religiosa. Assim como está dito dá a entender que a liberdade religiosa é uma coisa legítima em si, um bem em si. A liberdade das religiões erradas não é um bem em si. É uma coisa que pode ser tolerada em certas circunstâncias, mas um bem em si não é. E aí eles erraram estrepitosamente. Quer dizer, pega-se mais uma vez. Continua:
Levando-se em conta essas mudanças, como deve ser o novo católico? Resposta: o novo católico deve introduzir modificações em sua vida. Primeiramente, deve dedicar mais tempo à leitura da Bíblia.
Os senhores estão vendo o ranço protestante. A gente não pode dizer que não. Não vou ler a Bíblia? É a palavra de Deus... Mas o que é que eles excluem daí? Eles excluem o catecismo, excluem a História Sagrada, que é a Bíblia preparada pelas mãos da Igreja para os homens receberem. É um pouco como se dissesse para uma criança: “Você deve beber leite da vaca”, dando a entender que não beba leite da mamadeira. Não, é o leite da vaca preparado por mão materna, não é verdade? Adaptado, adequado. Isso eles não querem. Então, vem meter os dentes diretamente na Bíblia. Continua:
Fazendo a interpretação com a mentalidade de nosso tempo.
Aqui está pior, porque a gente não faz a interpretação com a mentalidade de nenhum tempo. A gente faz a interpretação com os critérios da verdade com que se interpreta uma coisa. Quer dizer, está pior o sentido. Mais modernismo. Agora vem o sentido pior ainda, e esse é francamente errado:
A Bíblia, ela, está aqui a Bíblia, é a história do homem em busca da verdade e da justiça.
Isso não é. Não é absolutamente a história do homem. A Bíblia é a história do homem, mas é principalmente a história de Deus, aparecendo ao homem, guiando o homem, dirigindo o homem, salvando o homem, no início criando o homem e, no fim, acabando com a humanidade,... [faltam palavras] ... Aqui não, uma coisa puramente naturalista. Deus foi sonhos que o homem teve, mas na realidade o homem é que [é] o grosso da coisa na Bíblia. Quer dizer, aqui está francamente... [faltam palavras] ...
Resta-nos um pouco... os senhores andem mais um pouco por esse deserto que nós chegaremos ao fim.
Depois, deve encarar a liturgia, a missa do domingo, por exemplo, não como obrigação, mas sim como expressão de sua vida na comunidade cristã.
Não senhor, a missa do domingo é também uma obrigação. Onde é que se viu isso. Quer dizer, os senhores vêem esse horror deles à obrigação. Mas se há um mandamento da lei de Deus, da lei da Igreja, mandando ir à missa, é uma obrigação. Quer dizer, esse espírito revolucionário que odeia toda e qualquer obrigação. Continua:
Além disso, a vida religiosa não é tudo. Mais importante que rezar é o católico lutar em defesa de seus semelhantes e procurar uma vida melhor para a humanidade.
Isso está chapadamente errado. Chapadamente errado. Transforma a humanidade em algo mais importante do que Deus. Eu fui criado por Deus, mas minha finalidade, de fato, não é prestar culto a Deus, mas tratar... [faltam palavras] ...a humanidade. Como se a humanidade fosse minha criadora. Os senhores compreendem? Aqui é chapadamente errado. No fundo, o que está dito aí sem dizer é que o homem não deve rezar, deve fazer propaganda comunista. É o que veladamente está dito aí, é evidente.
(Sr. –: [Pergunta não transcrita].)
É isso, é. Bem, sai a peçonha toda. Outro erro:
O católico, depois do concílio, precisa tomar consciência de que não é o único beneficiário da salvação, e que os fiéis de outras religiões e os ateus não estão perdidos. Todos os homens foram salvos e são iguais.
Os senhores estão vendo, ele vai com prudência, com prudência, mas vai se esquentando. É mais ou menos como um palhaço que começa a pular numa corda bamba. Pula com jeito, pula com jeito, com muita liberdade, de repente ele dá um pulo tão entusiasmado que ele cai no chão. É isso que é o sistema deles. É o lado fraco. Eu estou lendo esse artigo exatamente para os senhores irem aprendendo a técnica do adversário e saber depois ler uma coisa dessas e pegar. Que, vamos e venhamos, como estudo é até um trabalho bonito. Essa alta pescaria de um alto canalha é uma coisa bonita.
Eu chamaria a atenção dos senhores para essa forma de igualitarismo: “Como todos os homens são iguais, qualquer que seja sua religião, são salvos”. Vejam até onde vai o igualitarismo.
[Neste próximo parágrafo não está claro o ponto exato que o sr. Dr. Plinio lê, falta colocar aspas.]
Bem, isso significa uma mudança fundamental de atitude que leva o católico a entrar em contato com os membros de outras igrejas e religiões, não para defender os princípios do catolicismo, mas para procurar solução para os problemas que nos são comuns, em pé de igualdade. Isso é uma barbaridade das barbaridades. Sempre que o demônio promete uma coisa, estejam certos que é aquilo que ele vai tirar. Se o demônio, por exemplo, entra aqui e nos quer dar uma mesa, nos promete uma mesa bonita, estejam certos que ele vai roubar essa. Quando a gente quer saber o que o demônio vai nos tirar, a gente já sabe: ele vai tirar uma coisa que está na linha do bem que ele promete dar. Porque ele é o pai da mentira.
O movimento ecumênico começou com aspectos, e tem um aspecto muito bom, que é de converter todos para a Igreja Católica. Agora, veja no que acaba: o católico não deve converter os outros. Ele deve apenas tratar dos interesses comuns. Não é para converter, não é para defender os interesses da religião. O que sobra? Não sobra nada. Os senhores vêm o abismo onde acaba se precipitando isso. Lembrem-se que é um homem que se apresenta como intérprete autorizado do concílio. E eu lhes pergunto se qualquer artigo do Luís Carlos Prestes não faz incomparavelmente menos mal para a religião do que esse artigo aqui. Continua:
É essencial, assim, que o católico seja um democrata, no sentido verdadeiro da palavra.
Quer dizer, inteiramente igualitário e de opinião aberta, que não julga ser dono da verdade, mas que está completamente em igualdade com os outros. Ora, nós não nos julgamos donos da verdade, mas julgamos... julgamos, não, sabemos que a verdade é dona de nós. E essa verdade é a verdade ensinada pela Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. Agora continua:
Finalmente ficou bem claro que o católico deve procurar em sua própria consciência a solução para seus problemas. A Igreja não tem nenhuma receita para resolvê-los.
Negação da Igreja. Porque se a Igreja não tem... Aliás, a palavra receita é uma palavra irreverente. Mas se a Igreja não tem uma fórmula, se ela não tem um ensinamento para resolver nossos problemas, então ela não é nada. Não, os problemas [vão resolver-se] como? Reunindo os protestantes com outros para resolver. Aí resolve. A Igreja não resolve. Os senhores lembram que há pouco ele disse isso: que era preciso encontrar com os hereges, não para convertê-los, mas para resolver nossos problemas. Agora, a Igreja, ele afirma, não tem nada para resolver nossos problemas. Os senhores concebem que um padre é que diga isso? Vista a batina de padre católico? O que resta de religião nesse artigo? Não resta nada. Continua:
Cada um deve responsabilizar-se pelas atitudes que tomar. Os homens são livres para isso.
Quer dizer, a Igreja, realmente não é nossa mestra, não é nossa mãe, não tem nenhuma responsabilidade [conosco]. Cada um carrega seu próprio peso. Eu pergunto: Lutero, no livre exame, não era exatamente isso? E ainda menos audacioso que isso? Isso aqui é o niilismo religioso completo. Não há Igreja nenhuma. Bom, agora termina:
Agora, há menos regras prestabelecidas... [faltam palavras] ...
...com essa contradição ele procura tapear o que ele disse. Quem for bobo, que se deixe tapear. Logo, muita gente, porque muita gente é boba. Não sei se ficou claro para os senhores, enfim, o método empregado por ele, e depois também a corrosão dentro da Igreja que essa gente promove, e que é uma coisa verdadeiramente tremenda. Haveria algum dos senhores que quisesse me fazer alguma pergunta? Se meu relógio está marcando certo, são onze e vinte, Dr. José Fernando? Bem, nós teríamos, para estar saindo daqui, exatamente oito minutos. Quem está falando? Átila?
(Sr. –: [Pergunta não transcrita].)
Há uma saída na linha: outra campanha duas mil bocas falam [ao] Brasil. Que é começar o zunzum. Eles são velhacos, eles fazem assim, eles... [faltam palavras] ...assim; olha esse pedaço de jornal, olha aquele outro, etc., etc., não é isso? Porque se nós formos dizer por escrito que eles estão errados, na polêmica por escrito eles têm saída. É olho por olho, dente por dente. Mais alguma pergunta, senhores?
(Sr. –: [Pergunta não transcrita].)
Qual é a impressão? Eu não, a página... [faltam palavras] ...onde está... [faltam palavras] ... Sei, é, realmente. É, exatamente isso sim. Não daria o quê? É, aí daria, mas não muita, porque ele diria: “Não, eu não estou afirmando.” Eu digo: “Está bom, mas então você reconheça que está com uma impressão errada”. Está certo? Mais alguma pergunta? Quem é que está falando? Pois não.
(Sr. –: [Pergunta não transcrita].)
Poderíamos, mas... [faltam palavras] ... É, é. Mas sabe o que é que tem, é o seguinte: é que se nós, [onda?] coisa que eles soltam, nós damos um tiro, eles tomam mais cuidado, e soltam menos. E há, então, uma meta política, que trata de resolver o caso de outro modo, mas que eu prefiro não dizer. Há mais alguma pergunta? Pois não, Antônio.
(Sr. –: [Pergunta não transcrita].)
Esse artigo é feito para produzir uma baldeação ideológica inadvertida. Quer dizer, ele vai fazendo as pessoas mudarem de mentalidade sem perceberem. Mas ele fracassa quando ele põe erros claros. Isso devia ficar o tempo inteiro nebuloso. Está certo?
(Sr. –: [Pergunta não transcrita].)
Quer dizer o seguinte: nesse artigo ele concretamente não tinha. Mas para que a catequese dele ande mais depressa, eles põem alguns erros claros com o intuito de fazer com que alguma coisa engula a mais, porque a catequese com os erros difusos é muito lenta. Então eles fazem sempre assim uma fórmula de setenta, oitenta difuso e vinte por cento claro, mais ou menos, achando que se nós começarmos a estranhar muito, eles podem sempre voltar atrás. Então, há um jogo nosso que eu não digo qual é. Os senhores dirão: “Mas como é, o senhor não confia em nós?” É a pergunta. E eu não recuo diante da pergunta. A pergunta eu respondo da maneira seguinte: há um princípio empregado em todas as organizações do mundo, de que a coisa reservada só deve ser dita aos homens indispensáveis. Aqui nessa sala haverá mais ou menos umas cem pessoas. Cem pessoas de confiança, as quais, por sua vez, têm cada um, pelo menos duas ou três pessoas de confiança. Um segredo dito a cem pessoas de confiança não é um segredo de confiança, e acabou-se.
Daqui para baixo já lido.
Bem, há mais alguma pergunta, senhores?
Não havendo, eu estou dispondo exatamente de dez minutos e eu gostaria de dizer alguma coisa aos senhores a respeito da data de hoje e, sobretudo, da data de amanhã. Nós não vamos ter hoje Santo do Dia, não, não vamos ter hoje, amanhã Santo do Dia, de maneira que é bom que eu fale uma palavra aos senhores a respeito de Nosso Senhor no sepulcro e, depois da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
A respeito de Nosso Senhor no sepulcro nós devemos considerar a coisa seguinte: o que se passou com os Apóstolos enquanto Nosso Senhor estava no sepulcro?
A Escritura nos diz pouco a esse respeito. Algo a gente pode conjecturar. E Ana Catarina Emmerich diz, como de costume, uma imensidade de coisas sensatas, piedosas, interessantes, sumamente verossímeis, e que eu tenho por certas, a respeito desse assunto.
Os senhores devem imaginar o que se passou com os Apóstolos. Os apóstolos, afinal, seguiram Nosso Senhor muito tempo. Viram toda espécie de milagres, receberam toda espécie de ensinamentos verdadeiros, profundos, santíssimos. Mais do que isso, eles tiveram um contato pessoal com Nosso Senhor Jesus Cristo e nesse contato pessoal puderam fazer-se uma idéia da sabedoria e da santidade infinitas d´Ele. E, portanto, tinham todos os motivos para estarem absolutamente empolgados com Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando chega, entretanto, o período em que Nosso Senhor começa a ser atacado e começa a ser perseguido, os Apóstolos têm uma espécie de baixa e têm uma espécie de desânimo.
O triunfo de Nosso Senhor na cidade de Jerusalém deve ter dado a eles alguma alegria. Mas a Santa Ceia foi uma cerimônia ao mesmo tempo alegre e sumamente triste, em que a tristeza de Nosso Senhor diante dos tormentos que se apresentavam, se aproximavam, transparecia claramente, tendo Ele mesmo dito coisas expressivas e significativas a respeito do assunto.
De mais a mais, aconteceu que os Apóstolos, por causa disso, sabendo também que um deles ia trair, e com a baixa que naturalmente essa traição devia dar, os Apóstolos não estiveram à altura das condições. E a Catarina Emmerich diz que ela, no dia da Santa Ceia, viu Nosso Senhor tratando com os Apóstolos e discípulos e que ela percebeu que enquanto os discípulos que eram mais novos estavam em pleno fervor, os Apóstolos tratavam Nosso Senhor com menos respeito, com menos reverência, com menos ternura do que os discípulos, apesar do que Nosso Senhor os tratou com tanta bondade que chegou a lhes lavar os pés e convidar a eles e a mais ninguém — nem a Nossa Senhora Ele convidou — para a Ceia, em que pela última vez comeu com eles e instituiu o Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Isso indica que os Apóstolos já estavam mais ou menos em crise, e os senhores talvez dissessem, na linguagem pitoresca adotada, que os Apóstolos estivessem talvez um pouco ensabugados quando chegou o momento da Paixão.
O fato concreto é que no Horto das Oliveiras, e depois durante a Paixão, eles tiveram várias características que corresponderiam mais ou menos à noção de sabuguismo. Porque durante o Horto das Oliveiras eles dormiram. Dormiram com negligência, com indiferença, mais ou menos se portaram como um membro tíbio se porta numa reunião quando ele não tem interesse pelas coisas do Grupo. Se se fala do automóvel dele que, lá fora, passou por um arranhão, ele acorda inteiro. Se se fala de, não sei, que houve uma tempestade fenomenal que arrasou um pedaço da cidade de Campinas, ele acha sumamente interessante. Se se fala de um dogma da Igreja Católica ele dorme como sob a ação do melhor dos narcóticos.
Bem, eles dormiram enquanto Nosso Senhor sofria. Eles dormiram quando Nosso Senhor disse a eles: “Então, vós não pudestes uma hora vigiar comigo?3 Eis que se aproximam os adversários para Me prender.” Não é isso? Eles dormiam. Bom, o resultado é que foi quando [eles] acordaram, Nosso Senhor estava sendo preso. Então, um pânico pavoroso. E o que é triste é que parece que a esse pânico... Nem São João Evangelista, que é o Apóstolo virgem, que é o Apóstolo predileto, fugiu, escapou. Parece que o moço que fugiu deixando a túnica em mãos de soldados foi São João Evangelista. Ele reapareceu depois ao pé da cruz, mas até São João Evangelista fugiu. Ele reapareceu depois e recebeu Nossa Senhora como Mãe.
E os comentadores dizem que São Pedro não A recebeu como Mãe, porque não estava presente ao pé da cruz. Os senhores calculem o que não é estar presente ao pé da cruz na hora do sofrimento da Igreja e de Nosso Senhor. Ele [São João Evangelista] esteve presente, mas todos os outros estiveram fora. Os senhores podem imaginar a mentalidade desses Apóstolos envergonhados? São Pedro chorando amargamente. Eles, provavelmente dispersos, desconjuntados uns dos outros, quando eles souberam que Nosso Senhor morreu e quando eles viram a terra tremer, depois trovoada, e depois o véu do templo se rasgar, e depois eles viram os justos da antiga lei, os cadáveres dos justos andando pelo meio da cidade e olhando tudo com ares de tremenda severidade? Os senhores podem imaginar o que eles sentiram? Eles devem ter sentido uma coisa tremenda, uma coisa do outro mundo, não é verdade, quando eles viram tudo isso. E, entretanto, como deveriam estar abatidos, como deveriam estar prostrados, como deveriam estar horrorizados, sem saída nenhuma.
Bom, acabou-se tudo, acabou o terremoto, acabou, acabaram-se as trevas, a vidinha de todos os dias voltou para Jerusalém, no quarto onde eles estavam penetravam, naturalmente, todos os mil barulhos da rua, indicando que tudo se tinha normalizado, mas eles naturalmente com medo de serem perseguidos, de serem presos.
Bom, o que aconteceu então? Evidentemente aconteceu algum trabalho misterioso da graça... [faltam palavras] ...no estado péssimo onde eles estavam, eles foram levados a procurar Nossa Senhora. E procurando Nossa Senhora, que era o ponto de encontro natural entre eles, procurando Nossa Senhora encontraram-se uns aos outros. E estavam ali chorando, sem nenhuma idéia da ressurreição, porque só quem tinha idéia da ressurreição era Nossa Senhora, num futuro completamente sem sentido. Porque uma vez que Nosso Senhor tinha morrido, o que ia acontecer? O que era aquilo tudo sem Ele? Dir-se-á: “Havia Ela”. É bem verdade, mas acontece que parece que durante a vida terrena d´Ele, as graças e dons d´Ela não foram tão manifestos aos homens como depois. Eles entenderiam bem toda a mariologia naquele momento? E mediriam o valor sem medida daquele tesouro que estava nas mãos deles? É uma coisa que a gente bem pode presumir que não.
Então, estava tudo na maior noite, estava tudo na maior treva, estava tudo no desespero mais completo, mas naturalmente Nossa Senhora começou a atuar sobre a alma deles e, provavelmente, sem lhes revelar a ressurreição, começou a fazer, pela ação da graça, despertar no íntimo da alma deles uma porção de sensações de esperança, uma porção de percepções de imponderáveis da graça que viria, que foram levantando esses homens e que foram dando a eles uma segurança no meio da tormenta, que era uma segurança nova que eles deveriam naturalmente, que Ela deveria, naturalmente, guiar e a que eles corresponderam.
Então, unidos a Nossa Senhora, estando eles em torno de Nossa Senhora, eles já estavam em condições de acreditar na ressurreição que viria. Então, deu-se exatamente esse fato de que no momento preciso eles foram informados da ressurreição. E informados da ressurreição, eles aceitaram, tiveram Fé, tiveram Fé e exultaram. E então, tudo quanto era caminho sem caminho se abriu, tudo quanto era via sem via tornou-se via, e todas as esperanças as mais audaciosas se confirmaram numa ressurreição de Cristo que era a afirmação de toda a vida d´Ele e que representava para eles, Apóstolos, um grande perdão.
Foi daí que os Apóstolos passaram por uma verdadeira conversão. Foi daí que os Apóstolos depois receberam o Espírito Santo, em Pentecostes, e se tornaram o que nós sabemos depois. Quer dizer, na pior das horas, eles, porque foram para junto de Nossa Senhora, porque se puseram junto a Nossa Senhora, receberam toda espécie de graça. E daí veio a maravilha toda que nós sabemos.
O que nós devemos concluir daí? A Santa Igreja Católica é imortal. Ela não morre. Mas ela pode passar por horas tão tristes e tão ruins que possam parecer uma verdadeira crucifixão. Nessas horas, o que a gente deve fazer? Não dormir como os Apóstolos, não ter a indiferença que os Apóstolos tinham, mas, pelo contrário, aproximarmo-nos de Nossa Senhora e pedir que Ela nos dê coragem e alento nessa hora tremenda que nós estamos atravessando. Junto com Ela nós poderemos passar pelos piores momentos, mas acontecerá o que fatalmente tem que acontecer: quando a Igreja parece mais abandonada, ela está mais próxima de sua como quê ressurreição, do seu levantar-se de novo.
E junto a Nossa Senhora, nós devemos esperar essa hora, que é a hora da Bagarre e a hora do Reino de Maria, em que a Igreja vai brilhar de novo como um sol ainda mais brilhante do que outrora.
Então, junto a Nossa Senhora, confiar na Igreja de todo jeito. Amar a Igreja por cima de todas as coisas na Terra. Sentirmo-nos ligados a ela como filhos incondicionais, de todos os modos e de todos os jeitos; embora até ela possa parecer morta, nunca acreditar que ela morreu, porque ela é absolutamente imortal. Haverá um momento junto a Nossa Senhora, que recebendo as forças e as graças d´Ela, que nós vamos assistir essa coisa prodigiosa, a maior vitória da Igreja em todos os tempos. Nossa Senhora disse em Fátima: “Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará”, não há vitória de Nossa Senhora que não seja vitória da Igreja Católica. Depois de Pentecostes, a maior das vitórias é a vitória que os senhores assistirão, se os senhores souberem estar bem unidos a Nossa Senhora nas piores das horas, procurando sempre por Ela, porque quem está perto d´Ela encontra o caminho da salvação. É isso o que eu tinha a dizer.
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1 Estava como “Reunião Normal”. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.
2 Citado por São Pedro na segunda epístola, 2, 22, lembrando o Provérbio 26, 11
3) Mt 26,40
Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará