Santo do Dia ─ 09/03/66 ─ 4ª feira . 5 de 5

Santo do Dia ─ 09/03/66 ─ 4ª feira

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Combatividade é a disposição de alma que nos torna apetentes e capazes de conduzir o bom combate * O bem e o mal não pairam no ar como fantasmas, mas existem concretamente em quem os pratica. A combatividade é, pois, uma luta contra pessoas * A fina ponta da combatividade, que é a combatividade multiplicada por si própria, supõe o gosto pela violência insultante ao mal * A combatividade só é boa quando visa a maior glória de Deus, a salvação das almas e a punição do mal * O sentimentalismo é o contrário da combatividade. Há hoje um unanimismo por onde os homens não têm mais amor nem ódio

Fazer amanhã. Vamos ver se há? Não. Amanhã começa a novena de São José, é dia dez de março.

Então, haveria o pedido para eu comentar mais uma das perguntas feitas durante a Semana Santa, durante o Carnaval, por pessoas do Grupo. E aqui se trata de uma pergunta [feita] pelo Gregório: “Como se pode transformar um princípio em forma de vida?” Ou, outra pergunta: “O que é propriamente a combatividade?”

* Combatividade é a disposição de alma que nos torna apetentes e capazes de conduzir o bom combate

Bem, naturalmente a palavra combatividade tem um sentido lato e um sentido estrito. Se nós tomarmos etimologicamente, combatividade é a disposição de alma pela qual a gente combate, em conseqüência da qual a gente combate. É o próprio do homem combativo ter combatividade.

Agora, como no sentido lato da palavra, combate é qualquer luta que tenha atingido certo grau de extensão, de importância, de continuidade, nós então chegamos à conclusão etimologicamente…

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sistemáticas e de certa dificuldade, de certa dificuldade ou até grande dificuldade. Isso seria a combatividade.

Mas transposta esta pergunta do plano etimológico e da linguagem corrente para o plano moral, a combatividade é uma virtude. E como uma virtude ela evidentemente é a capacidade de travar o combate virtuoso, e não é a capacidade apenas de fazer qualquer combate ─ porque travar o combate pelo mal não é virtude ─ e, portanto, a combatividade considerada enquanto virtude, é a disposição de alma que nos torna apetentes e capazes de conduzir o bom combate, de fazer, de travar uma luta que é boa.

Agora, qual é que é o bom combate? Qual é, propriamente, então, a combatividade?

* O bem e o mal não pairam no ar como fantasmas, mas existem concretamente em quem os pratica. A combatividade é, pois, uma luta contra pessoas

Nós temos duas espécies de combate e, portanto, nós temos duas espécies de combatividade. Temos o combate interno, que é o combate, a luta que nós travamos em nós contra o demônio, o mundo e a carne. Que nos leva a frear as nossas paixões, a dominar o nosso adversário dentro de nós. E esta é uma combatividade interna.

Nós temos de outro lado, uma outra combatividade, que é a combatividade externa. E nessa combatividade externa nós temos duas outras formas de combatividade: nós temos a combatividade cruenta e violenta, física; e a combatividade incruenta.

Mostra-se combativo aquele que é capaz de combater toda a forma de mal; aquele, portanto, que em torno de si, pela sua ação de presença, pela sua palavra, combate contra o mal, seja qual for a forma do combate. Às vezes é combate do mal contra o mal, isso é excepcional, mas pode dar-se e consiste em ficar quieto. Então este é verdadeiramente combativo. E nós diremos que é um homem combativo aquele que por toda parte onde está, es… [Trecho ilegível]

põe uma outra coisa, que é o seguinte: ninguém combate o bem, favorece o bem e combate o mal, sem favorecer os bons e combater os maus. Porque o mal não é uma coisa que paira no ar em tese. Ele existe nos maus. Como o bem também não é uma coisa que está pairando no ar como se fosse um fantasma, mas existe nos bons. Então, não é apenas, a combatividade, não é apenas a luta contra as idéias, ou a favor de idéias, mas a combatividade é a luta contra as pessoas que representam essas idéias e a favor das pessoas que representam as outras idéias.

Quer dizer, há portanto, uma espécie de oposição pessoal, a capacidade de entrar em luta de influência, em luta de argumento, em luta de todo o modo contra os maus e a favor dos bons, que é um elemento fundamental da combatividade. É mesmo uma característica da combatividade.

* A fina ponta da combatividade, que é a combatividade multiplicada por si própria, supõe o gosto pela violência insultante ao mal

Agora, quando essa combatividade é grande, ela é por sua natureza sôfrega de chegar às últimas conseqüências de si própria. E, portanto, a verdadeira virtude da combatividade, induz o homem combativo a não ficar apenas na luta incruenta. Induz o homem combativo a apetecer a violência para combater o mal. De maneira que ele tem a vontade de usar da força material para exterminar mais depressa as formas de mal que a influência e a ação dele não podem exterminar.

E então, por exemplo, o homem verdadeiramente combativo não é favorável apenas em tese à pureza, mas ele combate o impuro e ele prestigia e favorece o puro. Mas ele não só combate pela palavra, mas ele gostaria de poder usar de violência contra a impureza. E ele gostaria, por exemplo, de mandar queimar todos os antros perdidos, de mandar queimar todas as casas de depravação, de mandar ma… [Trecho ilegível]

pecados elimináveis que se encontram… [ilegível] … num ambiente moderno qualquer, e ele tem então uma espécie de gosto em empregar a força. Não um gosto estúpido, sádico, mas um gosto da ação rápida e direta que só a força propicia; o gosto de uma ação que pela sua violência seja uma reparação a Deus pelo ultraje violento que a imoralidade lhe faz.

Então, nós temos aqui uma espécie de fina ponta da combatividade, que é a combatividade multiplicada por si própria e que supõe esse gosto da violência. Essa combatividade que supõe esse gosto pela violência, supõe o gosto não só da violência, mas de uma violência que seja insultante ao mal, de maneira tal que o gosto de quem é combativo, não é só de prostrar o mal com todas as armas da convicção, mas de usar a força contra o mal quando ele não se deixa prostrar pela convicção. Mas, ao usar a força, ele deve querer a força mais rápida, a força mais direta, a força que extermine mais completamente o mal, que não deixe do mal nem as raízes e, mais ainda, ele deve gostar de que esta força se exerça de um modo insultante ao mal, de maneira a desmoralizar o mal, a fazer com que o mal e os maus percam a face perante os bons.

Quer dizer, por exemplo, faz parte dessa violência uma forma de pena que o Direito Penal moderno eliminou, e que o Direito Penal de amanhã vai restaurar num sentido bem diverso: são as penas de caráter infamante. Quer dizer, o mal, o bem combativo, pode tomar, por exemplo, o homem que se torne réu de uma ação contrária à pureza e pode, por exemplo, mandar fustigar esse homem com açoites, num… [Trecho ilegível]

envergonhar o homem. Então é preciso fazer o que se fazia antigamente com certos crimes infamantes: vestia uma roupa ridícula qualquer, por exemplo, untava o sujeito de gordura e mandava rolar numa, num recipiente enorme cheio de penas de pato e de galinha, de maneira que aquelas penas todas colavam nele. Ficava ridículo, ficava um espantalho, e mandava passear na cidade puxado pela molecada fazendo pregões, com soldados atrás para obrigar o sujeito a andar.

Quer dizer, é preciso insultar o mal. Não basta vergastá-lo, mas é preciso propriamente lhe lançar em rosto todo o mal que tem. É preciso fazê-lo perder a face, é preciso arrasá-lo moralmente. Isto é uma forma especial de combatividade.

* A combatividade só é boa quando visa a maior glória de Deus, a salvação das almas e a punição do mal

Agora, o que é que tem essa combatividade de próprio? E esse ponto eu acho muitíssimo importante notar. Está combatividade só é boa quando ela visa a maior glória de Deus, ela visa a salvação das almas, ela visa a punição do mal. Se aquele que é combativo aproveita a ocasião para se mostrar e para mostrar para os outros que ele é um façanhudo, que ele é um colosso, que ele é uma espécie de Dom Quixote de la Mancha, que com uma espadagada faz não sei quantas coisas, então, isso não é mais a combatividade virtude. Aí é a combatividade que os franceses chamam, por causa daqueles romances de cavalaria, [rodomontade??]. É a faceirice da combatividade.

Sujeito que combate pelo mero amor à combatividade, para aparecer e para todo mundo bater palmas, e que no fundo tem entusiasmo por qualquer combatividade, seja ela a serviço do bem ou do mal, isto é um erro, isto é um defeito, porque a combatividade é boa só quando… [Trecho ilegível] …não tem importância.

O que dá à combatividade o seu valor é o objetivo com que se combate. E então, o homem verdadeiramente combativo deve ser humilde, deve ser apagado, não deve ter a preocupação de aparecer nem de receber aplauso, mas apenas de que, verdadeiramente a vitória seja da Causa católica.

Há uma frase de um Salmo que diz: Non mihi, Domine, non mihi, sed nomine tuo da gloria. “Não a mim, Senhor, não a mim, mas a teu nome dá glória”.

Este é modo pelo qual o verdadeiro combativo deve ser combativo. Que apareça Nossa Senhora, vencendo pelos braços de seus servos, dos seus escravos, mas que o escravo apareça não tem importância nenhuma, porque o escravo não representa nada. Desde que o senhor refulja, o escravo não é nada. Nós somos escravos de Nossa Senhora e menos do que escravos d’Ela. Que nós apareçamos, não tem a menor importância, a menor conseqüência. Basta que apareça Ela.

Então, nós não confundimos o nosso gosto pela combatividade com certo modo de ser façanhudo, que é o gosto da gente aparecer aos olhos dos outros enquanto combativos. E, então, fazendo proezas que constituem [um?] ridículo da fase dos romances de cavalaria na decadência. Gente que ia avançando e que numa só lança furava o abdômen de vinte e cinco turcos, jogava os turcos assim e caíam por cima da muralha da cidade inimiga e continuava combatendo. Quer dizer, mentirada, não é? Mentira de caçador, não interessa absolutamente.

Então, esse seria o sentido de combatividade. Eu esqueci-me de uma coisa, permitam que eu alongue de um momento o comentário.

Nada, segundo o espírito… [Trecho ilegível]

* O sentimentalismo é o contrário da combatividade. Há hoje um unanimismo por onde os homens não têm mais amor nem ódio

A gente não entende bem a combatividade se não tiver falado a respeito do contrário da combatividade.

Qual é o contrário da combatividade? É o sentimentalismo, é a pena de fazer dodói nos outros, é a moleza que é a pena de fazer dodói na gente mesmo; é a gente ter o trabalho de lutar, de brigar, de se esfalfar e, a pior coisa, é a preguiça de zangar.

Gente de um temperamento tão frio, tão abobado, tão nulo, que leva uma bofetada e tem preguiça de zangar: “Oh, que [é] que vou fazer? Vou perdoar”.

Não vá perdoar, vá babar! Porque você fica morrendo de ódio, mas por preguiça não luta. Você tem raiva, mas com preguiça de se mexer. Isto é que é!

Esta forma de… esta moleza, esta ausência de combatividade encontra hoje uma expressão, uma expressão não, uma causa pior ainda: é a falta de solidariedade com o bem e a falta de ódio com o mal.

Acontece qualquer coisa: “Ah, é?”. Nem tem ódio, nem estima, nem nada! Hoje há uma coisa que faz parte do unanimismo, por onde os homens não têm mais amor nem ódio. Têm apenas soluções cômodas, simples, de matéria plástica, para uma vida de matéria plástica.

Os senhores precisam ver, há vinte anos atrás, como era a vida de trânsito em São Paulo: os automóveis se esbarravam muito menos, mas quando se esbarravam, fuzilavam olhares e depois voavam palavras de automóvel a automóvel. Às vezes desciam e começavam uma agressão. A turma do “deixa disso” chegava logo e apartava, é verdade. Mas às vezes… [Trecho ilegível]

eu estava com alguns do Grupo, não me lembro exatamente quais ─ indo sábado à noite ao Brama. E bateu em nós quase ─ o Ceron estava guiando, não é Ceron? ─ bateu quase em nós um táxi que vinha como um louco. Quando chegou na esquina da Rua Piauí com a Rua Itacolomi, veio em sentido contrário um Volkswagem com dois play-boys dentro, mas vinha na contra mão, correndo como um louco. Os play-boys loucos e o chauffeur louco bateram um contra o outro. E o automovelzinho, o “play-boyzinho” eu ia dizer ─ o Volkswagem, é uma espécie de “play-boyzinho” automobilístico [de metal?] ─ foi rolando, deu várias cambalhotas… e saiu de dentro um play-boy. Pouco depois saiu outro. O primeiro play-boy que saiu, quando se sentiu de pé compreendeu ─ a compreensão dele não vai muito além disso ─ compreendeu que ele estava íntegro. Quando saiu o outro de dentro, ele teve um gosto de ternura para com o outro, que me deixou pasmo. Ele foi e passou a mão assim no outro. Eu pensei que ele fosse… E depois ficaram analisando o automóvel deles, meio parados assim.

O chauffeur do táxi para o lado de lá, era um pouco mais geração velha, ainda estava um pouquinho zangado. Mas um pouquinho. Com os vidros todos espandongados, e cada um pensando no preço, no prejuízo, sem cólera.

Eu tenho a impressão que a coisa se resolveu sem cólera. Ora, é uma falta de virtude não se ter encolerizado lá. Deveria ter saído cólera. Por quê? Porque evidentemente, quando a pessoa tem fibra, é objeto de uma injustiça… [inaudível].

Não, uma solução de matéria plástica. Eu acho que terminou nem se dizendo desaforo, nem se dizendo boa noite. Cada um foi para seu lado pensando na apólice de seguro e… [Trecho ilegível] …isso é propriamente pouca vergonha. Então os senhores têm o contrário da combatividade.

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