Santo
do Dia – 23/2/1966 – 4ª feira [SD 232] .
Santo do Dia — 23/2/1966 — 4ª feira [SD 232]
Nome
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Santo Agostinho de Cantuária e Santo Edelberto, rei inglês * Ecumenismo e condescendências primeiras na manifestação de simpatia boa para o bem quando o objetivo é bom * A vocação de São Matias de reparar a traição de Judas, faz supor virtudes como fidelidade, desapego, honestidade e lealdade
* Santo Agostinho de Cantuária e Santo Edelberto, rei inglês
… Santo Edilberto, primeiro rei cristão dos ingleses. Festa também de São Matias, Apóstolo.
Sobre Santo Edilberto, Rohrbacher diz… Aliás, o nome dele acho que é Edelberto, e não Edilberto. Não tenho certeza, mas… Edel é nobre, e Berto é o nome. O nobre Berto. Edelberto, deve ser.
Em 596, o Papa São Gregório Magno enviou, sob a chefia de Santo Agostinho, um grupo de missionários à Inglaterra, então pagã.
Aportando à ilha, os apóstolos fizeram saber ao rei Edelberto de sua chegada e que lhes traziam uma mensagem de vida eterna. O soberano, que por intermédio de sua esposa já ouvira falar da religião católica, prometeu recebê-los numa entrevista pública.
Os monges chegaram em procissão, trazendo como estandarte uma cruz de prata e a imagem do Salvador pintado num quadro, entoando litanias a Deus em prol da salvação deles e do povo pelo qual lá haviam aportado. Mandou o soberano que se sentassem e eles começaram a lhe anunciar o Evangelho.
Respondeu Edelberto: “As vossas palavras e promessas são belíssimas. Mas por serem novas e incertas, não me é dado aquiescer e deixar o que tenho observado há tão longo tempo com a nação dos ingleses. Todavia, como viestes de longe e como se me afigura perceber que desejais participar-me aquilo que julgais ser mais verdadeiro e melhor, em vez de vos opor obstáculo, vos recebemos bem e vos damos o que é necessário à vossa subsistência. Não vos impediremos de atrair para vossa religião todos quantos puderdes persuadir”.
Cedeu-lhes, então, um abrigo na ilha que receberia, no futuro, o nome de Cantuária. Algum tempo depois, impressionado com o exemplo dos monges e com sua doutrina, o rei converteu-se e foi batizado. E dos vinte anos em que ainda viveu, dedicou-os à propagação da fé entre seus súditos, apoiado e exortado pelo pontífice Gregório Magno.
Protegeu os cristãos, levantou templos, fez leis admiradas e imitadas durante séculos, aplicou-se também à conversão dos príncipes vizinhos e conduziu dois deles ao cristianismo.
Faleceu Santo Edelberto em 606. Seu exemplo frutificou, pois nunca nação alguma deu à Igreja tantos reis santos quanto a Inglaterra.
* Ecumenismo e condescendências primeiras na manifestação de simpatia boa para o bem quando o objetivo é bom
Aqui é mais uma grande figura… duas grandes figuras de fundadores da Idade Média.
Nós vemos o contrato de um grande missionário, que é Santo Agostinho de Cantuária, com um grande rei fundador que é Santo Edelberto.
Eu digo que ele é fundador porque a Inglaterra anterior à conversão não passava senão de um amontoado de bárbaros pagãos. Não havia uma civilização inglesa e não havia uma Inglaterra propriamente dita. O que havia apenas eram os germes da futura Inglaterra que, em contato com Santo Agostinho, floresceram e deram na Inglaterra posterior.
A solenidade que ele descreve aqui é verdadeiramente uma maravilha. A gente pode imaginar aquele rei e aqueles guerreiros semibárbaros ainda colocados numa floresta, por exemplo, e numa clareira; vêem de longe, cantando, Santo Agostinho com os seus seguidores, os monges, e vêm cantando, entram numa clareira onde todos se sentam e começa então a conversa.
Então a gente vê o coração de Santo Edelberto tocado por Santo Agostinho numa liberdade de movimentos e de palavras, dizendo: “Eu também não vou na onda tão depressa. Eu quero estudar isso melhor”.
Mas já se vê uma simpatia, porque ele promete abrigo bom, agradece virem de tão longe, dá liberdade para levar para a religião dele quantos queiram. Quer dizer, ele toma, em relação a Santo Agostinho uma posição que hoje nós chamaríamos ecumênica e que revela um primeiro movimento de sua alma, já no início, em relação àquela verdade cujo precônio ele estava ouvindo naquele momento.
O perigo de todos os ecumenismos é esse: começa por uma simpatia e acaba numa adesão.
Ele facilitou com Santo Agostinho, Santo Agostinho implantou, instaurou ali a religião, e ele não só aderiu inteiramente depois do devido exame da matéria, porque se vê que ele era um homem consciencioso que examinaria bem as coisas, mas ele depois até ainda levou para a religião outros reis, dois outros reis vizinhos O que prova bem como realmente era apenas o primeiro passo aquela liberdade que ele deu.
E isto o que quer dizer?
Alguém dirá: “Mas, Dr. Plinio, isto aqui é a canonização do ecumenismo! Porque se ele naquela ocasião fez um papel ecumênico e o senhor elogia, o senhor tem que elogiar um católico que faça o mesmo papel com os outros, com os não católicos”.
Eu digo: precisamente, não. Porque quem toma contato com a religião católica, movido pela graça, tem logo a possibilidade de vislumbrar — eu não quero dizer de ter a certeza absoluta, mas de vislumbrar — que se trata da religião verdadeira. Então, todo movimento naquela direção é bom. Pelo contrário, quem trata com uma religião falsa, sobretudo se é um católico, tem todos os elementos para saber se se trata de uma religião falsa, e todo movimento de simpatia é ruim. E estas condescendências primeiras são sempre manifestações de simpatia, simpatia boa quando é para o bem, simpatia má quando é para o mal. E há um bem objetivo e um mal objetivo, uma verdade objetiva e um erro objetivo, porque é claro qual é a religião verdadeira e é claro qual é a religião falsa. E daí vem exatamente o lado verdadeiramente errado do ecumenismo.
* A vocação de São Matias de reparar a traição de Judas, faz supor virtudes como fidelidade, desapego, honestidade e lealdade
Me parece que estas considerações são as mais importantes que há para fazer a respeito desta festa. Nós devemos ainda dizer uma palavra a respeito de São Matias, Apóstolo.
Ele foi, como os senhores sabem, sorteado, escolhido por sorte para ver quem é que seria o substituto de Judas Iscariotes no Colégio Apostólico.
Então, sobre ele comenta D. Guéranger:
Pouco se sabe sobre São Matias. Somente que foi escolhido, após a Ascensão do Senhor, para substituir o traidor Judas Iscariotes.
De acordo com a antiga tradição grega, pregou o evangelho na Capadócia e nas costas do mar Cáspio e foi martirizado na atual Etiópia.
Alguns traços de sua doutrina foram conservados por São Clemente de Alexandria, entre eles uma sentença que parece foi característica desse apóstolo em sua pregação.
A sentença é: “É preciso combater a carne e servir-se dela sem deleitá-la com culpáveis satisfações. Quanto à alma, devemos desenvolvê-la pela fé e pela inteligência”.
Os senhores podem imaginar o que é ou o que pode ter sido a vida de um São Matias, quem era um São Matias.
O Evangelho está assim com uma série de personalidades das quais ele diz muito pouco, mas pela natureza da missão, se reconstrói como era a personalidade. E então se adivinha algo que é quase mais saboroso na sua adivinhação do que nos traços biográficos propriamente ditos.
Isso se pode dizer, por exemplo, de São José. De São José nós só sabemos a missão e o correto cumprimento da missão. Mas algo de diretamente dito pela revelação a respeito da personalidade dele, há apenas a afirmação de que ele era um varão justo. Não há mais nada. Mas há mil coisas que nós podemos adivinhar dele pelo simples fato de ele ter sido esposo de Nossa Senhora, esposo condigno escolhido pela Providência, com a paridade, em relação à esposa, que o perfeito casamento exige. Nós compreendemos então dele coisas indizíveis, embora a biografia não o diga.
Agora os senhores imaginem quem é que foi São Matias.
Houve um rombo no Colégio Apostólico e o mais doloroso da história de todos os tempos. E foi que um Apóstolo traiu e traiu por venda. O lugar ficava vazio e era preciso alguém que por suas virtudes reparasse, junto à justiça divina, o mal que Judas fez, que fosse excelente na linha em que Judas foi mau e que fosse um anti-Judas. E que tivesse, portanto, de admirável, tudo quanto Judas teve de abominável, de execrável. Então nos aparece através disso o discípulo da fidelidade, o discípulo do desapego, o apóstolo do desapego, o apóstolo da honestidade, o apóstolo da lealdade. Tudo isso nos aparece enquanto Judas era o abominável, o asqueroso no sentido oposto. Então, nesse anti-Judas nós temos algo da visão desse Apóstolo.
Essa sentença que ele deu e que é uma sentença bonita, que é atribuível a ele, não rompe inteiramente o silêncio enorme que pesa sobre ele. Só no Juízo Final, provavelmente, é que nós saberemos alguma coisa da vida dele. Então nós conheceremos como é que esse homem bem amado de Deus e de Nossa Senhora realizou a tremenda missão de ser aquele que pela luz de sua virtude apagaria a mancha de Judas na história da Igreja.
É o que haveria de dizer sobre ele.
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