Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 22/3/1966 –
3ª feira [SD 164] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 22/3/1966 — 3ª feira [SD 164]
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Irmã Lúcia, guardiã da integridade da mensagem de Fátima * São Toríbio de Mongrovejo * Atmosfera de uma época: o rei Felipe II escolhe como bispo e inquisidor este devoto de Maria para extirpar a corrupção * O século XX caiu da situação de governantes e bispos santos para a ruína em que estamos, sem ter noção da queda
* Irmã Lúcia, guardiã da integridade da mensagem de Fátima
Hoje é o dia 22 de março. Estamos na novena de Nossa Senhora.
Hoje é um aniversário de muito significado para nós, porque é aniversário da Irmã Lúcia, a quem Nossa Senhora apareceu. Ela nasceu em 1907.
Amanhã é festa de São Toríbio de Mongrovejo.
Eu gostaria de dizer uma palavrinha a respeito da Irmã Lúcia, que repete mais ou menos o que todos os anos nós dizemos. Mas, afinal, a gratidão e o respeito que ela merece nos obriga a essa recordação.
A Irmã Lúcia fica aqui na terra com a missão de ser testemunha das mensagens de Fátima e guardiã da integridade das revelações recebidas. E nós percebemos que ela é, nós sabemos que ela é uma carmelita reclusa que não pode sair de seu convento, que não pode tomar contato com ninguém fora do Carmelo, cujo papel portanto é muito reduzido na divulgação dessa mensagem. Tanto mais quando se sabe que ela foi ela mesma quem quis entrar para o Carmelo. Aí a gente deduz que o papel dela não consistia propriamente em divulgar a mensagem, mas em uma coisa diferente.
Qual é está coisa?
Houve tanto empenho em trancar a mensagem. Ninguém fala da mensagem. O mistério da mensagem está integro. Se a Irmã Lúcia não estivesse viva, nós não teríamos uma pseudomensagem, uma mensagem falsificada e adulterada? Era bem possível.
Quando a gente se lembra das inúmeras falsificações que ficaram na tradução de uma encíclica como a “Mater et Magistra”, até a ponto de se espalhar o bleuf da socialização no mundo inteiro como imposta pelo Papa, não é de se espantar que as mesmas mãos sacrílegas que adulteraram a encíclica, que adulterassem essa mensagem?
Mas se uma coisa dessas houvesse, haveria — ou pelo menos poderia haver — uma pressão da opinião pública para ela falar, e ninguém arrancaria dela uma palavra contestando a versão falsa.
Então nós estamos compreendendo em que sentido é que Lúcia é a guardiã das mensagens, e podemos imaginar quantas pressões ela sofre, podemos imaginar quanto tormento na sua solidão ela sofre para contestar qualquer coisa que não esteja de acordo com a verdade. E então nós compreendemos quanto nós devemos rezar por ela, para que nessa solidão ela seja amparada, receba forças, receba os meios para cumprir heroicamente sua missão e para que, ao mesmo tempo, o enorme sacrifício que ela faz, consagrando toda a sua vida à expiação, à oração, à reparação pelos homens, que isto tudo seja aceito por Nossa Senhora.
Assim, nessas condições, as orações da noite de hoje serão destinadas a ela.
* São Toríbio de Mongrovejo
Agora vamos então nos ocupar de um santo cujo nome é Toríbio de Mongrovejo.
Eu estou certo de que ele não quererá mal àqueles que acharam o nome dele feio.
A festa de São Toríbio é amanhã, dia 23 de março.
São Toríbio nasceu em 1558 em Mayorga, Espanha, de uma nobre família. Desde a infância revelou amor pela virtude e um extremo horror ao pecado, ao lado de uma grande devoção à Santíssima Virgem. Cada dia recitava seu ofício e o rosário, e aos sábados jejuava em sua honra.
Com inclinação para os estudos, fê-lo em Valladolid e Salamanca. Felipe II veio a conhecê-lo. Notando-lhe as qualidades, o nomeou primeiro magistrado de Granada e presidente do Tribunal da Inquisição dessa cidade, cargo que exerceu de forma excepcional durante cinco anos. Vagando a Sé episcopal em Lima, no Peru, o soberano chamou-o para o cargo apesar de seus veementes protestos. Foi sagrado sacerdote e bispo e assumiu o seu posto aos 43 anos de idade.
Sua diocese era imensa e os costumes dos espanhóis e outros conquistadores, ao lado do clero, deixava muito a desejar.
Ao lado do clero os senhores entendem o que quer dizer não é? É juntamente com o clero.
Os selvagens por sua vez estavam abandonados ou eram perseguidos. São Toríbio não se deixou desanimar, resolveu aplicar as decisões do concilio de Trento para reformar a região.
Dotado de excepcional prudência e zelo ativo e vigoroso, começou pela reforma do clero, tornando-se inflexível para qualquer escândalo que daí viesse. Tornou-se açoite dos pecadores públicos e protetor dos oprimidos. Foi duramente perseguido por isso.
Como alguns cristãos dessem à lei de Deus alguma interpretação que favorecia os pendores desregrados da natureza, mostrou-lhes que Cristo era a verdade e não um costume e que, em seu tribunal, nossos atos seriam pesados não pela falsa balança do mundo, mas pela balança do santuário.
Linda expressão não?
Conseguiu o nosso santo o que queria e voltou-se à pratica das máximas evangélicas com enorme fervor, principalmente com a chegada do virtuoso vice-rei Dom Francisco de Toledo.
Infatigável pela salvação da menor das almas de seu rebanho, não poupava nenhum trabalho. Protegeu os índios chegando a aprender, em idade avançada, vários de seus dialetos para poder ensinar-lhes o catecismo. Toda essa atividade era iluminada por intensa vida de piedade, missa, longa meditação, confissão diária, longas horas de oração e severas penitências. Sua prece era contínua, pois a glória de Deus era o fim de todas suas palavras e ações.
São Toríbio caiu doente em Sana, uma cidade distante de Lima. Previu sua morte e distribuiu seus bens aos seus criados e aos pobres, repetindo sem cessar as palavras de São Paulo: “Desejo ser libertado dos laços de meu corpo para unir-me a Cristo”. Morreu dizendo com o profeta: “Senhor, em tuas mãos entrego meu espírito”. Era 23 de março de 1606 quando expirou o grande apóstolo de Peru.
* Atmosfera de uma época: o rei Felipe II escolhe como bispo e inquisidor este devoto de Maria para extirpar a corrupção
É uma tão bonita biografia, que quase não dá vontade de fazer comentários. Em todo caso, vamos tomar alguns aspectos desse assunto e considerá-los.
Primeiro dele, naturalmente, é a excepcional devoção desse santo a Nossa Senhora. Todos nós sabemos bem que sem devoção a Nossa Senhora não há santidade, e que a santidade está de algum modo na medida da devoção a Nossa Senhora. Mas depois passamos um pouco para a consideração de coisas do tempo.
Este homem tão piedoso é notado pelo Rei Felipe II, e logo que o Rei Felipe II o nota, ele o chama para poder judiciário.
Os senhores imaginam alguém contar alguma coisa assim: o Presidente X, o Presidente Frei, o presidente Ilia, o Presidente Castelo Branco, etc., estiveram em tal lugar e ouviram falar de um homem muito religioso, que jejuava, que todos os sábados fazia tal penitência assim, rezava o oficio parvo, e quando o presidente ouviu falar disso: “Oh! Aqui está o magistrado”. Os senhores acreditam?
Se isto fosse publicado ninguém acreditaria, porque todo mundo sabe que nenhum chefe de Estado contemporâneo seleciona os homens verdadeiramente piedosos, verdadeiramente religiosos.
Agora, maravilha das maravilhas! Ele encontrou um homem piedoso, mas que não era todavia “heresia branca,” nem pescoço torto. Por isso Felipe II — que era bem o contrário da “heresia branca”, qualidade de que não lhe pode ser negada em nenhum caso — vendo este homem tão bom, chamou-o para um ramo especial do judiciário, que é a nossa bem amada Inquisição Contra a Perfídia dos Hereges. E eis então o nosso homem transformado em perseguidor dos hereges. Este homem sai das sombras do santuário, das doçuras da sua piedade, para ser o açoite dos hereges. E exerce tão bem o seu cargo, que ele é depois nomeado bispo do Peru.
Os senhores estão vendo como isto significa afinal de contas toda uma atmosfera, toda uma época em que a virtude era procurada, era galardoada, era considerado como um instrumento para o bom andamento do governo de um reino.
Então os senhores vêm o pensamento de Felipe II, mandando para o Peru um homem destes. Quer dizer, compreendendo muito bem toda a corrupção a que uma nação colonial estava sujeita, com a presença da elite na Espanha ou em Portugal, e a vinda da borra para a América do Sul. Então a preocupação dele de tomar um homem eminente destes para implantar o Reino de Cristo no Peru, para consolidar os fundamentos do Reino de Cristo no Peru.
Os senhores, então, podem perceber melhor como havia verdadeiro zelo da parte de Felipe II na propagação da fé.
Há uns “patoteiros” aí que dizem que a Espanha e Portugal quando fizeram o descobrimento só se interessavam por dinheiro. O que lucrava monetariamente Felipe II em mandar um homem deste valor para o Peru, para fazer reforma de caráter espiritual? Nada!
* O século XX caiu da situação de governantes e bispos santos para a ruína em que estamos, sem ter noção da queda
Esse homem começa a agir, esse homem se transforma ali no açoite, porque ele é um santo autêntico que sebe açoitar (quem não sabe açoitar não é santo). Ele se transforma no açoite dos maus padres, reforma o clero, etc. Mas sua ação é prestigiada por outro homem de altas virtudes, que Felipe II manda para o cargo de vice-rei do Peru, e que é o tal Dom Francisco de Toledo.
Os senhores estão vendo um rei que Santa Teresa chama de “nosso grande rei”, de “nosso santo Rei Felipe”. Os senhores estão vendo um santo bispo inquisidor, um santo vice-rei. Quem é que ouve falar destas coisas nos dias de hoje?
Como nós baixamos. Como nós caímos. Como nós estamos numa ordem de coisas tão tremenda que nossa tentação é até de achá-la natural.
Ás vezes se fala desse caiçaras que moram no litoral, que são tão decadentes que até acham natural a vida que levam. Nós espiritualmente somos caiçaras, os homens do século XX. Nós estamos numa tal decadência, que nós achamos natural essas “mães de natureza” por aí governando, dominando, mandando, falando, dirigindo, etc.
Nós não compreendemos o fundo do abismo em que estamos, porque o normal é isto: normal é que um bispo seja São Toríbio de Mongrovejo e não que seja Hélder Câmara. Isto é o normal ! Normal é que o poder político esteja entregue a um rei ou a um vice-rei virtuoso e não é mercadoria que nós vemos por aí. Mas nós até já perdemos a noção disso. Os poderes disso se arruinaram.
Então o que nós devemos pedir amanhã a São Toríbio de Mongrovejo?
Nós devemos pedir que nos obtenha a graça de lutar ativamente para derrubar este estado de impiedade em que a normalidade parece um conto de fadas da “carochinha”, e é este horror que por aí parece normalidade. É a derrota da ordem revolucionaria das coisas e o triunfo da Contra-Revolução que nós devemos pedir a esse santo e inquisidor, que tanto teria lutado pela Contra-Revolução e que tanto lutou como inquisidor pela Contra-Revolução.
Do alto dos céus, certamente ele ouvirá com benignidade e alegria a nossa prece .
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