Santo
do Dia (––- Segunda datilografia, sem conferição
final ––-) – 01/04/66 – 3ª feira –
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Santo do Dia — 01/04/66 — 3ª feira
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Considerações sobre a situação mais trágica de toda a História; Nosso Senhor pendente da Cruz e Nossa Senhora, chorando, em pé ao seu lado * Miséria da sensibilidade humana: compadece-se com uns cachorrinhos que perderam a mãe e, no entanto, não se compadece com Nossa Senhora ao pé da Cruz * As duas razões dessa indiferença: a insensibilidade a tudo quanto é sublime e elevado, e a falta de correspondência à graça * Quando rezamos o “Stabat Mater”, devemos pedir as graças da contrição, da união total com Ele e Ela e de querer lutar pelo Reino de Maria, em retribuição pelo que Eles sofreram por nós * Fatinho inocente e encantador; a primeira Via Sacra e a primeira Confissão do Senhor Doutor Plinio * A verdadeira contrição é um profundo tomar a sério dos dados oferecidos pela Fé; o dom das lágrimas é secundário, embora devamos pedí-lo * O “Stabat Mater”, tão simples e singelo, é uma verdadeira jóia de lógica, de Fé, de coerência e de humildade
Hoje é festa das Sete Dores da Bem-Aventurada Virgem Maria, que se celebra na sexta-feira após o domingo da Paixão. Também hoje é a primeira sexta-feira do mês.
Logo, vai ser amanhã, o primeiro sábado do mês. Me propuseram como cometário de hoje o Stabat Mater, que vem com uma tradução ao lado, mas, infelizmente, todas essas traduções nunca tem o sabor do trecho latino. Em todo caso, eu vou comentar o texto português.
A primeira parte do Stabat Mater é a seguinte:
Estava a Mãe Dolorosa, ao pé da Cruz, lacrimosa, e o Filho pendente d’Ela.
Depois, a outra parte:
Dura espada lhe rasgava a alma pura, com dor, tristeza e gemidos.
Agora, depois da apresentação desse quadro, vem uma oração:
Eia Mãe fonte de amores, fazei que essas fortes dores eu sinta e convosco chore.
Fazei que a alma se me inflame…
Então, é primeira oração. Depois, segunda:
Fazei que a alma se me inflame, porque a Cristo Deus só ame e só busque o seu agrado.
Terceira oração:
Santa Mãe, isso vos peço, fique o peito bem impresso das chagas do crucifixo.
Última oração:
Fazei-me, enquanto viver, com meu Jesus condoer, convosco chorar deveras.
* Considerações sobre a situação mais trágica de toda a História; Nosso Senhor pendente da Cruz e Nossa Senhora, chorando, em pé ao seu lado
O quadro pintado aqui de Nosso Senhor pendente da Cruz e de Nossa Senhora em pé — porque o stare, em latim, quer dizer estar em pé e chorando — esse quadro é o quadro mais patético de toda a história do mundo.
Nunca houve situação mais patética, situação mais trágica do que essa, nem nada que se lhe comparasse. E é, portanto, diante dessa situação que logicamente deveria comover a todas as pessoas, que toma um relevo especial as várias preces que vem depois.
Os senhores meçam um pouco a situação. Vamos considerar apenas a relação Filho-Mãe.
Nós temos ali Nosso Senhor na força de Sua idade, pregado na Cruz, quer dizer, exposto a um tormento indizivelmente agudo, com o Corpo todo chagado de outros tormentos que vieram antes, com uma coroa de espinhos na cabeça e pronto para exalar a Sua Alma.
Ele está no fim da última agonia. Ele passou por todas as dores. Ele está no fim da última agonia. Ele passou por todas as dores. DEle se pode dizer antecipadamente que Ele já não era um homem, mas era um verme —factus tamquam leprosus — de tal maneira desfigurado chagado, lanhado, que Ele estava feito como se fosse um leproso.
Na carne d’Ele, diz o profeta Isaías se não me engano, do alto da cabeça até a planta dos pés, não havia uma parte que estivesse sã. Ora, essa pessoa que está assim numa situação compungente que deveria despertar a compaixão de todo o mundo, esta pessoa é ao mesmo tempo o Homem-Deus.
E não só é o Homem-Deus e, portanto, sumamente inocente, sofrendo o martírio mais injusto, da ralé mais infame — mas sendo Deus, tudo quanto a Ele se fazia assumia uma gravidade verdadeiramente infinita. Era, portanto, um pecado enorme que estava sendo feito aí e algo que deveria levantar de indignação as pedras. Ao pé da Cruz estava a Mãe d’Ele.
* Caráter sagrado das relações mãe-filho
Nada se respeita mais no mundo do que uma mãe que chora seu filho. É a coisa que faz cessar todas as hostilidades, que faz cessar todos os apodos, que faz cessar todo espírito de vingança, que abre a alma para toda espécie de misericórdia: é a franqueza feminina posta no que ela tem de mais sublime que é a condição de mãe, e posta no que ela tem de mais doloroso, que é a mãe que completa a morte de seu próprio filho.
Nem a situação do filho contemplando a morte de sua mãe é uma coisa pungente como a da mãe que contempla seu próprio filho, a morte de seu filho.
Tome-se, por exemplo, o pior dos criminosos, o homem digno da maior execração, que vai ser morto no dia seguinte. No momento em que se anuncia que a mãe dele vai visitá-lo, tudo se suspende. Toda a irritação despertada pelo criminoso como que recebe um parênteses e todo o mundo recebe essa mãe com respeito, e a conduz, com desejos de a consolar, até junto do filho.
E esse filho que vai ser morto justamente em razão da execração geral, esse filho, enquanto está com sua mãe, toma, pelo contato com sua mãe e pela condição de filho que nele há, uma respeitabilidade que pareceria impossível num tal facínora. Enquanto ele está com sua mãe, ninguém o atormenta; ninguém lhe diz nada; todo o mundo como que suspende o curso da justiça, até que o contato com sua mãe tenha cessado.
Por que? Porque essa relação mãe-filho é uma relação sagrada; é uma relação que tem reservas de ternura inimagináveis. É uma relação que, por causa disso e por causa do que ela tem de sacrossanto em si ela discerne as cóleras e impõe toda forma de respeito.
Ora, está ali a Mãe que é a Virgem da virgens; está ali a Mãe que é o protótipo de todas as mães. Está ali a mais perfeita das mães e a mais perfeita das criaturas criaturas. Está uma criatura que chora a ofensa feita a Deus com uma profundidade de sentido que nós não podemos sequer imaginar.
Pois bem, então, diante desse quadro, que é o mais compungente de todos os quadros, nunca ninguém sofreu e jamais alguém sofrerá tanto quanto Nosso Senhor do alto da Cruz e Nossa Senhora ao pé da Cruz — pereceria que a piedade humana naturalmente se haveria de enternecer.
* Miséria da sensibilidade humana: compadece-se com uns cachorrinhos que perderam a mãe e, no entanto, não se compadece com Nossa Senhora ao pé da Cruz
Nós que teríamos pena — vamos dizer que nós tivéssemos aqui uma cachorra com seus cachorrinhos e que alguém matasse a cachorra deixando os cachorrinhos sem ter quem os nutrisse, nos daria uma impressão desagradável; nós que nos enternecemos até com a maternidade dos animais; nós que nos enternecemos com qualquer dor e as vezes nos enternecemos exageradamente com a dor que os animais sofrem.
Nos deveríamos então, se temos Fé e se nós acreditamos que Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus e que Ele morreu na Cruz; se nós acreditamos que Nossa Senhora existiu e que Ela estava ao pé da Cruz, nós deveríamos então ter nossa alma partida de dor e nada nos devia falar tanto quanto isso.
Agora, miséria e prodígio da sensibilidade humana! [ilegível] coisa verdadeiramente inconcebível! A gente ouve falar disso e nós, que nos comovemos com tudo, com isso nós somos “glaciais”! Ouvimos falar: ahãã. Basta olhar numa igreja, entrar e ver a cara das pessoas acompanhando Via Sacra.
Tem um ou outro que está rezando bem. Mas o ar é “apatetado”, pouco importa, sei lá se quero saber disso. Isso os que estão na Via Sacra. Os que não estão e que dizem “eu tenho mais do que tratar” são muito mais numerosos. Essa é uma das estações da Via Sacra.
Agora, por que é que vem essa indiferença do homem? É uma indiferença tão marcada que, depois de apresentar esse quadro, muito judiciosamente o Stabat Mater faz quatro orações em que se pede a Deus que nos dê um sentimento que a gente tem impressão que deveria borbulhar do fundo da alma: o sentimento do arrependimento, o sentimento de compulsão, o sentimento de gratidão, o desejo de aproveitar para nós os frutos dessas redenção, os frutos daquelas lágrimas, daquele sangue, para nós melhorarmos.
* As duas razões dessa indiferença: a insensibilidade a tudo quanto é sublime e elevado, e a falta de correspondência à graça
Por que que isso não é assim? Não é por duas razões: em primeiro lugar porque isso é bonito demais, porque isso é elevado demais, porque isso é santo demais, porque isso é grande demais; e pela sua natureza o homem, depois do pecado original é tão ruim, que quando uma coisa é muito sublime, muito elevada, muito santa, o homem se torna perfeitamente insensível.
Então, há todas as razões para chorar, mas a gente não chora; há todas as razões para compunção, mas a gente não sente essa compunção.
Por que? Porque são tantas as razões que isso nos afronta, isso nos deixa de gelo e nós não nos incomodamos.
Há, depois, uma outra razão. E essa razão é a seguinte: é que esse é um ato de vida sobrenatural. E o ato de vida sobrenatural nós o recebemos por meio da graça; nós não o podemos receber simplesmente nascido de nossa natureza.
Há um ato de Fé nisso e um ato de amor sobrenatural a Deus. E por maiores que sejam as razões naturais nós não entramos no terreno do sobrenatural se nós não tivermos a graça.
* Quando rezamos o “Stabat Mater”, devemos pedir as graças da contrição, da união total com Ele e Ela e de querer lutar pelo Reino de Maria, em retribuição pelo que Eles sofreram por nós
Então, por essas razões toda, nós temos que pedir isso, nós temos que desejar ardentemente isso. Então, desejar o que?
Desejar essa graça das graças de quando nós meditarmos a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo isso não ser para nós uma coisa morta, não ser para nós uma coisa poeirenta e distante como se tivesse passado há séculos, mas ser uma coisa viva e que nos diz respeito a nós diretamente, e que nos toque no fundo da alma como tocou a todos os santos.
O que quer dizer “tocar no fundo da alma”? Não é apenas um mero sentimento de tristeza. Mas é um sentimento tal de solidariedade, de compreender que aquilo nos diz respeito que de fato nos mova a uma correspondência, nos mova a um ato de amor verdadeiro e a uma correspondência.
Em que sentido a uma correspondência? Se Ele sofreu tanto por minha alma, se Ela chorou tanto também para minha alma, quer dizer Ele e Ela sofreriam todas essas dores com a intenção de me salvar e teriam sofrido tudo isso só para mim se só eu fosse a salvar.
E me conheciam pessoalmente e me tinham em mente no momento desse sacrifício, pensaram em mim e quiseram isso para mim eu hei de corresponder, eu hei de deixar os meus pecados, eu hei de progredir na virtude, eu hei de querer salvar novas almas, eu hei de querer implantar o Reino de Maria na terra que é a plena retribuição aquilo tudo que na Paixão foi feito.
Quer dizer, é esse movimento de alma, da alma tocada pela Paixão, é isso que nós devemos pedir nas orações. Quantas e quantas vezes eu vejo almas que não tem isso nem um pouco, e a quem não se ensina o que devem fazer para ter isso.
* Fatinho inocente e encantador; a primeira Via Sacra e a primeira Confissão do Senhor Doutor Plinio
Eu creio que uma vez contei que aqui como eram minhas confissões no tempo em que eu estava sob a férula, e, aliás, benemérita governante bávara que eu tinha. Ela chegava para mim e dizia em casa: faça seu exame de consciência.
Eu fazia e escrevia o exame de consciência no papel, porque era muito distraído e tinha medo de esquecer. Chegava na igreja, ela dizia: ajoelhe-se e faça o ato de contrição. Eu ajoelhava e fazia o ato de contrição.
Ela dizia: você se arrependeu? Eu dizia: não. Dizia: Via Sacra. Eu fazia uma Via Sacra, voltava. Ela dizia: você se arrependeu? Eu perdia a face diante de tanta maldade mas não queria fazer uma confissão sacrílega. Então, dizia: não. Ela dizia: Nova Via Sacra.
Bem, afinal, eu para conseguir me ver livre de tanta Via Sacra, excogitava em mim uma qualquer emoção ligeiramente “arrepentitiva”. Ela dizia: vai logo para o confessionário, se não passa essa contrição. E eu, compenetrado de minha tremenda vilania — porque era um homem que não se arrependia de nada e que, quando se arrependia, era preciso correr depressa porque aquele arrependimento ia passar.
— Homem, é verdade, deixa eu pegar minha “contriçãozinha” no pulo, porque senão não sei o que será de mim.
* A verdadeira contrição é um profundo tomar a sério dos dados oferecidos pela Fé; o dom das lágrimas é secundário, embora devamos pedí-lo
Essa governante tinha, evidentemente, uma idéia errada do que era o sentimento de contrição. Sentimento de contrição não é um… choramingar; sentimento de contrição não é uma pena sensível. Mas é um profundo tomar a serio dos dados oferecidos pela Fé.
Então isso foi assim? É verdade que até a última gota de Sangue teve que ser derramada e teve que ser derramada por uma lança… Furou o próprio símbolo do amor, que é o Coração? É verdade que isso foi feito por mim? Se é verdade, que conclusões eu tiro?
Essa seriedade da alma é que é a compunção. Muitos santos tiveram essa seriedade da alma acompanhada de pranto. E esse é um grande dom: o dom das lágrimas. Mas não é necessário que haja o pranto, não é indispensável; é muito conveniente…
[Nota do datilógrafo: aqui o Senhor Doutor Plinio faz uma observação sobre o ruído de um avião que passa.]
Vejam a incompatibilidade entre o tema e o ruído. Aí a gente compreende bem até que ponto isso é contrário ao verdadeiro ambiente cristão; olhem lá, [rachando?] tudo, dominando tudo, ressoando por toda parte, perturbando todas as pazes e fazendo uma coisa que tem sentido de hino; o hino da cacofonia monótona; feio e sempre igual. Vai tocando pelos céus inexoravelmente.
Bem, deixemos isso de lado e vamos voltar ao nosso tema.
Então eu digo: isso é que é propriamente tomar a verdadeira compunção. E essa compunção em virtude dos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Isso é que é preciso pedir.
Não adianta fazer cinco Vias Sacras. Não conseguiu, emociona mais. Uma espécie de calorífero emocional. Não é isso, não.
É preciso é pedir então, fazer uma Via Sacra não para aquecer um sentimento, mas para pedir por acabar por ter esse sentimento. Quer dizer, pedindo, pedindo, pedindo, tem-se aquilo que sem oração a gente não tem. E quando nós queremos ter esses dons, nós devemos pedi-los. Pede e dar-se-vós-a. Batei e abrir-se-á.
* O “Stabat Mater”, tão simples e singelo, é uma verdadeira jóia de lógica, de Fé, de coerência e de humildade
Então os senhores vêem como o Stabat Mater é bem constituído. Ele põe um quadro e depois começa a pedir que o mais comovente dos quadros de fato nos comova, reconhecendo a fundo a maldade humana, a dureza humana que não se comove com isso mesmo quando se trata de um homem batizado e que tem os recursos para se comover com isso, inclusive da ordem natural.
Aí os senhores compreendem a segunda parte: é uma humilde confissão da maldade humana e um pedido que, do alto do Calvário, desçam sobre nós as graças que nos façam dons. Então os senhores tem os vários pedidos…
[Nota do datilógrafo: há um trecho com defeito na gravação.]
… fazei que essas fortes dores eu sinta e convosco chore.
Quer dizer, que eu me solidarize convosco. Dai-me a alma uma participação na vossa dor. Primeiro pedido.
Segundo pedido: fazei com que minha alma arda de maneira que eu só ame a Cristo e só busque o agrado d’Ele. Então, a primeira coisa é a solidariedade, agora pede algo mais: uma união tal que eu só ame a Ele. Depois vem outro pedido: Santa Mãe, isso vos peço, fique no meu peito bem impressas as chagas do crucificado.
Então, vejam como está bem graduado e bem pensado: solidariedade, amor exclusivo, terceiro: participação no sofrimento d’Ele aqui na Terra. Eu quero ter em mim as chagas d’Ele, Quarto: fazei …
[Nota do datilógrafo: há um trecho com defeito na gravação.] … pedido de perseverança.
Durante minha vida inteira isso não deixe de ser assim. Amem.
Os senhores vêem a maravilha de lógica, a maravilha de Fé e a maravilha de coerência, a maravilha de humildade que se contém nessa oração. Essa oração tem um suco noutro ponto ainda: diante de Cristo crucificado, não se dirige a Cristo.
Dirige-se a Nossa Senhora, sabendo que o único modo de chegar a Cristo é por meio de Nossa Senhora. Então, aceitando a mediação universal, reza a Nossa Senhora para, por meio d’Ela, chegar a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Uma poesia tão singela, tão simples, que é preciso uma verdadeira análise para a gente compreender os tesouros de Fé de teologia e de humildade, de virtude que essa oração contém.
Vamos agora encerrar.
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