Santo
do Dia (Rua Pará) – 14/3/1966 – 2ª feira [SD
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Santo do Dia (Rua Pará) — 14/3/1966 — 2ª feira [SD 164]
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O “ceder para não perder” característico da Revolução atinge mais as cúpulas do que as bases — Havendo reação, breca-se o processo * São Clemente é um elo de ouro na corrente dos escravos de Maria, do bom espírito, “do resto que voltará”
Estudava Clemente em Viena, seguindo o curso de teologia, pois pretendia, quando pudesse, ordenar-se sacerdote. Mas cedo verificou que alguns de seus professores, não querendo fugir ao racionalismo do século, procuravam uma estranha conciliação entre a doutrina católica e o Iluminismo. Clemente, desde muito jovem, era dotado de um sentimento muito seguro que lhe indicava com precisão qual a verdadeira doutrina católica. Assim, ao ouvir aquelas doutrinas falsificadas, sentia-se dolorosamente constrangido. Um dia, terminada a preleção, foi manifestar ao professor certas dificuldades. O mestre, admirado, explicou ao estudante que o século no qual viviam dificilmente seguiria uma doutrina tradicional, pois só aceitava a linguagem da pura inteligência, quer no púlpito, quer na cátedra universitária. E concluiu: “Temos que seguir a corrente, se não quisermos ficar para trás”. Responde o pobre ajudante de padeiro: “Seguir a corrente é covardia, pois é contra a corrente que devemos lutar. A melodia errada não se torna menos desafinada pela simples razão de a acompanharmos baixinho. Quem quiser indicar o caminho ao nosso tempo, vá acender seu facho de luz na própria Revelação”.
Disse o professor: “Hofbauer, o senhor terá um dia de pregar diante de bancos vazios. Nosso tempo não suporta mais essa linguagem”. Resposta: “Então já chegou a época anunciada por São Paulo: ‘Tempo virá em que não hão de suportar a sã doutrina’. Que diria São Paulo de suas opiniões, senhor professor?”.
Outra ocasião, um professor disse em aula que a Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria não passava de piedosa lenda. No século XIX não devia ser mencionada perante um auditório. Levanta-se Clemente indignado: “Senhor professor, essa doutrina não é católica”. E retirou-se da sala. “Talvez um dia haja mais luz dentro dessa cabeça de camponês”, gritou atrás dele o mestre. Mas foi obrigado a interromper a aula, pois os estudantes esvaziaram a sala, seguindo a Hofbauer.
* O “ceder para não perder” característico da Revolução atinge mais as cúpulas do que as bases — Havendo reação, breca-se o processo
O que é interessante notarmos aqui é a identidade de métodos da Revolução.
O século XVIII nos parece velho: é o tempo da liteira, da saia-balão, do chapéu de três bicos. Século XIX também. Creio que os senhores não distinguem século XIX de Ramsés, da rainha Vitória, etc. Tudo se perde no mesmo fundo histórico.
Pois nesse século os homens se reputavam moderníssimos, e já vinham com a idéia de que era preciso ceder diante da Revolução, para não entregar o terreno à Revolução. É o “ceder para não perder” do Carvalho Pinto, da democracia-cristã, da grande maioria do episcopado brasileiro, etc. É a mesma impiedade exprimindo-se pelas mesmas formas e procurando acovardar do mesmo jeito.
Outra coisa é a ameaça: “O senhor, quando se formar, vai pregar para bancos vazios”. É o mesmo que dizer para nós: “A doutrina de vocês não é capaz de arrastar os homens de hoje”. De fato, ele fala e sai, e toda a classe sai com ele.
A situação não está tão comprometida quanto dizem. Está comprometida por causa das cúpulas. Ali está comprometidíssima. É fato que na base está gravemente comprometida, mas muito menos do que nas cúpulas. Havendo coragem, as pessoas vão atrás. É questão de dizer tudo inteiro. Este é que é o verdadeiro problema, a natureza do problema.
* São Clemente é um elo de ouro na corrente dos escravos de Maria, do bom espírito, “do resto que voltará”
É também interessante ver como a posição de São Clemente Hofbauer é do ultramontanismo. Ele combate o “ceder para não perder”, não cede diante da ameaça de pregar para bancos vazios, e, se isto tiver que acontecer, a conclusão dele é de que chegou o fim dos tempos, o que, evidentemente, o professor modernoso dele não quis ver.
Uma das características do progressismo é de que não há fim dos tempos. Pelo contrário, é avançar e aproveitar esta época para gozar a vida.
Os senhores vêem como é verdadeira aquela doutrina que está esculpida na cátedra da Sala do Reino de Maria: “um resto voltará”. É a mesma continuidade do espírito bom e do espírito ruim em todos os séculos, combatendo um e combatendo outro, nesta luta de vida e de morte entre os dois.
Por isso não devemos nos considerar como pessoas surgidas neste século, mas continuadoras de um espírito que irá até o fim do mundo. Não somos um grupo que apareceu, mas um elo na mais magnífica e majestosa das correntes: o elo daqueles que são os escravos de Nossa Senhora, que pisam na cabeça da serpente. Vemos isso por nossa identidade com São Clemente Hofbauer e todos para trás, e a identidade dos inimigos que combatemos com os inimigos de outrora.
Tudo indica que nossa luta não é de hoje, nem é uma luta somente; é uma luta que foi de ontem e será de amanhã, até o fim dos séculos. Então somos um elo nessa corrente de ouro que começou nas mais antigas raízes do Antigo Testamento, até o último momento de aflição, em que os últimos católicos estarão ainda vivos, temendo que esteja tudo perdido, quando vier o Filho do Homem em grande pompa e majestade para julgar os vivos e os mortos, e acabará de uma vez com isto. Então todos nós, com a graça de Nossa Senhora, vamos para o Céu.
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