Santo do Dia (Rua Pará ) – 4/4/1966 – 2ª feira [SD 206 e 310] – p. 4 de 4

Santo do Dia (Rua Pará ) — 4/4/1966 — 2ª feira [SD 206 e 310]

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Dados biográficos de um santo bem pouco moderno: São Vicente Ferrer * O santo no panorama RCR: a putrefação moral da Idade Média, o orgulho e a sensualidade preparando os desvios doutrinários * Pregador popular que sacudia as consciências adormecidas e provavelmente não excedido desde os Apóstolos * Dique que a Providência levantou, mas que a maldade dos homens destruiu

família numerosa é isso mesmo, tem sempre alguém festejando aniversário, outro com pêsames e assim, etc.

Assim, na mesma reunião onde dissemos que faleceu o avô do Dr. Oto de Sá Pereira, temos três aniversários no dia de hoje: aniversário de Plinio Vidigal Xavier da Silveira, que já foi para a fazenda, de Luís Mendonça de Freitas e de Edwaldo Marques, que se abstiveram de comparecer.

Onde anda o Edwaldo? Ele viajou de novo? Ah, bom.

E o Mendonça com certeza não veio porque tem comemorações em casa.

Enfim, são os três aniversários.

Hoje também é aniversário da morte de Francisco Marto, a quem Nossa Senhora apareceu em Fátima. Ele faleceu em 1919.

Agora, amanhã será a festa de São Vicente Ferrer, confessor, que contribuiu para a extinção do grande cisma do Ocidente no século XIV. Também amanhã se assinala simbolicamente o aniversário — não se sabe bem qual foi o dia — do aparecimento da “RCR”, que foi lançada neste mês, em 1959. Foi publicado em “Catolicismo” o ensaio “Revolução e Contra-Revolução”, que depois foi tirado em separata, como os senhores sabem.

* Dados biográficos de um santo bem pouco moderno: São Vicente Ferrer

A respeito de São Vicente Ferrer, nós temos os seguintes dados:

Vicente Ferrer nasceu na Espanha, em 1357. Sua vocação foi anunciada a seus pais de forma miraculosa, antes de seu nascimento. A seu batismo acorreu toda cidade de Valência, sendo seus padrinhos os membros do Conselho Municipal. Entrou para ordem dominicana aos 18 anos, revelando logo rara inteligência e dotes para pregação. Acompanhou o Cardeal Pedro de Luna a Avinhão, sendo que algum tempo depois este foi eleito Papa sob o nome de Bento XIII, na época do grande cisma que dividia a Igreja. O novo Papa quis que Vicente fosse seu auxiliar, mas o santo sabia que essa não era sua missão. Assim, deu inicio à grande obra de evangelização como pregador. Percorreu a França, Espanha, Itália e Inglaterra; esta última por especial pedido do Rei Henrique IV. Os pecadores mais endurecidos não resistiam às suas palavras, assim como numerosíssimos judeus, muçulmanos e cismáticos se convertiam.

A ignorância e a corrupção dos costumes, coisas comuns da guerra e do cisma, tornaram necessárias as missões de Vicente. Era preciso um apóstolo cuja voz terrível pudesse abalar as consciências a fim de arrancar os pecadores às suas desordens.

O santo tratava comumente somente dos temas mais assustadores do cristianismo,…

Os senhores estão vendo que é um santo muito pouco moderno.

tais como o pecado, o juízo de Deus, o inferno e a eternidade. Tinha, além disso, o dom de pronunciar seus discursos da maneira a mais patética. Não se contentando em ser veemente, ele falava ainda de uma maneira proporcionada à compreensão dos ouvintes. A santidade de sua vida dava nova força às suas palavras.

Sua fama chegou ao reino mouro de Granada, cujo soberano Abelaor … [inaudível]… quis ouvi-lo. Entretanto São Vicente começou a promover tantas conversões, que os ministros do rei, temerosos do que sucederia à crença muçulmana, pediram-lhe que afastasse dali o grande pregador.

Depois de uma existência toda consagrada a levar almas para Deus, pontilhada de milagres sem conta e pela luta contra o doloroso cisma de Avinhão, que culminou pela condenação pelo santo do anti-papa Pedro de Luna e a aceitação completa de Martinho V, que fora escolhido pelo Concílio de Constança, São Vicente veio a falecer na Bretanha, em 1419, aos 62 anos de idade.

* O santo no panorama RCR: a putrefação moral da Idade Média, o orgulho e a sensualidade preparando os desvios doutrinários

Eu tenho a impressão de que poucas coisas são bonitas na vida dos santos quanto o nós situarmos a missão do santo no panorama “RCR”.

De acordo com o panorama “RCR”, a Europa no século XIV, a Europa da Cristandade, começa exatamente a entrar em decadência. Era uma decadência eclesiástica tremenda que se atestava pelo fato de haver ao mesmo tempo papas exilados em Avinhão, quer dizer, papas que estavam sob a férula dos reis de França, e um cisma, um cisma tremendo: três papas que se combatiam reciprocamente, dos quais, naturalmente, um só era válido. Mas estava de tal maneira a confusão na Cristandade, que em cada pseudopapa ou papa, havia santos que estavam do seu lado.

Os senhores compreendem o que significava, para isso ser possível, a putrefação toda do clero.

Mas a putrefação do clero trazia como conseqüência que havia putrefação toda dos fiéis. Era toda a Idade Média que entrava em putrefação. Era uma putrefação de caráter mais moral, do que de caráter intelectual. Não era mais tanto uma grande heresia, não era mais tanto um grande cisma, mas era uma deterioração moral, era uma explosão de orgulho e de sensualidade que começava, a qual devia depois gerar os desvios intelectuais que são os erros da Revolução.

* Pregador popular que sacudia as consciências adormecidas e provavelmente não excedido desde os Apóstolos

Então a Providência manda, muito adequadamente, para essa época, um santo que foi grande na sua ordem, como, por exemplo, foi grande na sua esfera própria São Tomás de Aquino. Porque se se pode dizer de um lado que São Tomás de Aquino foi o Doutor comum, o filósofo dos filósofos, o teólogo dos teólogos, o mestre dos mestres. Nós podemos dizer que como pregador popular, depois dos Apóstolos, ninguém excedeu provavelmente a São Vicente Ferrer. Nem mesmo no século passado Santo Antônio Maria Claret, que foi um pregador assombroso, nem mesmo ele teve de longe a expressão que teve São Vicente Ferrer.

São Vicente Ferrer dizia de si mesmo que ele era o Anjo do Apocalipse, que tinha vindo para anunciar a derrocada da Civilização Cristã e o começo do fim do mundo. E de fato ele lutou enormemente para a moralização dos costumes, lutou para que exatamente essa decadência moral se sustasse.

Toda essa ficha que eu dei aqui é muito sintomática, porque ela fala de conversões, conversões de judeus, conversões de maometanos, conversões de hereges, mas ela menciona essas conversões como fatos colaterais, como fatos, não digo secundários, mas de uma importância menor dentro do conjunto da obra dele. Enquanto o grande fato era o poder sua pregação, por onde ele sacudia as consciências meio adormecidas e por onde ele era, por excelência, o santo oposto à tibieza, porque esse tipo de santo que fala no Inferno, fala dos pecados, que tonitroa, que pede o castigo do céu, é exatamente o santo chamado não para falar às almas fervorosas, mas sobretudo para falar às almas tíbias. E que é feito para sacudir algo que de outro modo não podemos convencer. Então nós compreendemos o número colossal de conversões que ele operou.

* Dique que a Providência levantou, mas que a maldade dos homens destruiu

Mas essas conversões, por mais numerosas que tenham sido, foram insuficientes. Delas não nasceu um movimento, delas não nasceu uma onda organizada para combater a Revolução que nascia. E o resultado é que ele converteu muitas almas, mas ele não converteu a Cristandade, ele não converteu a sociedade enquanto sociedade. Quer dizer, ele não foi tão ouvido pelos homens de seu tempo quanto os homens de seu tempo deveriam ouvi-lo.

Então ele foi a barreira que a Revolução rompeu. Ele foi o dique que a Providência levantou, mas que a maldade dos homens destruiu. Mas na abertura dessa torrente que começa a cair para o abismo, fica de pé a figura grandiosa dele, anunciando as catástrofes que provinham do fato de ele não ter sido ouvido. Exatamente como de um profeta do Antigo Testamento anunciando desgraças ao povo de Deus, porque o povo de Deus não tinha ouvido os enviados de Deus.

Assim fica a figura dele pairando sobre o firmamento da Igreja no fim de um pórtico que é o fim da Idade Média e que pode ser considerado o começo de Revolução. Aí está a imensa figura de São Vicente Ferrer e a exploração histórica do estilo de ele pregar, dos dons que ele recebeu, da missão que ele recebeu. etc.

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