Santo do Dia (Rua Pará) – 4/3/1966 – 6ª feira [SD 164] – p. 3 de 3

Santo do Dia (Rua Pará) — 4/3/1966 — 6ª feira [SD 164]

Nome anterior do arquivo: 660304--Santo_do_Dia_6.doc

Afinidade e heterogeneidade no convívio resultam de valores de ordem diversa: bagatelas, temperamento e idéias * O convívio perfeito seria entre pessoas de mesmas idéias e convicções: em sentido positivo, para o bem, em negativo, para o mal

* Afinidade e heterogeneidade no convívio resultam de valores de ordem diversa: bagatelas, temperamento e idéias

daquelas que foram apresentadas durante os dias de carnaval.

A consulta do Gregório é tríplice, e mais bem comportaria uma conferência do que uma resposta em Santo do Dia. Mas darei uma resposta muito resumida.

A consulta é a seguinte:

1) Como se pode transformar um princípio em forma de vida?

2) Qual a relação que há entre círculos de afinidades e Luz Primordial?

3) O que é, propriamente, a combatividade?

Então a pergunta do Gregório é a seguinte:

Uma pessoa sente afinidade com outra, e sente naturalmente também heterogeneidade com outras ainda. Essas afinidades e essas heterogeneidades no convívio, que relação têm com a Luz Primordial?

A resposta é a que segue.

A afinidade, propriamente dita, pode nascer de razões as mais diversas, e a importância que essa afinidade tem na vida da pessoa depende da hierarquia de valores que a pessoa tem dentro da cabeça.

Há pessoas, por exemplo, que têm afinidades que significam verdadeiras bagatelas. Por exemplo, ambas gostam de colecionar selos, ou então ambas têm a mesma opinião a respeito de um clube de futebol. Ou, coisa menor ainda, ambas gostam todo dia de se encontrar para beber um chope juntas.

São afinidades em pontos minúsculos, mas que determinam todo um tipo de relações, toda uma série de relações. São afinidades, portanto, de pessoas frívolas, em cuja mentalidade a coisa pequena pesa muito, e a gente vai ver depois, a coisa grande não pesa quase nada.

Temos afinidades também que resultam de condições puramente temperamentais, ou melhor, de questões temperamentais e não de questões ideológicas. Pessoas de temperamentos assim: nasceram, por exemplo, da mesma família, são parentes, e por causa disso têm uma certa facilidade de convívio, ou são de uma mesma cidade, e por isso têm amigos comuns, e têm também um jeito, um temperamento, um modo de ser inerente à cidade. Essas afinidades produzem também um convívio, que é um convívio puramente temperamental, mas não é ideológico.

Depois, podemos ter pessoas que podem ter a mesma doutrina; entretanto não têm uma afinidade entre si. Elas pensam do mesmo modo, mas lamentavelmente quando se encontram, quando estão juntas, não se sentem bem umas com as outras.

Então, propriamente, o que é afinidade?

As disposições temperamentais são algo, em geral, inatas, mas a correspondência à Luz Primordial e ao defeito capital pode modelar ou acentuar numa direção ou noutra. É normal que as pessoas de temperamento parecido gostem de conviver entre si. É normal, mais ainda, que as pessoas de idéias parecidas gostem de conviver entre si, porque a semelhança de idéias, na ordem profunda, cria afinidades grandes, e os espíritos elevados que se importam com as coisas profundas, para esses espíritos a afinidade ideológica é uma condição fundamental de verdadeiro convívio.

* O convívio perfeito seria entre pessoas de mesmas idéias e convicções: em sentido positivo, para o bem, em negativo, para o mal

Então veríamos que o convívio perfeito deveria ser o convívio entre as pessoas que têm as mesmas idéias, as mesmas convicções. Naturalmente as mesmas convicções religiosas em toda a sua amplitude. E dentro das pessoas que têm as mesmas convicções religiosas, é legítimo, é explicável, que as pessoas de temperamentos afins se procurem.

Naturalmente, então, aqui temos um papel regencial da Luz Primordial sobre as afinidades, porque elas dizem respeito às idéias, ela diz respeito aos temperamentos. Como é sabido, o temperamento tem muita relação com a Luz Primordial.

O feitio de um temperamento determina os traços secundários — não os traços capitais — da Luz Primordial. Portanto, vemos que havendo correspondência à Graça, a Luz Primordial é o elemento determinante dessa dupla afinidade: a afinidade no ponto principal; a idéia e a afinidade no ponto secundário, quando as pessoas têm as suas disposições temperamentais retas e virtuosas, e essas virtudes são homogêneas, são afins umas com as outras.

Tudo isso que eu disse no sentido positivo, dá-se no sentido negativo. Quando as pessoas são profundamente más, elas têm uma afinidade no mal. Entre as pessoas que estão com elas afins no mal, as pessoas que têm defeitos semelhantes se sentem cúmplices, e muitas delas gostam de conviver. E por isso então o pecado capital gera afinidades para o mal, como a Luz Primordial gera afinidades para o bem.

Há uma série de gente cujo pecado capital é a frivolidade, ou pessoas que à força de sacrificarem um outro pecado capital acabam se tornando profundamente frívolas. Nessas, então, as afinidades se dão por razões frívolas, e essas afinidades acabam nada tendo com o pecado capital nem com a Luz Primordial, mas com uma profunda deformação no homem, porque — como vemos — a Luz Primordial e as afinidades temperamentais que imbricam a Luz Primordial fazem parte dela. A Luz Primordial das afinidades temperamentais determina as afinidades.

*_*_*_*_*