Santo do Dia (Rua Pará ) – 7/4/1966 – 5ª feira [SD 206 e 310] – p. 4 de 4

Santo do Dia (Rua Pará ) — 7/4/1966 — 5ª feira [SD 206 e 310]

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Comemoramos o Santo dos santos, cujo sacrifício operou a nossa redenção * A morte, o Coração transpassado e corpo exangue no colo de Nossa Senhora indicam extremo de misericórdia e bondade * Pedir a fidelidade à graça e a conversão até a santidade, meditando em Cristo no Sepulcro e na Soledade de Maria * O Coração chagado nos convida a pedir por nós, pelos que são, pelos que foram e pelos que serão do Movimento * Pedir para partilhar das dores de Nossa Senhora da Piedade, especialmente diante da paixão atual da Igreja * Nosso Senhor ressuscitando da morte nos dá confiança na derrota da Revolução e advento do Reino de Maria

* Comemoramos o Santo dos santos, cujo sacrifício operou a nossa redenção

Então vamos falar alguma coisa a respeito do santo do dia. E o santo do dia hoje não pode deixar de ser o Santo dos santos, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Amanhã é Sexta-feira Santa. E a Sexta-feira Santa é um dia acompanhado de graças especialíssimas.

Cada dia de festa da Igreja é acompanhado de uma enorme efusão de graças correspondentes às graças que o santo recebeu, ou às graças do mistério da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou da vida de Nossa Senhora, que se está considerando. E amanhã vai ser considerado o mistério dos mistérios, que é a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e a redenção do gênero humano.

Segundo a tradição, Nosso Senhor Jesus Cristo teria morrido às três horas da tarde, e, portanto, às três horas da tarde se teria feito a redenção do gênero humano.

No momento em que Ele disse consummatum est e que sua Alma se separou de seu Corpo sagrado, neste momento, Ele morrendo, a vítima expirou, o sacrifício se fez e a redenção se operou. O gênero humano, de perdido que era, passou então a ser salvo. Nesse momento também a terra tremeu e a cólera de Deus — como cementávamos ontem — estalou sobre toda a Humanidade. Nesse momento, nós todos fomos resgatados e a fonte de todas as graças se abriu para nós.

Então é o momento de considerarmos Nosso Senhor Jesus Cristo como uma fonte de graças aberta para todos nós por causa de seu sacrifício, e termos em consideração que esse sacrifício abriu para nós uma torrente tal de misericórdia, que é verdadeiramente infinita, que nos traz toda espécie de bem e de toda espécie de perdão, desde que verdadeiramente nós queiramos utilizar dessas graças para nós.

Não há nada, a meu ver, que é melhor na Sexta-feira Santa do que essas três visões de Nosso Senhor Jesus Cristo expirando na cruz.

* A morte, o Coração transpassado e corpo exangue no colo de Nossa Senhora indicam extremo de misericórdia e bondade

É a morte: Nosso Senhor Jesus Cristo com o Coração perfurado pela lança de Longinus, em que a lança chega até o orgão que é o símbolo do amor, e fura o próprio símbolo do amor. Quer dizer, o próprio símbolo do amor é transpassado, é atingido pelo furor da paixão, furor dos perseguidores. Embora pareça, segundo alguns intérpretes, que aquilo foi feito com intenção de acabar de matá-Lo para evitar uma agonia muito longa e, portanto, uma certa eutanásia, foi o furor dos inimigos d’Ele que o colocou na condição de receber um ferimento até no seu Coração Sagrado. E aí saiu o último sangue, a última água, e foi derramada também por nós, o que indica o extremo de misericórdia, o extremo da bondade, o extremo da condescendência para conosco.

E outra visão: é Nosso Senhor exangue, deitado no colo de Nossa Senhora, representando aquela imagem tão conhecida de Nossa Senhora da Piedade. É a grande piedade que Nossa Senhora teve d’Ele, a grande pena que Ela teve d’Ele, a grande dor que Ela sentiu por causa d’Ele.

* Pedir a fidelidade à graça e a conversão até a santidade, meditando em Cristo no Sepulcro e na Soledade de Maria

Essas três figuras, são figuras eminentemente da Sexta-feira Santa.

Nós, se quisermos, podemos imaginar o Corpo de Nosso Senhor lívido no sepulcro, completamente isolado. E um outro fato da Sexta-feira Santa que é tremendo e que é admirável, é a soledade de Nossa Senhora. Chama-se Nossa Senhora da Soledade por causa da solidão em que Ela ficou quando Ele morreu. Ela ficou, em primeiro lugar, quase sem amigos, quase sem ninguém em torno d’Ela. Como filho São João Evangelista, mas que diferença, por melhor que ele fosse, entre esse filho e o Filho dos filhos que tinha morrido.

Quer dizer, essa soledade d’Ela foi, naturalmente, a parte mais angustiosa da vida d’Ela. Bem, nós podemos considerar esses vários aspectos amanhã.

É bom meditar sobre esses aspectos e, em função de cada um desses aspectos, pedir uma graça. Qual é a graça, por exemplo, que eu devo pedir, considerando Nosso Senhor que expira? Eu devo pedir uma graça que vá na seguinte idéia:

Todos nós estamos continuamente opondo movimentos de resistência à graça. Com o movimento de resistência à graça que estamos opondo, acontece que há algo em nós que a graça tem que converter. Todo homem caminha de conversão em conversão até a santidade.

Há algo que precisa ser rompido à maneira de uma conversão, em cada um de nós. E nós podemos ter um justo receio de nossa maldade evitar essa conversão. Mas à vista de um sacrifício que foi até a morte, à vista de uma misericórdia que foi obtida com um sangue que não tem preço, nós podemos nessa hora pedir e esperar essa graça das graças.

Que, por intercessão de Nossa Senhora, Nosso Senhor arrombe o que resta em nós de porta fechada em nossa alma, que Ele entre ali e que nos sacuda e nos revolva todo, para fazer de nós algo como que convertido em relação ao que nós somos atualmente.

Quer dizer, essa graça fulminante de uma ascensão grande na vida espiritual, essa graça nós a devemos pedir amanhã.

* O Coração chagado nos convida a pedir por nós, pelos que são, pelos que foram e pelos que serão do Movimento

Em face de Nosso Senhor com o Coração chagado, nós nos devemos lembrar da condescendência d’Ele, da misericórdia d’Ele e devemos, então, pedir que tenha pena de nós, que Ele tenha pena de todos aqueles que, dentro do movimento, estão labutando para sua santificação e de todos aqueles que foram do movimento e estão caminhando em direção ao movimento. Para que Ele tenha pena, para que Ele, por misericórdia, traga todas as pessoas aqui, e a nós nos confirme e nos leve para diante.

No que é que uma graça se distingue da outra?

A primeira graça é genericamente em face de nossa vida espiritual. A segunda graça diz muito mais especialmente a respeito de nossa vocação. E eu falo da vocação em função do coração, porque a vocação é o coração de nossa vida espiritual, e a fidelidade à vocação é o âmago da fidelidade a todas as outras virtudes.

* Pedir para partilhar das dores de Nossa Senhora da Piedade, especialmente diante da paixão atual da Igreja

Diante de Nosso Senhor deitado no colo de Nossa Senhora e da piedade de Nossa Senhora, da tristeza d’Ela, da pena que Ela teve d’Ele, eu lembro que peçamos duas coisas.

Em primeiro lugar, a graça de nós termos o senso da Paixão de Jesus Cristo. Muita gente medita sobre a Paixão de Jesus Cristo com indiferença: “Uma coisa que passou, o que é que eu tenho que ver com isso?”. Velho fato, etc.

Em toda Via Sacra se diz isso, quando se passa de uma estação para outra: “Santa Mãe, fazei o seguinte: cravai em mim verdadeiramente as chagas de Cristo”. Quer dizer, fazei que eu tenha o senso da solidariedade com Cristo na Paixão,que eu tenha pena d’Ele, que as minhas dores sejam as dores d’Ele e que eu viva tendo diante de mim a Paixão de Cristo.

Eu devo pensar na Santa Igreja Católica, que está atravessando hoje uma Paixão semelhante à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou melhor, uma paixão parecida com a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. E eu devo pedir a graça de sair da [mediocridade] para ter constantemente diante de meus olhos a Paixão tremenda pela qual está passando a Santa Igreja Católica.

* Nosso Senhor ressuscitando da morte nos dá confiança na derrota da Revolução e advento do Reino de Maria

Diante de Cristo no sepulcro, lívido, abandonado, eu devo pensar outra coisa: “Cristo morreu, mas Ele ressuscitou. Em muitas ocasiões a Santa Igreja parece morta, mas ela não morre nunca. Ela não é capaz de ressurreição, mas ela sempre como que ressurge de todas as suas derrotas e de todas as suas humilhações. Por mais humilhada e conspurcada que ela esteja no dia de hoje, é inegável que ela ressurgirá e que do reino da Revolução virá o Reino de Maria.

Que Nossa Senhora nos dê a perspectiva dessa Páscoa do reino d’Ela, dessa ressurreição do reino d’Ela, que vai ser algo à maneira da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. E nessa hora em que a causa católica está como que no sepulcro, como que em estado cadavérico, que Ela nos dê uma confiança inabalável que nos dias de nossa vida nós ainda vejamos o reino d’Ela.

Essas seriam graças que eu sugeriria que se considerassem para o dia de amanhã. Com isso nós nos devemos nos preparar para as orações especialmente à tarde, às três horas. Nós devemos nos preparar também para a Via Sacra que vai ser rezada amanhã à noite, que vai ser rezada aqui em comum por todos nós, e que tem esse significado: que pela qualidade e pela quantidade dos que estão presentes, pode-se dizer que é todo o movimento de “Catolicismo” que vai fazer uma Via Sacra, acompanhando ponto por ponto os padecimentos de Cristo, os padecimentos de Nossa Senhora e os padecimentos da Igreja Católica.

Essas são as disposições com que devemos nos preparar para o dia de amanhã.

Agora vamos rezar e fazer ato contínuo a cerimônia de encerramento.

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