Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 31/3/1966 – 5ª feira [SD 161] – p. 7 de 7

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 31/3/1966 — 5ª feira [SD 161]

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A “RCR”, no plano sobrenatural, é um tratado do amor de Deus e esse amor só se consegue por meio da graça * Sob o aspecto natural, para se entender algo, de uma sala até o universo, é preciso ter formado um juízo sobre esse algo * As coisas só são compreensíveis a partir de uma noção do conjunto do universo — Ilustrando com a Helena Keller * A sabedoria é conhecimento arquitetônico de tudo e de si mesmo, pelos aspectos mais altos * A sabedoria que sobe até Deus é fundamental para que se possa entranhar da “RCR” * O oposto da sabedoria é a vidinha bem organizada, “uma pura sucção animal de felicidade”, sem nobreza * Para esse tipo de gente, a “RCR” não existe, a metafísica nada vale * “Dize-me para onde corre tua atenção, que te direi quem és” *A inteligência deve procurar e a vontade deve amar a explicação de cúpula mais que tudo — O lema dos Macabeus * Pela “RCR” se adquire a sabedoria que nos dá a chave para interpretar tudo que acontece hoje e com a sabedoria se aumenta o amor à Contra-Revolução

deve-se rezar também, deve-se rezar especialmente, deve-se rezar com especial insistência pelos que lutam.

Hoje, dia 31, é festa do Bem-Aventurado Boaventura Tornielli, confessor, da ordem dos Servos de Maria. Sua relíquia se venera em nossa capela.

Amanhã não há santo a considerar e eu tenho aqui uma consulta do Umberto.

a) Qual deve ser a atitude das pessoas que querem ver a obra “RCR” transformada, a exemplo do senhor, no sangue das veias da própria alma?

b) Em que pé estão o voluntarismo e o sentimentalismo no convívio do Grupo?

c) Como é que cada membro do Grupo deve analisar e viver o próprio ser?

d) Posto que, com a graça de Deus, o Santo do Dia é uma rotina para nós, como devemos comportar-nos para não barateá-lo?

Bem, cada uma dessas perguntas daria para uma resposta de uma noite. De maneira que eu vou dar uns dez minutos de resposta e nós poderemos retomar nas noites seguintes.

* A “RCR”, no plano sobrenatural, é um tratado do amor de Deus e esse amor só se consegue por meio da graça

Então, a primeira pergunta é: como é que uma pessoa deve ver a obra “RCR” transformada no sangue das veias e da própria alma?

Eu tenho impressão de que há duas coisas aqui — uma da inteligência e outra da vontade — a considerar do plano natural.

Evidentemente que no plano sobrenatural a nossa plena compenetração da “RCR” depende da devoção a Nossa Senhora e de conseguirmos graças para isso. Porque, como nós veremos daqui a pouco, a “RCR” é, a seu modo, um tratado do amor de Deus. E esse tratado do amor de Deus, em última análise, conduz ao amor a Deus. E o amor a Deus é um dom sobrenatural que nós não podemos conseguir a não ser com as graças do Divino Espírito Santo e, portanto, por meio da oração, dos sacramentos, dos meios sobrenaturais.

Entretanto, consideradas as coisas do ponto de vista natural, nós podemos dizer alguma coisa sobre esse assunto.

* Sob o aspecto natural, para se entender algo, de uma sala até o universo, é preciso ter formado um juízo sobre esse algo

Eu penso que se deve dizer aí, no plano da inteligência, o seguinte:

Os senhores tomem uma sala, aqui, por exemplo. Sobre esta sala se podem dizer muitas coisas. Pode-se dizer que as paredes dela são verdes, que ela tem uma tal ou qual dimensão, altura, etc., com suas cortinas, com suas janelas, como são as cadeiras, como são as mesas, como é o chão, como é o teto, como é a iluminação, pode-se dizer desta sala uma série de coisas.

Mas uma pessoa que queira compreender a sala não deve formar apenas uma opinião a respeito de cada um dos elementos que constituem a sala. Deve fazer uma opinião a respeito do conjunto chamado sala, porque a sala é um conjunto. Sala, na expressão tomada na linguagem corrente, não é apenas as paredes, mas é o conjunto de toda a decoração e todo o ambiente da sala.

Então, quem compreender esse conjunto chamado sala e for capaz de fazer um juízo sobre o conjunto chamado sala, este entendeu o que é sala.

Bem, a mesma coisa se dá com o universo. O universo, se os senhores quiserem, é uma imensa sala, uma imensa sala feita por Deus para que, dentro dela, viva o gênero humano. E quem quiser compreender o universo, não deve ter uma opiniãozinha a respeito de uma estrela, depois a respeito de uma formiga, depois a respeito de um homem, depois a respeito da chaminé de uma fábrica, depois a respeito da marca de um automóvel. Em vez de se contentar em ter uma série de opiniões fragmentárias, é preciso que tenha uma opinião, tenha um pensamento de conjunto a respeito de todo esse conjunto de coisas que se chama universo. E nem mais proximamente do conjunto chamado universo, mas há alguma coisa mais próxima de nós e que é o universo do homem, é propriamente o gênero humano. É propriamente este mundo com o gênero humano habitando nele, é a vida do homem na terra com as regras que ela obedece, com as condições que ela oferece ao homem, com a origem que ela tem e a finalidade que ela tem, isto é algo que é necessário para o homem entender, se ele quiser entender qualquer coisa.

* As coisas só são compreensíveis a partir de uma noção do conjunto do universo — Ilustrando com a Helena Keller

Uma noção sobre o conjunto dos homens vivendo sobre a terra, essa noção de conjunto de todos os aspectos dos homens vivendo sobre a terra, essa noção é que nos faz compreender tudo. Todas as coisas só são compreensíveis a partir disso; e quando não são em função disso, elas são incompreensíveis.

Os senhores imaginem, por exemplo, a Helena Keller. Os senhores devem ter ouvido falar dela. Uma vez eu fui introduzido no mundo de Helena Keller por uma exposição do Dr. Arnaldo. Eu nunca tinha ouvido falar nela, mas é uma coisa tremenda, se é que eu me lembro de todos os dados que ele deu.

Essa mulher, norte-americana se não me engano, foi cega e surda de origem, de nascença. De maneira que ela para se comunicar com o mundo externo dispunha apenas do sentido do tato. E ela então conta a alegria que teve quando conseguiu, pela primeira vez, através do sentido do tato, tomar contato com alguém de fora. E ela aí, através de uma coisa, de outra, de um dado e de outro, ela foi compondo uma noção de conjunto do que seria esse mundo, do qual ela estava quase completamente segregada. E de tal maneira uma noção de conjunto, que ela fez uma conferência aqui no Teatro Municipal, onde ela foi guiada até o bordo do palco e ali ela fez uma exposição completa. E a exposição dela era de uma pessoa que tinha inteiramente o conhecimento e o contato do mundo de fora. Quer dizer, ela tinha a noção do conjunto, a noção de como as coisas são, de como as coisas se engrenam, e não apenas uma noção avulsa.

Agora os senhores imaginem, por exemplo, que alguém tivesse conseguido dar a ela a noção de formiga. Depois desse a ela, por exemplo, a noção de água. E depois desse a ela, por exemplo, a noção de carinho. Então, ela ficaria só com essas três noções na cabeça: água, formiga, carinho. Ela, que não era louca, dava para ficar louca. Porque ter aí essas noções, que existe água, formiga e carinho, o que fazer dessas noções? Depois de ter martelado isso durante algum tempo, ela afundava na loucura, se ela fosse uma pessoa mais ou menos conseqüente.

* A sabedoria é conhecimento arquitetônico de tudo e de si mesmo, pelos aspectos mais altos

Ora, acontece que uma porção de pessoas, na vida, passam tendo uma porção de noções de águas, formigas e carinhos. Mas não têm noção de conjunto da vida, não compreendem um certo eixo de noções nos quais a vida se estrutura. E por causa disso são pessoas que passam pela vida a la girafa pegando fogo: com crises, com problemas, com estertores, com manifestações de loucura, com abatimentos, com prostrações, com entusiasmos bobos também. Por quê? Porque essa noção de conjunto, de encaixar essas coisas de maneira a ficarem compreensíveis, e a gente se compreender a si próprio também, isso lhes falta.

Ora, essa noção do conjunto, essa apetência da noção de conjunto, e da noção de conjunto pelos seus mais altos aspectos, se chama virtude da sabedoria. Quer dizer, é a virtude pela qual a pessoa procura ter um conhecimento arquitetônico de tudo, e arquitetônico de si mesmo.

* A sabedoria que sobe até Deus é fundamental para que se possa entranhar da “RCR

E naturalmente, como os conhecimentos mais profundos são os que se conhecem mais do alto, são as pessoas que procuram subir até Deus, até o trans-terreno, o metafísico, e não apenas o físico, mas além do físico e do material, para se fazerem uma idéia das coisas. Quer dizer, não se contentar com aspectos fragmentários da vida, mas procurar ter um espírito arquitetônico sapiencial, por onde a gente compreende que há uma necessidade viva — como o ar para os pulmões, é necessário para meu pensamento — aprender a ter uma noção de conjunto das coisas para explicar tudo, para me explicar a mim mesmo e para dar orientação à minha vida.

O compreender isso e ter a necessidade da sabedoria, acordar para a necessidade da sabedoria, isso para mim é a condição fundamental para uma pessoa entranhar-se da “RCR” como de todas as outras coisas. Quer dizer, sem essa base, sem esse fundo, não há possibilidade de uma compenetração da “RCR”.

* O oposto da sabedoria é a vidinha bem organizada, “uma pura sucção animal de felicidade”, sem nobreza

O que é que é o oposto a isso? O oposto a isso é exatamente o … [inaudível]. É o oposto à sabedoria. Pergunto a fulano:

Você vive feliz?

Vivo.

Por quê?

Ah, não sabia? Primeiro eu tenho aparelho de barbear. Depois eu estou comprando automovelzinho a prestações. Depois minha mãe, meus irmãos, minha gente, vive muito bem em casa, se dá muito comigo. Até simpatiza com o Grupo. Bem, depois eu tenho um bom emprego e uma boa saúde. Eu estou contente.

Isso aqui é o contrário da sabedoria. É uma pura sucção animal de felicidade, uma sucção sem sentido de uma alma sem nobreza, que faz do gozo pelo gozo a sua finalidade. Não será um gozo desonesto, poderá não ser um gozo pecaminoso, mas há uma razão de pecado na inteira indiferença do resto. Não me incomoda saber nem de onde vim nem para onde vou, nem nada, contanto que eu tenha essa alegria de viver numa espécie de nuvem cor-de-rosa, mamando a mamadeira de felicidade eternamente.

Esse gênero de gente — eu acho que já disse aqui numa reunião — se a gente atendesse à disposição do espírito deles, eles seriam assim: a gente dando para eles uma nuvem cor-de-rosa onde eles pudessem ficar… durante quinhentos anos chupando uma mamadeira que se chamaria a “bem-estarina”, durante quinhentos anos também sem cansar, sem sentir tédio, com um gosto sempre novo e numa espécie de sonho acordado sempre agradável. Ao cabo dos quinhentos anos eles punham a mamadeira de lado e diziam: “Quero mais”, e continuavam.

* Para esse tipo de gente, a “RCR” não existe, a metafísica nada vale

Bem, essa gente é exatamente o gênero de gente cuja alma não tende para Deus. E quando a gente, para esse tipo de pessoas, tem que falar de Revolução, de Contra-Revolução, de problemas, de lutas, de causa, é uma coisa dificílima. Por quê? Porque eles só pensam neles, eles só se preocupam com eles.

Então, quando a gente tem que falar de um dever, de uma causa: “Ah, como é? É claro, a Revolução, Contra-revolução”… Fica postiço ali, porque eles só se incomodam com seu aparelho de barba, com seu chinelo, com a casinha bem arranjadinha. Para eles, toda preocupação de caráter metafísico não é nada.

Agora, como é que nós podemos imaginar que gente assim ame a Deus de fato e seja, de fato, amada por Deus? Porque essa gente ama a si próprio. Não ama mais nada a não ser a si próprio. A duras penas reserva para Deus um cantinho da alma, mas é um cantinho defendido ali. Terço, meditação, comunhão, tudo para conseguir um interessezinho assim pelas coisas de Deus, o resto é ele.

Quer dizer, Deus tem uma espécie de enclave, uma espécie de gotinha encravada na alma dele e não tem mais nada do que isso.

* “Dize-me para onde corre tua atenção, que te direi quem és”

Tantas almas há em que não existe nem isso. Então, há almas para as quais a sabedoria é uma coisa postiça, é uma coisa que é preciso prestar atenção. Eles gostam de ler o magazine, de ver a televisão, de pensar no próprio chinelo, no aparelho de barbear, no automovelzinho, é para isso que sua atenção se dirige espontaneamente. Leitura dos jornais esportivos, etc., para isso sua atenção se dirige espontaneamente. Para outras, sua atenção vai a duras penas.

Agora, há uma regra que não falta: dize-me para onde corre tua atenção, que te direi quem és. Sua atenção espontaneamente corre para essas coisas e a duras penas vai para a sabedoria, eu não posso dizer que é um homem sábio.

Ora, o varão católico é, por excelência, um homem dotado de sabedoria. Há, portanto, essa posição da alma que é de desapego dessa vidinha, para a tendência para as preocupações de caráter superior, é esta coisa que realmente constitui o fundo da virtude da sabedoria e aquilo que nos leva para o amor de Deus. O amor de Deus, em última análise, é filho da sabedoria.

*A inteligência deve procurar e a vontade deve amar a explicação de cúpula mais que tudo — O lema dos Macabeus

Bem, com isso eu acabei falando da inteligência e acabei falando da vontade. Os senhores estão vendo que a inteligência deve procurar essa explicação de cúpula, a vontade deve amar esse bem de cúpula, mais do que todos os outros bens.

É muito bonita a frase dos Macabeus quando eles se levantaram para lutar contra os judeus1. Eles disseram isso (mais ou menos as palavras foram essas): “É melhor para nós morrer do que viver numa terra devastada e sem honra”.

Para eles os bens superiores da vida, a honra da terra, a boa ordem — mas a ordem superior segundo superiores princípios da vida terrena, e a terra com honra era, para eles, a terra organizada segundo a lei de Deus —, isso valia mais do que a vida. E se a vida tivesse quer ser perdida, valia a pena perder porque não valia a pena viver nessas condições.

O homem que, pelo contrário, tem mania da mamadeira da nuvem cor-de-rosa, esse é diferente. Ele gosta de viver nesta terra, ainda que sem honra. E quando a gente for falar para ele em lutar e em combater, ele: “Ah? Combater? Quer me explicar um pouco por que eu devo morrer por Deus?”.

Olha, é um remo conseguir que essa pessoa tenha dez minutos de heroísmo. Por quê? Porque está centrada noutra coisa: a vontade não adere aos bens sapienciais, ela adere aos bens contingentes, pequenos, concretos; doutrina não diz nada para ela, espírito não diz nada para ela, explicação não diz nada para ela, para ela diz apenas o que diz respeito à matéria, ao corpo, assistir ininteligentemente ao desenrolar das coisas da vida. Evidentemente nessas condições não pode haver uma pessoa que se entranhe da “RCR”.

* Pela “RCR” se adquire a sabedoria que nos dá a chave para interpretar tudo que acontece hoje e com a sabedoria se aumenta o amor à Contra-Revolução

Agora, como adquirir essa sabedoria?

Exatamente a pessoa que tem essa sabedoria, enfim, tem uma primeira tendência para a sabedoria, na “RCR” exatamente encontra o meio vivo de adquirir a virtude da sabedoria. Porque a “RCR” nos explica o fundo dos acontecimentos do nosso tempo. Ela nos explica qual é o fato dominante em nossa época em função do qual nenhum outro fato é importante, para o qual todos os fatos concorrem, ou de um modo positivo, ou de um modo negativo.

Há uma seita herética, essa seita é gnóstica. Essa seita trabalha para impor ao espírito humano, ao tipo do homem e à vida humana a conformação contrária às leis que Deus pôs no universo. Essas leis são a imagem de Deus e a gnose procura fazer o contrário da imagem de Deus. Ela procura, por essa forma, fazer com que o universo seja o mais dissemelhante possível de Deus. Todo mundo é igual, toda diferença é má, toda hierarquia é um crime e uma injustiça. Quando, pelo contrário, a Igreja nos ensina que toda hierarquia é uma condição para que Deus se espelhe e que não haveria possibilidade de manifestação ou de semelhança com Deus a não ser por meio da hierarquia posta por Deus no mundo. Resultado é que nós temos aí uma luta viva.

Tudo quanto se passa em torno de nós é a favor da igualdade ou da desigualdade; de outra nota, da sacralidade, ou do laicismo; outra nota, da fé ou do interconfessionalismo. Isso tudo a “RCR” nos explica. E isso tudo nos dá a explicação de fundo de tudo quanto acontece em nosso tempo. Por outro lado, nos dá, no fundo, uma explicação do próprio universo.

De maneira que se nós formos almas sapienciais, nós ao estudar a “RCR” e ao ler, ao analisar as coisas do universo com esses olhos, desenvolvemos em nós a sabedoria.

A sabedoria exatamente é um primeiro movimento que nos leva a estudar a “RCR”. A “RCR” estudada aumenta em nós a sabedoria. E a sabedoria, por essa forma, nos dá o amor de Deus.

Assim eu pretenderia ter respondido à primeira das perguntas. As outras ficam para depois.

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1) De fato, contra os sírios de Antíoco Epifanes